Eu (não) sou ninguém

Por Giuseppe Cocco e Marcio Tascheto

Versão reduzida e revista do artigo “Eu (não) sou ninguém: a subjetividade sem nome”, publicado pelos autores na revista Kalagatos: philosophy journal, vol. 14, n.º 2, p. 37-57, 8 out. 2017.  Link para o artigo completo.

  

O Levante do trabalho metropolitano

O levante de junho de 2013 continua vivo e, como aconteceu com o movimento de 1968, continuará por décadas a mobilizar todo tipo de narrativas. Diz-se que essas narrativas “estão em disputa”. Nós achamos que não. A história que interessa é aquela que Hannah Arendt chamava de ação livre [1]. Não há história de junho que não seja interna a junho, exatamente como junho vive nas páginas do livro de Bruno Cava [2], escritas no desdobrar-se do evento, ao antecipar, logo nas primeiras manifestações, as mobilizações oceânicas e a difusão das ocupas que as seguiram. Como no Ulisses de Joyce, estamos em um infinito presente. A inatualidade de junho está contida no próprio junho, uma vez que não esgota o potencial das lutas no espaço temporal de um mês ou um dia. Da mesma forma que o Bloomsday repete-se de ano em ano, o junho brasileiro se repetiu até mesmo enquanto acontecia, menos pelo conflito de narrativas do que pela profusão de alternativas. O evento expôs consigo uma arquitetura temporal do embate de potências subjetivas no interior das metrópoles.

Muitos agora se perguntam o que resta de junho e, na realidade, tudo que nos resta é mesmo e simplesmente junho. Junho não é nada, mas precisa tornar-se alguma coisa [3]. Dentro desse resto que é tudo, precisamos avançar. Como escreveram Alexandre Mendes e Clarissa Naback, “é impossível tentar compreender a atual situação de grande impasse político no Brasil sem a chave explicativa de junho de 2013”[4]. Com a ressalva que o “atual” aqui, não torna opaca a reserva de inatual que caracteriza junho. Se 1968 não acabou em 1968, 2013 não acabou em 2013. Pelo menos naquilo que reserva de impessoal e qualquer.

Tudo que resta é junho, mas junho, em parte, foi restaurado e a subjetividade que ele produziu, desmantelada por uma operação concertada de poderes constituídos. Entender e apreender os dispositivos que desempenharam esse papel é fundamental para enfrentar a crise dentro da qual estamos mergulhados e, sobretudo, para colocá-la numa perspectiva mais abrangente. É com esse objetivo que queremos voltar a alguns dos debates sobre junho.

Esquematizando, podemos dizer que há três grandes linhas de narração e atravessamento de junho de 2013:

  1. a narrativa interna a junho como evento radical e irrepresentável que levou a multidão para o deserto;
  2. a que faz de junho apenas o primeiro momento das mobilizações que continuaram em 2015 e 2016, depois do estelionato eleitoral de outubro de 2014, e que acabou conseguindo o impeachment de Dilma Rousseff;
  3. as articuladas por uma esquerda mais ligada ao partido destituído da presidência, para atribuir a junho uma operação de desestabilização do governo “progressista”, pois teria sido orquestrado por forças mais ou menos ocultas (o depoimento do ex prefeito de São Paulo – Fernando Haddad, do PT – é representativo dessa narrativa [5]).

Trata-se, como bem aponta Pablo Ortellado [6], dos esforços que tentam negá-lo. Contudo, há um quarto grupo de interpretações: elas mobilizam todo o arsenal conceitual da filosofia da diferença e até da antropofagia política para apreender junho com sua potência. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, autores dessas abordagens participam da domesticação de junho fazendo dele algo que cabe dentro da defesa da “esquerda” como ideia abstrata e do PT (e de seu governo em geral) como realidade específica dessa esquerda. Essas narrativas constituem um dos trunfos da esquerda de poder e se concretizaram, antes, na forma do voto crítico, depois, no movimento contra o golpe que não houve [7]. De todas as narrativas que buscam lidar com junho, essa é a mais insidiosa porque seu dispositivo é interno a uma das dinâmicas de junho e foi fundamental para que – usando a bela antecipação de Paulo Arantes – “depois de junho a paz (seja) total” [8]. Dito de outra maneira, essa narrativa se empenha a erguer muros subjetivos, no interior da produção de subjetividade do acontecimento.

Ninguém contra Polifemo?

O levante de junho incomoda porque não se deixa encaixar em nenhum esquema teórico ou político pré-definido. Isto se deve ao fato de ser irrepresentável e capaz de reunir ao mesmo tempo grande legitimidade e radicalidade. Durante um dos atos em São Paulo, interrogada por um jornalista que queria saber algo sobre sua identidade política ou ideológica, uma manifestante teria respondido: “escreve aí, eu sou ninguém”. O episódio não passou despercebido dos leitores da filosofia de Giorgio Agamben. A partir disso, o filósofo Peter Pál Pelbart escreveu um dos mais lidos e talvez dos mais belos comentários de junho:

O Movimento Passe Livre desde o início teve, com sua pauta restrita, uma sabedoria política inigualável. (O MPL, continua Pelbart,) soube até como driblar magistralmente as ciladas policialescas dos repórteres que queriam escarafunchar a identidade pessoal de seus membros (“anota aí, eu sou ninguém”, dizia uma das militantes do grupo).

Pelbart enxergou nisso a “malícia de Odisseu” e, nela, uma confirmação da filosofia política de Agamben. Porque o episódio teria confirmado “como certa dessubjetivação é uma condição para a política hoje – Agamben já o dizia, os poderes não sabem o que fazer com a ‘singularidade qualquer’, com aqueles que mal têm um nome (…)” [9]. Na realidade, como veremos, o poder — sobretudo quando atravessado pela ideologia residual porémmaeficaz da esquerda — sabe perfeitamente o que fazer nesse caso: vai procurar dar um nome à subjetividade qualquer (subjectivité quelconque). A questão é saber como e quando consegue realizar essa operação de maneira eficaz. Como pode fazê-lo por dentro da própria subjetividade e não apenas superficialmente, numa propaganda entendida como procedimento extrínseco. Isso nos traz de volta às reflexões sobre esse episódio da manifestante que parecia repetir a astúcia de Ulisses (agora o de Homero), diante do Estado-polifemo.

Um outro leitor de Agamben, Paulo Arantes,  se apoiando no comentário de Pelbart, logo enxergou a dimensão homérica da situação na qual “a luta para tornar cada vez mais comum o que é comum, ao contagiar o próprio nome comum de quem luta, desnorteia os ‘dispositivos’ que se lançam sobre ele” [10]. Parecia que essa afirmação resumia então a radicalidade do evento, um evento não marcado pela sua potência, mas pela sua impotência, ao ponto de declinar todo tipo de subjetivação, qualquer operação de nomeação, que prepararia a cama para a normalização. A manifestante, diz Arantes, “ressuscitou em pleno tumulto a astúcia de Ulisses com o próprio nome: Odisseu (Ninguém).” [11].

Ora, “ninguém”, em italiano, se diz nessuno — o latim ne ipse uno vira nesse idioma: nessuno, neppure uno — e significa que não há sequer um uno.  Há, pois, uma outra dimensão na afirmação: uma negação do uno que pode ser afirmação da multiplicidade. Se passamos a uma outra língua neolatina, o francês, “ninguém” se diz personne, que significa ao mesmo tempo ninguém e “pessoa”, e nos lembra que a negação do uno — a recusa de ter um nome próprio, de ser uma pessoa — pode na realidade ser uma maneira de reafirmar o… uno e com ele a persona. A negação da subjetividade não deixa de ser uma subjetividade. Noutros termos, a questão que se coloca é se a alternativa está realmente entre subjetivação e dessubjetivação, ou então, se é no próprio terreno da subjetividade que a luta vai se dar.

Lembremos o que dizia Maurice Merleau-Ponty: “Quem julgará que a linha é verdadeira, que a situação é verdadeira, que a história é verdadeira? A resposta marxista é: personne, quer dizer o Partido (…)” [12]. Ou seja,  se mesmo em meio a velha prosódia (a tônica) do poder, podemos encontrar as cacoépias — o que Oswald de Andrade chamava de “língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos”[13] — necessárias para processos outros de subjetivação.

Cabe, pois, perguntar se não temos aí, de novo, uma das negações de junho de 2013, desta vez articulada no terreno do controle e não mais da disciplina, que vai por dentro de junho, como um procedimento intrínseco, e que não se limita à sua repressão. Retomamos a leitura do comentário de Pelbart sobre junho, em particular quando ele elogia o Movimento do Passe Livre (MPL), porque o coletivo “soube como e quando começar, soube sustentar o que foi suscitando, soube apartar-se daquilo que lhe soava como uma infiltração indevida, soube retirar-se no momento certo, soube como continuar apesar dessa retirada tática” [14].

De repente, o que era espontâneo, horizontal e sem nome, até o ponto de se recusar a subjetivar-se, aparece como um dispositivo dotado não apenas de um nome próprio — o MPL, — mas de uma articulação, bem definida e soberana, de estratégias e táticas, com as suas cores e símbolos, até o ponto de saber “quando retirar-se”. Sendo que o traçado dessas duas linhas pelo artigo funcionam como um filtro, que decide até que momento o movimento merece ou não o carimbo de autenticidade, quando uma presença é “indevida” e pode então ser julgada uma “infiltração”. Junho era a subjetividade qualquer, mas havia, pelo visto, “infiltrados” que podiam estragar tudo. Ou seja, era uma subjetividade qualquer, mas havia alguém que não era qualquer.

Mas então, quem seriam esses “infiltrados” e, sobretudo,  quem decide quem é infiltrado e quem não é, quem é alguém e quem é qualquer? De quem os infiltrados seriam então o nome? Ou qual seria o nome que designa os infiltrados? Inútil lembrar que a classificação de determinados segmentos de movimentos e manifestações de massa em termos de “infiltração” remonta a uma velha tradição, inclusive e sobretudo da esquerda — seja ela reformadora ou estalinista, — destinada a expurgar das ruas e das assembleias aqueles elementos julgados indesejáveis à linha política que hegemoniza não a dinâmica das ruas, mas os dispositivos que as controlam.

A história nos lembra que, em 1919, a socialdemocracia alemã de Gustav Noske assassinou Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, ao passo que o bolchevismo russo de Lênin e Trotsky massacrou a democracia dos conselhos em Kronstadt, logo depois, em 1921. O esmagamento daquele soviete era a confirmação da pertinência das críticas de Rosa Luxemburgo ao golpe bolchevique de 1917 [15]. Mas voltemos ao artigo, em que Pelbart volta a elogiar a subjetividade qualquer. Ele lembra daquele “homem solitário e anônimo que interrompeu uma fileira de tanques na Praça Tiananmen anos atrás” e se pergunta: “quem era ele, quem ele representava, como lutar contra o risco de que qualquer um possa virar um insurgente? Daí a pressa em encaixar os manifestantes numa categoria” [16].

Oras, acontece que essa pressa de “encaixar” os manifestantes em alguma categoria, por exemplo, traçando o diferencial entre os que seriam “pacíficos” e os que seriam “vândalos”, os que seriam de esquerda e os que seriam de direita (com direito ao nome “coxinhas”) é a mesmíssima que os separa em pessoas legitimamente presentes nas ruas e as outras, que constituiriam uma “infiltração indevida”. Sendo que essa filtragem se dirige  claramente contra aqueles que não queriam bandeiras vermelhas nos atos ou que decidiram tomar de assalto a sede da prefeitura ocupada pelo petista Haddad. Não encontraríamos nessa linha de narração os germes da restauração de junho, que aconteceu com força em outubro de 2014? Ocasião em que os entusiastas dessa leitura esqueceram a tese da dessubjetivação como resistência e, vestindo as camisas vermelhas da campanha eleitoral de Dilma e Temer, foram ao TUCA da PUC de São Paulo, para aplaudir a então candidata à reeleição, que reivindicava o mote governista da copa: “não vai ter protesto”?

Os jovens autonomistas do MPL foram, sim, o estopim de junho e isso na medida que eram a memória viva dos levantes do “buzu”, desde o início da década de 2000 ou até mais antigos, como aquele que lembra Paulo Arantes, em 1935 na cidade de Natal [17].  Mas o levante de junho não se limitou nem um pouco ao MPL, nem foi do MPL e ainda menos determinado por ele. Não por acaso, naquele mesmo ano, as manifestações começaram antes em Porto Alegre, em abril, onde os poderes públicos recuaram, e somente depois eclodiram em São Paulo, onde viriam a massificar-se em resposta à repressão. A seguir espalhando-se como um rastro de pólvora pelo país inteiro, também explodiram no Rio, onde a questão dos transportes foi apenas uma dos pontos de uma pauta bem mais eclética, que incluía os temas dos megaeventos superfaturados, das remoções de pobres, da luta política contra a coalizão de governo PT e PMDB, e contra a corrupção enraizada nos projetos bilionários do novo Rio e do Brasil maior.

Quando, enfim, Haddad, Alckmin, Cabral e Paes anunciaram o cancelamento do aumento de 20 centavos, as manifestações persistiram, ainda maiores e mais radicais. A saída do MPL teve um efeito pacificador apenas em São Paulo e ela aconteceu com base numa pressão e numa chantagem extremamente violentas, organizada e retransmitida pela “esquerda” governista, mas não só. Depois de duas semanas de quase paralisia, com seus militantes de base participando do tumulto, o PT e o governismo acionaram um gigantesco aparato institucional para um trabalho de pacificação que chegará a seu auge, em termos repressivos, durante a copa do mundo e, em termos de esvaziamento da subjetividade, com a mobilização pelo “voto crítico”, no que foi o estelionato eleitoral de outubro de 2014.

Tal como o cineasta de Angelopoulos apresenta no filme Olhos de Ulisses (no Brasil: “Um olhar a cada dia”), a parada fragmentária por dentro do túnel epocal de junho remete a uma odisseia pelo país de origem. Em meio à guerra de imagens no jogo de espelhos da atualidade, encontrar os irmãos Manakia, espécie de irmãos Lumière gregos, não garante nenhuma narrativa primeva, mas o despojamento do entulho de passado que está bloqueando o futuro do Brasil. A busca pela pacificação das forças que se insurgiam, enquanto potência viva da multidão metropolitana no seio da fábrica do século XXI, a própria cidade, é representativa dos dispositivos de encaixe flexível e modulação que o biopoder mobiliza para refrear a indignação difusa.

No intuito de fazer rodar um único cinematógrafo na tela do presente, mesmo que dividida em duas partes da mesma moeda, a máquina de ficções foi derrotada pelo seu próprio sucesso. Se junho foi o pesadelo do governismo, a vitória (parcial) do governismo sobre junho, foi e é sua maior derrota. Como na cena dos guarda-chuvas de Angelopoulos , imagem belíssima da plasticidade do tempo na imagem, junho foi paralisado mas não deixou de deflagrar devires. Bloom, Polifemo e o Ulisses cineasta de Angelopoulos triangulam os signos de junho escrevendo eu não sou ninguém enquanto multiplicidade.

Giuseppe Cocco é professor titular da UFRJ, participa da rede UniNômade e é autor de vários livros: Glob(AL), MundoBraz, KorpoBraz, Trabalho e cidadania, entre outros.

Marcio Tascheto da Silva, doutor em edução, é professor na UPF e participa da rede UniNômade

 

Referências

[1]Jerome Kohn, Préface, in Hannah Arendt, Responsability and Judgment (2003), Payot, Paris, 2009. Tradução para o francês de Jean-Luc Fidel, p.29.

[2] Bruno Cava, A multidão foi ao Deserto, Anna Blume, São Paulo, 2013.

[3] Como um “soneto nulo” de Mallarmé, reúne a dispersão de forças num estranho engendramento do futuro, isto é, “(…) dá força e existência poética somente àquilo que existe fora de tudo (e fora do livro que é esse tudo), mas, assim fazendo, a descobre o próprio centro do livro” (Blanchot, 2005, p. 329).

[4] “Vertigens de junho”, em Uninomade/Brasil, 21 de março de 2016, http://uninomade.net/tenda/vertigens-de-junho/

[5] Fernando Haddad, “ Vivi na pele o que aprendi nos livros”, Revista Piauí, edição 129, junho de 2017, disponível em http://piaui.folha.uol.com.br/materia/vivi-na-pele-o-que-aprendi-nos-livros/

[6] Pablo Ortellado, “A negação de junho: quatro anos depois”, Folha de São Paulo, 13 de junho de 2017.

[7] Giuseppe Cocco, “Ceci n’est pas un coup d’état”, Multitudes, n. 64, outubro de 2016, “O Golpe que não houve”, Uninomade-Brasil, http://uninomade.net/tenda/o-golpe-que-nao-houve/ tradução de Clarissa Moreira.

[8] Paulo Arantes dedica ao levante de junho um capítulo inédito, “Depois de junho a paz será total”, O Novo Tempo do Mundo, Coleção Estado de Sítio, Boitempo, São Paulo, 2014.

[9] Peter Pál Pebart, “Anota aí: eu sou ninguém”, Folha de São Paulo, 19 de julho de 2013, p. A3. Aqui usamos uma versão mais longa, publicada pela Gazeta do Povo

[10] Paulo Arantes, “Depois de junho a paz será total”, cit., nota n. 119, pg. 426.

[11] Ibid.

[12] Les aventures de la dialectique (1955), Gallimard, Folio, Paris, 2000, p.164. Grifos do autor.

[13] “Manifesto-Pau Brasil”, Correio da Manhã, 18 de março de 1924, disponível em http://www.tanto.com.br/manifestopaubrasil.htm

[14] Pelbart, cit., grifos nossos.

[15] Rosa Luxemburg, Crítica de la revolución rusa (1918-1921), tradução para o espanhol (Argentnina) de José Aricó, Ed. Quadrata, Buenos Aires, 2005.

[16] Ibid., grifos nossos.

[17] Cit., p. 408.


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