Abismos, lunetas e encontros: por uma nova sensibilidade política

Por Silvio Pedrosa, professor da rede municipal, Uninômade

Olhar por cima do muro

Redação da fala ao Colóquio QUEREMOS, 14/11/2014.

“Olha, Mário, o pessoal tem uma preocupação comigo de querer descobrir minha definição ideológica, e estou cagando pra isso.”

Lula¹

Pensar a construção de novas organizações e instituições, a organização de instituições do comum consiste, para citar Michael Hardt e Antonio Negri, em “descobrir o passo que conduz” a multidão em rebelião “da declaração à constituição”¹. Significa, assim, avançar perspectivas organizacionais na esteira dos movimentos autônomos que proliferaram no Brasil na última década e cujo cartão de visitas foi apresentado à sociedade brasileira de junho de 2013 em diante. E envolve, para além, de reflexões sobre o “como” das organizações, suas formas e dinâmicas de funcionamento, a (co-)pesquisa sobre os desejos que essas instituições virão a agenciar e expressar.

Nesse sentido, antes da pergunta sobre o quê podemos é preciso fazer a pergunta por aquilo que efetivamente queremos. O nós oculto que o verbo flexionado deixa entrever é infinito, pois aberto e encaminha, de chofre, o problema da radicalidade democrática de qualquer organização cuja pretensão seja ser uma expressão da política dos muitos, representação de uma política do comum. O agenciamento coletivo de enunciação que queremos expressa não tem, portanto, nada de ideal ou puramente discursivo, não fala sobre um estado de coisas, mas é um ato de fala imediatamente constituinte que agencia a força material dos desejos; é já, também, por conseguinte, agenciamento maquínico dos corpos cuja potência é justamente a capacidade de fazer do tema a própria variação, colocando a tarefa da construção do continuum daquilo que queremos²: perspectivismo pragmático da multidão.

A dificuldade dos problemas que se colocam diante de nós é tal que remete à própria crise global das esquerdas, cuja “crítica inescrupulosa de tudo o quê existe” — para falar como o jovem Marx dos Anais franco-alemães –, após a queda do muro de Berlim, se resumiu à crítica negativa do mundo, sempre se apresentando contra o atual estado de coisas, mas sem, entretanto, ser capaz de formular projeções sobre o mundo. Essa crise, entretanto, não pode ser resolvida nos termos da construção de um novo programa histórico que deverá ser pedagogicamente transmitido aos oprimidos. A nova realidade do capitalismo global, pós-fordista, cognitivo, impõe o próprio repensamento das noções de utopia e projeto, surpreendendo as esquerdas em cada encruzilhada ao apresentar a emergência de movimentos de luta que passam ao largo dos circuitos organizacionais da esquerda clássica.

Mapear as variadas lutas que explodem na contestação ao caráter parasitário que o capital assume diante da produção do comum se transforma, então, na tarefa primeira de qualquer militante. As lutas pela tarifa zero, direito à cidade, pela gestão democrática dos recursos hídricos e contra a violência gentrificante que remove casas e expulsa pobres para áreas remotas das metrópoles são, portanto, alguns exemplos de lutas que, no Brasil recente, demonstram a potência dos movimentos autônomos.

A reinvenção do devir revolucionário, que nos acomodamos a codificar sob o nome de esquerda(s), passa então por solucionar o problema colocado pelo fato de que a velha esquerda, diante dos desafios do presente, responde (e o Brasil pós-junho o ilustra à saciedade) através do reforço identitário das próprias posições, expurgando como perigosas as lutas cuja direção ela não detém (já que são lutas que, a rigor, não possuem qualquer direção – entendida enquanto uma verticalidade organizacional rigorosa). O rechaço das lutas identitárias (opostas a uma suposta luta universalista hierarquicamente superior em termos de princípios), muito comum no seio da esquerda clássica, por exemplo, não é outra coisa senão a própria confissão involuntária de que a esquerda é ela mesma uma… identidade política. Surgidas historicamente no momento da Revolução Francesa, nada impede que a dicotomia esquerda-direita seja superada pelos novos desafios colocados pelo crepúsculo da modernidade. Outras realidades, outros nomes.

Para superar a esquerda-muro, que demarca cuidadosamente as fronteiras ideológicas (interditando os movimentos ao exigir os salvo-condutos de acesso a uma espécie de dignidade das lutas que aparentemente só o nome esquerda pode conceder), é preciso construir passagens entre as lutas de todos os tipos, sem prejuízo de considerar as lutas de velho tipo como potenciais aliados na luta contra o comando capitalista. Torna-se necessário, então, ser benjaminiano até o limite e recuperar em todas as tradições das esquerdas – fazendo-as passar pelo crivo materialista e apropriando-se delas tal como elas já relampejaram no momento de seus perigos – suas respectivas potências políticas.

Tal tarefa (basilar para os propósitos de construção de uma força organizada antagonista), arrisco dizer, deve começar pela recusa de uma epistemologia política cartesiana que seja calcada na dicotomia sujeito-objeto. Buscar inspiração para uma epistemologia política do encontro na ‘História do abismo e das lunetas’ de Pierrette Fleutiaux³ é, nesse sentido, o passo seguinte ao cultivo de uma sensibilidade política nova que parte da premissa de que, na base da política, existe uma estética entendida como um “sistema de formas a priori determinando o que dá a sentir”, “um recorte dos tempos e dos espaços, do visível e do invisível, da palavra e do ruído que define ao mesmo tempo o lugar e o que o está em jogo na política como forma de experiência”, fazendo assim perceber com Rancière que “a política ocupa-se do que se vê e do que se pode dizer sobre o que é visto, de quem tem competência para ver e qualidade para dizer, das propriedades do espaço e dos possíveis do tempo”4.

No momento em que um novo ciclo global de lutas sacode o mundo do sul ao norte, do oeste ao leste, as reprimendas das esquerdas contra a indignação que se nutre da murmuração cotidiana dos homens comuns contra a corrupção (reduzidos à qualidade de ‘coxinhas’, apelido desdenhoso para designar indivíduos que, no limite, são caracterizados como figuras do fascismo) – para usar um exemplo bastante sensível à realidade política brasileira – são sintomas do apodrecimento das esquerdas enquanto identidade política capaz de expressar as lutas da multidão. Diante da chamada ‘anti-política’, que é antes de tudo – para aqueles que renovarem suas sensibilidades políticas, vendo com olhos novos uma realidade nova – a expressão da profunda crise que separa representantes e representados, é preciso, ao contrário, envidar todos os esforços possíveis de organização, a fim de fazer com que essa indignação (bem como todas as outras) seja a fagulha capaz de dar partida a uma força organizativa capaz de estar à altura dos desafios do tempo histórico no qual vivemos, dando vazão, assim, ao continuum dos desejos de libertação que circulam no mundo enquanto outros mundos possíveis.

Notas

1. Mário Morel, Lula, o metalúrgico: anatomia de uma liderança, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981, p. 179.

2.Michael Hardt e Antonio Negri, Declaración, Madrid, Akal, 2012, p. 7.

3. Gilles Deleuze e Félix Guattari, Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, São Paulo, Editora 34, vol. II, pp. 11-40.

4. Pierrette Fleutiaux, ‘História do abismo e da luneta’ In: Tomaz Tadeu Silva (org.) Quatro novelas e um conto, Belo Horizonte, Autêntica, 2014, pp. 93-131. A novela narra a história de um mundo ficcional onde funcionários vigiam, através de lunetas simples e compostas (respectivamente facultando menor e maior complexidade de visão), um abismo habitado por trabalhadores. Os funcionários de lunetas simples identificam blocos cuja composição cria intensidades turbulentas e resultam em explosões de rebeldia dos trabalhadores do abismo, enquanto os funcionários mais graduados são capazes de identificar os movimentos mais ínfimos, antecipando as tendências dessas explosões. Ambos servem ao propósito de normalização, já que uma vez identificadas as turbulências, entra em ação a ‘luneta de raio’, debelando qualquer insurgência. Narrada do ponto de vista de um angustiado funcionário dotado de uma luneta composta que, após muito observar o abismo, desiste de sua função e caminha de encontro ao abismo, descobrindo ali seu duplo, a novela nos parece uma potente metáfora materialista da necessidade de produzir uma epistemologia política do encontro, preparado pelo cultivo de uma sensibilidade política renovada.

5. Jacques Rancière, A partilha do sensível: estética e política, São Paulo, Editora 34, pp. 16-17.


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