Eleições 2018: a urgência de uma nova proteção social (entrevista)

Entrevista de Giuseppe Cocco a Ricardo Machado, Patricia Fachin e João Vitor Santos do IHU-On-Line  (5 de agosto de 2018)

 

IHU ON-Line – O que significa a estratégia do PT de isolar Ciro Gomes do ponto de vista político e da esquerda?

Creio que esse ponto de vista da “esquerda” não existe mais e, portanto, isso não significa absolutamente nada de novo, a não ser a confirmação do mesmo: a esquerda é o PT e o PT é Lula e Lula é puro cinismo, ação em causa própria, corrupção e irresponsabilidade política com relação ao país e sobretudo aos mais pobres. O grande legado do PT é mesmo ter destruído a esquerda no Brasil.

O que o PT quer mesmo é um segundo turno com Bolsonaro e o Bolsonaro quer o PT. Isso ficou claro já nas eleições de 2014. O PT e Lula são, o digo faz muito tempo, um problema sem tamanho para o Brasil e a maior ameaça a qualquer prática reformista e à própria noção de esquerda. A corrupção constitutiva do PT não é apenas uma questão de dinheiro e moral, é mesmo uma corrupção política: o Lulo-petismo dissolveu qualquer tipo de pauta reformista, só discute “direito de roubar que nem os outros” e se Triplex é ou não é de alguém.

O Ciro recebe a moeda que procurava. Antes desse episódio do PSB, ele foi participar do tradicional “leilão” do chamado “centrão” e ficou vencido pela oferta que o Alckmin conseguiu fazer. Que setores de esquerda “agora” se indignem, também não significa absolutamente nada. Não apenas porque tudo isso vem desde a década de 1990 (lembrem da negociata com Garotinho no Rio de Janeiro contra o Vladimir Palmeiras), mas porque eles contribuíram – depois de 2013 e sobretudo apoiando o estelionato eleitoral de 2014 – à resiliência do Lulo-petismo que agora os coloca nos seus devidos lugares e papeis de puxadinhos auxiliários do PT.A esquerda que se diz não-petista-mas-apoia-o-PT e como um bando de Walking Dead que anda à procura de fantasmáticas e impossíveis unidades ou refundações. Quem apostou na falsa polarização, no PT, na defesa do indefensável, na luta pelo espolio do PT e do voto-populista que o Lula carrega não apenas errou, mas quis ser refém desse aparelho mistificador que é o Lulo-petismo. Não há espetáculo mais esquálido da classe média carioca – limpinha e pura – se mobilizando para  … ir da praça São Salvador até os arcos da Lapa escutar músicos que pararam de pensar, no coração do Rio de Janeiro falido pela coalizão mafiosa do PT e do PMDB, para gritar “Lula Livre”.

A ruptura com essa inércia é uma questão mesmo de sobrevida e vai acabar acontecendo. A questão que conta é como essa ruptura vai acontecer: pela quebra do país como na Venezuela? Pela vitória da extrema direita? Ou pela vitória de um candidato moderado capaz de proporcionar uma fase de transição democrática? Ninguém sabe.

Aqui é preciso ter clareza: a esquerda e até a socialdemocracia não têm mais nada a oferecer ao que tem de positivo nessa demanda por ruptura, ou seja a procura por uma nova proteção social, por um novo pacto social, isso que nós vimos em junho de 2013, nas multidões de 2015 e 2016 e depois na grave selvagem dos caminhoneiros. Essa demanda tem uma outra cara, terrível, que é a guerra de facções que disputam os mercados gigantescos da economia criminal, muito além do narcotráfico.

Sem essa proposta de uma nova proteção, a ruptura que vai acontecer será mesmo pelo voto protesto como se anuncia o voto Bolsonaro (e a popularidade do Lula), como foi com Trump, Brexit e Salvini: a proteção vai ser por cima dos mais vulneráveis (os refugiados, os mais pobres) e do desmonte da globalização por meio da multiplicação de guerras comerciais que apenas confirmam e amplificam a uma guerra de outro tipo que já está acontecendo.

Precisamos de uma nova proteção social que saiba responder ao fato que o trabalho e o emprego no capitalismo contemporâneo não coincidem mais (como nesse fenômeno que é o UBER com São Paulo e Rio que já são a segunda e a terceira cidades mais importantes para esse capitalismo de plataforma, um capitalismo sem capital). E isso sem contar com a onda anunciada de destruição massiva de empregos de todos os tipos, inclusive nos serviços qualificados, anunciada pela automação baseada na Inteligência Artificial. Só uma uma renda de cidadania é capaz de fazer da flexibilidade, das plataformas, da informalidade momentos de mobilização produtiva para a paz. A necessária reforma da previdência tem que ser a oportunidade para um novo pacto: a necessária estabilidade macroeconômica deve ser uma das pernas do pacto e não a única. Implementar – mesmo que de maneira progressiva – a renda de cidadania é a outra perna necessária para romper mesmo a armadilha da “renda média”, da violência generalizada das periferias e nas metrópoles como um todo: o que se gasta de segurança tem que ir para essa renda e reforma tributária tem que – eliminando todos os subsídios não essenciais – criar um fundo que redistribua parte da renda financeira e da renda da automação em Renda de Cidadania.

– De outro lado qual o significado da aliança entre o PSDB e o Centrão?

Um significado bastante simples: mostra que Alckmin, apesar de poder apresentar uma gestão do Estado de São Paulo mais digna do que o PT e PMDB fizeram alhures, não é nenhuma alternativa, mas a reprodução do mesmo que era a coalizão corrupta liderada por PT e PMDB. A campanha eleitoral do Alckmin é organizada em torno de um leilão: da reprodução do mecanismo básico da corrupção sistémica contra a qual se levantou a multidão em junho de 2013 de onde nasceu a Lava Jato.

O Alckmin e o PSDB fazem o mesmo que Lula e o PT: é “mais do mesmo”, uma tábua de salvação para o centrão corrupto. Mais uma vez, a única alternativa real, de ruptura para uma verdadeira transição democrática para fora da república nova está nas mãos de quem se recusa a essas alianças espúrias.

 

– Como avalia o comunicado da Capes que a previsão orçamentária de 2019 assegura recursos somente até agosto de 2019? Que relações são possíveis de se estabelecer deste anúncio com os cortes que vêm sendo feitos desde 2015? Quais os impactos deste anúncio levando em conta a PEC 95?

Respondo ao mesmo tempo porque é a mesma questão.

As Bolsas tem que aumentar e não diminuir, mas isso não pode acontecer até que uma dinâmica de “confiança” não aparecer no horizonte. Em primeiro lugar essa situação tremenda é herança do PT, assim como o governo Temer. A situação é muito grave. Não estamos diante de “cortes” desde 2015, mas da falta mesmo de “recursos” e, pois, das escolhas que essa falta de recursos e a perspectiva que ela se agrave impõem. Ou seja, a situação é muito pior do que aquela na qual estariam acontecendo alguns “cortes”.  O que acontece desde 2015 não são “cortes”, mas as consequências nefastas da tentativa neo-desenvolvimentista da Dilma: vejam o Rio, estamos tendo que pagar as dívidas dos estádios, vilas olímpicas, arco metropolitano, porto maravilha, teleféricos, BRTs,  dos biliões enterrados no Polo Petroquímico de Itaboraí, do assalto à Petrobras… sem esquecer as centenas de milhões gastos para as UPPs e que resultaram na guerra generalizada de facções etc. etc. Nada disso funciona, nada disso melhora a qualidade da vida, mas temos que pagar com um dinheiro que não temos: não temos dinheiro não apenas porque foi torrado, mas porque torraram as condições sócio institucionais para criá-lo.

Essa é herança de Lula e do PT.

A reeleição da Dilma foi uma tragédia sem tamanho para o país e a forma disso foi o “ajuste desajustado” que ela implementou no dia seguinte do segundo turno (e determinou seu impeachment): tivemos todas as consequências negativas (cortes etc.) sem sequer aqueles efeitos “positivos” (retomada da confiança) que os ajustes procuram. Como o chavismo quebrou a Venezuela e milhões de venezuelanos morrem de fome, falta de remédios, violência civil … e outros milhões emigram, o PT e o PMDB juntos ao “centrão” assaltaram o país, quebraram a economia brasileira e continuam querendo nos governar. O resultado ainda não é aquele da Venezuela, porque o Brasil tem uma economia diversificada, mas também porque o PT e o PMDB não conseguiram confirmar o golpe que deram em 2014 e tiveram que fazer o “impeachment” para sobreviver. A Dilma foi meio que um bode expiatório que Lula e Temer sacrificaram aos deuses da “opinião” para organizar sua resiliência: Ciro, por um lado, o esquerdismo pelo outro, ajudaram nessa operação mistificadora.

Mas a situação é dramática e o resultado eleitoral é fundamental para que um caminho de saída se desenhe. Narrativas falsas significam dinheiro falso.

O dinheiro nos falta hoje porque a moeda de Lula e Temer é falsa e só a reconstrução da confiança pode nos tirar desse buraco sem fundo. Corremos o risco de cair do fundo do poço para um poço sem fundo: a moeda que Lula e o sistema do “centrão” oferecem é tão explicitamente falsa que até um candidato tosco e totalmente despreparado parece estar dizendo alguma verdade.

Essa demanda por confiança hoje se apresenta como pânico, incerteza radical, crise e guerra. O desafio é trabalhar na construção de uma confiança potente, alimentada por um novo patamar democrático: para essa perspectiva urgente, o tema da nova proteção social é estratégico, a proposta política capaz de deslocar o debate.

(publicado em http://www.ihu.unisinos.br/581496-o-jogo-da-politica-nas-eleicoes-presidenciais-e-as-tensoes-entre-a-habilidade-e-o-risco-algumas-analises)


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