Eleições de 2018: uma oportunidade generosa

Clarissa Naback

Parece que o atual embate eleitoral corre a partir de duas polarizações: a primeira entre as duas extremidades, encapadas pelos dois mitos (Lula e Bolsonaro) que prometem salvar o país; o segundo, entre a razoabilidade contra os extremismo (da esquerda e da direita) – nesse último campo disputam para o segundo turno Ciro, Marina e Alckmin.

Me parece que a primeira polarização institui uma dinâmica política de cabo de guerra, isto é, o que é importante é se constituir como oposição ao adversário e derrotá-lo. Então, tudo que um defende o outro nega. Um exemplo é o Bolsonaro que sempre teve uma visão mais nacionalista e desenvolvimentista da economia e agora repete o mantra do “livre mercado”. Ou então o discurso extremista da esquerda capaz de dizer que o Brasil sofreu um golpe e de defender a ditadura do Maduro. O mais importante nessa dinâmica é o esculacho, a performance, o óculos da lacração, independente se a práxis política de seus mitos aponta para a outra direção. Não é à toa que esses dois polos são os campeões de fake news e são os únicos a sofrerem atentados políticos. Não é à toa que não concebemos a possibilidade de um atentado contra Marina, Ciro e Alckmin, que não estão inseridos nessa dinâmica. Todo discurso político que tanto Lula e Bolsonaro formulam tende a estimular e acirrar os ânimos de sua militância. O paradoxo é que esses dois polos se reforçam: ambos se justificam e se afirmam a partir da existência do outro.

O problema dessa dinâmica é que, além de não ter uma verdadeira consistência política, acaba arrastando todo o acontecimento para o cabo de guerra, como podemos perceber com o desfecho da tragédia anunciada do Museu Nacional. Em vez de iniciarmos um debate sobre como deveria ser implementada a política de cultura e de preservação do patrimônio, a discussão acabou sucumbindo em rótulos e acusações gerais e recíprocas. Nessa cortina de fumaça, desaparecem as análises críticas dos fatores e das ações governamentais que desencadearam o sucateamento do museu.

No outro polo, temos um campo de forças políticas que se apresenta como alternativa a essa dinâmica de cabo de guerra. O Ciro agora tenta falar mais manso, o Alckmin se coloca como direita sensata, e a Marina mantém a sua crítica contra a polarização. Esse grupo tenta denunciar a falsa “novidade” política do Bolsonaro e convencer que na política não basta dizer que “vai mudar tudo que está aí” sem apresentar um programa consistente. O mesmo vale para a tentativa de desmistificar a campanha de Haddad, encarnada no rosto de Lula, apontando a política rasteira que esse último faz através de marketing, chantagens  discursivas e instrumentalizações políticas em beneficio da sua imagem. Se o primeiro só consegue emplacar o discurso contra o desarmamento, deixando para o Paulo Guedes elaborar a política económica-social do “livre mercado”, o segundo procura apagar, no simulacro do golpe, todas as alianças espúrias e erros políticos do projeto neodesenvolvimentista, tornando a própria mitificação de Lula o seu principal projeto político.

O campo razoável, então, convoca o público ao bom senso e à razão, e apontam a urgência de governabilidade num país conflagrado. No entanto, desde 2013, a sociedade brasileira exige mudança – e esse desejo político não parece entrar nos cálculos da racionalidade ou da pragmática politico-partidária. É preciso se colocar como o diferente do que existe, a alternativa nesse sistema política em crise – embora nenhum dos candidatos seja uma figura realmente nova na classe política.

No caso de Alckmin, se sustentar como alternativa é mais difícil, já que o partido optou por seguir os esquemas fisiológicos, primeiro, não rompendo com Temer e, agora, se coligando com o centrão. Ciro, apesar de ensaiar aproximações com a esquerda, com o PSB e o Solidariedade, acabou ficando de fora do grande esquema de alianças; já Marina, com o partido da REDE, saiu como uma chapa partidária programática, mas sem conseguir constituir uma composição política e em rede com a sociedade, como ela pretendia. Ambos, com campanhas minoritárias dentro do esquemão partidário, procuram apresentar, cada um a sua maneira, ideias políticas que, em última instância, servem para recolocar nessa eleição o debate dos programas políticos, e não o embate de performances e bravatas. Ciro encampa uma ideia mais desenvolvimentista, de geração de emprego e crédito, enquanto Marina retoma a pauta de um desenvolvimento sustentável, com geração de renda. De fato, são os dois candidatos a colocarem em pauta a política de proteção social. E a greve dos caminhoneiros aponta como é urgente essa questão no Brasil! Os caminhoneiros pararam o Brasil porque estavam encurralados entre os erros da política neodesenvolvimentista de Dilma – da taxação do preços à corrupção política – e das pretensões de correção desses erros por uma ortodoxia neoliberal, como quer implementar Paulo Guedes via Bolsonaro. A greve mostrou que o “livre mercado” não se sustenta se não tiver um mínimo de regulação e proteção social, principalmente num país onde as taxas de desemprego, pobreza e até fome voltaram a crescer.

Ciro pretende resolver essa questão via emprego e crédito, acoplado a uma crescimento do setor produtivo, industrial e do agrobusisness (o que se diz de economia de carbono). No fundo, Ciro segue a fórmula da Dilma corrigida, enquanto Marina pretende reelaborar um desenvolvimento no Brasil que não dependa só do extrativismo, da agricultura e de grandes obras, mas que recoloque outros campos, ainda pouco explorados como fontes de riqueza e de valor, como o meio ambiente e a cultura, ao lado de renovações energéticas e tecnológicas – além da ideia de fortalecer diferentes eixos de economia (microeconomia, economia solidária, economia criativa etc.). É um tipo de desenvolvimento econômico e social por capilarização, que não abrange só os empregados e as grandes empresas, mas também aqueles que correm por fora dessa hard economy – micro empresas, trabalhadores informais, agricultura familiar, assentamentos, índios, quilombolas, ribeirinhos, etc..

Por certo, é a linha de Marina e Eduardo que se apresenta como a mais desviante, seja em termos práticos seja em termos éticos. Não só procurando escapar das ilusões do neodesenvolvimentismo ou da ortodoxia neoliberal, ela também escapa do conservadorismo e do populismo. Sua ideia de desenvolvimento sustentável não propõe apenas ver a economia e o social por outros olhos e perceber outras fontes de riqueza do Brasil, criando uma estrutura econômica e social enraizada, de longo prazo; mas propõe também falar sobre essa política de outra forma. Nem Marina nem seu vice, Eduardo Jorge, falam de maneira forte, como um bom populista ou um político conservador. Eles são aberrantes da dinâmica política do cabo de guerra, ou de um populismo que proclama deter a verdade e a solução para os pobres. Antes de tratar de uma característica de personalidade, a maneira de ver e de falar deles está imbricada a uma ética política republicana e democrática, transversal aos partidos. A proposta de criação de candidaturas independentes, de acabar com a reeleição e de instituir uma mandato de 5 anos para o executivo segue essa linha de incentivar uma reforma política. A defesa da lava jato também, que não é só uma discurso para agradar o eleitorado, mas uma ação política de Marina, colocando em mira o funcionamento das alianças políticas e práticas de expropriação da coisa publica, da qual ela mesma foi vitima nas eleições de 2014 – quem não se lembra da campanha de difamação e desconstrução que a esquerda e a direita fez contra ela?!

De antemão, existe um modo de agir democrático em suas propostas políticas: não é à toa que mesmo, sendo contra e discordando de Eduardo Jorge com relação ao aborto, Marina pretende enfrentar essa questão via plebiscito. A linha política deles segue pautada pela multiplicidade (econômica, política e moral) e pela governabilidade, ao invés de seguir a ideia de uma ordem pela “força” (armamento e lei), pela chantagem mistificadora (pai Lula contra o retrocesso) ou pelo “achatamento social” (populismo-desenvolvimentista). E de forma lúcida eles não caem em certos dogmatismos: sabem que é preciso enfrentar temas duros como reformas da previdência, reforma tributária, segurança publica e a corrupção. Se eles vão conseguir implementar esses programas através de sua ética e de seu programa político, não sabemos, como não sabemos dos outros candidatos. Mas seu projeto político soa como um freio para polarizações inflamáveis e como uma possível abertura para outra estrutura política.

Não, eles não são os salvadores, não são messias, não são um mito: eles oferecem generosamente a oportunidade de se fazer na política um caminho mais duradouro e sustentável.

 


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