A Europa age de forma estúpida, entrevista com Toni Negri

Entrevista com Toni Negri no El País, em 10/5/15 | Trad. Tiago Leão Monteiro

PV Rio de Janeiro RJ EXCLUSIVO 10.11.2011 - Entrevista com o flósofo italiano Antonio Negri. Foto Carlos Ivan / Agência O Globo

Antonio Negri, catedrático de Teoria do Estado na Universidade de Pádua, está envolvido na luta revolucionária desde os anos sessenta do século passado, como pensador e ativista. Ele participou de diversas iniciativas, como Potere Operaio e Autonomia Operaia, que questionaram o papel dos trabalhadores na grande fábrica mecanizada. Em 1979, ele foi preso e, embora as diversas acusações de assassinato foram descartadas por falta de provas, ele foi condenado a 30 anos de prisão por ser considerado “moralmente responsável” de atos subversivos contra o estado naqueles anos. Em 1983, Negri foi eleito deputado pelo Partido Radical de Marco Pannella, e pôde deixar a prisão. Ele então fugiu para a França, onde permaneceu no exílio até 1997, trabalhando na Universidade de Vincennes à Saint-Denis (Paris 8) e no Collège International de Philosophie, com Gilles Deleuze, Michel Foucault, Jacques Derrida e Felix Guattari, com quem escreveu Verdades nômades. Voltou para a Itália, onde terminou a sua pena em 2003 (após uma redução a 13 anos). Negri (Pádua, 1933) é autor de vários livros – alguns dedicados a Hegel, Spinoza e Marx – e a Traficantes de sueños republicou o livro Poder constituinte: ensaio sobre as alternativas de modernidade, escrito nos anos 80, publicado pela primeira vez em 1992. Ele esteve na Espanha recentemente, onde participou de diferentes atos do Podemos e em um debate com o vice-presidente da Bolívia Álvaro Garcia Linera.

Qual é o seu diagnóstico do welfare state, a grande realização da Europa do pós-guerra?

A recente crise econômica teve um papel importante para revelar que a socialdemocracia estava há muito tempo em impedimento. Mas a débâcle da socialdemocracia é anterior: a crise não produz, simplesmente expõe. Ela estava tão perdida que não tinha mais solução senão unir-se à direita. Temos de olhar para o ambiente produtivo. Este é o lugar onde o estado de bem-estar abdica de suas funções facilitando a extração da mais-valia. Há muito tempo se deixou para trás o fordismo [sistema de produção em linhas de montagem] e agora o trabalhador foi excluído dos processos de produção e reprodução.

Se o velho modelo já não serve, e a classe trabalhadora perdeu o peso que já teve, qual então seria o sujeito político que poderia forçar algum tipo de mudança?

Há muitas pessoas que estão passando por situações muito dolorosas. Não apenas em termos temporais, me refiro aos que têm empregos precários e não sabem que futuro os aguarda, ou aos que nem sequer estão seguros com uma pensão. É que também mudou a dimensão espacial do trabalho: para ir adiante é cada vez mais necessário mudar de lugar, deslocar-se, tornar-se nômade. Mudou a relação com o tempo de vida, com o lazer. A incerteza já é permanente. Existe algo de positivo em tudo isso? Talvez um pouco mais de liberdade. Agora vejam, todas estas pessoas que vivem nessas condições de precariedade e nomadismo, elas podem se tornar um sujeito político? Tudo depende da capacidade que têm esses novos trabalhadores do conhecimento, que sabem utilizar as novas tecnologias, para criar redes de solidariedade e comunicação que lhes permitam se mobilizar.

Como você avalia, nesse sentido, experiências como as do movimento do 15-M, que completa 4 anos na Espanha?

Foi uma explosão de espontaneidade, um protesto popular multitudinário. E provocou, implícita ou explicitamente, uma crise política radical. A ruptura com a representatividade é profundíssima, e o bipartidarismo, como fórmula de governo, não serve mais. Vieram à luz enormes problemas de corrupção. E essa corrupção não tem nada a ver com a moralidade, nem tampouco se trata de uma doença que pode ser curada. A corrupção é uma parte estrutural do sistema. E pode resultar explosiva.

Você acha que uma força como o Podemos canalizar esse descontentamento?

É preciso considerar dois aspectos. O Podemos é algo criado a partir de cima, do lado de fora, e ao mesmo tempo surge do próprio movimento. Também ocorre com a Syriza, resultado da união de diferentes iniciativas que colocou em marcha a própria sociedade grega, a fim de combater a crise. O desafio que essas organizações enfrentam é a sua própria viabilidade. Nasceram de uma estrutura que não tinha nada partidário e se veem forçadas a se constituir como um partido. O problema mais grave que elas vão se deparar é ser alheio ao sistema e, por isso, podem ser facilmente neutralizadas, ou aniquiladas, pelo próprio sistema.

Syriza já está há algum tempo no governo e os dados econômicos da Grécia são piores. Não é um aviso de que as suas propostas não funcionam?

A Syriza requereu tempo. A situação grega é desesperadora, e não pode ser resolvida exclusivamente com o pagamento da dívida. Porque é uma dívida que vai se multiplicando a cada dia mais e mais. E é, além disso, uma dívida de que não são responsáveis as pessoas, que mais estão sofrendo com os cortes. A responsabilidade de sua enorme magnitude recai exclusivamente em uma elite financeira do capitalismo tardio. O que está tentando fazer o governo da Syriza é trabalhar com o orçamento. Procurar a maneira de ir ajustando os diferentes itens para encontrar alguma possibilidade de crescimento. E, para isso, terão que reforçar a nova sociedade do conhecimento, vinculada às novas gerações, e devolver às pessoas a possibilidade de criar as suas próprias empresas frente a um poder financeiro que a tudo devora e que de tudo se aproveita.

Qual é o lugar da Europa na atual correlação de forças no mundo?

O mercado internacional está atualmente bipolar. De um lado estão os Estados Unidos, em crise profunda, e de outro, a China. E em torno deles gira um montão de potências emergentes, em que a Rússia desempenha um papel importante, por seu peso militar e a força das suas novas oligarquias. Nesse contexto, a Europa se depara com a necessidade urgente de reformar o sistema. E, ao não se atrever nem saber como fazê-lo, atua de forma estúpida. Não se pode esquecer que a desintegração da Europa conduz ao fascismo.

É neste contexto em que o senhor propõe uma reforma constitucional …

Eu não posso falar, como Proudhon ou Saint-Simon, do detalhamento do que seriam articulações jurídicas para uma reforma com essas características, mas eu posso me referir aos princípios principais. Essa reforma deve ser feita para recuperar o espaço daquilo que chamo de “o comum”. A Constituição da Itália reivindica em seu primeiro artigo o trabalho. Mas o trabalho hoje tornou-se outra coisa, já não tem nada a ver com o que dignifica o ser humano. O desafio é encarar uma melhor organização do “comum” a partir do que está mais perto, a prefeitura ou a metrópole. Articular as respostas em função dos problemas sociais e reconhecer a pluralidade de atores. E para assegurar a liberdade, favorecer uma dialética de contrapoder que garanta que as coisas funcionem e se evitem abusos.

Que lugar teriam as velhas instituições representativas nessa reforma?

A divisão de poderes é fundamental, mas desde que essa divisão seja democrática e não privilégio de determinadas classes. Se verdadeiramente existisse essa divisão de poderes, o poder jurídico estaria hoje definindo pautas com as suas decisões, e trabalhando à margem de qualquer interferência externa. Nas sociedades hoje, no entanto, a divisão de poderes está estruturalmente corrompida. É o câncer da democracia representativa.

O que precisa acontecer para que se produzam estas mudanças?

A minha posição é a do que observa o que se passa, não a de quem opta por uma ou outra. É importante que o movimento continue, que se consolide, para criar suas próprias instituições. Eu não sou anarquista. E eu sei que sem instituições não há poder. É por isso que os movimentos sociais devem criar suas próprias instituições: de comunicação, de produção… É preciso cuidar do “comum”, encontrar a maneira de trabalharmos juntos, de convivermos juntos.


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