HITCHCOCK + DELEUZE ~ minicurso de filosofia

 

ORGANIZAÇÃO
Coletivo Mil Brechas e Kinodeleuze
Cinemateca do MAM

Professor: Bruno Cava 

ONDE: Cinemateca do Museu da Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro
QUANDO: 12 e 19/9/2017, terças-feiras, 18-20h.
*entrada franca*

PREMISSA
“O mais profundo é a pele”, com essa frase Gilles Deleuze (1925-95) sintetiza o seu método geográfico das superfícies e deslizamentos, em contraposição aos gênios nacionais das filosofias alemã (profundezas, fundamentos, Grund) e francesa (edificações, vigas e lajes, estruturalismo). Ao ativar o pensamento implicado no cinema de Alfred Hitchcock (1899-1980), Deleuze não está aprofundando ou edificando os conceitos suscitados, nem tampouco fundando ou sistematizando-os. O método do Rizoma, como apresentado em seu texto-manifesto com Felix Guattari de 1977, na realidade envolve traçar linhas de desenvolvimento teórico e prático para os lados (como caranguejos com cérebros), desde dentro, irrompendo do interno (como capim), e para além do próprio autor, provocando ressonâncias e encontros verdadeiramente prodigiosos não só com autores da própria filosofia, como também das ciências e outras artes. Daí que, para Deleuze, Hitchcock ressoa com David Hume, o empirista radical inglês que, segundo Kant, acordou a metafísica de seu sono dogmático. Para Hume, a natureza humana é composta exclusivamente das percepções de que o corpo é capaz, uma psicologia dos afetos que, em contrapartida, condiciona a emergência da subjetividade a partir das próprias percepções. O empirismo de Hume, muito mais do que simples “filosofia calcada na experiência” ou ceticismo dirigido contra o principium causalitatii (na tradição pós-kantiana de enquadrá-lo na crítica do juízo indutivo, que vai de Kant a Meillassoux), na verdade traz consigo toda uma ontologia da variação dos afetos na base da autoformação da subjetividade. O livro “Empirismo e subjetividade”, estudo monográfico aberrante de Deleuze ao redor de Hume de 1953, ressoa com o capítulo 12 de “Imagem-movimento” (1983), primeiro livro-álbum do filósofo a partir do cinema, onde ele aborda a potência criativa de Alfred Hitchcock. Para Deleuze, Hitchcock acorda o cinema clássico de seu sono dogmático ao elevar o estatuto da imagem à imagem-mental. Esta implica o espectador na imagem, ao articular uma tríade de filme, personagens e públicos, resultando na maestria do suspense pelo que o cineasta inglês é famoso. O empirismo cinematográfico de Hitchcock se baseia também numa ontologia da variação em que as relações que variam entre os personagens e termos ganham autonomia em relação à psicologia da natureza humana ou qualquer enredo fundado na ação ou afecção. Ações e afecções se subordinam às relações de modo que o ‘whodunit’ se torna secundário ou mesmo dispensável. Para além de qualquer cinema que se presta a ser instrumentalizado para raciocínios exógenos ou mera propaganda narrativa ou simbólica (a politização do cinema…), Hitchcock decripta a matriz sensório-motora da imagem-movimento levando-a a seu acabamento e abrindo a história do cinema — como Hume o fez para a história da filosofia — à modernidade da imagem-tempo. Dando uma contribuição rizomática às leituras riquíssimas já existentes sobre a obra do cineasta (podemos citar Chabrol e Rohmer, Truffaut, Spoto, Bazin, Douchet, Narboni e, no Brasil, Luiz Carlos Oliveira Jr.), Deleuze faz uma ativação única e singular dos devires contidos em filmes como Spellbound, Psicose, Pavor nos batidores, Festim diabólico, Intriga internacional, A tortura do silêncio ou Pacto sinistro.

“Até mesmo biologicamente que é preciso compreender que o mais profundo é a pele. A pele dispõe de uma energia potencial vital propriamente superficial. E, da mesma forma como os acontecimentos não ocupam a superfície, mas a frequentam, a energia superficial não está localizada na superfície, mas ligada a sua formação e reformação.” – Gilles Deleuze em Lógica do sentido, p. 106.

INSCRIÇÕES por mail: kinofilosofia@gmail.com
Informar nome completo, idade e formação acadêmica (se houver).
Vagas limitadas por ordem de inscrição.

OBS.: Minicurso no âmbito do curso “Kinofilosofia: a crise da imagem-ação”, que vai de agosto a outubro às terças-feiras, 18:00.https://www.facebook.com/events/287197885082536/
Os alunos que já estão inscritos no curso NÃO precisam fazer uma reinscrição.


PROFESSOR

Bruno Cava – professor de cursos livres e blogueiro, lecionou na Casa de Rui Barbosa, Museu da República e em programa de extensão da UFRJ, pesquisa há cerca de 10 anos movimentos e lutas urbanas, é mestre em filosofia do direito pela UERJ, graduado em direito e engenharia (UERJ e ITA), autor de “A multidão foi ao deserto” (AnnaBlume, 2013), entre outros livros, é coeditor da Revista Lugar Comum, e publicou artigos em diversos sites, periódicos e revistas, como Chimère, Multitudes, OpenDemocracy The Guardian, Le Monde Diplomatique Brasil, Alfabeta2 (Itália), Al Jazeera (Emirados Árabes), South Atlantic Quarterly (EUA), Direito e Práxis. É autor do roteiro “Diante da lei” e tem cerca de 150 críticas publicadas de filmes em sites e revistas online como Cinefilia.net, Pipoca Moderna, Revista Amálgama, Quadrado dos loucos e Kinodeleuze.


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