Junho sobrevive

Por Silvio Pedrosa, no Correio da Cidadania, 29/6

June

As interpretações mais generosas (1) de junho de 2013 vazadas nos esquemas explicativos da velha esquerda (esquemas explicativos hegemônicos na percepção política de toda a esquerda atualmente) consideram que junho de 2013 foi um acontecimento “ambivalente” ou “ambíguo”, uma vez que teria expressado, além de “pautas de esquerda”, como o protesto contra o aumento das tarifas e a crítica da violência policial, também “pautas de direita”, a saber, a indignação difusa contra a corrupção e a crítica do sistema partidário.

A razão pela qual esse esquema se revela miserável em termos de análise da conjuntura não exige esforço para ser exposta. Como, para ficarmos com apenas um exemplo que ilustra a conexão entre as duas pontas do esquema da velha esquerda, realizar a crítica adequada do sistema de transporte público das metrópoles brasileiras sem passar por uma crítica do sistema partidário como parte do arranjo mafioso do consórcio Estado-mercado?

Cindir a multiplicidade do acontecimento de junho de 2013 para enquadrá-lo em um esquema binário não é uma interpretação, mas uma operação policial realizada sobre a percepção – Guy Debord escreveu, há exatos 50 anos em seu A sociedade do espetáculo, com razão, que a “ideologia revolucionária” contribuiu para a emergência da sociedade espetacular através de uma “transformação policial da percepção” (2) – e cujo objetivo é tornar novamente “particulares” os problemas de articulação da sociedade enquanto sistema integrado. Torná-los novamente particulares significa desfazer a conexão iluminada pela perspectiva que junho de 2013 abriu.

Para recorrer a um fato que está na ordem do dia: como ignorar que hoje seja Rodrigo Janot, o Procurador Geral da República, o grande agente antirreformas disponível no tabuleiro do xadrez político nacional? Diante das notícias que sua ofensiva contra Temer bloqueou a Reforma da Previdência (3) e inclui ainda o questionamento da lei da terceirização irrestrita, como esquecer que foi a mobilização anti-PEC 37 (cujo objetivo era restringir a competência do Ministério Público e dar exclusividade investigativa às polícias civis), em junho de 2013, que garantiu o respaldo social que atualmente constitui o suporte popular do papel que o MP em geral desempenha nesse momento?

Que hoje a resistência contra as reformas e a luta pela destituição de Temer dependam de atores institucionais de origem tão pouco democrática é, sem dúvida, problemático e aponta tanto para a derrota daquela fração radical do movimento de junho de 2013 que sucumbiu diante do “partido da ordem”, que se formou logo após o acontecimento e integrou todo o establishment (mídia, partidos – à esquerda e à direita –, judiciário e seus cães de caça), quanto para o fato de que não houve nenhuma invenção institucional à altura do acontecimento – o que se explica pela combinação entre o trabalho incessante de hegemonia do PT contra qualquer inovação política e social e a incapacidade dessa fração radical em se libertar das garras dessa hegemonia, rompendo definitivamente com o petismo e o lulismo.

Ao mesmo tempo, entretanto, isso revela todas as contradições escancaradas pela irrupção da multiplicidade de pautas, desejos e mobilizações determinadas por junho de 2013 e o fato de que elas não tinham (e não têm) um sentido “ideológico” apriorístico, mas foram (e são) fissuras no consenso a partir de onde se pode produzir outras subjetividades e, portanto, uma outra sociedade (4).

Notas:

1. As menos generosas, para usar um eufemismo, classificam junho como uma conspiração internacional.

2. Guy Debord, A sociedade do espetáculo, Rio de Janeiro, Contraponto, (1967) 1997, p. 72.

3. Cf. a reportagem de Raymundo Costa no Valor Econômico de 28/06/2017 (link: http://mobile.valor.com.br/politica/5019388/reforma-da-previdencia-esta-liquidada).

4. Para esforços analíticos à altura de junho como acontecimento, bem como seus desdobramentos cf. Clarissa Naback e Alexandre Mendes, “Vertigens de junho”, UniNômade, 21 de março de 2016 (link: http://uninomade.net/tenda/vertigens-de-junho/) e Bruno Cava, “O 18 de Brumário brasileiro” In: Bruno Cava e Márcio Pereira (orgs.), A terra treme: leituras do Brasil de 2013 a 2016, São Paulo, Annablume, 2016 (também disponível no link: http://www.quadradodosloucos.com.br/?p=5366).

 


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