O que aconteceu com a classe operária depois de Marx

Por Toni Negri, no Viento Sur | Trad. João Santos, para a UniNômade

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Em 1966, na sua primeira edição, Operai e Capitale conclui com a promessa de estudar “o que aconteceu no interior da classe operária depois de Marx” [1]. No “Postscriptum” a segunda edição de 1970 de Operários e Capital, Tronti analisa a classe operária do “New Deal” e descreve a transformação da composição técnica (fordismo) e da composição política (o sindicalismo e o reformismo desde o “New Deal” ao “Welfare State”, de facto). Tronti não reconhecia todavia, na classe operária, uma diferença estrutural de composição técnica e política entre o fordismo e os anos 70. Não existem para ele modificações nos processos de trabalho, taylorismo e keynesianismo permanecem hegemónicos e as relações políticas de classe continuam dominadas pelo Estado-Plano. Entre a primeira e a segunda edição de Operários e Capital ocorreu 1968: para Tronti não pareceu que tenha sido um grande sucesso. A classe operária em 1968 e no que se seguirá (em particular o chamado “Outono Quente” italiano) encontra-se integralmente dentro do fordismo e no “New Deal”. Afirmando esta questão, Tronti tinha a um tempo razão e estava errado. Na superfície a situação permanecia igual, o “processo de trabalho” não havia mudado.

No entanto, se olharmos com mais profundidade, de facto havia algo que estava a mudar e 1968 era um sintoma. Mudava a “relação do capital”, a forma do processo produtivo, o “modo de produção. Em 1968 foi quando começou essa transformação. E tinha razão Tronti quando, com muita circunspecção, suspeitava no “Postcriptum” de 1970, que o que estava a revelar era uma nova fase, a terminal da longa época do fordismo. Enquanto na fase fordista, trabalhadores e capital encontravam-se dentro do capital, agora estava a surgir uma nova condição: operários e capital encontravam-se agora dentro da classe operária. Tronti propunha estudar esta transição. Era uma intuição correcta. Se se deixasse de lado a ilusão, que alguns cultivavam, de que “dentro da classe operária” significava “dentro do Partido”, tornava-se necessário reconhecer que, na nova relação antagonista na continuação de 1968, o capital de alguma forma pagava a superação do fordismo e a difícil vitória alcançada sobre a classe operária fordista, com a obrigação de estabilizar o eixo do novo comando “dentro da classe operária” e reestruturar o seu próprio projecto de acumulação ali mesmo – sofrendo com isto uma radical mutação de estrutura. “Dentro da classe operária”, é dizer: chegando a reconhecer – o próprio capital – que “o princípio é a luta operária” e que “ao nível do capital socialmente desenvolvido, o desenvolvimento capitalista está subordinado à luta operária, vem depois dela e a ela deve fazer-se corresponder o mecanismo político da mesma produção” [2] – é dizer: o capital compreendeu que a sua própria composição técnica (o conceito é aquele marxista de “composição orgânica” do capital”) devia ser modificada para poder funcionar (id est: produzir e dirigir) sobre uma nova composição política da classe operária. E isto produzia-se dentro de uma bela agitação: a Trilateral, por exemplo, chamava-lhe 1968, mas outros não denominavam o processo assim. O certo era que uma mutação radical era imposta ao capital. Resguardava-se o espaço produtivo (mudava o lugar de produção) e a dimensão da temporalidade (transformava-se radicalmente a “jornada laboral”).

Tratava-se de uma “mutação de paradigma” do modelo de exploração: tinha-se produzido pela vitória operária dentro/contra o fordismo. Que o paradigma que tal vitória introduziu fosse uma novidade, demonstrava-o o feito que o antagonismo na “relação do capital” apresentava – melhor dito: na realidade reabria-se – numa nova forma, de experimentar uma nova forma de luta pela organização, quer seja pela parte capitalista, quer seja pela parte operária.

O que desejamos saber agora é se Operários e Capital nos oferece instrumentos pra descrever este novo paradigma estrutural. Parece-nos que sim, que o ensaio “Marx, Força de trabalho, classe operária” é, desde este ponto e vista, fundamental. A partir daí, é nos permitido construir uma análise do desenvolvimento capitalista depois de 1968, fortemente dinâmico devido à sua insistência sobre os processos de subjectivação das e dos trabalhadores.

Sabemos que o capital é uma relação, uma correlação, um antagonismo de força. Tronti insistiu bastante sobre a distinção entre trabalho e força de trabalho: “No conceito de ‘força de trabalho’ está a figura do operário; na do ‘trabalho’ não” [3]. E este conceito político de força de trabalho como não capital, encontra-se em germe e em desenvolvimento em todo o pensamento juvenil de Marx, que já nos Manuscritos… de 1844 conclui esta aproximação, propondo soluções imediatamente subversivas. Num período – década de 60 – em que se tinha tornado moda, tanto na esquerda como na direita, realçar o utopismo juvenil marxiano face ao pensamento d’O Capital, Tronti pressiona ao contrário por uma unificação estrita. Existe aqui, nesta continuidade de pensamento marxiano de juventude e maturidade, a imbricação entre os escritos filosóficos e históricos, e por sua vez entre todos eles e O Capital, um conceito político da força de trabalho que funciona como alavanca para resolver toda a solução teórica.

Em segundo lugar, esta tendência da investigação torna-se todavia mais evidente na análise que encontramos nos Grundrisse… assumido como texto genético d’O Capital. Que o “duplo carácter” da força de trabalho, aquele de ser ao mesmo tempo mercadoria e sujeito, surge com extrema força. “A única antítese ao trabalho objectivado é o trabalho não objectivo, ou seja, que a única antítese ao trabalho objectivado é o trabalho subjectivo” – assinala Tronti citando os Grundrisse [4]… e esta subjectivação representa-se como a condição mesma da existência do capital. Nos Grudrisse… (“monólogo interior que Marx estabelece tanto com a sua própria época como consigo mesmo”) [5] o trabalhador como subjectividade se torna central: “na medida em que deve existir temporalmente como trabalho vivo, a força de trabalho pode existir tanto como sujeito vivo, como capacidade, como possibilidade: portanto, como trabalhador” [6]. O duplo carácter da mercadoria trabalho subjectiva-se, se tornando de um lado como “miséria absoluta”, é dizer “mercantilização” total da potência produtiva, e de outro lado “subjectividade”, subjectivação continua, possibilidade geral da riqueza enquanto sujeito. O duplo carácter da mercadoria força de trabalhado é empurrada a interiorizar-se ao máximo no capital. Tronti: “este é o caminho novo que o próprio Marx propõe”. Ponto de partida: o trabalho como não capital, ou seja: o trabalho como sujeito vivo do trabalhador contra a objectividade morta de todas as outras condições de produção; o trabalho como fermento vital do capital – outra determinação activa que se agrega à actividade do trabalho produtivo. Ponto de chegada: o capital que se torna em si mesmo força produtiva, relação essencial ao desenvolvimento do trabalho como força produtiva social, e portanto essencialmente ligada ao desenvolvimento da classe operária… No meio deste caminho, entre um e outro permanecem dois pontos: o trabalho como não-valor e, precisamente por isto, a fonte viva desse mesmo valor; miséria absoluta e, precisamente por isto, possibilidade geral da riqueza; de novo mais-trabalho e, precisamente por isto, mais-valia – a figura moderna do operário colectivo que agora trata de produzir capital próprio enquanto antagonista que o combate”. [7] “Trata-se então, sobre esta base, de partir do descobrimento das leis políticas do movimento da classe operária, que subordinam materialmente em si mesmas o desenvolvimento do capital: completar-se-á assim a tarefa teórica definitiva desde o ponto de vista operário” [8].

Em terceiro lugar dá-se aqui, segundo Tronti, a superação marxiana da lei do valor. Ou melhor dito a sua redefinição: “Marx refuta a ideia de trabalho como fonte da riqueza e assume o conceito de trabalho como medida do valor”. Valor-trabalho quer dizer agora em primeiro lugar “a força de trabalho, e neste sentido valor medido pelo trabalho. O trabalho é a medida do valor porque a classe operária é a condição do capital” [9]. Inútil acrescentar que com ele a lei do valor vem reconhecida por aquilo que é: “ela não pode ser extrapolada da relação capitalista de produção e da relação que a fundamenta como tal.” O valor, como pura medida de valor, tentando se tornar lei, transforma a sua acção em mistificação: a lei do valor, absolutizando-se, encerra a Trennung entre classe e capital, conduz de maneira perversa a relação do capital à sua identidade. Aqui – e não é uma subordinação insignificante – a ideologia socialista (não só estalinista) fica definitivamente desmascarada. E dali que “do funcionamento económico objectivo da lei do valor-trabalho, já não se pode (paradoxalmente ou escandalosamente) falar propriamente, portanto, na sociedade que declama ter realizado o socialismo”… “devemos ter coragem de convencermos que este absurdo é um feito histórico real: o poder político do capital pode assumir a forma de um estado operário” [10].

Até agora havíamos visto em que medida e com que profundidade a força de trabalho se encontra interiorizada no capital. Mas o conceito de capital é uma relação de força entre o trabalho morto, acumulado no capital, e o trabalho vivo, na força de trabalho, na subjectivação deste – tal relação é um campo aberto. O duplo carácter da força de trabalho que tínhamos visto actuar na submissão ao capital, pode reemergir contra a subordinação ao capital. É precisamente aqui onde começa uma sorte de “caminho em subida”, reconstrutivo, apoiando a instância comunista da luta de classes.

Como pode suceder esta reabertura revolucionária da relação do capital? A primeira condição consiste na socialização da força produtiva e esta passagem de socialização da força de trabalho produz-se completamente no interior do capital: portanto, ”a força produtiva desenvolvida pelo trabalhador como operário social é força produtiva do capital” [11]. Quando “um número considerável de operários, ou seja, operários socialmente combinados, ingressam num mesmo processo de produção, debaixo do comando do mesmo capitalista, devêm força produtiva do capital”, então é quando se torna possível a ruptura. Mas só se torna possível. Interessa aqui seguir “ a passagem histórica que vê, da parte operária, primeiro o vendedor da força de trabalho, e depois a força produtiva singular, e depois a força produtiva social” [12]. Mas o que é a força de trabalho constituída dentro do capital? O que significa estabelecer a sua possibilidade de chegar a existir contra o capital? Significa requalificar sem interrupção a dinâmica específica antagonista na “relação” do capital e seus diversos equilíbrios – pode-se dizê-lo em términos de um autor que me é muito querido, a “guerra civil” que recorre a relação de poder. Esta possibilidade dá-se obviamente com a condição de “não fixar o conceito de classe operária numa forma única e definitiva, sem desenvolvimento, nem história” [13]. No interior do movimento marxista está a nascer com muita dificuldade uma “história no interior do capital”, e Tronti acrescenta: “mas ainda se encontra longe de ser assumida como um programa de trabalho, assim como um principio no método de investigação, a ideia de uma história interna da classe operária que reconstruia os momentos da sua formação, as modificação da sua composição, o crescimento da sua organização, segundo as várias e sucessivas determinações que a força de trabalho assume enquanto força produtiva do capital, segundo a diversa, recorrente e sempre nova experiência de luta que a massa operária escolhe enquanto única força antagónica da sociedade capitalista” [14].

É portanto dentro da historia interna da classe operária que o dentro/contra trontiano vai ser analisado [15]. Aqui encontramo-nos com um momento fundador do operaísmo. Para ele, estabelecem-se três condições sobre a base de toda a possibilidade de derrocada estratégica da relação produtiva. As primeiras condições são aquelas sobre as quais nos centramos até agora em grande medida: a subjectivação da força de trabalho quando esta amadureceu até ao ponto de poder permitir “contar com ela verdadeiramente duas vezes dentro do sistema do capital: uma vez como força que produz capital; outra vez como força que resiste a produzi-lo; uma vez dentro do capital; outra vez contra o capital. Quando as duas sequências se unificam subjectivamente na parte operária, abre-se a via para a dissolução do sistema capitalista, começa então o processo prático da revolução” [16]. E aqui a terceira condição.

É este o ponto crucial do método operaísta – que desta maneira se torna uma genealogia opositora na história interna à do capital. O exemplo marxiano da luta pela redução da jornada laboral da parte dos trabalhadores ingleses, luta vitoriosa e que introduziu uma nova forma de valorização (da mais-valia absoluta à relativa) é aqui fundamental. A transformação do capital é imposta no mesmo momento em que a composição da classe operária em luta se modifica. Analisando este período de luta Tronti sublinha que aqui se realizou “um autêntico e verdadeiro salto político”. E de “causa” e “efeito” político pode-se falar inclusive quando não existe um movimento organizado mas apenas mera resistência, quando se dão elementos destituintes e não todavia expressamente políticos e constituintes.

De facto, a relação entre força de trabalho e capital não apresenta de maneira simples – como nas origens do capitalismo – o intercâmbio do mercado de trabalho, sendo que se apresenta dentro da produção de capital, expondo com grande potência como desde a relação de classe é determinada a figura do capital. E é através deste reconhecimento que a iniciativa operária se torna política. O exemplo trontiano é agora antigo, trata-se da insurreição operária no 1848 francês e repete a narração marxiana, insistindo no feito que a passagem da acção para a destruição da sociedade burguesa se transforma em luta pela destruição da forma-Estado. É no interior deste luta na qual a transformação de “proletário” em “operário”, de vendedor da força de trabalho em produtor de mais-valia, se organiza e é aqui que uma classe em armas contra a sociedade inteira transforma a relação produtiva em resistência, luta e insurreição contra esta.

Observa Tronti: “não sucede apenas em O Capital de Marx mas também na própria história do desenvolvimento capitalista, a luta pela “jornada de trabalho” normal precede, impõe, provoca uma transformação na forma da mais-valia, uma revolução no modo de produção” [17]. Aqui todavia pode-se fazer notar como uma vitória na luta de classes, neste caso a imposição ao capital de um interesse específico da parte da classe operária, prefigura e sobredetermina um interesse (e uma potência) do capital: “é um feito não excepcional na história do desenvolvimento capitalista”. “É um modelo não tanto referido na luta, mas sim na conclusão da luta, repetir-se-á em diversas formas em vários níveis de desenvolvimento” [18]. E tudo continuará “ quando os operários ganharem uma batalha parcial depois de a haver ganho por conta do capital”. Às vezes sofre derrotas terríveis “ que curvam por um momento o movimento mas que o fazem destacar na sua fortaleza rapidamente” [19]. Dentro desta derrota amadurece todavia (e manifesta-se), a transformação do modo de produção e da modificação da forma de mais-valia. E assim também se modifica a composição da classe operária – como havíamos visto. Inclusivamente o nome “classe operária” pode ser um erro: não tanto porque a estrutura antagonista da classe operária se tenha dissolvido mas porque a forma na qual se produz e luta se transformou. Proletariado, classe operária, multidão: não representam figuras da oposição, representam caras variáveis mas homogéneas de uma composição de resistência e de luta em movimento.

Hoje nós assistimos a uma transformação radical do processo de trabalho e do modo de produção capitalista. Um novo terreno de luta, no “novo modo de produção”, é proposto a uma nova força de trabalho socializada, precarizada, global. O trabalho deveio cognitivo, afectivo, cooperativo. O novo modo de produção foi imposto pelas lutas operárias do século passado – que o produziu através da recusa do trabalhado assalariado e a destruição da centralidade da fábrica. E, em especial, através de dois processos que acompanharam o desenvolvimento do capital cognitivo: a apropriação, de parte dos trabalhadores, de uma autonomia na gestão do saber e por outro lado os processos de cooperação produtiva. Realmente aqui a luta de classes começa a crescer “dentro da classe operária” e a subjectivição da força de trabalho começa a transformar-se (para dizê-lo com palavras de Tronti) em potência do “operário” – deve-se dizer que a subjectivação se determina através da incorporação de quotas de “capital fixo” (saber e organização do trabalho), muitas vezes instrumento de comando do capital sobre a força de trabalho. É em resposta àquela luta que o capital construiu a sua organização baseada sobre a exploração da potência social do trabalho e sobre a extracção do “comum”. Nesta situação, impõe-se hoje uma nova estratégia dos movimentos em luta pelo comunismo e devem-se procurar novas tácticas de organização. No entanto, em relação ao método e à axiomática da investigação, nós mantemo-nos sobre o terreno sólido proposto por Tronti em Operários e Capital. Se existe uma diferença entre o operaísmo e o pós-operaísmo, se é que existe, consiste no saber de classe isto é, em reconhecimento da transformação histórica da relação de produção e do sujeito que, ali no seu interior, é explorado. Mas é algo que, ao mesmo tempo, constrange o capital a submeter-se a um novo impacto de resistência e luta, de ódio e de esperança.

Para concluir, um exemplo do método, trabalhando na presença de uma nova composição do trabalho – o trabalho cognitivo – e das terríveis condições de precarização e de desocupação que este supõe. O capital de boa vontade deixaria morrer esta nova geração de trabalhadores se não fosse porque isso acarreta o risco da deterioração desta preciosa capacidade produtiva e o bloqueio da nova forma de acumulação social através da “extração do comum”. Que acontecerá como consequência? A primeira hipótese, aquela de “deixá-los morrer”, experimentamos todos os dias nas fronteiras da Europa, dos EUA e no Pacífico Sul – ainda que, de maneira aleatória, na nossa vida quotidiana. Mas a “racionalidade” capitalista – sempre funcional à acumulação – imporá outra escolha. O Capital vê-se obrigado a desenvolver formas de assalariamento social e a reformar as instituições do “Welfare State” em funções de controlo da dinâmica de resistência e do exercício de domínio. Medidas salariais (“renda básica cidadã”, por exemplo) e manobras sobre o “Welfare State” podem mesclar-se e confundir-se na gestão capitalista da transformação: o importante é que se estabeleça um equilíbrio, ao menor custo possível, na produtividade e na vida dos trabalhadores.

Mas as coisas complicam-se tanto no lado dos capitalistas como no lado dos trabalhadores. Aos primeiros, incumbe-lhes sobretudo a necessidade de reorganizar as estruturas internas para absorver e regular, e assim impor uma acumulação ordenada dos novos fluxos sociais do valor – ainda que a transformação do modo de produzir determine uma nova forma de mais-valia (“social” mais que “absoluta” ou “relativa) e impõe ao comando capitalista uma nova hierarquia – neste caso financeira. Mas para os trabalhadores muitas coisas mudaram: quer seja a “jornada laboral” que agora não tem medida temporal, quer seja o “lugar de trabalho” que se tornou em algo móvel e transferível, ou ainda a forma do salário que é agora socializada e vem estabelecida no ponto mais baixo de relação entre o salário mínimo e o subsídio do “Welfare State” – bem, tudo isto destrói definitivamente formas e tradições de luta, configurando desta maneira um novo terreno social de organização e de proposta anticapitalista. Perguntamo-nos: será uma vitória para a classe trabalhadora obter uma renda básica cidadã, articulada com as necessidades previstas no “Welfare State”? Ou na realidade está-se a configurar simplesmente uma nova organização de força de trabalho como “capital variável”? Uma e outra coisa, evidentemente. Mas sobre esta base pode dar-se (e isto é o que realmente interessa) um novo terreno de luta e portanto a possibilidade de organização para os trabalhadores cognitivos, os quais, pela mesma rica qualidade da sua composição, não podem limitar a sua própria iniciativa sobre o terreno da pura resistência. “ A figura schumpeteriana do empreendedor, com a sua iniciativa inovadora, gostaríamos de vê-la derrubada na iniciativa permanente da luta das grandes massas operárias” [20]: de acordo – mas agora temos uma nova composição, técnica e politica, muito mais continuamente produtiva e uma multidão muito mais extensa, em consequência de uma possibilidade maior de construir passagens constituintes de uma nova ordem social. Isto é o que, desde 2011, temos visto e estudado.

Há demasiado optimismo nesta fundação e neste relançamento do método operaísta? Como se a derrota dos anos 70 (de todos aqueles que rechaçaram o retorno “irénico” [21] aos braços do Partido Comunista Italiano) não tivesse sido assumida como a gravidade que tem? Não existe todavia aqui uma ilusão de que a multidão no trabalho, como um conjunto plural de singularidades, possa reagrupar-se milagrosamente? Para dizê-lo em términos filosóficos: não é esta uma pobre hipóstase ontológica, não tanto da recuperação do método operaísta, mas da redefinição de um sujeito em luta? Estas objecções, que são frequentemente apontadas aos operaístas, temo que não possam ser cumpridas. Em primeiro lugar porque a metodologia de Operários e Capital, que vai ao encontro da hipótese política de Tronti, era (e é) praticada de maneira independente a toda a redução à unidade e a uma transcendência do Partido, e portanto salvaguardada de toda a maquinação insurrecional vanguardista, tão características da escatologia socialista.

Tão certo é isto que na hipótese operaísta pode-se encontrar a experiência teórica, historiográfica e política que fez dos movimentos autónomos “desde baixo” a chave de toda a recente prática revolucionária, desde aqueles chamados “alterglobais” durante a mudança de século e aqueles que a partir de 2011 se tornaram endémicos. Em segundo lugar porque a implantação do diagnóstico da teoria (que alguns chamam) “pós-operaísta” (que é aquela que subjectiviza a singularidade multitudinária e considera a força de trabalho cognitiva implantada no comum) – e dessa implantação, portanto, é excluída toda a hipótese finalista e todo o telos unitário. A intencionalidade subjectiva não pode ser confundia com o determinismo teleológico. Se existe um “campo progressista” produto da luta, é aquele construído pela força dos movimentos. Não existe o destino mas sim um descontínuo que construímos e a nossa Liberdade tem sempre o signo dessa necessidade. O operaísmo de Operários e Capital ensinou-nos isso também.

 

Toni Negri, filósofo, é autor de várias obras do pensamento político no século 20 e 21, como Poder Constituinte, Império, Multidão e Commonwealth (as três últimas com Michael Hardt).

Tradutor:

João Santos é mestrando em história contemporânea na Universidade Nova de Lisboa.

 

NOTAS

[1] Tronti, Mario: Operai e capitale, Einaudi, Torino; 1966, p. 263; em português: Operários e Capital, Afrontamento, Porto, 1976.

[2] Tronti, Mario: Operai e capitale, Einaudi, Torino; 1966, p. 89.

[3] Tronti, Mario: Operai e capitale, Einaudi, Torino; 1966, p. 129.

[4] Tronti, Mario, op. cit., p. 166.

[5] Tronti, Mario, op. cit., p. 210.

[6] Tronti, Mario, op. cit., p. 211.

[7] Tronti, Mario, op. cit., p. 215.

[8] Tronti, Mario, op. cit., p. 219.

[9] Tronti, Mario, op. cit., p. 224-225.

[10] Tronti, Mario, op. cit., p. 226.

[11] Tronti, Mario, op. cit., p. 147.

[12] Tronti, Mario, op. cit., p. 150.

[13] Tronti, Mario, op. cit., p. 149.

[14] Tronti, Mario, op. cit., p. 149.

[15] Tronti, Mario, op. cit., pp. 150-153.

[16] Tronti, Mario, op. cit., p. 180.

[17] Tronti, Mario, op. cit., p. 207.

[18] Tronti, Mario, op. cit., pp. 207-208.

[19] Tronti, Mario, op. cit., p. 208.

[20] Tronti, Mario, op. cit., p. 210.

[21] “Irenismo”: na Teologia cristã refere-se a tentativas de unificar os sistemas apologéticos utilizando a razão, a reflexão e a conciliação como instrumentos. (N. de T. versão espanhola)

Obs.: Traduzido do espanhol, original em italiano.


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