A crise ambiental entre a catástrofe e as lutas

Melancolia, filme de Lars von Trier, 2011

Nos últimos tempos, uma corrente mais radical dos ecologistas tem anunciado nada menos que o fim do mundo. Segundo seus defensores, a vida humana como a conhecemos tem data de validade. Virá o pior dos mundos. E se trata de uma verdade científica, um consenso de especialistas absolutamente inegável. Negá-lo tanto pode ser cinismo, como negar o extermínio dos judeus, quanto pode ser uma espécie de recalque mental. Qualquer relativização desse discurso, você é classificado como “negacionista”. Mas existe uma terceira possibilidade entre ser catastrofista ou “negacionista”. Que é pôr em questão os próprios termos em que o problema está colocado. Menos negar as soluções propostas por essa ecologia da catástrofe, do que rejeitar a formulação do problema como um todo, mudar-lhe as condições de contorno, as linhas argumentativas, os pontos de vista.

Porque eu não poria fé nele, nem negaria o consenso científico sobre o fim do mundo, do mesmo modo que não sou teísta nem ateu. Primeiro, esclareceria precisamente a colocação do problema por quem invoca esse consenso. O que estão realmente dizendo? Em geral, eles identificam vários dados e sinais da natureza, interpretando-os que o desastre do mundo como o conhecemos está próximo, que o futuro para a humanudade é sombrio e ninguém escapará dos efeitos catastróficos, e conclama a todos que acreditem nessa narrativa escatológica, que por meio dela se convertam numa pauta comum contra um verdadeiro e maior inimigo, o aquecimento global e a irreversível mudança climática decorrente.

E isto politicamente significa o que? Que devemos nos mobilizar, os cientistas e todos aqueles cidadãos de bem da humanidade, acima de divisionismos, “a sociedade civil organizada” contra o estado, para que o estado mude a “postura” diante da economia e, munido do melhor e inegável conhecimento científico (aqueles que anunciam o fim do mundo), impor limites a todos, à produção, ao consumo, ao desejo insaciável intrínseco a nossa sociedade do desperdício. É uma luta pensada de cima abaixo, da totalização de uma pauta que subsume todas as demais, a “mudança climática”, e onde, já ouvi muito, pobres e ricos, primeiro e terceiro mundo, brancos e negros, todos serão atingidos da mesma forma.

O meu ponto está em que essa é mais uma luta universalista no sentido ruim, no sentido da conscientização,  da unificação mediada por saberes e poderes manejados por uma pequena minoria, e ainda por cima com cunho escatológico, num pessimismo triste. Cadê o perspectivismo? A perspectiva que parte das divisões reais do tecido social e não da Sociedade ou Humanidade, com maiúsculas? O ponto de vista do pobre, de classe, não é o mesmo do rico, da classe capitalista. Há pelo menos duas subjetividades em formação, quando se está falando do sistema produtivo.

E tem um ar bastante pessimista aí, se estamos falando de mobilizar as pessoas para as lutas socioambientais. Como isso funciona em termos de desejo por um mundo melhor? Porque tais discursos catastróficos significam uma aposta numa civilização que vê na própria extinção a única esperança de mudar realmente. A última esperança que antecede o pior niilismo — se os apelos não funcionarem, se o lobby do negacionismo vencer, — o suicídio ético da passividade consentida. No fundo, a escatologia e o progressismo incorrem numa futurologia contra o sentido da terra, da materialidade da vida de quem resiste, de quem caminha com os próprios pés sobre a terra dividida pelo capitalismo. A mística do progresso e a escatologia com ares científicos, em última análise, opõem duas ontologias negativas. Não há tanta distância na dimensão afetiva entre o desenvolvimentismo milenarista e o milenarismo moderno vestido de consenso científico. De um lado, uma teleologia onde o futuro redime um presente que falta. Do outro, a denúncia de toda a metafisica ocidental, da técnica e do esquecimento do Ser, do Moloch abissal que fabricamos industriosamente e que, agora, vai atirar os seus filhos à fogueira. Isto sempre significa aproximar a revolução de costas, afastando-se de nosso tempo e de nós mesmos, com promessas e destinos grandiloquentes.

Concordo 200% que verdade científica é necessariamente refutável, verificável, quebrantável como paradigma, epistemologicamente demarcável, enfim, em função da normatividade do que seja ciência for adotada. Penso por isso mesmo que se trata de uma escatologia com vestimenta científica. Sim, não dá pra negar fatos: o negro existe, os judeus foram gaseificados, o cigarro causa câncer. Mas eu não chego pra um fumante e faço de tudo para subjetivá-lo como doente terminal, anunciando seu fim. Quero dizer que o fim do mundo pode ser um clima existencial, um impasse neurótico, uma corrupção da subjetividade. Atmosfera de escoamento do tempo, enquanto o mundo desaba. Ruínas. Isso politicamente tende a ser reacionário. Se a televisão agora noticiasse que um asteróide vai se chocar contra a Terra em 20 anos e nada mais pode ser feito, o que mudaria na sua vida? Na política? Eu não mudaria nada. Não mudaria nada se acredito que tudo não está dobrado noutro plano, além da terra. Por que a esperança numa posteridade que guia o agora?

A verdadeira revolução está em viver, e em estar aberto, estar no fora, que é a capacidade de agenciar essa vontade de viver e sonhar mundos. É a única ética da imanência que não nos frustra o sentido da terra em nome de transcendências. Questão essencial, de essência-potência. Existe uma franja onde o vazio ganha terreno, pouco a pouco, até se transformar num desejo sacrificial de perecimento, e aí está boa parte do ideal ascético que move o pior ecologismo. Gostaria de conhecer mais, mas a mim parece que o Dark Mountain é uma mística dos amanhãs, uma promessa de ressurreição. A ressurreição que importa é a de agora, na alteridade radical: nascer outro Brasil macunaímico sem povo brasileiro.

Tem uma diferença entre a perspectiva da crise ecológica de enfrentamento global e local  — contra Belo Monte, a chuva de prata em Sta Cruz, o assoreamento de rios, ou então a remoção dos pobres das favelas ou a tentativa mal-sucedida de fagocitar os pontos de cultura pelo circuito fora do eixo — que também são crise ecológica — e uma crise ambiental colocada em termos totalizantes, em que a mudança climática subsume todas as demais, como vital para a continuidade da existência da humanidade. Isso tem implicação na organização política, é o ponto. Os catastrofistas, com esse discurso, não nos conclamam a resistir nos mil pontos de tensionamento da desigualdade socioambiental, onde quer que olhemos, luta dos pobres, dos índios, dos precários da cultura. Eles pedem pra nos unirmos diligentemente, a humanidade, todos os cidadãos conscientes de bem, pela pauta da mudança climática. Profetas, nos chantageiam a ela com o fim do mundo, devidamente comprovado por suas teses científicas. Nada mais hollywoodiano — e conservador.

Ouso dizer que mesmo que o planeta vá realmente arder em brasa e toda a civilização desmorone, como parece desejarem nos convencer, a pior forma de constituir outro mundo é anunciando a desgraça iminente. Os afetos passivos e os medos acabam servidos na bandeja para o tirano. O outro mundo em constituição já está diante de nossos olhos. As capacidades sociais se conjugam em intelecto geral de massa, em biopolítica, onde se ama sem reservas, com paixão o suficiente para oferecer ao amor o leito maravilhoso de uma revolução. É preciso ir além do Cabo das Tormentas e encontrar o avesso da história. O caso é que tudo isso tem sido embarreirado, limitado, a improdução por dentro da produção de vida, desejo e social. No fundo, talvez a saída do niilismo na ecologia desesperançada, onde nada redime nada, é assumir que, se Deus não está morto, ele está livre. Livre! O amor, a força constituinte, a ontologia positiva oblige.

Bruno Cava


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