Tenda – Universidade Nômade Brasil http://uninomade.net A Caravana Nômade em Movimento Wed, 10 Jan 2018 22:41:17 +0000 pt-BR hourly 1 A rebelião e o império http://uninomade.net/tenda/a-rebeliao-e-o-imperio/ http://uninomade.net/tenda/a-rebeliao-e-o-imperio/#respond Wed, 10 Jan 2018 21:48:04 +0000 http://uninomade.net/?post_type=tenda&p=3695 Por Rodrigo Karmy, em El Desconcierto, 5/1/18 | Trad. UniNômade

Novamente, fomos tomados de surpresa. As ruas de Mashad (capital “espiritual” do xiismo duodecimano) e de outras cidades se abarrotaram de protestos, multiplicando-se por quase todo o país. Foram pelo menos 23 pessoas mortas. O intelectual iraniano Hamid Dabasgi não deixou de sublinhar que, para desacreditá-los, tudo não teria passado de um esforço orquestrado de poderes mancomunados que, supostamente, travam uma luta sem trégua. Por um lado, os EUA com o tuíter de Trump e a exigência da embaixadora norte-americana na ONU, Nikki Halley, de convocar o Conselho de Segurança para declarar apoio às revoltas contra o regime. Por outro lado, Ali Khamenei, o líder supremo, braço teológico-político (comandante em chefe das forças armadas) do regime, que não titubeou em chamar os manifestantes de “inimigos” do Irã, para desacreditá-los no mesmo momento de sua aparição.

Por um lado, os Estados Unidos, com o discurso de tentar levar a democracia ao Irã e assim defender os que protestam, buscaram justificar uma intervenção no país. Uma questão já antiga,  pois o lobby sionista – que praticamente dirige a política norte-americana no Oriente Médio – e os próprios círculos trumpistas da política externa (Mattis, Tillerson, Mac Master) pressionam para que a intervenção aconteça. Por outro lado, o regime iraniano, com o discurso de ser atacado pelo imperialismo norte-americano e pelas agências israelenses e sauditas, buscaram justificar a repressão dos protestos, ao considerar quem delas participa como verdadeiros lacaios do imperialismo e, portanto, inimigos “abertos” do estado. Os imperialismo poderá estar assim na ordem do dia, mas o Império, na precisão de suas operações, funciona a partir dos dois polos que aparecem como supostamente inimigos. Ambos são o Império e passam recibo de uma estranha cumplicidade em parar os protestos. Por isso, nem o capitalismo liberal (o que sobra dele), nem o islã político em sua versão estatal-nacional (seja sunita ou xiita), podem constituir alternativas diante do niilismo imperial, pois constituem a sua própria lógica, o seu obverso especular.

As manifestações populares sobrevivem como uma sombra nos anais da história. Devemos lembrar que a revolução iraniana não foi realizada pela pessoa do Aiatolá Khomeini, mas por mobilizações populares que, ao longo dos anos, desafiaram o regime do Xá e terminaram por descolonizar um país inteiro. Em 2009, após a fraudulenta reeleição de Ahmanideyad, emergiu uma série de protestos, igualmente intensos como os que estamos presenciando agora, que reclamavam por direitos civis. Na época, se intitulou “movimento verde”. Transversal a várias organizações sociais, tal movimento congeminava desde estudantes universitários até trabalhadores de diversas categorias que, no plano de sua imaginação política, resgatavam certo espírito da Revolução de 1979. A mesma que tinha ficado truncada quando do paradoxal triunfo “clerical”, que logrou capturá-la para si, personificando-a na figura do Aiatolá Khomeini (atualmente na figura de Khamenei, seu sucessor).

Talvez, aqui se abra um tema crucial: a Revolução de 1979 foi na verdade dupla. Por um lado, triunfou ao preço de apagar a fonte popular de que se nutria, descolonizou o estado iraniano em relação ao imperialismo estadunidense, mas terminou por colonizar os iranianos por meio de um islã da resignação, que logo viria a se converter na ideologia de estado da nova oligarquia governante. Por outro lado, perdeu na medida em que a fonte democratizadora — igualmente islâmica, mas não só, pois envolvia outros discursos políticos — terminou sendo reassimilada, ainda que não totalmente destruída, dentro do novo regime. Essa segunda força emergiu em 2009, em meio a uma eleição fraudulenta que reelegeu Ahmanideyad para o segundo mandato, e que volta a surgir hoje, quando do anúncio feito por Rohani que, contra as suas promessas eleitorais, declarou o aprofundamento do ajuste econômico e a manutenção dos altos preços da economia.

À luz do que foi dito, podemos sublinhar duas diferenças entre o movimento verde de 2009 e a atual onda de protestos, em 2017-18. A primeira é que o movimento verde havia surgido num contexto de fraude eleitoral, durante a reeleição de Ahmanideyad, e sob o efeito de sanções econômicas impostas pela dita “comunidade internacional”, mas aquilo acontecera numa região que estava relativamente estável (em particular, a Síria). Em contrapartida, os protestos atuais surgiram no meio da explicitação das condições econômicas. Quando Rohani fez o anúncio das medidas, o estalo da crise se tornou um grande rumor. Além disso, os protestos se dão num momento convulsivo na região, por efeito das revoltas árabes de 2011 e, no caso da Síria, de seu desdobramento em guerra civil. O Irã converteu o regime sírio em protetorado próprio e, graças à aliança com a Rússia, se tornou ele mesmo o pivô fundamental do governo de Al Assad.

Em 2013, o novo presidente triunfou nas eleições com a promessa de trazer grandes investimentos para o Irã, mas a conjuntura geopolítica regional e global, assim como as decisões internas ao aparelho estatal iraniano, o fizeram retroceder, num giro de 180 graus, na direção da austeridade. A promessa de Rohani havia implicado negociar o acordo nuclear com os Estados Unidos do governo Obama (em síntese: autorização para a inspeção “internacional” do programa em troca da abertura de capital iraniano ao fluxo de capitais transnacionais) e cuidar do governo iraquiano, depois da devastação perpetrada pelas forças armadas americanas contra o país vizinho, desde a Guerra do Golfo de 1991 até a sua consolidação na invasão de 2003. Agora, contudo, os protestos populares surgem quando se fazem perceber os resultados dessas manobras de governo, ou seja, a piora dos problemas e não a sua solução. E assim, a sociedade iraniana parece viver num labirinto sem alternativa política possível: seja votando pela ala conservadora, seja pela reformista, o que fica parecendo é que a estagnação econômica e a paralisia política prevaleceram.

Que os protestos sejam sintoma do labirinto é uma questão chave, mas ante a qual é preciso ser prudente. Os dois polos imperiais aproveitaram politicamente os protestos, expondo a crise de legitimidade do regime. Não somente de um acessório, mais do que isso, como viu o politólogo Ahmad Sadry, se trata mesmo da própria estrutura do estado iraniano. Uma estrutura dupla: a vertical e hierárquica em que se apoia a ordem dos religiosos (clérigos), e a horizontal e parlamentar em que se apoiam algumas instituições ao menos formalmente democráticas. Estrutura que mostrou uma grande rigidez, não conseguindo acolher certas transformações democratizadoras que, no que tange à ampliação de direitos civis, se encontram defasadas não apenas em relação às demandas do movimento verde de 2009, como também da própria Revolução de 1979.

Não sabemos ainda aonde vão dar os protestos, se vão articular-se em novas organizações, se aprofundarão as suas intensidades, se as potências regionais (Israel, Arábia Saudita) e globais (Estados Unidos), ou o próprio regime iraniano, serão capazes de neutralizá-las, mediante a aplicação da clivagem amigo-inimigo que os mesmos protestos – assim como o movimento verde de 2009 ou as revoltas árabes de 2011 – conseguiram colocar em questão. De qualquer jeito, sabemos que outra Revolução, a de 1979, pulsa desde o coração do Irã, outra Revolução que não tem tempo nem sequer para uma democracia imposta à imagem e semelhança de uma potência imperial, e nem para uma retórica anti-imperialista declarada por religiosos corruptos.

Onde habita tal protesto? No século 12, o filósofo persa Sihabbodin Yahya Sohrawardi escreveu: “Todos nós viemos de um país do ‘não onde'”. Justamente, os protestos não habitam cartografia alguma, posto que esta última é traçada pelos imperialistas. O “país do não onde” é um lugar sem espaço, um local sem localização, mas ainda assim é um campo e existe. Talvez, seja essa a morada da outra Revolução de 1979, a que voltou a irromper no movimento verde de 2009 e que, ao que parece — somente parece — voltou a fazê-lo nesses dias.

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La revuelta de la confianza http://uninomade.net/tenda/la-revuelta-de-la-confianza/ http://uninomade.net/tenda/la-revuelta-de-la-confianza/#respond Sun, 07 Jan 2018 20:48:24 +0000 http://uninomade.net/?post_type=tenda&p=3692 Entrevista a Amir Farchadi, por Anna Curcio y Giuseppe Casale, en Commonware, 6/1/18| Trad. Santiago Arcos-Halyburton | [versão em português]

Están circulando relatos y comentarios sobre las protestas que, en los últimos días, han inflamado Irán. Con frecuencia, los textos sólo se hacen eco de los refranes mediáticos más consolidados. Hay pocos análisis, sin embargo, capaces de penetrar más profundamente, para explicar la composición y la genealogía de las protestas, y reflexionar sobre las repeticiones y novedades que las caracterizan. Con Amir Farshadi, un estudiante iraní actualmente residente en Italia, intentamos describir la fuerte especificidad del contexto político, social y económico de la República islámica y, al mismo tiempo, en su análisis pudimos encontrar resonancias y algunos rasgos comunes en relación a otras luchas en la crisis, también desencadenadas a partir de condiciones de empobrecimiento, pasando por la corrupción del régimen, hasta llegar a la movilización de aquellos que tuvieron sus ahorros confiscados o arruinados por los bancos. Emerge de sus palabras una genuina revuelta de la confianza, a ser entendida en un doble sentido: por un lado, se rompe la relación de confianza con el régimen y la posibilidad de una reforma; por otro, se reconstituye una relación de confianza entre las personas. [Nota de Commonware]

Como surgen las movilizaciones que están inflamando Irán?

Es una protesta espontánea, sin conducción alguna. La protesta estalló en Mashhad, una ciudad chiita fundamentalista, contra la política de reformas del presidente Rouhani. Ella sirvió de inspiración para las personas de otras ciudades y rápidamente, en casi todos los lugares, comenzó una sublevación contra la República Islámica. En los primeros días, los slogans tocaban cuestiones económicas, después empezaron por apuntar a Khamenei, a los “reformistas”, a los “radicales”, a todas las diferentes posiciones internas en la República islámica. Los slogans muestran que la gente está harta, que ya no quiere ese régimen. Es la primera vez que los slogans se dirigen contra Khamenei en persona, quien siempre fue considerado un santo, sobre todo, de parte de los pobres. Con eso, se rompió un tabú. La gente ha visto a lo largo de las últimas décadas al gobierno iraní robar la riqueza del país, gastar el dinero del pueblo en Siria o Irak, y no aguanta más la dictadura islámica. La crisis es a la vez política y económica. Los salarios están estancados, el costo de la vida, los alimentos y los alquileres, sigue subiendo, mientras que el régimen impide cualquier forma de crítica o disenso.

Quienes son las personas que están bajando a la plaza?

Son muy diferentes entre sí. Hay chicos, muy jóvenes, pero también padres de familia, ancianos. Entre las víctimas de los últimos días, hay incluso un niño de 11 años. Entre los que protestan, hay muchos que han sido engañados por los bancos y que perdieron ahorros de toda una vida, y que ahora están entre los más fuertes opositores al sistema. En las calles, se ven muchas familias normales de clase media, pero también representantes de las capas sociales más bajas. La clase media en Irán siempre vivió en una especie de zona de confort, tuvo acceso a una vida confortable; tiene coche, hace sus fiestas, puede viajar a los países vecinos, frecuenta bares y conciertos, y no está dispuesta a poner en jaque su propia forma de vida. Hasta el momento, aunque la clase media no ha sido golpeada por la crisis, no ha dejado de desear ver un cambio de régimen, aunque no pueda explicitar eso. En los últimos meses, las cosas cambiaron, descendieron a la plaza también los jubilados y los engañados por los bancos, y después de la protesta en Mashhad, comenzó un zum-zum-zum espontáneo, sobre todo a través de Internet, en particular por Telegram, que llevó a las personas a movilizarse. En resumen, en la plaza hay un poco de todo. Las personas que estudiaron y que no tuvieron la oportunidad (en Irán, hay un alto porcentaje de diplomados), en fin, muchos segmentos sociales. Hay, por ejemplo, los ancianos que estuvieron en la revolución khomeinista y que ahora dicen “nos equivocamos, ahora estamos peor que antes”.

Era posible imaginar una explosión de este tipo?

Absolutamente no. Y se entiende por qué, si miramos lo que ocurría antes de las protestas. A partir de la revolución islámica khomeinista, se estableció un sistema político institucional particular, con un nivel de represión tal que alimenta continuamente la inmigración y la fuga. A lo largo de los años, ese nivel de represión operó también sobre el plano psicológico, los iraníes no hacen política porque tienen miedo. Y cuando no es posible manifestar sus propios deseos, se acaban acumulando y explotando. Fue así con el movimiento de la Onda Verde (2009-11), que agregó las demandas por cambio; pero después, con la represión y el asesinato de muchas personas, el miedo volvió a dominar. La impresión, sin embargo, es que las manifestaciones de estos días hayan logrado vencer el miedo porque las personas están llenas de vivir en una condición constante de pobreza y están dispuestas incluso a morir para cambiar las cosas, por eso salen a las calles.

Después de la guerra con Irak (1980-88), el sistema económico iraní comenzó a fracasar. El entonces presidente Rafsanjani realizó una apertura internacional que, al final de cuentas, no dio en nada, porque la inflación y las sanciones pesaron fuertemente contra el país. Así que empezamos a caminar hasta donde estamos. Ahora el gobierno se encuentra en una fase delicada y nadie puede decir lo que va a suceder. En esos días en la plaza, estallaron todos los problemas acumulados en los últimos 40 años, durante el período de Khatami y de su gobierno reformista, y durante el período de Ahmadineyad, que arruinó el país. Las personas no aguantan más, sufren, pero no tienen un objetivo preciso. El único es hacer caer el régimen. Para entender lo que está pasando, es indispensable conocer el sistema político y económico iraní, construido alrededor del líder supremo. A partir del 19 de julio de 1988, comenzaron las ejecuciones masivas de miles de prisioneros políticos, y que se extendieron a lo largo de cinco meses, teniendo como blancos principales a los Mujaheddin del pueblo iraní, identificados como ejército de liberación nacional, además de otras organizaciones de izquierda, como el Tudeh. Las estimaciones sobre las ejecuciones varían de 8 mil a 30 mil personas asesinadas. Estos son hechos importantes para entender el subsuelo de las movilizaciones de hoy, pues ahora la gente sabe de todo. No son sólo las cuestiones económicas, que de cualquier modo asumen gran importancia, sino también la represión política del disenso, que realmente constituye un elemento adicional, con cada vez más fuerza, para impulsar a las personas a la calle.

Entonces, si podemos decir que la motivación más fuerte es la oposición al régimen, por qué exploto ahora?

El presidente Rouhani llegó al poder hace cinco meses, haciendo muchas promesas de cambio. Millones de personas, procedentes de varios sectores de la sociedad, confiaron en aquellas promesas, que implicaban poner fin a la atmósfera represiva, liberar a los prisioneros políticos, aumentar los derechos, poner fin al aislamiento de Irán. Después de las elecciones, las cosas sólo empeoraron más y más . Las personas que votaron por Rouhani se resintieron al verlo pasarse al lado de los fundamentalistas, entonces nace el sentimiento de haber sido engañados al votar por él. Los comunistas sostenían que no era necesario votar. La clase media, votó por él, pero ahora está desilusionada. Todos los estratos sociales se encuentran en este momento en una situación similar de pérdida de confianza en cuanto a la posibilidad de cambios en el régimen. Hace dos meses que, por primera vez, los jubilados y los que perdieron los ahorros salieron a la plaza pacíficamente. Es previsible que en las próximas elecciones haya una caída del número de votantes, porque la confianza en el cambio, una vez más, acabó siendo traicionada.

Las sanciones de Trump determinaron una disminución en el precio del petróleo, sobre lo que se basa en la economía iraní. Los repases venidos del exterior fueron bloqueados. Ese fue el estopín para la situación, pero no significa que los intereses americanos sean lo que mueven las protestas. Hay una parte de la clase media que quiere la democracia pero que, en comparación con la anterior Onda Verde, ahora ve una posibilidad menor de que suceda; y por fin hay los pobres que, al llegar, determinaron un giro en las manifestaciones.

¿Cuál es el vínculo entre las formas de vida en Irán y las protestas?

En Irán se da una especie de doble vida. La República Islámica debería ser una democracia, pero eso es una paradoja. El régimen iraní es una dictadura, se debe obedecer, hacer lo que mandan: si usted es un buen musulmán o finge serlo, podrá vivir sin ser molestado. Debe, sin embargo, mantener una vida doble: puede incluso dejar de creer en todo, pero hay que demostrar que cree. Así, en privado, se tolera que se haga una serie de cosas, pero en público es imperativo que se muestre un comportamiento de buen musulmán. Desde niño usted aprende la vida doble, lo que causa tantas conductas malas, como mentir o ser infiel a sí mismo, pero que es la única manera de mantener los propios derechos. Porque no es posible tener derechos si usted resuelve ser usted mismo. Para tener derechos en el espacio público iraní, sólo es posible si se demuestra ser un buen musulmán. Hay muchas personas de colmadas de eso, pues ya han tenido bastante. Las protestas lanzan un mensaje: todos juntos, los iraníes están en contra de tener que vivir esa doble vida que les lleva a mentir, traicionar y traicionarse, a no confiar en el otro.

Las protestas entonces son contra la República Islámica y la doble vida que ella impuso?

Esta es una cuestión indudablemente ligada a las protestas, porque todos los problemas sociales, en este momento, se presentan en la plaza. Como yo decía, la doble vida produce como efecto que las personas no confían en las otras. Siempre está el pensamiento que aquellos que me son vecinos pueden ser espías al servicio del gobierno, así que no puedo revelar todo lo que yo quiera. De esta manera, el gobierno iraní colonizó las vidas de la población, por consiguiente, es normal que las personas no estén unidas. Pero, con las protestas, ellas pueden declarar: ahora podemos estar nuevamente unidos contra el régimen. Este es el mensaje de las manifestaciones: tú eres mi hermano. Queremos tener una sola vida. No queremos ser buenos musulmanes, queremos ser nosotros mismos, queremos compartir con los demás lo que hacemos.

¿Podemos entonces decir que es una protesta basada en la construcción de relaciones de confianza?

En cierta manera, sí. Doy un ejemplo. Hace unas semanas, hubo un fuerte terremoto en la frontera con Irak, en una zona kurda, con casas destruidas y muertes, y el gobierno no hizo nada. En todo el país, al contrario, las personas se movilizaron a través de las redes sociales y enviaron dinero, ropa y materiales de apoyo a aquellos que habían sido afectados por el terremoto. Esta es la prueba que no se puede tener confianza en el gobierno y que la gente debe aprender a confiar en sí misma y en los otros. Esta idea no es posible cuando se vive una vida doble, en ese caso, reina la desconfianza entre las personas. Con el terremoto y el apoyo mutuo, se ha demostrado que es posible cambiar la situación, construyendo relaciones basadas en la confianza.

Una de las estructuras más fuertes de la República islámica es el sistema de vigilancia y de informantes. Puede suceder que descubras que tu amigo de años es un espía. De ese modo, el régimen canalizó la revolución de 1979, capturando las energías y, ahora, intenta sobrevivir. También en el exterior, por ejemplo, aquí en Italia, hay espías que controlan a los iraníes, para reprimir a aquellos que puedan contraponerse al régimen. En Irán hay 80 millones de personas, de diferentes culturas e idiomas. El régimen quiere controlar que nadie se movilice contra él mismo, incluso dentro de las conversaciones, para que no haya ningún disenso, nada capaz de ampliarse, crecer, contagiar. En estos 40 años, eso cultivó el miedo entre las personas; por eso ver a las personas así en las plazas vale muchísimo para nosotros.

Entonces ir a la plaza se convierte en una posibilidad de una nueva forma de vida?

Sí, es así. No hay un liderazgo del movimiento, pero toda persona puede llevarte a otra. Cuando alguien lanza un lema, la idea es que otro pueda venir a seguirlo. Se puede llevar a las personas estando en el medio de ellas. Esto es diferente de la Onda Verde, pues la ilusión de un posible reformismo del régimen ya ha sido superada. También los reformistas que se unieron al movimiento perdieron la confianza en las reformas. Rouhani hizo muchas promesas, pero no mantuvo ninguna.

Una amiga mía, que goza de una buena condición social, en los últimos días se preguntaba cómo nunca había sucedido algo así: ella viaja, vive en un barrio burgués, no puede vivir como un occidental pero tiene todo lo que desea. Ella sostiene que es necesario aumentar el nivel de formación y de cultura, pero cómo hacerlo si las personas no tienen qué comer? No deberíamos enseñar nada a las personas, sino a los gobiernos. La gente como mi amiga cree que sí hay algunos problemas, pero que en general tenemos una vida bella y feliz.

Según usted, ese tipo de persona está asustada por las protestas?

Sí, están asustados con un cambio de régimen, porque tuvieron la experiencia de la revolución de 1979, que resultó en muchos muertos. Después de 40 años, no hubo progreso, ya que todavía hay personas que creen que es posible una reforma interna al régimen. Sin embargo, como ya dije, se trata de un número cada vez más reducido; en las calles, han sido atacados todos los símbolos de la República islámica. Esto sí, es totalmente poco usual, porque si usted es atrapado gritando “muerte a Khamenei”, toma de 15 a 20 años de prisión. Pero la gente ahora está harta. En 2009, el gobierno disparaba y mataba sin miedo, pero ahora el miedo cambió de lado, teme sobre todo el plan de las relaciones internacionales. Hasta aquí han muerto 29 personas, pero en los primeros días el gobierno no intervino. Los muertos son personas normales, principalmente jóvenes. La gente tiene rabia, quieren destruir todo, porque están hartos.

¿Quiénes son los que fueron engañados por los bancos que usted había hablado, que fue una de las fuerzas motrices de las protestas?

También aquí hay que explicar el funcionamiento particular del sistema económico iraní, que se basa en el Sepáh-e Pâsdârân-e, una fundación creada por el líder supremo después de la revolución khomeinista. Khamenei creó cinco o seis fundaciones, que sirven de sustentación del régimen. Lo que efectivamente comanda Irán es la Sepáh-e, los bancos y las fábricas están todos en las manos de esa fundación, todos los dirigentes son oriundos de ella, con altísimos niveles de corrupción. En Irán, están asentados algunos de los principales bancos islámicos del mundo, según un pronunciamiento del líder supremo en 2006, los bancos nacionales no pueden ser privatizados; los demás pueden tener hasta el límite del 40% de capital privado. Entonces todo esto depende del régimen, de manera que, en realidad, los ahorradores fueron engañados por el propio gobierno. No hay nada parecido en Occidente. Además, los estudiantes en el extranjero no pueden recibir los salarios directamente de los propios padres, deben obtenerlos en una especie de “mercado negro”. En los últimos años, se ha asignado un presupuesto para los pobres, pero esos recursos terminaron siendo consumidos por las citadas organizaciones. Nadie puede preguntar dónde van a parar esos recursos, porque, como decíamos, el régimen utiliza el sistema de informantes para estancar cualquier tipo de crítica.

Hoy, la atmósfera política en Irán está muy radicalizada, las cuestiones estallaron: derechos humanos, represión, pobreza, futuro, desempleo. El régimen no está dispuesto a hacer ninguna concesión; pueden decir que habrá reformas en el futuro, sólo para amortiguar el efecto de las protestas, pero en el fondo no se ve nada concreto. Ante las movilizaciones, Khamenei respondió: tengo cosas que decir, pero prefiero decirlas en otro momento. En los últimos días, afirmó que las personas en las plazas son enemigos del régimen. Si hubiera querido cambiar lo que sea, lo habría hecho después de 2009; en vez de eso, todo siempre empeoró. La estructura de ese régimen se funda sobre la represión y ese juego no puede cambiar.

Como las personas en las plazas perciben las palabras del discurso revolucionario? Después de 1979, el régimen se apropió realmente de ese discurso y todos los que luchan por una transformación radical acaban siendo definidos como enemigos de la revolución.

Las personas vivieron aquella revolución y tuvieron su experiencia. Ahora quieren liberarse de ese régimen, llegan incluso a incendiar las mezquitas, porque no aguantan más el control religioso y porque en ellas están las sedes de las organizaciones gubernamentales. La gente quiere un renacimiento iraní. Las protestas actuales pueden llegar a su fin, pero la gente camina hacia una nueva estación de la historia iraní.


Traducción del portugués al español: Santiago de Arcos-Halyburton

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A revolta da confiança http://uninomade.net/tenda/a-revolta-da-confianca/ http://uninomade.net/tenda/a-revolta-da-confianca/#respond Sat, 06 Jan 2018 16:43:48 +0000 http://uninomade.net/?post_type=tenda&p=3690 Entrevista com Amir Farshadi, por Anna Curcio e Giuseppe Casale, ao Commonware, 6/1/18 | Trad. UniNômade

Estão circulando relatos e comentários sobre os protestos que, nos últimos dias, inflamaram o Irã. Com frequência, os textos somente ecoam os refrães midiáticos mais consolidados. Há poucas análises, contudo, capazes de penetrar mais fundo, para explicar a composição e a genealogia dos protestos, e refletir sobre as repetições e novidades que as caracterizam. Com Amir Farshadi, um estudante iraniano atualmente na Itália, tentamos descrever a forte especificidade do contexto político, social e econômico da República islâmica e, ao mesmo tempo, em sua análise pudemos encontrar ressonâncias e alguns traços comuns em relação a outras lutas na crise, igualmente desencadeadas a partir de condições de empobrecimento, passando pela corrupção do regime, até chegar à mobilização daqueles que tiveram as suas poupanças confiscadas ou arruinadas pelos bancos. Emerge de suas palavras uma genuína revolta da confiança, a ser entendida num duplo sentido: por um lado, é quebrada a relação de confiança com o regime e a possibilidade de uma reforma; por outro, se reconstitui uma relação de confiança entre as pessoas. [Nota de Commonware]

Como nasceram as mobilizações que estão inflamando o Irã?

É um protesto espontâneo, ninguém está conduzindo. O protesto explodiu em Mashhad, uma cidade xiita fundamentalista, contra a política de reformas do presidente Rouhani. Ela serviu de inspiração para as pessoas de outras cidades e rapidamente, em quase todos os lugares, começou uma sublevação contra a República islâmica. Nos primeiros dias, os slogans tocavam questões econômicas, depois passaram a mirar em Khamenei, nos “reformistas”, nos “radicais”, em todas as diferentes posições internas à República islâmica. Os slogans mostram que a gente está cheia, que não quer mais esse regime. É a primeira vez que os slogans se dirigem contra Khamenei em pessoa, o que sempre foi considerado um santo, sobretudo, da parte dos pobres. Com isso, se quebrou um tabu. A gente viu ao longo das últimas décadas o governo iraniano roubar a riqueza do país, gastar o dinheiro do povo na Síria ou Iraque, e não aguenta mais a ditadura islâmica. A crise é simultaneamente política e econômica. Os salários estão estagnados, o custo de vida, dos alimentos e dos aluguéis, continua a subir, enquanto o regime impede qualquer forma de crítica ou dissenso

Quem são as pessoas que estão descendo à praça?

São muito diferentes entre si. Há garotos, muito jovens, mas também pais de família, idosos. Entre as vítimas dos últimos dias, há inclusive um menino de 11 anos. Entre os que protestam, estão muitos que foram enganados pelos bancos e que perderam poupanças de uma vida inteira, e que agora estão entre os mais acirrados opositores ao sistema. Nas ruas, se veem muitas famílias normais de classe média, mas também representantes das camadas sociais mais baixas. A classe média no Irã sempre viveu numa espécie de zona de conforto, teve acesso a uma vida confortável; tem carro, faz as suas festas, pode viajar aos países vizinhos, frequenta bares e concertos, e não está disposta a pôr em xeque a sua própria forma de vida. Até o momento, embora a classe média não tenha sido atingida pela crise, ela não deixou de desejar ver uma mudança de regime, ainda que não possa explicitar isso. Nos últimos meses, as coisas mudaram, desceram à praça também os aposentados e os enganados pelos bancos, e depois do protesto em Mashhad, começou um zum-zum-zum espontâneo, sobretudo através da internet, em particular pelo Telegram, que levou as pessoas a mobilizarem-se. Em suma, na praça há um pouco de tudo. Pessoas que estudaram e que não tiveram a chance (no Irã, há uma alta porcentagem de diplomados), enfim, muitos segmentos sociais. Há, por exemplo, os idosos que estiveram na revolução khomeinista e que agora dizem “nos enganamos, agora estamos pior do que antes”.

Era possível imaginar uma explosão desse tipo?

Absolutamente não. E se entende por que, se olharmos ao que acontecia antes dos protestos. A partir da revolução islâmica khomeninista, se estabeleceu um sistema político institucional particular, com um nível de repressão tal que alimenta continuamente a imigração e a fuga. Ao longo dos anos, esse nível de repressão operou também sobre o plano psicológico, os iranianos não fazem política porque têm medo. E quando não é possível manifestar os próprios desejos, eles acabam se acumulando e explodindo. Foi assim com o movimento da Onda Verde (2009-11), que agregou as demandas por mudança; mas, depois, com a repressão e o assassinato de muitas pessoas, o medo voltou a dominar. A impressão, no entanto, é que as manifestações destes dias tenham conseguido vencer o medo por que as pessoas estão cheias de viver numa condição constante de pobreza e estão dispostas inclusive a morrer para mudar as coisas, por isso saem às ruas.

Depois da guerra com o Iraque (1980-88), o sistema econômico iraniano começou a falir. O então presidente Rafsanjani realizou uma abertura internacional que, no final das contas, não deu em nada, porque a inflação e as sanções pesaram fortemente contra o país. Assim, começamos a caminhar até onde estamos. Agora o governo se encontra numa fase delicada e ninguém pode dizer o que vai acontecer. Nesses dias na praça, eclodiram todos os problemas acumulados nos últimos 40 anos, durante o período de Khatami e de seu governo reformista, e durante o período de Ahmadinejad, que arruinou o país. As pessoas não aguentam mais, sofrem, mas não têm um objetivo preciso. O único é fazer cair o regime. Para entender o que está acontecendo, é indispensável conhecer o sistema político e econômico iraniano, construído ao redor do líder supremo. A partir de 19 de julho de 1988, começaram as execuções em massa de milhares de prisioneiros políticos, que prosseguiram por cinco meses e tiveram como alvos principais os Mujaheddin do povo iraniano, identificados como exército de libertação nacional, além de outras organizações de esquerda, como o Tudeh. As estimativas sobre as execuções variam de 8 mil a 30 mil pessoas assassinadas. Esses são fatos importantes para se entender o subsolo das mobilizações de hoje, pois agora a gente sabe de tudo. Não são apenas as questões econômicas, que de qualquer modo assumem grande importância, mas também a repressão política do dissenso, que realmente constitui um elemento adicional, com cada vez mais força, a impelir as pessoas à rua.

Podemos então dizer que a motivação forte é a contraposição ao regime. Por que explodiu justamente agora?

O presidente Rouhani chegou ao poder há cinco meses, fazendo muitas promessas de mudança. Milhões de pessoas, provenientes de vários setores da sociedade, confiaram naquelas promessas, que envolviam pôr fim à atmosfera repressiva, liberar os prisioneiros políticos, aumentar os direitos, pôr fim ao isolamento do Irã. Depois das eleições, as coisas só pioraram mais e mais. As pessoas que votaram por Rouhani se ressentiram de vê-lo passar ao lado dos fundamentalistas, então pensam de terem sido enganadas ao votar nele. Os comunistas sustentavam que não era preciso votar. Já a classe média, votou nele, mas agora está desiludida. Todos os extratos sociais se reencontram neste momento numa situação similar de perda da confiança quanto à possibilidade de mudanças no regime. Faz dois meses que, pela primeira vez, os aposentados e os que perderam as poupanças vinham descendo à praça pacificamente. É previsível que, nas próximas eleições, haverá uma queda do número de eleitores, porque a confiança na mudança, mais uma vez, acabou sendo traída.

As sanções de Trump determinaram uma diminuição no preço do petróleo, sobre  o que se alicerça a economia iraniana. Os repasses vindos do exterior foram bloqueados. Isso foi o estopim para a situação, mas não significa que os interesses americanos seja o que move os protestos. Há uma parte da classe média que quer a democracia mas que, em comparação com a pregressa Onda Verde, agora enxerga uma chance menor disso acontecer; e por fim há os pobres que, ao chegar, determinaram uma virada nas manifestações.

Qual é a ligação entre as formas de vida no Irã e os protestos?

No Irã, se dá um tipo de vida dupla. A República islâmica deveria ser uma democracia, mas isso é um paradoxo. O regime iraniano é uma ditadura, se deve obedecer, fazer o que mandam: se você é um bom muçulmano ou finge sê-lo, poderá viver sem ser incomodado. Deve, porém, manter uma vida dupla: pode até deixar de acreditar em tudo, mas é preciso demonstrar que acredita. Assim, em privado, se tolera que se faça uma série de coisas, mas em público é imperioso que seja mostrado um comportamento de bom muçulmano. Desde criança você aprende a vida dupla, o que causa tantas condutas ruins, como mentir ou ser infiel a si mesmo, mas que é o único jeito de manter os próprios direitos. Porque não é possível ter direitos se você resolver ser você mesmo. Para ter direitos no espaço público iraniano, somente é possível se demonstrar ser um bom muçulmano. Há muitas pessoas de saco cheio disso, pois já tiveram o bastante. Os protestos lançam uma mensagem: todos juntos, os iranianos são contra ter de viver essa vida dupla que te leva a mentir, trair e trair-se, a não confiar um no outro.

Os protestos então são contra a República islâmica e a dupla vida que ela impôs.

Essa é uma questão indubitavelmente ligada aos protestos, porque todos os problemas sociais, neste momento, comparecem na praça. Como eu dizia, a vida dupla produz como efeito que as pessoas não confiem umas nas outras. Sempre ocorre o pensamento que aqueles que me são vizinhos podem ser espiões a serviço do governo, então não posso lhes revelar tudo o que eu queira. Dessa maneira, o governo iraniano colonizou as vidas da população, por conseguinte, normalmente as pessoas não estão unidas. Mas, com os protestos, elas podem declarar: agora podemos estar novamente unidas contra o regime. Essa é a mensagem das manifestações: você é meu irmão. Queremos ter uma só vida. Não queremos ser bons muçulmanos, queremos ser nós próprios, queremos compartilhar com os outros o que fazemos.

Podemos então dizer que é um protesto baseado na construção de relações de confiança?

Em certa maneira, sim. Dou um exemplo. Há algumas semanas, houve um forte terremoto na fronteira com o Iraque, numa zona curda, com casas destruídas e mortos, e o governo não fez nada. Em todo o país, ao contrário, as pessoas se mobilizaram através das redes sociais e enviaram dinheiro, roupas e materiais de apoio àqueles que haviam sido atingidos pelo terremoto. Essa é a prova que não se pode ter confiança no governo e que as pessoas devem aprender a confiar umas nas outras. Essa ideia não é possível quando se vive uma vida dupla, nesse caso, reina a desconfiança entre as pessoas. Com o terremoto e o apoio mútuo, se demonstrou que é possível mudar a situação, construindo relações baseadas na confiança.

Uma das estruturas mais fortes da República islâmica é o sistema de vigilância e de informantes. Pode acontecer de você descobrir que o seu amigo de anos é um espião. Desse modo, o regime canalizou a revolução de 1979, capturando-lhe as energias e, agora, tenta sobreviver. Também no exterior, por exemplo, aqui na Itália, há espiões que controlam os iranianos, para reprimir aqueles que possam contrapor-se ao regime. No Irã, há 80 milhões de pessoas, de diferentes culturas e idiomas. O regime quer controlar que ninguém se mobilize contra ele próprio, inclusive dentro das conversas, para que não haja nenhum dissenso, nada capaz de ampliar-se, crescer, contagiar. Nesses 40 anos, isso cultivou o medo entre as pessoas; por isso ver as pessoas assim nas praças vale muitíssimo para nós.

Então ir à praça se torna uma possibilidade de uma nova forma de vida.

Sim, é assim. Não há uma liderança do movimento, mas toda pessoa pode te levar a outra. Quando alguém lança um slogan, a ideia é que outro possa vir a segui-lo. Pode-se levar as pessoas estando no meio delas. Isso é diferente da Onda Verde, pois a ilusão de um possível reformismo do regime já foi superada. Também os reformistas que se uniram ao movimento perderam a confiança nas reformas. Rouhani fez muitas promessas, mas não manteve nenhuma.

Uma amiga minha, que goza de uma boa condição social, nos últimos dias se perguntava como nunca havia acontecido algo assim: ela viaja, vive num bairro burguês, não pode viver como um ocidental mas tem tudo o que deseja. Ela sustenta que é preciso aumentar o nível de formação e de cultura, mas como fazer isso se as pessoas não têm o que comer? Não deveríamos ensinar nada às pessoas, mas sim aos governos. Gente como a minha amiga acredita que, sim, há alguns problemas, mas que no geral temos uma vida bela e feliz.

Segundo você, esse tipo de pessoa está amedrontada pelos protestos?

Sim, estão amedrontados com uma mudança de regime, porque tiveram a experiência da revolução de 1979, que resultou em muitos mortos. Depois de 40 anos, não houve progresso, porquanto haja ainda pessoas que creem que seja possível uma reforma interna ao regime. Todavia, como eu já dizia, se trata de um número cada vez mais reduzido; nas ruas, têm sido atacados todos os símbolos da República islâmica. Isto sim, é totalmente pouco usual, porque, se você é pego gritando “morte a Khamenei”, pega de 15 a 2o anos de prisão. Mas as pessoas agora estão fartas. Em 2009, o governo disparava e matava sem medo, as agora o medo mudou de lado, teme sobretudo o plano das relações internacionais. Até aqui foram mortas 29 pessoas, mas nos primeiros dias o governo não interveio. Os mortos são pessoas normais, principalmente jovens. As pessoas estão com raiva, querem destruir tudo, porque estão fartas.

Quem são os que foram enganados pelos bancos de que você tinha falado, que foi uma das forças motrizes dos protestos?

Também aqui é preciso explicar o funcionamento particular do sistema econômico iraniano, que é baseado no Sepâh-e Pâsdârân-e, uma fundação criada pelo líder supremo depois da revolução khomeinista. Khamenei criou cinco ou seis fundações, que servem de sustentação do regime. O que efetivamente comanda o Irã é a Sepâh-e, os bancos e as fábricas estão todos nas mãos dessa fundação, todos os dirigentes são oriundos dela, com altíssimos níveis de corrupção. No Irã, estão sediados alguns dos principais bancos islâmicos do mundo, segundo um pronunciamento do líder supremo em 2006, os bancos nacionais não podem ser privatizados; os demais podem ter até o limite de 40% de capital privado. Então tudo está dependente do regime, de maneira que, na verdade, os poupadores foram enganados mesmo pelo próprio governo. Não há nada sequer parecido no Ocidente. Além disso, os estudantes no exterior não podem receber os salários diretamente dos próprios pais, devem obter-lhes numa espécie de “mercado negro”. Nos últimos anos, foi alocado um orçamento para os pobres, mas esses recursos terminaram sendo consumidos pelas citadas organizações. Ninguém pode perguntar onde vão parar esses recursos, porque, como dizíamos, o regime utiliza o sistema de informantes para estancar qualquer tipo de crítica.

Hoje, a atmosfera política no Irã está muito radicalizada, as questões explodiram: direitos humanos, repressão, pobreza, futuro, desemprego. O regime não está disposto a fazer nenhuma concessão; podem dizer que haverá reformas no futuro, apenas para amortecer o efeito dos protestos, mas no fundo nada de concreto se avista. Diante das mobilizações, Khamenei respondeu: tenho coisas para dizer, mas prefiro dizê-las noutro momento. Nos últimos dias, afirmou que as pessoas nas praças são inimigos do regime. Tivesse ele querido mudar o que quer que seja, o teria feito depois de 2009; em vez disso, tudo sempre ficou pior. A estrutura desse regime é fundada sobre a repressão e esse jogo não pode mudar.

Como as pessoas nas praças percebem as palavras do discurso revolucionário? Depois de 1979, o regime se apropriou realmente desse discurso e todos os que lutam por uma transformação radical acabam sendo definidos como inimigos da revolução.

As pessoas viveram aquela revolução e tiveram a experiência dela. Agora querem libertar-se desse regime, chegam inclusive a pôr fogo nas mesquitas, porque não aguentam mais o controle religioso e porque elas sediam organizações governamentais. As pessoas querem um renascimento iraniano. Os protestos atuais podem chegar ao fim, mas as pessoas caminham na direção de uma nova estação da história iraniana.

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Fujimorismo sem Fujimori http://uninomade.net/tenda/fujimorismo-sem-fujimori/ http://uninomade.net/tenda/fujimorismo-sem-fujimori/#respond Wed, 03 Jan 2018 10:53:28 +0000 http://uninomade.net/?post_type=tenda&p=3688 Por Víctor Miguel, em Lobo Suelto, 25/12/17 | Trad. UniNômade

imagem: Musuk Nolte para Ojo Público

Agora não importa quem nem como aconteceu. O indulto outorgado a Alberto Fujimori pelo presidente Pedro Pablo Kuczynski (PPK) encerra o ciclo da governabilidade democrática pós-ditadura no Peru e — como assinala o companheiro Abel Gilvonio — “abre outros caminhos de organização, mobilização e enfrentamento contra o modelo mais além das vias institucionais”.

Não importa “quem” porque o PPK opera a partir do Estado sob uma racionalidade governamental fundada por Fujimori, em 1990, com o sangue de vítimas inocentes, desaparecimentos de dirigentes sociais e jornalistas, esterilizações forçadas de camponesas e um longo etcétera, o que permitiu que fosse construído um sistema de aprofundamento da impunidade, do clientelismo e da corrupção. Uma ordem de coisas pelo que Fujimori, até poucas horas atrás [25/12], cumpria uma sentença condenatória, cujo término seria em 2032 [1].

Agora não importa “quem” porque estamos ante um assunto de memória histórica em que as esquerdas, os movimentos sociais e todas as forças cidadãs não precisam de vanguardas (nem disputas) nem programas de governo pré-projetados. Temos uma demanda e uma oportunidade que nos foram impostas e o único programa é a rua e a mobilização. Aqui há uma ética e novos tecidos a ser forjados. Não há mais chantagens impostas pelos que sempre governaram. Não há mais “direita boa” e “direita má”. Não há mais a ameaça de ver Fujimori em liberdade. Não há desculpas para a divisão. Hoje a estratégia e a tática convergem (ou se dissolvem) no único propósito de não deixar passar o pacto infame de PPK [2] às vésperas do Natal.

Crítica e rua. Plano e ação. Que tipo de democracia nos trouxe até aqui? O que significa a raiz popular do fujimorismo e como ele se legitimou eleitoralmente nos últimos anos? O que supõe a mudança de governabilidade de um Terrorismo de Estado a um fujimorismo sem Fujimori? O que se passa com as irrupções que impugnam, por um tempo, esta ordem neoliberal que pode virar o Estado contra os que tentam reformá-lo? Como as diversas esquerdas lemos as multidões que jamais se harmonizaram com esse modelo e que nunca renunciariam ao antagonismo nas ruas? Que classes de lutas e alianças precisamos fazer para conferir-nos a vida que queremos?

Perguntas urgentes que não poderão ser respondidas senão a partir do ensaio de encontro da multidão. Uma multidão que fez fracassar o modo de operar do Estado, como o fez em julho de 2000, com a “Marcha de los Cuatro Suyos” [3] (inspirada nos quatro pontos cardeais do Império Inca), e que quebrou com a governabilidade do fujimorismo de então, para além das conduções personalistas que a representação política logo assumiria. A história não se repetirá, mas os acontecimentos recentes insistem na necessidade de resgatar a desobediência plebeia das ruas. Não haverá paz duradoura sem justiça que seja respeitada. Pelas vítimas de Barrios Altos e la Cantuta. Não podemos esquecer.

Notas

[1] http://archivo.elcomercio.pe/politica/gobierno/ultimo-minuto-fujimori-recibe-maxima-pena-violar-derechos-humanos-seguira-preso-hasta-anos-edad-noticia-270209

[2] https://www.pagina12.com.ar/84635-ppk-zafo-a-ultima-hora-pero-quedo-malherido

[3] https://es.wikipedia.org/wiki/Marcha_de_los_Cuatro_Suyos

 

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Estratégias e estratagemas http://uninomade.net/tenda/estrategias-e-estratagemas/ http://uninomade.net/tenda/estrategias-e-estratagemas/#respond Mon, 01 Jan 2018 20:48:55 +0000 http://uninomade.net/?post_type=tenda&p=3685 Por Gustavo Gorriti, no El País Internacional, 26/12/17 | Trad. UniNômade

Uma semana natalina que vai demorar a ser esquecida, de sucessão vertiginosa de surpresas, de estratagemas que puseram inteiras estratégias abaixo. Nem Sun Tzu nem Maquiavel, mas Game of Thrones: sem dragões, sem sangue, sem sexo, mas com todo o resto, o que não é pouca coisa.

Durante a semana, o conflito se desenvolveu assim: no Congresso, a maioria neofujimorista que obedece a Keiko Fujimori planejou derrubar o enfraquecido presidente Pedro Pablo Kuczynski, por meio de um processo sumaríssimo de destituição, ao acusá-lo de “incapacidade moral permanente”. Era uma blitz que deveria resolver-se no dia 21, graça ao surpreendente apoio do esquerdista Frente Amplio e ao menos surpreendente do Partido Aprista Peruano, do ex-presidente Alan García.

Parecia um resultado inevitável. O presidente foi abandonado pela maioria de seus ministros, que o instou a renunciar. Apenas um par de ministros permaneceu a seu lado na revoada. Desesperado, Kunczynski buscou a ajuda das pessoas que tinham lhe prestado uma assessoria de emergência no segundo turno presidencial de 2016 (todas opositoras à autocracia fujimorista), quando parecia delineada uma segunda derrota. A jornalista Rosa María Palacios, o ex-premiê Pedro Cateriano e o ex-senador Alberto Borea não foram os únicos a estar entre as principais delas. Nessas horas, quando Kuczynski quis contatar a OEA para lançar mão da Carta Democrática, o chanceler Ricardo Luno, um dos que advogou pela renúncia, se negou a fazê-lo. O PPK teve que remeter pessoalmente uma carta redigida por Cateriano ao secretário geral da OEA Luis Almagro. A experiência, dissera à época o presidente, lhe deixava ensinamentos indeléveis sobre lealdades, traições e erros próprios.

Graças à assessoria de emergência, o confuso e errático PPK dos dias anteriores soou convincente e digno em sua mensagem à nação, no dia 20, e quando da sua própria defesa no Congresso, no 21. Durante o longo debate parlamentar, por trás dos arroubos retóricos vociferados no semicírculo, a batalha real se deu na disputa por votos. Quando o Frente Amplio persistiu em sua aliança com o fujimorismo, parecia que a sorte estava decidida.

Mas na votação veio a surpresa: 10 congressistas fujimoristas, entre os quais Kenji Fujimori, se abstiveram, e anularam o efeito da mudança de lado do Frente Amplio. Dois dos cinco apristas também se abstiveram e a presumida vitória e mudança de regime que coroaria a blitz fujimorista reverteu em derrota.

No dia 22, um triunfante Kuczynski agradeceu, entre outros, a Cateriano, Borea, Palacios. Assegurou-lhes uma mudança de estratégia voltada a um vigoroso esforço democrático. Sobre os rumores de um possível indulto a Alberto Fujimori (que tinha apresentado uma petição), o PPK sustentou enfaticamente que isso não ocorreria, e que não seria sequer discutido durante o período de festas. Que as lições aprendidas tinham sido claras. Falei com ele também e me disse o mesmo.

Nos dias 23 e 24, o PPK recebeu várias pessoas, entre as quais alguns dos ministros que lhe tinham pedido para renunciar. Era meio dia de 24, quando o rumor disparou que iria indultar Fujimori, o que aconteceu horas mais tarde.

A reação da gente que o defendera nos dias anteriores foi instantânea. Cateriano condenou “o ato de traição à  democracia e aos direitos humanos, cometido por [PPK] (…) um  pacto político infame”. “O presidente me mentiu”, escreveu Palacios: “(…) perdeu todo o respeito que tinha”. Borea, o seu advogado defensor, exprimiu-se assim: “de maneira categória, o meu total desacordo. Fui surpreendido com o indulto a Alberto Fujimori”. Pouco depois, começavam os protestos na rua contra o “indulto express” e a “traição de Kuczynski”.

O estratagema de Kenji Fujimori, que conduziu ao ato perpetrado pelo PPK, prefiguraria, após a surpresa e as rupturas internas, uma nova aliança? Pode ser que, em parte, sim.

A qual custo? No desordenado cenário atual, o PPK perdeu a credibilidade, demonstrou que a sua palavra vale menos que um bilhete de 13 soles, conseguiu obter o desprezo da maioria antifujimorista que se considerou traída, e perdeu integrantes de sua própria bancada, que renunciaram; sem com tudo isso ter angariado o apoio de Keiko Fujimori, cuja força ainda é considerável.

Uma mudança assim, de um dia para o outro, obedece à estratégia ou à neurologia, à astúcia ou à dissonância cognitiva? Talvez isso não importe tanto. Quem dispara desabaladamente assim pode o fazer por muitas razões, mas o que fica no final, junto às ferraduras, é uma pata machucada.

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O exército dos tranquilos http://uninomade.net/tenda/o-exercito-dos-tranquilos/ http://uninomade.net/tenda/o-exercito-dos-tranquilos/#respond Tue, 26 Dec 2017 21:09:24 +0000 http://uninomade.net/?post_type=tenda&p=3681 Por Ariel Pennisi, em Cosecha Roja, 21/12/17 | Trad. UniNômade

Santiago Maldonado e o exército dos tranquilos

Um cadáver pode ser matéria para a verdade na medicina e no poder judicial, mas a verdade na política é mais complexa. Que os cadáveres falem é uma obsessão dos fanáticos de séries protagonizadas por peritos forenses. Não é, precisamente, o cadáver de Santiago Maldonado quem tem de dar explicações nem dizer mais do que o que já foi dito nos seus gestos em vida. Os acusados por um crime de Estado são os que nos devem, no mínimo, a palavra e a disponibilidade perante o poder judicial: a polícia, os funcionários do Ministério da Seguridade, começando por Patricia Bullrich e mesmo o presidente da nação.

A ficção midiática e o imaginário social imediato preparam o prestígio inflamado de que goza o saber médico. Vocês quereriam, então, pôr em dúvida as competências enunciativas de uma autópsia tão fiscalizada? De modo algum, não queremos. O que colocamos em questão é a redução de um caso complexo como esse, que toca nervos sensíveis da nossa vida coletiva e da nossa história recente,  a um terreno asséptico e despolitizado. Pois o que um determinado terreno deixa brotar ou não constituem questões fundamentais.

As perguntas próprias de um perito põem de escanteio as perguntas do pesquisador social, cuja vocação holística avança em todas as direções, mas isto atemoriza tanto os funcionários em exercício de suas funções quanto as forças de segurança. Mas o faz não sem antes pôr a descoberto as maquinarias de encobrimento, feitas à base de grandes tiragens, panos quentes e trolls virtuais.

É doloroso o modo como essa madeixa ingressa na trituradora de um senso comum que passa da indolência ao gozo da fofoca fácil, proporcionada pelo programa de televisão favorito ou pela cloaca virtual. Tão impressionável na hora de consumir os teatros morais roteirizados pelos novos teólogos da anticorrupção, não se impressiona contudo ante um corpo boiando num rio tornado vala sepulcral, uma vida convertida em exemplo mortuário do gesto disciplinador do Estado empresário. Pablo Nocetti, o funcionário pró-ditadura, comandou a caçada a partir das terras arrebatadas do povo Mapuche Tehuelche, hoje nas mãos da Benetton.

Se pretendemos uma visada holística sobre o modo de desaparecimento forçado e morte de Santiago Maldonado, não podemos poupar registros (histórico, político, econômico, libidinal). Quem nos acusa de politizar o caso e põe o foco apenas na referência técnica, como único terreno de discussão, está jogando pelo encobrimento.

O deslocamento dramático consiste em pretender resolver um fato político numa convocação de peritos, quer dizer, um fato não periciável ou, no mínimo, entretecido de outras habilidades e visadas, mais atentas à complexidade em questão. Pretende-se dessa maneira totalizar a discussão por meio de um todo que, na realidade, deveria participar de outro todo, desta vez, um todo não totalizante: o político social.

Ouve-se nas ruas: “quero ficar tranquilo”. Numa propaganda da campanha de Cambiemos, uma garota explicava: “Voto no Cambiemos porque quero ficar tranquila”. Estará a nova peritocracia oferecendo boa consciência a baixo preço para os anseios imaginários do bom vizinho? O exército dos tranquilos encontra na assepsia política do perito um novo aliado, outro saber prestigioso onde encostar-se. Na linguagem dos vizinhos, “ficar tranquilo” significa crer por um momento, o mais possível, que algum agente da ordem se encarregue dos conflitos… Ainda que preferisse mesmo era pensar que não deveriam existir maiores conflitos se cada um apenas fizesse “o que tem que ser feito” (como recita um dos slogans do Pro na Cidade de Buenos Aires: “fazendo o que tem que ser feito”). Dessa maneira, são rotulados aqueles envolvidos num conflito como os “conflitivos”, para ao fim abonar a teoria geral da ordem: não existe conflito, mas conflitivos.

“O que esse hippie tinha que fazer lá?” Um taxista se referiu a Santiago Maldonado com desprezo, ao questionar a passeata pelo terceiro mês de seu desaparecimento seguido de morte. “Por que se manifestam se já aconteceu, se já o encontraram?” Tomava como informação de primeira mão as revelações que alguns meios de comunicação faziam circular, em relação de cumplicidade com o governo, ao redor das causas da morte de Maldonado. Todo um fluxo anímico se compõe assim com sedimentos históricos macabros e certa ilusão despertada por um novo governo, que organiza o afã normalizador do momento.

O taxista prossegue: “quando fiquei sem trabalho eu não fui fechar uma rua”. Trabalhar e perder o trabalho sem criar caso, velar pela lei e pela ordem como um qualquer a mais… salvo é claro nas exceções, isto é, em momentos quando a exceção o possui por completo e o bom vizinho, o trabalhador honesto participa de um linchamento, isto é, quando agride gravemente ou mata. Triste exceção para confirmar a regra: “às vezes me dá vontade de pisoteá-los…”, diz sereno ante o seu totem de três luzes. O que o impede?

 

Ariel Pennisi é ensaísta, professor (Undav, Upaz, Fuc) e editor (Autonomía, Quadrata, Ignorantes).

Nota do autor: O texto contou com a valiosa interlocução de Juan Manuel Solo.

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La crisis de la intelectualidad brasileña http://uninomade.net/tenda/la-crisis-de-la-intelectualidad-brasilena/ http://uninomade.net/tenda/la-crisis-de-la-intelectualidad-brasilena/#respond Thu, 21 Dec 2017 21:40:36 +0000 http://uninomade.net/?post_type=tenda&p=3678 Entrevista con Raphael Tsavkko Garcia, por Patrícia Fachin (IHU online), en 15/12/2017 | Traducción: Santiago Arcos

La crisis de la intelectualidad brasileña, la interdicción del debate y la imposición de patrones de comportamiento y pensamiento

La situación política de Brasil es “desesperante y con pocas posibilidades de ver una luz al final del túnel”. Lo que se ve en el ámbito público, especialmente en la clase política, son “extremos rabiosos haciendo teatro para agradar a militancias fanatizadas que, detrás de las escenas, dicen amén al mercado y buscan mantener a salvo los intereses de las mismas oligarquías – y, de paso, hundir “Lava Jato”, dice Raphael Tsavkko García a la IHU On-Line. La derecha y la izquierda, subraya, “apuestan a la censura, la intimidación, fanatización y radicalización de discursos que, en la práctica, no difieren mucho”.

En la entrevista a continuación, concedida por e-mail, García critica que parte de la “intelectualidad” brasileña que “siguió la marea y se mantiene fiel al PT y sus narrativas, aunque para ello sean forzados a prostituirse académicamente”. Según él, “es notorio que las tesis sobre la clase media -demonizándola y culpándola por todos los males- fueran pinzadas para adecuarse a las narrativas del PT de que sería perseguido por hacer lo mejor para los pobres”.

Según él, la crisis brasileña no es sólo política, sino intelectual, y se expresa particularmente en las redes sociales y en las universidades, a través del comportamiento de los “justicieros sociales”, que han imposibilitado el debate político y discusiones sobre género y racismo. “Son personas, muchas de ellas líderes, integradas al movimiento negro, feminista y LGBT, que tienen como agenda no la superación del prejuicio / machismo / homofobia, sino la imposición de un aislamiento, de safe spaces, de la construcción de realidades e historias alternativas sin conexión con la realidad, en fin, muchas veces predican odio para, dicen, combatir el odio”. Este grupo, afirma, “sustituye pautas universales o universalistas de justicia social, de combate al prejuicio en todas sus vertientes, igualdad, etc. por otras cuestiones de cuño más personal / personalista y micro luchas que acabaron por ser entendidas de forma independiente de las grandes luchas. Por ejemplo, la lucha contra el racismo o los derechos de las mujeres pasó a ser comprendida no como el desdoblamiento o continuación de grandes luchas, sino como algo aislado, un fin en sí mismo – existiendo incluso dentro de escalas de opresión en que corresponde a los miembros de los movimientos elegir a cada momento cuál es más importante sin absolutamente ningún criterio”.

Las consecuencias de ello, advierte, ya pueden ser vistas hoy, como “interdicción del debate, imposición de patrones de comportamiento y pensamiento visando la negación de la diversidad y la imposición del pensamiento único”.

IHU On-Line – ¿Cuál es su análisis sobre la situación política de Brasil?

Raphael Tsavkko García – Una situación desesperante y con pocas posibilidades de ver una luz al final del túnel en el corto y mediano plazo. Extremos rabiosos haciendo teatro para agradar a militancias fanatizadas que, entre bastidores, dicen amén al mercado y buscan mantener a salvo los intereses de las mismas oligarquías – y, de paso, hundir Lava Jato.

Junio de 2013 y Lava Jato sacudieron las estructuras del poder y las élites que se turnan en el control del Estado están tratando de reestructurarse mientras apuestan por una inmensa polarización para mantener a la población ocupada en atacar y atacar mientras que cocinan sus acuerdos para enterrar cualquier resistencia(s).

Ambos apuestan a la censura, la intimidación, la fanatización y radicalización de discursos que, en la práctica, no difieren mucho. Es improbable que a corto plazo surjan nuevos liderazgos y movimientos capaces de presentar algo nuevo y que no sean meros caballos de Troya de las estructuras dominantes actuales.

Quiebra de la derecha y de la izquierda

En la derecha tenemos la total quiebra ideológica de partidos como el PSDB o el PMDB, envueltos hasta el cuello en corrupción, cuajados de luchas internas y con reprobación en las alturas. En la extrema derecha tenemos a Bolsonaro que, sobran comentarios, sería el verdadero apocalipsis (incluso con sus intentos de probar ser más comedido y agradable, incluso “liberal”, un ropaje que no le cabe). En la izquierda tenemos el PT – cuyo discurso de golpe ahora ha sido sustituido por el del perdón a los golpistas para que puedan volver a ser aliados – y el resto que orbita a su alrededor y que no son muy diferentes, incapaces de proponer algo nuevo.

Es notable el PSOL que, nacido como una alternativa al PT, espera vergonzosamente que Boulos, notorio lulista, decida si va a competir contra su ídolo. Es desmoralizante. Esparcido, tenemos movimientos que orbitan alrededor de los partidos tradicionales o que intentan proponer algo nuevo aventando candidaturas que suenan como chiste, el caso de Luciano Huck.

Toda aquella efervescencia de junio de 2013 parece, para la izquierda, haberse ido por la alcantarilla. En la derecha, MBL y demás grupos se convirtieron en la punta de lanza de Temer y sus reformas impopulares. Para donde miramos sólo vemos un agujero negro.

IHU On-Line – Muchos evalúan que hay una crisis en la izquierda brasileña. ¿Cuál es su diagnóstico? ¿Cuáles son las razones de la crisis?

– La crisis es obvia y las razones varias, pero en especial se centra en el PT, o mejor, en la insistencia de la izquierda en tener el PT como su salvación. Por años el partido hegemonizó a la izquierda, pequeños desacuerdos y disidencias como el PSTU o el PCO (y posteriormente el PSOL) que no fueron capaces de alterar esa centralidad. El PCdoB siempre se quedó cómodo con su papel de hegemonizar el movimiento estudiantil (a costa de fraudes, intimidaciones y uso de la máquina, claro), dejando la política de gente grande para el PT y comiendo por los bordes.

Finalmente, décadas de hegemonía petista costaron caro a la izquierda, pues cuando la población salió a las calles en 2013 (originalmente con pautas progresistas y de izquierda) el movimiento fue aplastado por el PT, PSDB y demás aliados.

El PT se alió y dio fuerza a los conservadores (a los banqueros, contratistas, etc.). Cuando la izquierda tomó las calles en 2013, muchos petistas y aliados gritaron “que vaya la Policía Militar”, engrosando el caldo de los que llamaban a los que protestaban “vándalos” – y en el período subsiguiente el gobierno creó una máquina represiva y de marketing para derrotar junio tanto en la narrativa como físicamente.

Junio de 2013

Uno de los aspectos cruciales de la narrativa del golpe es que junio de 2013 sería el punto de inflexión que llevó a un recrudecimiento del conservadurismo en Brasil. Junio se inició como un movimiento francamente de izquierda, vinculado al MPL, al derecho al pase libre, contra la privatización del transporte y el aumento de las tarifas.

Una revuelta popular que fue tomando fuerza y extendiéndose por el país. (…) Tenía todo para ser otra de la serie de movilizaciones sociales de izquierda que tienen su momento (o momentum) y luego desaparecen, habiendo conquistado algún avance o al menos impuesto una pauta.

El año 2013 se mostraba un hilo de esperanza -y también se inserta en un “momento global” de luchas y revueltas – no sólo para la izquierda, sino para sectores progresistas de la clase media y hasta para sectores de una cierta derecha liberal con pautas sociales más progresistas. Su aplastamiento por la fuerza de la represión policial acabo por radicalizar por la derecha a los sectores menos politizados que adoptaron un discurso (fácil) de odio al PT y que fueron abrazados por figuras ya establecidas de la extrema derecha, como Bolsonaro, Feliciano (este que fue aliado del PT), entre otros.

La violencia política absolutamente inaceptable que siguió a las manifestaciones acabó por amplificar las movilizaciones que, victimizando pesadamente periodistas, hizo que la marea se virase e incluso que los medios se quedaran al lado de los que se manifestaban. La violencia fue el divisor de aguas y fue usada indistintamente por gobiernos tucanos, petistas y por los aliados de ambos.

Cambio de marea

Cambiado el curso de la marea, las protestas, que ya poseían un carácter difuso, acabaron por ver sus pautas ampliadas e incluso apropiadas por diversos grupos que salieron a las calles. A partir de este punto no había más control. Los sectores de derecha pasaron a participar en las manifestaciones, culminando en episodios de violencia, como en São Paulo, en que miembros de partidos de izquierda fueron agredidos por la turba.

En resumen, Junio fue un momento único, difuso, de múltiples pautas y, en que pese a haber sido iniciado y mantenido por la izquierda, fue también apropiado por otras tendencias políticas. Pero no puede, en modo alguno, ser responsabilizado por el resultado de las urnas. He insistido en el carácter progresista, que fue hegemónico en las manifestaciones y que en muchos lugares acabó sobreviviendo por lo menos un año y desembocó en las protestas anti-Copa por el país. Hemos tenido contradicciones, sin duda, pero el carácter progresista ha sido dominante.

Como pensadores de la talla de Bruno Cava, Moisés Pinto Neto, Giuseppe Cocco, Pablo Ortellado y otros ya han repetido tantas veces, 2013 fue el momento de inflexión. Nada más fue lo mismo después.

La crisis de la izquierda es la crisis del lulismo

Junio anunció o develó un tremendo cansancio de la población con la política tradicional, pero el problema va más allá. El PT se convirtió en muchos lugares partido de caciques, en Río cuenta con milicianos y por allá el partido pasó años apoyando la máquina trituradora del PMDB. No podemos olvidar el apoyo del PT a candidatos de partidos aliados (Kátia Abreu, Collor, etc.), así como coaliciones con partidos dudosos, además de un agotamiento natural del lulismo, que no logró ser sostenido por Dilma, tanto por cuestiones económicas como por su total falta de carisma y habilidad política.

La crisis de la izquierda es la crisis del lulismo, del desarrollismo, de la represión a la propia izquierda y, finalmente, de la incapacidad e incluso falta de voluntad de la izquierda en reinventarse – y en separarse del PT. Para muchos, seguir en la barra de la falda del PT es suficiente. (…) Voto crítico, contra el “mal mayor”, en fin, argumentos manidos que siguen siendo usados mientras el nuevo no nace (pues fue aplastado y por lo visto tiene pavor de volver).

IHU On-Line- En su análisis, la crisis brasileña no es sólo política y social, sino intelectual. ¿Cuáles son las causas de ello y cómo esta crisis se expresa hoy en día?

Raphael Tsavkko García – Gran parte la intelectualidad siguió la marea y se mantiene fiel al PT y sus narrativas, aunque para ello sean forzados a prostituirse académicamente. No citaré nombres, pero es notorio que tesis sobre la clase media -demonizándola y culpándola por todos los males- fueron maquilladas para adecuarse a las narrativas del PT de que sería perseguido por hacer lo mejor para los pobres (irónicamente aquellos del PT no involucrados en corrupción endémica, en especial tales académicos, son notorios representantes de la terrible clase media, cuando no son parte de la élite propiamente dicha).

Otras tesis como las de que el problema no es la corrupción endémica ya citada, sino que es la esclavitud que define a la sociedad brasileña, se embarcan en un discurso que llega a ser risible – y que hace par con los justicieros sociales y sus pautas identitarias, que trataré más adelante. No es que la esclavitud y el racismo no sean marcas de la formación de la sociedad brasileña, el problema aquí es su instrumentalización para intentar justificar la corrupción del PT en el poder, y que es el núcleo de la militancia justiciera.

En el caso de la corrupción, al negarse no sólo a reconocerla y disculparse, sino que negar los hechos en que pese a la prueba, el PT impuso el neo discurso del “roba, pero hace” (no por nada Maluf fue por años aliado del PT, había una simbiosis ideológica). “Hemos llegado al punto en que Lula discursea en defensa de corruptos condenados, minimizando los males de la corrupción, y no faltan militantes que llegan al punto de defender el robo de patrimonio público con la excusa de que eso ayuda al país, que es parte del juego.

Saldo petista

Una parte considerable de la intelectualidad empeño el rigor académico para defender un partido francamente corrupto (no es que sea exclusividad de tal partido, lógico), eso demonizando la élite y la clase media de las cuales son parte y alabando la imagen idealizada de los pobres -ese que pudo comprar nevera, TV y coche, pero cuya ascensión social efectiva fue en gran parte ficticia o interrumpida por la crisis creada por el propio PT en el poder.

La crisis de la intelectualidad es la misma crisis de la izquierda como un todo: falta voluntad para desprenderse de las narrativas del PT, de la fuerza hegemónica. Y, por encima de todo, falta en la izquierda la capacidad de la autocrítica para entender cuándo retroceder y admitir que se equivocó – la insistencia de amplios sectores de la izquierda y de la intelectualidad en el apoyo al régimen de Maduro, Cristina Kirchner, e incluso Putin, lo dejan absolutamente claro. En muchos momentos parece que tenemos ante nosotros un abismo y nos lanzamos de cabeza.

El saldo de 13 años de PT fue de cooptación y neutralización de los movimientos sociales. Y el precio a pagar es alto. CUT, MST y UNE desaparecieron del mapa, nuevos movimientos surgen, como los secundarios, pero son incapaces (todavía?) De ocupar tantos agujeros dejados. La criminalización de las protestas en 2013 y durante la Copa del Mundo denunciaron de forma inequívoca la completa quiebra del PT como aglutinador de luchas populares, por el contrario, mostró al PT como uno más de los enemigos, pero con un poder mayor de cooptación.

Con Dilma no quedó absolutamente nada de las pautas de izquierda del PT de antaño, solo apenas un rescoldo de pésimas decisiones pasadas, aliado a la incapacidad política total y a la prisión impuesta por las alianzas hechas a lo largo de los años. El PT no sólo abandonó las pautas de izquierda, apostando sólo al asistencialismo e incentivo del consumo contra la ciudadanía, así como también engrosó y neutralizó a los movimientos de izquierda, como el MST, la UNE, UBES y sindicatos y centrales, como la CUT, que desde hace mucho dejaron de ser movimientos y organizaciones populares y clasistas y se resumen a marionetas del PT.

IHU On-Line – En sus textos usted ha hablado de “justicieros sociales”. ¿Quiénes son ellos, cómo actúan y cuáles son sus discursos?

Los justicieros sociales son fanáticos que se comportan como secta en “movimientos identitarios”, diciendo defender causas sociales, pero que se limitan a buscar focos y a esparcir el odio – al tiempo que perjudican diversas causas al alejar a los aliados y transformar todos en enemigos. La mayoría de las personas, muchas de ellas líderes, integradas al movimiento negro, feminista y LGBT, que tienen como agenda no la superación del prejuicio / machismo / homofobia, sino la imposición de un aislamiento, de safe spaces, de la construcción de realidades e historias alternativas sin tracción con la realidad, en fin, muchas veces predican odio para, dicen, combatir el odio.

En general apuestan por tesis importadas de los Estados Unidos, una realidad bastante diferente de la brasileña, sin traducción o reinterpretación, intentando imponer patrullas sobre palabras, acciones, vestimenta e incluso pensamiento, teniendo como armas linchamientos virtuales, bullying, patrullas, intimidación, escraches, etc.

Universalismo X personalismo

Se trata de un grupo que sustituye pautas universales o universalistas de justicia social, de combate al prejuicio en todas sus vertientes, igualdad, etc. por otras cuestiones de cuño más personal / personalista y micro luchas que acabaron por ser entendidas de forma independiente de grandes luchas. Por ejemplo, la lucha contra el racismo o los derechos de las mujeres pasó a ser comprendida no como el desdoblamiento o continuación de grandes luchas, sino como algo aislado, un fin en sí mismo – existiendo incluso dentro de escalas de opresión en que corresponde a los miembros de los movimientos elegir a cada momento cuál es más importante sin absolutamente ningún criterio.

No hay más lucha de clases, o si hay, es un telón de fondo en el que el problema real es el negro contra el blanco, el hombre contra la mujer, las desigualdades específicas de grupos, mientras que el resto pasa a ser relegado. No se trata de negar que existan disparidades de género y raza, por el contrario, sino de denunciar que se abandona, muchas veces, la pauta amplia por pequeñeces, por un supuesto “protagonismo” en que es más importante aparecer que efectivamente tratar las cuestiones colocadas.

Y ese cambio de pauta tiene total sentido dentro de la realidad brasileña post-2013 y post-impeachment de Rousseff, al final como usted va a hablar de clase o incluso de izquierda y sus bases cuando su mejor amigo es el PMDB y los banqueros? Precisaron de nuevo pauta, el identitarismo cayó como guante.

Identitarismo

Identitarismo entendido como pautas de grupos identitarios que abandonan, por ejemplo, una agenda de lucha obrera por la agenda del obrero negro, de la obrera mujer negra, de la obrera mujer negra y lésbica, y de ahí en adelante, siempre buscando lo más micro, lo más específico y, no el proceso, demonizando a quien no encaja y tratando a todos fuera del círculo como enemigos.

Escribí esto hace algún tiempo, sobre el tema y la conexión carnal entre militancia identitaria y el PT aún en el poder:

Este movimiento identitarista no viene de la nada, […] tomó cuerpo y ganó fuerza con el petismo y, en especial, después de 2013, lo que reforma su conexión carnal con el gobierno y con el PT. Ambos se retroalimentan, por contradictorio que parezca – ya que el gobiernismo en general promueve lo contrario de lo que, en teoría, tales grupos defienden. El punto central para entender el razonamiento de ellos es que el interés real es el de que grandes luchas no avanzan, lo que los hace calzar perfectamente con el PT, que abandonó toda lucha histórica de la izquierda y la sustituyó por un pastiche, por una colcha de los retazos de paliativos. La unión de estos dos es confortable.

El abandono de grandes narrativas sirve a los intereses del PT, que no es incomodado, dejando pequeñas luchas, muchas veces meras pequeñeces, para ser “tratadas” por los justicieros. Es el espacio que queda, es el confinamiento de los movimientos sociales. Al final, esta alianza de ocasión sirve a los intereses inmediatos de ambos. Esto viene junto con el consumismo impulsado por el partido. La meta es crear mercado consumidor, garantizar poder de compra, luego, el ciudadano pasa a ser mero consumidor y, como sabemos, el consumidor tiene siempre razón.

Al final no se trata de emancipación, mucho menos de combatir efectivamente las causas que llevan al racismo, el machismo y la homofobia endémicas, sino tan sólo de aparecer, “lacrarse”, convertirse en mercadológico, ganar clics y “gustar”, siempre dentro de los límites impuestos por el partido (y aquí entendemos el PSOL como una mera continuidad del PT, no algo aparte). Una especie de mercado de protagonismo.

Cabe señalar que el mayor problema (en ese momento) no es que esos grupos identitarios sean capaces de imponer sus pautas y efectivamente intimidar y constreñir más allá de las redes sociales y espacios universitarios (aunque a largo plazo puedan tener mayor influencia, dado que son cercanos e influencian a los formadores de opinión), sino que sus discursos alejan aliados, obligan a los activistas a abdicar de su militancia al no concordar con sus métodos de censura y control y, al final, son incapaces de construir puentes con el resto de la población.

Un dato curioso: antes de que el PT dejara el poder vía impeachment, no se encontraba mención a Rafael Braga, el único preso y condenado por las protestas de 2013 (sin siquiera participar de éstos), entre la militancia lacradora ligada al PT. No les interesaba. Después de perder el poder pasaron a intentar apropiarse de su imagen para fingir que efectivamente si les importa. Rafael Braga se convirtió en una mercancía vendible para la militancia identitaria, ya no representaba más peligro para la narrativa del PT.

IHU On-Line – ¿Por qué los justicieros sociales perjudican las pautas de izquierda, en su evaluación?

Raphael Tsavkko García – No se hace lucha social o se busca justicia social cerrada en guetos autoimpuestos y considerando que todos fuera de la burbuja son enemigos a ser combatidos. Los justicieros sociales se niegan a cualquier diálogo, no hay espacio para discordancias o para cualquier argumento fuera de la cartilla del grupo (cartilla esta que en general cambia de acuerdo con la voluntad de los auto intitulados líderes).

Cualquier intento de diálogo encuentra un muro de llaves y consignas vacías, como “lugar de habla”, “protagonismo”, “apropiación cultural” – son términos que históricamente tienen validez, pero fueron vaciados al punto de la neutralización de su valor – o el uso de términos como “blanco” y “hombre” (o mejor, “omi”) como si fueran peyorativos. En vez del combate de las razones por las cuales algunas categorías se consideran “normales” o la norma, la idea es combatir a las personas. Un blanco racista no es problemático sólo por ser racista, lo es por ser blanco. El hombre machista, de la misma forma, no es problema por ser machista sólo, sino por ser hombre. Es una lógica de la que no se puede escapar, aunque algunos fundamentalistas de la justicia social todavía concedan la posibilidad de “deconstrucción” – siempre con límites insuperables.

El justiciero social

El “justiciero social” nunca está satisfecho y siempre encontrará defectos, porque si no se vuelve obsoleto. Necesitan gritar contra algo y se vuelven simplemente aburridos – para decir lo menos. Son aquellas personas que tienen en el hecho de discrepar una forma de obtener placer, de ahí el uso constante de términos como “lacrar”. No importa si el argumento es válido, sino la sensación de haber vencido y “lacrado”. No sirve de nada lo que hagas, ya han decidido que estás equivocado. Es bueno repetir, ellos no quieren que cualquier situación efectiva de exclusión acabe o se resuelva. Si la situación se resuelve, acaba el estrado de ellos. Son sanguijuelas que quieren mantener todo como está.

La idea central de estos movimientos es la de vivir en guetos autoimpuestos. Niegan siquiera la solidaridad. Si no eres del grupo, eres enemigo. Todo es “construcción social”, pero aún así el opresor, el enemigo, es algo innato.

Su género, su color, su orientación sexual pasan a ser más relevantes que su clase social, que sus opiniones y posiciones. No se trata de negar el racismo, el machismo y la homofobia, por el contrario, se trata de criticar posiciones que, al final, sólo repiten argumentos racistas, homofóbicos y machistas al usar características innatas como forma de derribar y negar argumentos.

Oremos, si es verdad que el racista usa la raza de la víctima para negarle espacio o derecho al habla, es igualmente cierto que una respuesta que adopte la misma práctica no tendrá resultado muy diferente -y jamás positivo. Confrontados con la más pura lógica gritan: “¡Falsa simetría!”.

La izquierda sale perjudicada por cerrarse al diálogo con la sociedad. Por imponer una serie de reglas de comportamiento (muchas inalcanzables) sin ninguna ligazón con la realidad, por adoptar una postura eternamente victimista y que retira completamente la autonomía de las personas, dividiendo el mundo entre víctimas y verdugos sin ningún tipo de matización, sin medios-términos. Y, especialmente, por desviar otras cuestiones fundamentales.

Mark Lilla, profesor de la Universidad de Columbia, ha repetidamente comentado sobre el problema de esas “políticas de identidad”, denunciando el surgimiento de “una generación de progresistas narcisísticamente desligados de las cuestiones ajenas a su grupo de referencia”.

Steve Bannon, gurú de la extrema derecha estadounidense, concuerda: “Mientras ustedes estén hablando de políticas de identidad, ganamos”.

Los justicieros y el PT

Lo irónico en todo esto es que la conexión carnal entre justicieros sociales y el PT, al final, es perjudicial para los justicieros (o al menos a las minorías que dicen representar), como quedó claro con Dilma, que revocó la ordenanza que regulaba el aborto y que canceló el kit anti-homofobia, declarando que no haría “propaganda de opción sexual”.

Pero, por ser mujer, era siempre defendida de cualquier crítica, porque criticarla era machismo y misoginia. Las pautas identitarias fueron magistralmente apropiadas y usadas por el PT para intentar neutralizar críticas.

Un ejemplo hasta anecdótico sería el término “palmitero”, que es usado por la militancia negra adepta al “lacrado” para condenar relaciones interraciales (pues es), pero sólo es usado para condenar a hombres negros que se relacionan con blancos porque existe una ” “tal de” soledad de la mujer negra “y, como tal, mujeres negras están libres para relacionarse con hombres blancos – éstos que son necesariamente machistas por ser hombres y racistas por ser blancos – y homofóbicos por ser heterosexuales. Parece gracioso – y es -, pero es realmente la lógica que impregna el mundo de la militancia identitaria, al final de cuentas usted duerme con el enemigo y éste es forzado todo el tiempo a disculparse por existir y esforzarse a no ser quien él es.

No se trata en modo alguno de colocar al blanco, al hetero o al hombre como víctimas (al menos no en pie de igualdad con mujeres, negros y LGBT), sino de apuntar que tomar como enemigo / inferior / nocivo a alguien sólo por sus características más visibles es exactamente lo que hacen los prejuicios. No sirve a ningún propósito de construcción colectiva de pautas y luchas.

En sus textos usted también llama la atención sobre lo que llama “fanatismo identitario”. ¿Qué es eso y cómo se ha manifestado en Brasil?

Raphael Tsavkko García – Se ha manifestado de forma muy similar a la extrema derecha.

Tuvimos los casos notorios de MBL, apoyando la censura a exposiciones de arte. Alexandre Frota, ex actor porno, predicando una agenda moralista pro-familia, un resurgimiento del conservadorismo más torpe y moralista que predica la censura a todo lo que salga de su radio de comprensión y tolerancia. Pero la izquierda identitaria no es muy diferente.

Recientemente una película brasileña fue atacada con toda la fuerza de una santa inquisición identitaria por no retratar “adecuadamente” la esclavitud – y no era el objetivo de la película hacerlo. Una joven fue atacada por usar un turbante, símbolo que identidades negras creen pertenece a ellas (y a una supuesta herencia exclusiva africana).

Militancia identitaria

Los escraches contra quienes salen de los límites escasos impuestos por la militancia identitaria son comunes, como por ejemplo o sufrido por el artista Rafucko, famoso por sus vídeos bien humorados y de crítica política ácida, que fue atacado por militantes negros(as) por promover la exposición ” “Monstruoso” contra las Olimpiadas, en 2016. Por ser blanco él no es “place de fala” para defender a los negros pobres o criticar la violencia fué sufrida por ellos – interdicto- fue anexado a la solidaridad.

Los métodos de censura de la identitaria militancia son adecuadamente apropiados por la militancia del esquema como un todo, que en su gran parte sigue junto con el PT o, al menos, da ese apoyo “crítico”.

MBL censuró la exposición Queer Museo, la censura al cine PE para oponerse a la visualización de un documental sobre el Olavo de Carvalho – porque sus directores se compaginan con el “golpe”. Ningún filósofo de simpatización de cabello, pero una película que pasaría virtualmente desperdiciada acabó volviéndose sensación – la izquierda una vez más busco censurarlo, incluso con violencia, en una publicación en la UFPE. La teoría de la herradura muestra que lo que ha visto quedarse.

Método de la izquierda identitaria

Los métodos de la izquierda identitaria pasaron a ser la regla. Se trata de la imposibilidad de convivir con lo diferente e intentar un diálogo. Uno de los mayores problemas del fanatismo identitario es la completa interdicción del debate.

Hay muchos casos que ocurren a nivel personal, como autopoliciamiento al punto de neutralización de la personalidad, muchos temen de debatir en las universidades con temor de ser blanco de justicieros, los profesores son intimidados, etc. En los Estados Unidos eso es aún más visible, no faltan casos donde, por poco, identitarios (o justicieros sociales) no llegaron a la violencia física – pero lograron la dimisión de profesores, por ejemplo.

Hay temas en que no hay espacio para discordancia, para diálogo, para que ni siquiera se ose apuntar sobre un problema. Tenemos el caso reciente del secretario de Educación de Río, César Benjamín, que criticó lo que llama “racialismo” por parte de elementos identitarios del movimiento negro. De acuerdo o no con sus argumentos, el hecho es que la respuesta estándar de la militancia de izquierda ha sido la de pasar por encima de todas sus críticas para acusarlo de racismo. No hay el menor espacio para que se debatan ideas, se parte mediatamente desde la descalificación del interlocutor. Benjamín es racista por haber criticado una pauta identitaria del movimiento negro, no por haber efectivamente dicho o hecho algo de carácter racista.

La obcecación de esa izquierda en negar cualquier debate sobre raza, género y orientación sexual sólo es superado por la de propagar la tesis del “golpe” tan cara al PT. No es sorprendente que uno de los grandes líderes del movimiento negro en las redes sociales defienda sus pautas con la misma garra que defiende al PT, o aún más, podemos recordar la desafortunada frase de Lula sobre mujeres de “grelo duro” (chulería para decir clítoris duro), que dicha por cualquier otra persona seria machismo, motivo de escracho, pero venido de quien vino pasó a ser hasta bandera y eslogan de campaña.

Hay una clara intersección de métodos y militancia / militantes identitarios y lulistas / petistas, quien no es petista es enemigo, quien no forma parte de mi minoría y reza por mi cartilla es enemigo. Esto, al final, promueve una política de silenciamiento e, incluso, empuja potenciales aliados al otro lado.

IHU On-Line – ¿Es posible vislumbrar, a largo plazo, cuáles deben ser las consecuencias tanto del discurso del fanatismo identitario y del discurso de los justicieros sociales?

Raphael Tsavkko García – Las consecuencias las estamos viendo hoy: interdicción del debate. Imposición de patrones de comportamiento y pensamiento para la negación de la diversidad y la imposición de un pensamiento único. En los Estados Unidos no faltan analistas que apuntan a los efectos nefastos de la política identitaria: en el juego de la exaltación de identidades, como si fueran necesariamente aquello que define lo que es bueno y malo, lo que es correcto e incorrecto, y los blancos sureños, en general pobres, fueron dejados de lado. Votaron en masa en Trump.

Es la profecía que se auto cumple, se habla tanto (y mal) de determinados grupos, alejándolos, criminalizándolos por sus características innatas que, al final, cuando éstos acaban votando por el “enemigo”, los heraldos del identitarismo se regocijan : “estábamos seguros”.

Retórica agresiva

La retórica agresiva de grupos identitarios aliena potenciales aliados, aleja a todos los que no comparten las mismas características. La lógica del “privilegio” adoptada por estos grupos es pésima a largo plazo, pues asume que cualquier persona necesariamente se comportará de una determinada forma o tendrá éxito (o falta de él) exclusivamente por ser blanca, por ser hombre, o por ser heterosexual . Los blancos, heteros u hombres que no “llegan allí” son tratados como enemigos de la misma forma por haber nacido como tal.

Para mí, “privilegio” es un concepto malo y sociológicamente caprichoso que desprecia ubicación, situación, contexto y clase. Consigue ser aún más pobre y vacío de sentido sociológico que “apropiación cultural” y “lugar de habla”, que hasta ya tuvieron algún sentido antes de ser apropiados y des caracterizados por movimientos justicieros para intentar censurar y silenciar críticas (incluso internas).

Me recuerdo de un artículo de una profesora de la UPFE, publicado en el sitio de Media Ninja, que va por el mismo camino: el hombre es machista, el hombre de izquierda es machista, el de derecha es más aún, porque no ser de izquierda ya es en sí, ser machista. No tiene como o para dónde escapar. El ser del color, del género “equivocado” es suficiente para ser prejuiciado. En vez de combatir el prejuicio en sí, usted combate a quién (en tesis) no sufre prejuicio.

Usted está equivocado porque nació de una determinada forma, su vida, su recorrido, sus opiniones y acciones no importan. En el largo plazo eso acaba apenas alejando potenciales aliados, cansando a todos los que no consigan o quieran adaptarse a los patrones inalcanzables de tal militancia – o que simplemente hayan “nacidos equivocados”.

Nada de eso contribuye a combatir el prejuicio en sus más diversas formas, tan sólo alejan aliados de causas importantes porque son tratados siempre como enemigos. El profesor Erick Felinto escribió una vez en Facebook: “si usted apoya a una minoría, sin ser de esa minoría, es porque quiere galleta. Si no apoya es porque refuerza las estructuras jerárquicas del poder societario. En suma, entre manifestarse, arriesgándose a la acusación de ‘robo de protagonismo’ y permanecer callado, parece que hoy la segunda opción es la más sensata. Sus pautas como minoría pasan a ser más importantes que todo el resto – e incluso las pautas de otras minorías.

IHU On-Line – ¿Cómo evalúa el “debate” político en las redes sociales, especialmente lo que se llama “activismo de Internet”?

Raphael Tsavkko García – No hay debate. Hay griterío y odio. Un lado sigue siendo racista, machista y homofóbico, otro lado cree que para combatir eso tienes que tratar a todos los heteros, todos los hombres, todos los blancos como enemigos jurados, hacer fanfic y predicar el linchamiento contra quien no reza por la cartilla. En el medio, la mayor parte de la población que queda completamente perdida, todavía recibe la fama de “neutro”. Y lo mismo vale para la política más allá del activismo identitario, como la insoportable disputa entre el PT, que intenta encarnar a la izquierda, y el resto, a los “golpistas”, que al final eran y volverán a ser aliados del PT y, según el propio Lula, deben ser perdonados. El activismo de internet parece un masaje en el ego de militantes, pero que no lleva a ningún lugar, no promueve nada. Es el “lacrar” sin ninguna perspectiva de cambio o de efectivamente causar diferencia. Las estructuras, sin embargo, siguen allí, inmutables. No es porque su conocido hizo una broma que no le gustó y usted le obligó a callarse, que dejará de pensar en esa forma. Él apenas no se manifestará delante de usted, usted encontrará que se “lacro”, pero al final creó un enemigo. Mientras, la broma podría haber sido inocente (y usted es demasiado sensible) o había muchas maneras mejores de abordar la situación sin crear un potencial enemigo.

Militancia de internet

La militancia de internet, hoy, está tomada por intentos de “sellar” y silenciar (sinónimos), culto a la personalidad de supuestos liderazgos (en algunos casos bordeando lo risible y tosco, como la alabanza de un editor de portal a su novia sin ningún tipo de compromiso con la ética periodística) y absolutamente ningún espacio para efectiva construcción colectiva, convencimiento, diálogo.

Muchos y muchas que intentan aún realizar un esfuerzo de crear puentes, acaban desistiendo por la completa imposibilidad de respirar el aire tóxico de las redes militantes.

Lo mismo, repito, vale para la política en general, b versus el resto, golpe o no golpe, la lógica es la misma. O usted repudia el impeachment y lo considera un golpe o entonces usted es un golpista. De hecho, puede incluso discrepar del impeachment, pero si no lo denomina golpe es un enemigo de la misma forma.

El proceso de imposición de absolutos es invariable. O usted es “coxinha” o es “petralha”. O usted defiende pautas identitarias o usted es el enemigo a ser combatido (o si nació con las características “equivocadas” no saca nada con intentar). Incluso aquellos más afines a uno u otro espectro político encuentran inmensa dificultad en tejer críticas, en proponer cualquier diálogo bajo acusación de hacer el juego del otro lado, de ser traidor, etc. Pablo Ortellado captó bien este problema en un artículo para la Folha de São Paulo.

Escribí hace alguna semanas que “la internet podría/debería ser un espacio público (sí, más a los lados de Habermas), pero muchas veces es el absoluto opuesto. Destruye, desagrega, niega cualquier espacio para debate y dialogo. La internet, a veces, interdicta el debate. Es una guerra permeada por fake news para convencer a todo costo el condenar a los no convencidos/convertidos”

En los últimos años, la mayoría de las personas que viven con el VIH / SIDA en el mundo, no se sienten atrapadas en el mundo. que es una guerra impregnada por fake news para convencer a toda costa o condenar a los no convencidos / a de la guerra, convertidos.

IHU On-Line – ¿Cómo, en consecuencia de cómo se ha dado la discusión política en Brasil, vislumbra que será el debate político para las elecciones presidenciales del próximo año?

Raphael Tsavkko García – El año que viene será insoportable. No faltan memes ya predicando el clima insoportable. Tal vez el humor sea el mejor refugio ante la inevitabilidad de un clima político sofocante. Por otra parte, el término “debate” no es correcto, dado que no hay espacio para ello en las innumerables burbujas formadas en las redes sociales. Como escribí, “al final las redes sociales promueven un gran silenciamiento colectivo. Son tantas voces gritando en lados absolutamente opuestos que sobra poco espacio para cualquier cosa divergente – y muchas veces el peso de aquellos que gritan es sobredimensionado, pero gritan lo suficientemente alto ».

La gritería política brasileña impide cualquier tipo de diálogo serio sobre los rumbos del país. Un lado quiere censurar, el otro quiere … censurar. El medio se queda, en eso, perdido y sin opciones. El radicalismo impera y resulta difícil vislumbrar una salida o una alternativa a corto plazo. No ayuda el hecho de que no exista una real renovación política, nuevos liderazgos, nuevos movimientos que no sean sólo más de lo mismo, subterfugios de partidos carcomidos por la corrupción y desconfianza.

IHU On-Line – ¿En qué consisten sus estudios sobre nacionalismo e identidad en línea?

Raphael Tsavkko García – Me dedico al estudio de identidades y nacionalismo en línea desde la graduación, cuando investigue una actividad conocida como micro nacionalismo, o la formación de comunidades en línea alternativas que emulan modelos estatales a través de listas de e-mails, sitios etc. En el máster me dediqué a estudiar el proceso de formación de vínculos y (re) construcción identitaria on-line a través de blogs, teniendo los vascos como estudio de caso. En el doctorado me dedico a profundizar lo que estudié en el máster e ir más allá, buscando analizar la comunicación on line y el proceso de (re) construcción identitaria entre vascos en la diáspora argentina y en el País Vasco propiamente dicho, teniendo como foco grupos de izquierda nacionalista y su actuación en pro de presos políticos, de la independencia y de propagación de la cultura y lengua vasca en línea.

Más específicamente analizo la historia de grupos militantes vascos de izquierda y nacionalistas (abertzales de izquierda) en Argentina y cómo estos utilizan Internet como herramienta de propaganda, comunicación con grupos en el País Vasco y de (re) construcción de la identidad vasca y díaspórica on- line.

En fin, siempre busqué estudiar la intersección entre nacionalismo y redes sociales, la formación de comunidades imaginadas transnacionales en Internet, a través de listas de e-mails, Facebook, blogs, Twitter, etc. y como diferentes miembros / grupos de comunidades nacionales se relacionan.

También me dedico a realizar análisis comparativos sobre el uso de herramientas de medios sociales por minorías étnicas diversas (vascos, kurdos, uigures, tamil, etc.) para la promoción / el mantenimiento de sus identidades nacionales / étnicas y para el compromiso político, un trabajo sobre el tema, que acabó quedando en segundo lugar en la premiación de mejor artículo de investigador joven de la conferencia  DMM ECREA en Bilbao.

IHU On-Line – ¿Desea añadir algo?

Raphael Tsavkko García – La narrativa del “golpe” es, como de costumbre en el PT, la forma de culpar a los demás por sus errores. El PT va a imponer la narrativa del golpe y exigirá en 2018 apoyo ciego de la izquierda a Lula – si no está preso – para repetir los mismos errores (que no son errores, es sólo estrategia). Para sostener esa narrativa, tendremos gritos contra los “medios golpistas”, la misma que siguió recibiendo miles de millones de reales en los 13 años en que el PT estuvo en el poder y que jamás tuvo que temer una reforma de los medios, porque tal idea nunca pasó de propaganda . Después de tantos años por encima, mandando y desmandando, cooptando, comprando y desmovilizando movimientos sociales y apenas pasando por encima de todo y todos, los petistas desaprendieron hacer política. No pudieron comprar una salida, no consiguieron cooptar, no consiguieron robar la pelota, entonces se burlaron, atacaron amenazaron y, al final, perdieron. Fuera del poder siguen incapaces de encontrar soluciones a sus problemas. Necesitan a la izquierda, pero siguen aliados a la derecha, amenazan, hacen chantaje, tratan de rescatar la narración del “mal mayor”, no piensan siquiera en la posibilidad de autocrítica. Esta, cuando viene, comienza siempre con “sin embargo”, con “pero”, como si sus errores fueran errores de los demás, una necesidad impuesta por la realidad, algo ineludible – y menor ante todas las maravillosas realizaciones del PT.

Alternativas a la izquierda

Cabe en este momento a la izquierda buscar alternativas más allá del PT, más allá de los movimientos cooptados por el partido. Algo nuevo, que no tenga como foco sólo la institucionalidad, sino la vida, las calles, los espacios comunes, la búsqueda por lo común a través del diálogo amplio, franco y honesto.

El discurso de muchos es que la democracia llegó a su fin el 31 de agosto de 2016, y que antes todo estaba hermoso. La represión comenzó ayer, antes era diferente. Los acontecimientos de junio de 2013 pasan a ser normalizados, tratados como una coma. La violencia cotidiana y la total falta de democracia en las favelas (con derecho al ejército enviado por el “corazón valiente”) es mero detalle. Fue a partir del impeachment que la democracia acabó. El golpe cambió todo.

O superamos esa narrativa o seremos superados por la derecha. O superamos al PT o nos convertiremos en un mero y débil recuerdo en el curso de la historia. Y lo mismo vale para otras narrativas y “discursos alternativos” impuestos a la militancia, como es el discurso de los justicieros sociales (o Social Justice Warriors) que ha sistemáticamente alejado a la izquierda del resto de la población, con la imposición de un discurso pseudouniversitario que en la práctica sólo busca censurar, patrullar y policiar y que, al final, perjudica la lucha por los derechos humanos y en favor de las minorías.

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Apresentação da série de intervenções realizada no seminário Desobediências e democracias radicais http://uninomade.net/tenda/apresentacao-da-serie-de-intervencoes-realizada-no-seminario-desobediencias-e-democracias-radicais/ http://uninomade.net/tenda/apresentacao-da-serie-de-intervencoes-realizada-no-seminario-desobediencias-e-democracias-radicais/#respond Tue, 19 Dec 2017 16:06:15 +0000 http://uninomade.net/?post_type=tenda&p=3676 A Rede Universidade Nômade inicia a publicação de algumas intervenções realizadas no II Seminário Internacional Desobediências e democracias radicais: a potência do comum dos direitos que vêm, organizado pelo Grupo de Pesquisa O estado de exceção no Brasil contemporâneo (UFMG), e ocorrido entre os dias 04 e 06 de dezembro de 2017.

Tratando de temas diferentes, as intervenções realizadas no seminário compartilham o mesmo esforço de deslocamento com relação ao atual entrincheiramento das chamadas teorias críticas e ao achatamento do pensamento diante dos novos frentismos na política. A recusa em sustentar uma perspectiva questionadora “sobre” o mundo, sempre dada de antemão e eliminando a coexistência de múltiplas possibilidades, abre espaço para que o pensamento seja atravessado e arrastado pelas diversas perspectivas colocadas pelo próprio campo social e político. Nesse sentido, os “tempos sombrios”, objeto permanente de reflexão durante todo o encontro, não constituiriam uma tendência inevitável de degradação da política na atualidade causada por um grande Outro, mas a imposição de uma paisagem cinza que nos impede de perceber e de participar, justamente, dos novos pontos de vista lançados, impondo sobre nós uma capa de chumbo de medo, paralisia e impotência.

Por isso, as falas que serão publicadas trazem em comum uma tentativa de tornar visíveis e audíveis resistências anônimas que partem de terrenos ambíguos e disformes: a política no Heavy Metal, a filosofia Black Bloc, as formas de vida em comunidades evangélicas, o poder de fascinação da imagem e o abandono das nostalgias diante das ruínas do Estado Social. Que lógicas aberrantes podem ser extraídas desses processos, resistindo à convocação para aderir às trincheiras montadas à esquerda e à direita? Como seguir e dar mais consistências aos traços que apontam para novos campos de experimentação?

Deixando o nosso agradecimento ao agitador do evento, Andytias Costa Matos, indicamos o conjunto de textos que será publicado nas próximas semanas: Levantes: o caminho que é o deserto (Alexandre Mendes), primeiro da série, já disponível no link: http://uninomade.net/tenda/levantes-o-caminho-que-e-o-deserto/; Filosofia Black Bloc: prolegômenos (Murilo Corrêa); Do Estado de Bem-Estar Social à governance: novo terreno da crise (Luiz Felipe Teves) e O comum no Capitalismo Maquínico (Guilherme Klausner e Renan Porto).

Rede Universidade Nômade

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Levantes: o caminho que é o deserto http://uninomade.net/tenda/levantes-o-caminho-que-e-o-deserto/ http://uninomade.net/tenda/levantes-o-caminho-que-e-o-deserto/#respond Tue, 19 Dec 2017 15:09:03 +0000 http://uninomade.net/?post_type=tenda&p=3669  

 

Alexandre F. Mendes[i]

 

Inicio esta intervenção[ii] destacando uma imagem, El Quijote de la Farola (foto de Alberto Korda), que faz parte da exposição Soulèvements (Levantes), organizada pelo filósofo da arte Didi-Huberman que, depois de passar por Barcelona, Montreal e Cidade do México, chegou em São Paulo no dia 17 de outubro de 2017 e terminará seu percurso mundial em Buenos Aires (a partir do dia 29 de janeiro). Integra a exposição um catálogo, contendo não só as imagens, mas uma série de ensaios escritos por conhecidos filósofos contemporâneos, como Judith Butler, Jacques Rancière, Antonio Negri, o próprio Didi-Huberman, entre outros (DIDI-HUBERMANa, 2017).

A escolha da imagem permite trazer algumas questões para a discussão que proponho. Primeiro, do ponto de vista geral, trata-se de pensar o contexto que envolve a iniciativa, realizada logo após os últimos suspiros do ciclo da Primavera Árabe e cerca de 50 anos depois das irrupções de 1968. O conjunto de imagens, e de reflexões suscitadas por elas, compõe um mosaico que invariavelmente põe sob questão o day after dos levantes, seus efeitos, suas permanências e sua possível atualidade. Segundo, a partir de uma questão suscitada pelo próprio curador e por Jacques Rancière, trata-se de indagar se a exposição não reduziria potentes e dramáticos atos de revolta a um “objeto” a ser contemplado nos depurados corredores dos museus. Que relação que as imagens poderiam tecer, mesmo confinadas em um Museu, com o material intensivo dos levantes?

El Quijote de la Farola – Alberto Korda – Havana, 1959

As duas questões globais nos levam para a escolha da imagem que separamos para iniciar a discussão (voltaremos aos pontos gerais no final da intervenção). Vemos, então, a estranha posição ocupada por um manifestante durante demonstrações massivas e populares de apoio à Revolução Cubana (1959), ocorridas logo após a queda do regime do ditador Fulgêncio Batista. O homem fotografado, como todos os outros apoiadores, veste uma espécie de uniforme no qual se sobressai um grande chapéu com a bandeira de Cuba, símbolo que também aparece costurado em sua camisa. No entanto, ao contrário de todos os outros, ele se descola da multidão e se acomoda no alto de um poste de luz, apresentando um olhar inclinado e um gestual que indica reflexão. O que o manifestante estaria pensando? Por que não está seguindo a multidão? Ele se deslocou para contemplar o apoio massivo à revolução ou para lançar sobre ela um conjunto de interrogações? Ele é contra ou a favor de Fidel Castro? Se o caso é de desconfiança, por que ele se veste como todos os outros?

Para Didi-Huberman, que comenta esta específica fotografia em uma entrevista sobre o catálogo, a foto tirada por Korda cria um espaço de ambivalência que é próprio da posição tomada pelas imagens, ao contrário do ato de tomar partido, que pressupõe clivagens claras e um espaço já recortado. Para ele, é esta irredutível ambiguidade que gera, desde Platão, tanto nos filósofos como nos “militantes” da política em geral, uma permanente desconfiança com relação à posição tomada pelas imagens. O problema é trabalhado no livro Quando as imagens tomam posição (2009/2017), a partir da tensão entre estética e política na obra de Brecht, sendo a distinção entre partido e posição descrita da seguinte forma: “Ali onde o partido impõe a condição preliminar de uma partida em detrimento das outras, a posição supõe uma copresença eficaz e conflituosa, uma dialética das multiplicidades” (HUBERMAN, 2017b, p. 113).

Assim, enquanto uma tomada de partido estabelece uma geometria baseada em linhas retas e círculos fechados, um “avante!” que, ao mesmo tempo, se dá no ritmo da coesão de grupos de ação (o partido revolucionário, por exemplo), uma tomada de posição opera por desvios permanentes, e por círculos abertos e descentrados que se movem por fora de traçados já dados. É Maurice Blanchot, lembrado tantas vezes por Huberman, que articula, justamente, os três termos: a errância do desvio, os círculos descentrados e o espaço ambíguo ou, em outros termos, o espaço do deserto ou da criação literária.

No conhecido texto Falar não é ver, publicado no livro A conversa infinita (1969/1993), Blanchot compõe um diálogo para explicitar que a palavra encontrar não significa obter ou alcançar um resultado prático ou científico. Encontrar (trouver), ao contrário, estaria próximo do movimento de girar, rodear (tourner), dar a volta, andar ao redor. Encontrar um canto, por exemplo, seria bordejar um movimento melódico, fazê-lo rodar. A busca pressupõe constantes desvios, dobras, uma rotação sem retidão que assume como percurso as próprias linhas de inflexão (BLANCHOT, 1993, p. 27).

Ela também pressupõe girar em torno de um centro, mas com a peculiaridade de que o centro nunca está ali, esse estranho movimento que opera por uma rotação liberta do jugo da centralidade. O diálogo avança a partir da conclusão que buscar é de fato errar: “dar voltas e mais voltas, abandonar-se à magia do desvio” (idem). É caminhar em regiões fronteiriças e na fronteira do próprio caminhar. Errar é fazer o movimento de retorno, mas deparar-se com o velho ponto de partida, agora turvo ou apagado: “é essa força árida que desloca a paisagem, devasta o deserto, abisma o lugar” (idem).

A figura do deserto, por sua vez, aparece também em outro texto de Blanchot, que integra o livro O espaço literário (1955/2011), mais precisamente sobre a relação de Kafka com o seu êxodo para o outro deste mundo: “será que eu habito agora no outro mundo? Ousarei dizê-lo?”. O deserto aqui aparece como um espaço de migração, um local ainda menos seguro que o próprio mundo, um outro do próprio mundo, uma região que é a do erro sem fim, na qual subsiste uma tensão que sempre ameaça o caminho, que pode fechar o espaço do erro, transformando-o em limite: de um caminho sem objetivo à certeza de um objetivo sem caminho.

Blanchot busca no Diário de Kafka, nas anotações realizadas em 1922, a percepção de que as forças áridas impunham aos homens duas opções: “ou buscar a Terra Prometida do lado de Canãa ou buscá-la do lado deste mundo que é o deserto”. Da primeira opção, a obediência ao comando de Deus, o deserto como simples passagem e a promessa de fartura e conforto no fim do caminho. Da segunda, a ausência de qualquer centro ordenador, o deserto como morada nômade e o mundo como um imenso lado de fora – uma viração do próprio mundo (BLANCHOT, M, 2011, p. 85).

O deserto contém, ainda, outra força que é a de provocar uma desorientação na distância que existe entre a visão e o objeto visto. O intervalo mensurável que garante a visão de um conjunto se perde e é arrastado por aquilo que Blanchot denomina de fascinação (idem, p. 24). Aqui, o olhar não mantém uma distância necessária e retilínea dotada de uma medida com relação ao objeto, mas é capturado, arrancado, torcido e absorvido por aquilo que é visto. A percepção é desgarrada do seu pacto seguro e produz uma nova visão: “que não é mais possibilidade de ver, mas impossibilidade de não ver, a impossibilidade que se faz ver” (idem).

Se o objeto à distância é a imagem, a fascinação é a paixão da imagem. Blanchot denomina esse duplo de “duas versões do imaginário”, que repousa, justamente, em uma permanente ambiguidade (idem, p. 289). Esta deixa de ser apenas a confusão causada pelo duplo sentido (que em alguma hora se resolverá no entendimento), para configurar uma tensão de passagem entre aquilo que é feito como imagem do mundo (nosso olhar voltado para os objetos) e aquilo que é desfeito pela imagem, carregando-nos para o meio indeterminado da fascinação (uma visão sem medida). A ambiguidade se torna, portanto, a condição do próprio fascínio.

Se a escrita pode estabelecer uma relação privilegiada com o espaço literário, é porque ela opera em dois níveis. Primeiro, cortando o uso empírico das palavras no cotidiano afastando-as do campo de visibilidade já posto, ou seja, retirando-as da subordinação existente entre o dizer e o ver (que sentido faria escrever sobre o que já se vê?). Segundo, articulando-se com um murmúrio infinito que emerge das ruínas das palavras e, através dele, ser arrastado pelo poder do indeterminado. E é aí que nos deparamos novamente com a ambiguidade que atravessa a fascinação: o escritor acredita ter posse de toda a fala, de uma espécie de “fala original”, mas só o faz tornando-se muito fraco: ele mesmo perde o seu “Eu”, e se põe diante de processos que são cada vez mais impessoais.

É assim que Blanchot descreve o paradoxo de Kafka. A caminhada para o deserto significa estabelecer uma relação com forças cada vez mais intensas, mediante um enfraquecimento do sujeito e do cotidiano que o cerca. É o exemplo de escrita contido também no livro O processo, lido aqui por Deleuze e Guattari (DELEUZE; GUATTARI, 1975/2002): o apagamento da figura empírica da Justiça (suas instituições, códigos e procedimentos) torna possível uma visão do processo como relação de força, como fluxos de matéria intensiva e de tensores que circulam sem considerar as fronteiras visíveis do mundo organizado no cotidiano (o processo atravessa a família, os vizinhos, o trabalho, a casa etc.). E é Titorelli, aquele que “faz ver” a Justiça em seus quadros repetidos, que evidencia as duas funções abstratas do processo: viver diante de uma absolvição aparente (a quitação é sempre aparente e antecede uma nova dívida) e uma moratória ilimitada (a dívida se torna eterna).

É no espaço ambíguo entre a imagem do mundo e o que desfaz essa própria imagem, que Kafka dá visão (fabrica uma percepção, uma visibilidade superior) às “forças diabólicas” que assombrariam todo o século XX (a burocracia soviética, o americanismo e fascismo) e, por isso, expõe uma engrenagem que será objeto de contínuas resistências. Daí uma segunda ambiguidade: a recusa de Kafka a aderir às narrativas políticas do início do começo do século XX (socialismo, anarquismo, social-democracia, fascismo, os nacionalismos etc.), ou seja, à convocação para integrar um “Povo”, abre espaço a uma relação intempestiva com todas as singularidades que irão resistir aos dispositivos de poder da burocracia, do endividamento e do controle: a paixão da imagem é a própria invenção de um outro povo (minoritário), que não cabe nos recortes de visibilidade e nos dicionários organizados pelos poder.

Portanto, se errância, descentramento, ambiguidade e deserto indicam uma recusa a escolher um ponto de partida em detrimento de outros (“tomar partido”), não é para sucumbir a qualquer niilismo ou passividade, mas, pelo contrário, para ascender a uma posição que faz ver e ouvir as resistências anônimas e impessoais que não encontram visibilidade ou enunciação nas representações empíricas do mundo cotidiano. A linearidade da partida, que pressupõe sair de um ponto para chegar a outro, é substituída por posições que são definidas a cada lance e que formam uma curvatura capaz de seguir permanentemente a emergência das singularidades ou, com Didi-Huberman, a coexistência de multiplicidades (no caso de Kafka, o procedimento envolve uma circularidade entre as cartas, as novelas e os romances, que se alternam a cada vez que surge um bloqueio criativo).

Podemos enfrentar agora as duas questões gerais definidas no início da intervenção, isto é, o exame da atualidade dos levantes e sua relação com o tipo de visibilidade produzida por imagens expostas nos museus. Saltaremos da foto de Alberto Korda, sobre o Quixote cubano, para o filme Hiroshima mon amour, dirigido por Alain Resnais, com roteiro de Marguerite Duras, e que estrou no mesmo ano de 1959. Por que mencionar este filme? Como extrair a partir dele uma interrogação sobre a posição das imagens e a relação entre fascínio e visibilidade?                  

O filme inicia, justamente, com um passeio, em estilo documentário, no museu que abriga as representações visíveis do horror de Hiroshima: fotos das vítimas, mostras de cabelo, ferros retorcidos, ruínas, pedras e reconstituições das cenas de morte e sofrimento. A sequência de imagens é reforçada por uma voz em off, a da própria protagonista, que afirma ter visto tudo em Hiroshima, ter acompanhado o terrível fato pelos jornais, “desde o primeiro dia”. A outra voz em off, do outro protagonista, rebate a afirmação dizendo, repetidas vezes: “você não viu nada em Hiroshima, nada”.

Cena do Filme Hiroshima Mon Amour, 1959 – Museu de Hiroshima

Com o fim da sequência documental, é iniciada a outra parte do roteiro que mostra a relação entre uma atriz francesa, nascida na pequena cidade de Nevers, e um arquiteto japonês, nascido em Hiroshima. Uma segunda camada de imagens e representações do bombardeio surge em razão das gravações do próprio filme que motivou a viagem da protagonista, uma produção internacional cujo objetivo é defender “a paz mundial”. Mas agora essas imagens são cruzadas pelo forte caso de amor vivenciado pelo casal, em uma paixão que se intensifica e percorre cada instante da relação entre os dois.

A irrupção dessa paixão e a iminente separação do casal, ambos casados e afastados pela distância entre França e Japão, estabelece um estado de tensão que culmina na revelação, pela protagonista, do seu primeiro caso de amor em Nevers, um soldado alemão morto no momento da liberação. O trauma da morte do amante (que durou dois dias e foi acompanhada até o fim) e a forte reação da cidade contra o relacionamento, considerado uma colaboração com o inimigo, resultaram na decisão familiar de trancá-la em uma cela fria e úmida. Considera louca por muito tempo, com o final da guerra, sua mãe incentiva uma fuga para Paris, justamente no dia que precede o lançamento da bomba atômica.

A cena da revelação é o ponto alto do filme. Durante uma conversa no bar, momentos antes da forçada separação, a protagonista acessa as camadas já disformes do passado e as atualiza no presente, chegando a confundir o amante japonês (ex-soldado na mesma guerra) com o jovem alemão. Aceitando a passagem para o impessoal, o próprio protagonista estimula o embaralhamento e vibra por ser o único a ter conhecido a estória, após quatorze anos de silêncio. A intensidade da experiência cria um âmbito de “coexistência de multiplicidades”, com a intromissão recíproca entre passado e presente, Hiroshima e Nevers, aliados e inimigos, memória singular e memória mundial, substituindo o ponto de partida da História (uma memória aprisionada) por diferentes posições ou perspectivas que se alternam em variação contínua.

O casal é assim arrancado da experiência do cotidiano (Hiroshima e Nevers retomando a rotina no pós-guerra), e é lançado em um plano indeterminado onde o próprio espaço-tempo perde a linearidade e desencadeia um movimento errante, compondo os círculos descentrados de Blanchot. Hiroshima está em Nevers (a liberação, a morte do soldado, a prisão, a loucura, o fim da guerra, a fuga para Paris) e Nevers está em Hiroshima (a derrota japonesa, o horror imposto pelos vitoriosos, a “vitória envenenada” nos termos de Brecht, a reintrodução do Japão no circuito americano e europeu). O passado posto em relação modifica a teia do próprio presente, Hiroshima se torna a possibilidade de reconciliação da protagonista com Nevers (a cura das feridas, a exigência de continuar vivendo, “uma cidade talhada pelo amor”), e Nevers, para o protagonista, se torna o presente de Hiroshima, a imagem da jovem amante quando era livre de suas atuais constrições (a marca da guerra, o casamento, os filhos, a vida adulta), ou a possibilidade de viver um novo amor, extraindo das ruínas da cidade japonesa um novo feixe de horizontes possíveis e novas potencialidades (uma renovada vida pós-horror).

Assim, a frase que dá início ao filme, “você não viu nada sobre Hiroshima”, ganha uma nova expressão. Deixa de indicar a impossibilidade de experimentar a tragédia em razão de distâncias culturais, nacionais e pessoais –  a falta de uma espécie de “experiência verdadeira” – e passa a expressar o próprio limite da visibilidade como mirada para um objeto. Antes da passagem para a fascinação (o plano informe constituído pelo segundo imaginário), era impossível ver Hiroshima, porque a sequência das imagens documentais, paradoxalmente, provocava o afastamento das intensidades que produzem o fascínio, retendo-as como simples ausência (estamos ainda em Blanchot).

Cena do Filme Hiroshima Mon Amour, 1959

Para Deleuze, em comentário sobre o filme (DELEUZE, 1985/2013), essa memória é tecida, não por uma identidade coletiva que pode ser produzida em um povo, um país, um grupo, uma família, ou um personagem, mas por “lugares não comuns” que expressam uma multiplicidade de pontos de vista sobre o que aconteceu (DELEUZE, 2013, p. 114). Assim, Resnais inicia com uma memória e uma perspectiva construídas coletivamente (os acervos nacionais, a Biblioteca, o Museu, o filme-documentário de cunho pacifista) para acabar atingindo “o paradoxo de uma memória a dois, de uma memória de várias pessoas (…), que compõe uma memória mundial” (idem). Assim como no espaço literário, o lugar não comum é o espaço de encontro e conexão entre diferentes perspectivas, distintos pontos de vista, alguns ainda em potencial, que permitem, paradoxalmente, a constituição de uma memória comum.

Foi preciso fender a superfície das imagens, quebrar o tipo de visibilidade organizado pelos museus (uma memória coletiva que se refere a países, geografias, tempos e pessoas determinadas), para fabricar outra visão, que percorre agora um plano de intensidades e de potencialidades. A própria técnica utilizada por Resnais permite que o salto seja dado: a sequência de fotos do horror é substituída, na última parte do filme, por travellings que percorrem a arquitetura das cidades (Hiroshima e Nevers) dotando-as de uma expressividade própria. Por sua vez, a linguagem se descola das imagens, se emancipando do papel subordinado de descrição e buscando o seu próprio limite: as relações entre a cidade, o amor, o corpo, a vida, as mutações imperceptíveis e definitivas produzidas pelo encontro e, por fim, uma pura relação subtraída da própria linguagem.

Podemos, então, retornar à questão geral sobre a relação entre a sequência de imagens que anima a exposição e uma indagação sobre a atualidade dos levantes no atual contexto global. Como passar da constituição de uma memória coletiva dos levantes através de imagens que percorrem séculos – transformando-o em um mesmo objeto a ser olhado – para a constituição de múltiplas posições, ou pontos de vista, que podem ser suscitados pela paixão da imagem? Elas poderão arrastar os nossos olhares na direção de novos planos, modos de existência e conexão entre diferentes perspectivas, como no filme de Resnais e Duras? Elas poderão servir de intensificadores para novas formas de percepção que possam seguir os rastros, os traços e as potencialidades deixadas pelos levantes que sacudiram o mundo? Elas servirão como um ponto de partida que elimina esboços de novas possibilidades ou marcarão uma tomada de posição que garante a tensão e a ambiguidade de uma coexistência de multiplicidades?

Utilizando essa problematização como um critério distintivo das contribuições deixadas pelos filósofos que participam do catálogo, mesmo que por aproximação, podemos identificar duas tendências gerais que apontam para o modo como a filosofia política e a filosofia da arte têm abordado a atualidade dos levantes. A primeira, busca inscrevê-los em longos fios históricos constituídos através dos últimos séculos, em densas camadas de memória coletiva, em um desfile de imagens que remete aos grandes processos insurrecionais, em um lógica de fins e valores definidos de um pontos de vista externo às próprias dinâmicas, servindo para determinar o que seria um levante democrático ou autoritário, ou o que seria uma ontologia negativa ou positiva. Os levantes aparecem como um mundo externo a ser analisado e avaliado e, portanto, a reflexão quase sempre toma a forma de um juízo.

Parece ser o caso de Antonio Negri, que reconhece uma multiplicidade de situações de levante (conduzidos por imigrantes, endividados, jovens de periferia etc.) para inscrevê-los nos anos epônimos de 1848, 1871, 1917, chegando aos ciclos altermundialistas e à Primavera Árabe. Eles representariam o paradigma de um “movimento que cresce, continua, se aprofunda, mesmo que por meio de derrotas” (NEGRI, A. 2017. p. 43). Uma espécie de “sedimento secular que leva pessoas a sacudir os limites do poder com cada vez mais força” (idem). Uma “linha vermelha” que ligaria as tentativas de ruptura da ordem vigente a um “projeto de mundo futuro” (idem, p. 42). O campo da indignação, aqui, é reduzido a uma ontologia negativa que precisaria realizar uma passagem para a positividade de uma ontologia constituinte que “sopra da Comuna aos sovietes, das insurreições metropolitanas às primaveras do novo proletariado” (idem, p. 44).

Da mesma forma, parece que Judith Butler, em seu texto para o catálogo, também poderia ser alocada nessa linhagem.  A filósofa inicia o texto perguntando quem e o quê se levanta quando há um levante, buscando sua principal motivação em um limite que foi alcançado, uma situação de sofrimento que atinge a marca do intolerável (BUTLER, J. 2017, p. 23). O levante democrático, para ela, teria sempre uma finalidade ou um objetivo que estão voltados para a liberdade, a justiça, a autodeterminação e a igualdade.

Ele seria uma forma real e coletiva da convicção de que a sujeição foi longe demais, provocando situações de intolerável injustiça. Embora caracterizado como um acontecimento pontual, que sempre encontraria um fim e um fracasso, o levante se inscreveria na história e conquistaria uma narrativa que ilumina novos ideais (idem, p. 30). Por isso, em boa parte dos casos seria possível traçar uma relação entre os vários episódios, compondo um processo em curso, uma “história cumulativa” na qual “um levante sempre cita o outro e é animado pelas imagens e narrativas do anterior” (idem, p. 31).

O problema das duas maneiras de caracterizar os levantes é, justamente, tratá-los como uma sequência de imagens que torna visível uma aspiração por outro futuro. Assim, cada levante funciona naquele mesmo registro do museu de Hiroshima: torna o fato visível, mas com o preço de inscrevê-lo em uma memória coletiva que aponta para grupos, classes, movimentos e um lugar comum. A história funciona como a fiel depositária dos sedimentos e imagens que permanecem a espera da irrupção do próximo acontecimento. A passagem da negatividade da indignação para a positividade do levante constituinte só é apreendida quando passa pelo crivo de imagens já disponíveis no grande corredor da história revolucionária (“da Comuna à Primavera Árabe”). Não são os levantes que lançam uma nova miríade de pontos de vista que arrastam o nosso olhar para o espaço árido das potências informes e de seus mundos possíveis, ainda que inacabados ou precariamente esboçados. Eles permanecem em uma espécie de mundo exterior, esperando que os juízos dos filósofos da política decidam sobre sua natureza, seu estatuto e o seu local no cintilante museu dos acontecimentos insurgentes.

Em sentido contrário, a segunda tendência geral pode ser compreendia como a passagem do juízo a uma estética dos levantes. Para David Lapoujade, se a política começa pela estética não é porque ela deva ser estetizada ou vice-versa, mas porque “tudo começa com ver e falar – e porque é pela estética que podemos remontar as condições mesma da experimentação” (LAPOUJADE, D. 2015, p. 280). É a mesma premissa adotada por Rancière em sua conhecida distinção entre polícia e política: enquanto a primeira ordena o nosso campo de percepção produzindo consenso, a segunda: “faz ver o que não cabia ser visto, faz ouvir um discurso ali onde só tinha lugar o barulho” (RANCIERE, J. 1995/1996, p. 42).

Mas como ver? Como tornar mais real aquilo que já existe mas não possui força suficiente para fender a ordem das palavras e das coisas? Que gestos são necessários para que determinados modos de existência ganhem mais consistência, extensão e intensidade? É novamente David Lapoujade que propõe a discussão, a partir da recuperação de uma “arte da ontologia” no trabalho do filósofo Éttiene Soriau. Através da qual, uma estética do Ser é pensada pela infinita variedade de seus modos e maneiras  de existência. (LAPOUJADE, D. 2017, p. 13). A primeira afirmação desse pluralismo existencial é que “não há um único modo de existência para todos os seres que povoam o mundo, como também não existe um único mundo para todos os seres (…)” (idem, p. 14). Trata-se de perceber as diversas artes de existir que participam, não sem realizar inúmeras travessias, dos vários planos ou dos vários mundos compostos e decompostos pelas diferentes perspectivas lançadas.

Além disso, o critério de distinção entre os modos de existência não é próprio de cada modo, mas se refere às condições pelas quais cada realidade se coloca (idem, p. 34).  Assim, dentre os vários modos de existência, os fenômenos levantam estruturas fugidias e instantâneas (ex: uma nuvem rósea no céu) e graças ao seu poder de nuance recompõe toda a paisagem. As coisas, por sua vez, levantam uma permanência e um ímpeto de conservação, formando com outras coisas uma unidade estável e sistemática  (ex: o próprio corpo humano). Os imaginários existem enquanto sustentado por crenças e afetos (ex: o monstro no quarto escuro da criança). Os virtuais são esboços, fragmentos, potencialidades que apontam para um leque de novas possibilidades de existência e, portanto, não podem ser confundidos com a simples inexistência (ex: um pequena história sugestiva ouvida por um escritor).

Contudo, dentro dos universos compostos pelos diversos modos de existência, para Souriau, os virtuais possuem um estatuto especial. Eles formam o universo mais rico e mais amplo, uma nuvem que está sempre à nossa volta, mas que é também o mais evanescente e mais próximo do nada (idem, p. 38). Eles não definem uma arte por si mesmos, mas exigem que uma arte seja criada, que gestos possam lhe dar uma existência mais real. No mesmo plano, é através dessa nuvem de potencialidades que novas realidades podem ser criadas, ou seja, os virtuais dependem de um gesto de criação, assim como toda a criação depende de uma percepção e de uma exploração dessa nuvem de potencialidades. Saímos, portanto, do domínio das existências estáticas e passamos para o campo de criação e transformação dos próprios modos de existência: da modalidade para a transmodalidade.

Voltamos a questão: como perceber e como dar mais consistência aos virtuais? Lapoujade recupera o exemplo da mãe que desarruma os objetos cuidadosamente compostos por uma criança em cima da mesa, fazendo-a chorar. O que faltou a mãe? O que ela não viu? Decerto, criança e mãe enxergam a mesa e todos os objetos sobre elas dispostos. Mas faltou a mãe perceber o modo de existência próprio desses objetos, com suas arquiteturas e virtualidades, do ponto de vista da criança. É por trabalhar com outro conjunto de dados – a exigência de limpar a mesa, organizar a casa, garantir a ordem do mundo – que ela não vê e não é capaz de explorar outras possibilidades (idem, p. 44). Existem, assim, inúmeras aberturas e fendas desenhadas pelos virtuais na ordem das coisas, mas raros são aqueles que se deixam arrastar por essas brechas, tanto para percebê-las, como para traçar a partir delas um espaço de criação.

Para uma estética da política o mais importante, portanto, não seria ter uma ponto de vista prévio que se lança sobre os levantes, enquadrando-os em imagens e enunciados já formados na mesa dos filósofos da política ou nas reuniões de conjuntura dos ativistas e militantes políticos. Trata-se de mudar a própria arquitetura que sustenta uma perspectiva ordenadora do mundo e reconhecer que os levantes, eles mesmos, nos interpelam com seus pontos de vista e perspectivas, dando consistência e realidade a outros mundos e modos de existência a serem explorados ou seguidos.

Na introdução que abre o catálogo da exposição Levantes, Didi-Huberman não caracteriza os “tempos sombrios” como o momento que a humanidade precisa enfrentar a força e a aparição súbita de um grande Mal que aterroriza as boas almas do mundo. Para ele, “os tempos sombrios só são tão sombrios por baterem na nossa cara, comprimirem nossas pálpebras, ofuscarem o nosso olhar. Como fronteiras que se impõem em nosso próprio corpo e pensamento”. Eles são “cinza como os dias chuvosos” e como as capas de chumbo que pensam sobre nossas existências (HUBERMAN, D. 2017a, p. 15).

Talvez seja o caso, então, de opor ao cinza e à gravidade dos dias chuvosos a luminosidade e a força árida do deserto.  Reencontrar o fascínio, que desvia e arrasta o olhar para um espaço mais leve, onde luzes podem ser esculpidas e outros enunciados podem ser encontrados. Fender a ordem das palavras e das coisas, abri-las para novas potencialidades. Interromper os juízos e constituir um campo de experimentação: uma estética dos gestos, dos modos e das maneiras de ser. Seguir os traços e rastros deixados pelos levantes, mesmo que eles nos levem para uma lógica do desvio, da ambiguidade, da errância e de circularidades sempre aberrantes. Cruzar a fronteira, não tomar partido, arrancar a nossa percepção do cinza das guerras morais e de trincheiras que não são nossas.

Reencontrar os mundos durante o caminho sem objetivo que é o deserto.

 

Bibliografia

 

BLANCHOT, M. The infinite conversation. Minneapolis: Minnesota University Press, 1993.

________. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

BUTLER, J. Levante. In: DIDI-HUBERMAN, G. [Org.] Levantes. São Paulo: SESC, 2017.

DELEUZE, G. A imagem-tempo. Cinema 2. São Paulo: Brasiliense, 2013.

DELEUZE, G; GUATTARI, F. Kafka: para uma literatura menor. Lisboa: Assírio & Alvin, 2002.

DIDI-HUBERMAN, G. Introdução. In: DIDI-HUBERMAN, G [Org.] Levantes. São Paulo: SESC, 2017.

________. Quando as imagens tomam posição: o olho da História, I. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2017b.

HIROSHIMA Mon Amour. Direção: Alain Resnais. Roteiro: Marguerite Duras. França/Japão. Argo filmes, 1959.

LAPOUJADE, D. Deleuze, os movimentos aberrantes. São Paulo: n-1 edições, 2015.

________. Existências mínimas. São Paulo: n-1 edições, 2015.

NEGRI, A. O acontecimento “levante” In: DIDI-HUBERMAN, G. Levantes. São Paulo: SESC, 2017.

RANCIÈRE, J. O desentendimento. São Paulo: Editora 34, 1996

[i] Prof. Adjunto da Faculdade de Direito da UERJ. Participa da Rede Universidade Nômade.

[ii] Comunicação realizada no dia 06 de dezembro de 2017, durante o II Seminário Internacional Desobediências e democracias radicais: a potência do comum dos direitos que vêm, organizado pelo Grupo de Pesquisa O estado de exceção no Brasil contemporâneo (UFMG). Aproveito para registrar o meu agradecimento aos organizadores, em especial ao Prof. Andytias Soares.

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O novo quer nascer e o velho não quer morrer http://uninomade.net/tenda/o-novo-quer-nascer-e-o-velho-nao-quer-morrer/ http://uninomade.net/tenda/o-novo-quer-nascer-e-o-velho-nao-quer-morrer/#respond Sun, 17 Dec 2017 12:41:12 +0000 http://uninomade.net/?post_type=tenda&p=3663 Por Salvador Schavelzon, em Cidadanista,  6/12/17

Depois de 2011, uma onda de manifestações correu o mundo. Com ocupações em praças, levantes contra governos, assembleias comunitárias e protestos, muitas bandeiras foram levantadas. Temáticas como anticorrupção, ou ainda as marchas motivadas pelo aumento do transporte público em junho de 2013, no Brasil, ou a dos estudantes, no Chile, em 2011, foram algumas das motivações que incendiaram as mobilizações massivas que surpreenderam um cenário político antes apático. A sensação geral era de falta de alternativas frente a governos neoliberais, a que tantos conservadores quanto progressistas haviam se entregado.

O contexto que dava lugar a esse ciclo era – e continua sendo – o do aprofundamento do modelo neoliberal, que se mostra sem alternativas. Os efeitos da crise são vários e em série: explosão de bolhas especulativas, com mais dívidas, mais segregação dos pobres, liberalismo extremo e a certeza frágil de que a lógica empresarial deve ser o caminho para o funcionamento dos serviços sociais em qualquer dimensão de nossa vida. Ao mesmo tempo, surgem como contraponto – mas também com elementos de um mesmo cenário cada vez mais comunicado entre uma profusão de minorias – novos feminismos, movimentos étnicos ou antirracistas que ganham espaço frente ao desmantelamento de uma política de massas que já não se mantém, numa sociedade que já não existe, frente à inércia das ferramentas tradicionais, de estruturas e instituições que ainda seguem de pé.

Por mais que o neoliberalismo seja único, generalizado e global, em termos de sistema político, ele se organiza como polo midiático que opõe, de um lado, perfis que assumem abertamente uma agenda de elite atendendo a setores empresariais; frente a outro campo que, sem romper com o neoliberalismo, se apoia em narrativas como nacionalismo, soberania ou a um sistema de direitos sociais que imagina uma sociedade integrada com um Estado forte. Na realidade, naturalmente, nem a liberdade nem a prosperidade do mercado se realizam; nem muito menos hoje a justiça social com intervenção do Estado vai mais além do que um discurso. Ficamos com palavras que não mobilizam, não conseguem ser traduzidas em políticas estruturais efetivas, nem muito menos se conectam materialmente com a vida dos trabalhadores ou com construções políticas de base e poder territorial.

Diante disso, surgem novos movimentos e mobilizações que se inserem em diferentes buscas políticas. As ruas abriram caminhos frente a uma disputa espetacular que se dilui em uma multidão de identidades, discursos, campanhas eleitorais sem conexão com quem realmente nos governa. São práticas de ruptura que se isolam sem conseguir enfrentar a batalha em um mundo que mercantiliza e vende tudo, com Estado e mercado trabalhando juntos frente a um capitalismo sem rival.

As mobilizações de Hong Kong à Nova Délhi, Praça Zucotti ou no Distrito Federal são, juntas, ar fresco e materialidade frente a cenários desgastados e sem saídas. Ali se discutiram ativamente a representação e os limites da institucionalidade republicana.   

É alto o risco de que o que está nascendo seja também tragado e neutralizado depois de um impacto inicial e que as coisas voltem a se acomodar. Práticas políticas tradicionais que não perdem tempo em estar presentes em qualquer coisa que apareça exercendo pressão conspiratória sobre a difícil construção de horizontes verdadeiramente de ruptura. E ainda que haja experiências de governo de novos partidos na Índia, ou possa ocorrer no México, também ocorrem nos partidos tradicionais ocorrem coisas como Sanders e, em alguma medida, o kirchnerismo. O problema aparece na administração e gestão do impulso inicial do movimento, em que o peso do sistema mostra sua fortaleza e capacidade de tudo tragar.

Depois das praças e mobilizações, abriu-se no campo da esquerda um debate sobre organização e poder institucional, que se questionou sobre a necessidade de encontrar instrumentos políticos que levassem a voz das ruas para o governo. Existem, ao mesmo tempo, buscas comunitárias que se multiplicam nas cidades e no campo, desde as margens da civilização, ou em ruptura com essa, em agendas autônomas que se desconectam da conjuntura estatal cada vez mais tóxica e fatalista, controlada por lógicas em que parece que qualquer alternativa leva para o mesmo lugar, sem conseguir sair de uma máquina social destrutiva.

Mas foquemos nas traduções do ciclo de lutas que culminou na busca de uma nova política partidária dentro das instituições. As outras se situam em outro tempo e espaço, com um impacto difícil de medir mesmo que se apresentem com vínculo e como alternativa nova unindo todos os caminhos. Dentro da política estatal, e de forma mais visível, municipalismos ou frentes são postas em movimento, uma vez que as construções que capitanearam o rumo dos partidos e movimentos de esquerda no período anterior acusaram o seu próprio desmoronamento. É justamente essa relação de velhas referências de esquerda que definem a possibilidade de algo novo nesse campo, e já existem experiências avançadas nessa direção.

O partido Podemos e as confluências municipalistas na Espanha foram uma das expressões mais claras nesse sentido. Seu raciocínio é que se pode ser fiel ao 15M por um caminho institucional, e que por mais que as formas de soberania estatal e nacional estivessem sendo superadas, o governo de cada país é a instância que as classes populares tinham mais perto para enfrentar o neoliberalismo global. Com sua aposta ainda pendente de se concretizar, sobrevive também justamente por não ter encontrado lugar como o Syriza ou governos sul-americanos recentes.

Entretanto, para que surjam novas alternativas, parece ser necessário um posicionamento claro em relação às expressões de quem são os herdeiros diretos. Assim é também dentro dos partidos que se renovam e, evidentemente, no caso da nova política espanhola, nenhum salto poderia ser imaginado sem se distinguir da esquerda tradicional ou da social-democracia. Embora o Podemos já tenha sentido seu limite nas eleições, o partido oscilou em se reencontrar com a Esquerda Unida (com o qual permanece aliado) ou ao fazer um pacto de governo com o PSOE.  Sua razão de ser é a ruína da Espanha da transição iniciada em 1978, com 35 anos de esgotamento de um sistema anterior que ainda sobrevive e parece ter que ser contemplado também como parte da solução.

Na América Latina, novas forças surgem na medida em que o passado é deixado de lado. Duas novas frentes exploram esse território no Chile e no Peru, onde os governos que chegaram com votos de esquerda mantiveram intacta uma agenda neoliberal. No Chile, o Frente Amplio, com seu núcleo político de forças autonomistas nascidas das mobilizações dos estudantes, só foi possível com a ruptura em relação à frente Concertación-Nueva Mayoría de Bachelet. O mesmo acontece no Peru, que pela primeira vez em muitos anos tem uma bancada de vinte congressistas de esquerda contra o fujimorismo, mas também contra o resto de opções políticas do sistema. O Frente Amplio do Peru, que, como o Podemos, conseguiu um importante terceiro lugar nas eleições, é a primeira força política de peso na região. Foi a partir do legado da luta de Cajamarca contra a mineradora Conga que o partido colocou na discussão os limites do extrativismo e a necessidade de pensar em alternativas para o desenvolvimento.

Como complexa combinação de elementos velhos e novos, candidaturas ou rearranjos com novas caras (ou velhas, como Sanders e Corbyn, que ainda recuperam experiências de mobilização do ciclo atual, como Occupy) expressam e trazem avanços políticos explícitos ou subterrâneos, em reação a certa recomposição do campo conservador. Como condição, ao mesmo tempo, essas construções mostram distância com o núcleo de reflexão política originária das praças feitas por assembleias e políticas rizomáticas sem líderes; assim também como rupturas comunitárias e territoriais que entendem o poder e a transformação com muito mais intransigência. O “como” é a chave tanto nas instituições quanto nos territórios, mas uma dessas expressões é condescendente com a aceitação dos instrumentos políticos que não se rejeitam com a aposta que podem ser ressignificados. 

Não é verdade que essa saída tática do campo da esquerda, que busca o diálogo e a construção com as maiorias nos partidos e frentes, por meio de lideranças e demandas tradicionais, tenha ficado fora do ciclo anterior de lutas. Não é totalmente um novo populismo ou uma nova resposta vinda das praças. Depois de Seattle, Gênova, Praga e o Fórum Social Mundial, a energia acumulada nos protestos antiliberais foi se constituindo também em movimentos políticos e depois em governos que pouco a pouco se distanciaram do que os unia na origem. Disso tudo nasceu, na América Latina, o ciclo de governos progressistas que sobrevive ou termina frente a sobressaltos eleitorais com resultados adversos nas eleições municipais do Brasil, legislativas na Venezuela, presidenciais na Argentina e contra a possível reeleição na Bolívia. As rápidas saídas dos governos, quando o ciclo econômico é desfavorável, deve ser uma lição para quem busca atalhos dentro das novas formações ou movimentos.

Os limites das novas expressões, como foram antes o desenvolvimentismo e a social-democracia, se encontrariam na reprodução de formas de fazer as coisas com as forças que venham a substituir, estabelecendo participação apenas formal ou não para decisões cruciais e se entregando de corpo e alma em direção aos meios de comunicação. As novas frentes dificilmente vão fugir das disputas de cúpula ou tática eleitoral que contrasta com a política das praças e ruas. A experiência parlamentar mostra também uma acomodação em relação às lógicas de um sistema que desde dentro já não pode ser  impugnado ou ressignificado, mas é facilmente moldado. Esses preferem apostar nas pequenas diferenças ou priorizar a própria construção para esperar uma mudança maior que chegará em um momento futuro.

Na Argentina e no Brasil, diferentes intenções da “nova política” ficaram até agora encalhados, enquanto Lula e Cristina são os líderes que se recompõem e se posicionam na trincheira da oposição ao sistema – quase como se não tivessem vindo de uma força de governo que seria necessário superar. A rejeição a Temer e Macri possibilitaram que volte a se aproximar uma esquerda que tinha retirado seu voto a essas forças quando via um governo sem escrúpulos para reprimir protestos sociais ou executar projetos monstruosos como Belo Monte e suas cópias, indubitavelmente sem legitimidade popular. Projetos como o Ahora Buenos Aires, com métodos de confluência próprios e busca de referências midiáticas novas e de articulação com novas linguagens populares terminaram sendo tragados pela impossibilidade de se encontrar espaços para além do kirchnerismo.

No Brasil, parece estar muito longe a atitude crítica das manifestações de junho de 2013, quando a participação do PT na administração de um projeto neoliberal de governo junto aos grandes partidos do sistema era evidente. Daí resultam as dificuldades para que deslanchem articulações como as que giram em torno de Guilherme Boulos, do MTST, a esquerda dentro do PT e partidos contrários a Temer, os quais, inclusive, mesmo não apoiando Lula, falam a mesma língua e confluem na mesma direção. A tragédia venezuelana, ou inclusive a imagem que Lula e Cristina mantêm dentro de alguns setores, fazem com que essas forças sigam de pé e bloqueiem a aparição desse tipo de alternativa, mesmo quando sua volta ao governo parece impossível.

O desafio hoje é conseguir traduzir o desgosto social com o neoliberalismo em opções políticas. Mas também que estas não fiquem neutralizadas no lugar da mera crítica parlamentar ou de ações paliativas que não tocam a fundo o poder: mais lenha para um fogo de imagens e espetáculos. O desafio é que faça parte do debate a necessidade de pensar novas instituições do comum, e que qualquer projeto político se recicle também como uma disputa no plano das subjetividades, as quais nas praças e mobilizações de insurreição encontrem um território novo. Pode ser que essas demandas nos obriguem a ir além das alternativas institucionais que surgem no ciclo de lutas aberto globalmente na última década.

 

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