Estratégias e estratagemas

Por Gustavo Gorriti, no El País Internacional, 26/12/17 | Trad. UniNômade

Uma semana natalina que vai demorar a ser esquecida, de sucessão vertiginosa de surpresas, de estratagemas que puseram inteiras estratégias abaixo. Nem Sun Tzu nem Maquiavel, mas Game of Thrones: sem dragões, sem sangue, sem sexo, mas com todo o resto, o que não é pouca coisa.

Durante a semana, o conflito se desenvolveu assim: no Congresso, a maioria neofujimorista que obedece a Keiko Fujimori planejou derrubar o enfraquecido presidente Pedro Pablo Kuczynski, por meio de um processo sumaríssimo de destituição, ao acusá-lo de “incapacidade moral permanente”. Era uma blitz que deveria resolver-se no dia 21, graça ao surpreendente apoio do esquerdista Frente Amplio e ao menos surpreendente do Partido Aprista Peruano, do ex-presidente Alan García.

Parecia um resultado inevitável. O presidente foi abandonado pela maioria de seus ministros, que o instou a renunciar. Apenas um par de ministros permaneceu a seu lado na revoada. Desesperado, Kunczynski buscou a ajuda das pessoas que tinham lhe prestado uma assessoria de emergência no segundo turno presidencial de 2016 (todas opositoras à autocracia fujimorista), quando parecia delineada uma segunda derrota. A jornalista Rosa María Palacios, o ex-premiê Pedro Cateriano e o ex-senador Alberto Borea não foram os únicos a estar entre as principais delas. Nessas horas, quando Kuczynski quis contatar a OEA para lançar mão da Carta Democrática, o chanceler Ricardo Luno, um dos que advogou pela renúncia, se negou a fazê-lo. O PPK teve que remeter pessoalmente uma carta redigida por Cateriano ao secretário geral da OEA Luis Almagro. A experiência, dissera à época o presidente, lhe deixava ensinamentos indeléveis sobre lealdades, traições e erros próprios.

Graças à assessoria de emergência, o confuso e errático PPK dos dias anteriores soou convincente e digno em sua mensagem à nação, no dia 20, e quando da sua própria defesa no Congresso, no 21. Durante o longo debate parlamentar, por trás dos arroubos retóricos vociferados no semicírculo, a batalha real se deu na disputa por votos. Quando o Frente Amplio persistiu em sua aliança com o fujimorismo, parecia que a sorte estava decidida.

Mas na votação veio a surpresa: 10 congressistas fujimoristas, entre os quais Kenji Fujimori, se abstiveram, e anularam o efeito da mudança de lado do Frente Amplio. Dois dos cinco apristas também se abstiveram e a presumida vitória e mudança de regime que coroaria a blitz fujimorista reverteu em derrota.

No dia 22, um triunfante Kuczynski agradeceu, entre outros, a Cateriano, Borea, Palacios. Assegurou-lhes uma mudança de estratégia voltada a um vigoroso esforço democrático. Sobre os rumores de um possível indulto a Alberto Fujimori (que tinha apresentado uma petição), o PPK sustentou enfaticamente que isso não ocorreria, e que não seria sequer discutido durante o período de festas. Que as lições aprendidas tinham sido claras. Falei com ele também e me disse o mesmo.

Nos dias 23 e 24, o PPK recebeu várias pessoas, entre as quais alguns dos ministros que lhe tinham pedido para renunciar. Era meio dia de 24, quando o rumor disparou que iria indultar Fujimori, o que aconteceu horas mais tarde.

A reação da gente que o defendera nos dias anteriores foi instantânea. Cateriano condenou “o ato de traição à  democracia e aos direitos humanos, cometido por [PPK] (…) um  pacto político infame”. “O presidente me mentiu”, escreveu Palacios: “(…) perdeu todo o respeito que tinha”. Borea, o seu advogado defensor, exprimiu-se assim: “de maneira categória, o meu total desacordo. Fui surpreendido com o indulto a Alberto Fujimori”. Pouco depois, começavam os protestos na rua contra o “indulto express” e a “traição de Kuczynski”.

O estratagema de Kenji Fujimori, que conduziu ao ato perpetrado pelo PPK, prefiguraria, após a surpresa e as rupturas internas, uma nova aliança? Pode ser que, em parte, sim.

A qual custo? No desordenado cenário atual, o PPK perdeu a credibilidade, demonstrou que a sua palavra vale menos que um bilhete de 13 soles, conseguiu obter o desprezo da maioria antifujimorista que se considerou traída, e perdeu integrantes de sua própria bancada, que renunciaram; sem com tudo isso ter angariado o apoio de Keiko Fujimori, cuja força ainda é considerável.

Uma mudança assim, de um dia para o outro, obedece à estratégia ou à neurologia, à astúcia ou à dissonância cognitiva? Talvez isso não importe tanto. Quem dispara desabaladamente assim pode o fazer por muitas razões, mas o que fica no final, junto às ferraduras, é uma pata machucada.


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