A guerra entre populismo e racismo no Sul da América e Europa

DEBATE: A GUERRA ENTRE POPULISMO E RACISMO
— no Sul da América e da Europa

Auditório Apolonio de Carvalho – Museu da República – Rio de Janeiro – quinta-feira 14/09/2017

~ 18:00: Guerra como dispositivo de modulação: imigração e biopoder
– Mediador/debatedor: Aryadne Bittencourt, UniNômade, advogada para refugiados na Cáritas – Rio de Janeiro, doutoranda UFRJ
– Ender Molina – Pesquisador (Venezuela)
– Giuseppe Orlandini – Universidade L’Orientale di Napoli – Itália

~ 19:30: O populismo como terreno de restauração das lutas globais
– Mediador/debatedor: Bruno Cava, UniNômade, blogueiro e autor de “A multidão foi ao deserto”
– Florence Poznanski – ativista da France Insoumise
– Niccoló Cuppini – Universidade de Lugano – Suíça

PROPOSTA

Não há capitalismo sem migração. Os processos de deslocamentos populacionais em grandes proporções estão na origem da formação da força de trabalho, origem que se reproduz continuamente no desenrolar do processo de globalização, na forma de uma acumulação “primitiva” que se prolonga no tempo e no espaço. A subsunção real é, antes de tudo, uma subsunção do movimento e do tempo das multidões. A potência do trabalho metropolitano é diretamente proporcional a sua mobilidade extensiva e intensiva, segundo sucessivos rearranjos que não respeitam mais fronteiras claras ou identidades nacionais fixas. Nesse panorama global de imigração generalizada, de um giro do valor que é imediatamente mudança na vida das pessoas e sociedades, o funcionamento do capitalismo passou a operar no modo da Modulação. É um conjunto de procedimentos guiado pela eficiência, por uma captura flexível e graduada da mobilidade, entre assujeitamento e controle. Não é possível explicar a lógica de redes, a precarização do trabalho, a aceleração dos ciclos e a financeirização transnacional, sem levar em conta a figura do migrante interno e externo, o próprio devir-imigrante do trabalho e do trabalhador. Mesmo quando permanecemos imóveis, devimos migrantes com o novo mundo nascido das mutações das subjetividades colocadas para produzir. Nesse sentido, em vez de apressar-nos com explicações geopolíticas de um sistema interestatal capitalista, com grandes teorias e seus grandes blocos, é preciso considerar como os afluxos massivos de imigrantes constituem um eixo cardã do capitalismo e chave de sua compreensão. Os migrantes cruzam mares e desertos, — sejam eles árabes e africanos pelo Mediterrâneo, chineses para a Austrália, africanos orientais à China, mesoamericanos e mexicanos no grande êxodo para entrar nos EUA, ou haitianos e venezuelanos espalhados pela América do Sul, — atravessam zonas de guerra e paisagens sociais inteiras, bem como trespassam limites internos da própria captura da vida. As migrações vêm primeiro, as migrações como método para a compreensão da guerra de novo tipo, uma que adota o biopoder por matriz estrutural e se apresenta com novas formas. Diferente da guerra clausewitziana, que durante o período histórico entre Vestfália e Ialta, no Norte, contrapunha estados-nações segundo um conflito simétrico e de contornos bem definidos; desde o fim da Guerra Fria, a guerra se instaurou no mundo inteiro segundo um outro regime, como explicitado por Foucault: “a política é a continuação da guerra por outros meios”. Tão comum no Sul global desde a empresa colonial e escravista (ver “Global: biopoder e lutas numa América Latina globalizada” [2005], de Negri e Cocco), trata-se da ‘nova velha’ guerra biopolítica, com seus inimigos em aberto e suas regulações imanentes dos fluxos populacionais, conforme um conflito assimétrico e difuso, de geometrias variáveis, tais como nos paradigmas da guerra às drogas (dos anos 70 em diante) ou da guerra ao terror global (a partir dos 90). A lógica de biopoder dessa multiforme guerra contemporânea nada mais é do que o outro lado da potência biopolítica que dinamiza a produção de subjetividade no planeta. Assim se pode compreender o ressurgimento de uma política abertamente anti-imigrante e nacionalista, que aparece seja contra os mexicanos e latinos nos EUA, os africanos e paquistaneses na Europa, os sírios e árabes mais ou menos em todo lugar, em suma, contra os pobres que devém o tempo todo. E é aí também que se pode evitar a tentação populista, que implica articular um conflito de nós contra eles, do povo organizado contra seus parasitas, que termina por opor uma classe trabalhadora “dura” em empregos formais, geralmente composta por cidadãos de direitos reconhecidos, e a classe precarizada e informal, que participaria de uma economia paralela, desorganizada e oportunista. Tal contraposição ao gosto populista muitas vezes aparece sob a forma de uma contraposição entre economia formal e informal, real e fictícia, entre classe trabalhadora e subproletariado, ou então entre força produtiva nacional e setor desagregado inorgânico, o que no fundo repercute de boa consciência a operação capitalista por excelência, de modulação. Esta relega a segundo plano, como epifenômeno de dinâmicas macropolíticas, o fato primeiro que é o devir-migrante de toda a força do trabalho, o devir-global dos territórios, a conversão de limites e fronteiras rígidos em limiares maleáveis de exploração e captura escalonada. Sem esse entendimento da gênese do que aparece na superfície como populismo, em sua capitalização de divisões internas e gradientes da força de trabalho, em sua lógica flexível de controle da migração para melhor explorá-la, resta às esquerdas apenas platitudes que se propõem a “disputar” um suposto momento populista com uma versão do Bem, uma versão de Esquerda (como se houvesse uma categoria normativa e programática a ser aplicada a um fato bruto). Isso quando não passa a coabitar o mesmo terreno de um nacionalismo às beiras de uma política neoescravagista de disciplinarização do trabalho, tudo em nome da indústria nacional e do “bom e velho” trabalhador do fordismo. E se tal deriva populista da gramática das lutas e do tema “contra-hegemônico” participe, em boa medida, da fase de restauração e contrafluxo do intervalo global de lutas impelido pelas Revoluções Árabes de 2010-11? Diante do poder constituinte, uma das respostas dos poderes constituídos foi refinar os dispositivos de guerra difusa, abatendo-se sucessivamente sobre cada país em que ocorreram fogos e acampadas. O dispositivo de guerra recrudesceu nos últimos anos, assim, na figura do próprio populismo, como por exemplo na Ucrânia, na Síria, na Turquia, no Egito, todos espaços em que o ciclo de lutas teve impactos significativos. Lançamos então a proposta de pensar para fora dos cipoais purgatoriais, traçados por teorias Geopolíticas ou francamente conspiratórias, para recolocar os problemas em termos da migração como afirmação e resistência, enquanto potência biopolítica primeira, cuja contingência entre a afirmação nas lutas e o Termidor dos golpes e guerras erige um ponto de vista privilegiado para se lidar — seja com fenômenos midiático-eleitorais como Trump, seja com o avanço dos nacionalismos na Europa (como no Brexit), seja o fechamento autoritário e militarizado de governos como o bolivariano de Maduro na Venezuela ou o de Erdogan na Turquia.

Os debatedores vão apresentar suas reflexões sobre a situação na Europa, em particular na França depois da eleição de Macron e na Itália, onde se multiplicam governos que não passam por eleições; e na América do Sul, a Venezuela com a crise e o fluxo de refugiados saindo do país e o Brasil, onde a crise econômica se sobrepõe àquela política e social.

Organização: rede Universidade Nômade e Paulo César Ribeiro.

Entrada franca.


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