Não rejeitar o verde-amarelo: antropofagia

Por Bruno Cava, da UniNômade

pau-brasil

Depois de uma conversa com a Sindia Bugiarda, cheguei à conclusão que, neste momento, não adianta se opor diretamente às bandeiras do Brasil, às palavras de ordem nacionalistas e aos slogans anticorrupção. Isso seria tudo o que a extrema-direita mais deseja: apontar os dedos aos judas dentro das marchas. Em oposição ao manifestante teleguiado e com ideologia, construir a identidade do bom manifestante: apartidário, apolítico e comportado. Este se considera cidadão de bem, não gosta de politicagem e só quer os políticos parem de roubar e façam a coisa certa. De uma forma ou de outra, a onda verde-amarela colou, mas dentro desse turbilhão tem muita coisa. Não dá pra reduzir à agenda da direita, que tenta dirigir as pulsões com o amparo massivo e diuturno da grande imprensa.

Dentro tem insatisfação com os serviços públicos, que, apesar do crescimento, continuam péssimos. Tem a indignação diante de um novo Brasil potência que, todavia, deixa apenas migalhas para a população, de quem se exige sempre mais tempo de trabalho, com renda achatada. Tem também uma asfixia no nível da subjetividade, uma montanha de cobranças e exigências, uma distribuição cruel do fracasso e da culpa, para mobilizar-nos a dar tudo em nome do sucesso, da empregabilidade e da ascensão social. E também tem o acúmulo de tensões, lutas e indignações contra os projetos de cidade e país, formatadores de um futuro onde não temos lugar de sujeito, onde somos apenas variáveis econômicas ou estatísticas de renda, sem capacidade de construir junto. Tudo isso de uma forma ou de outra se exprime, desajeitadamente, nas ruas também como verde-amarelo, hino e bandeira do Brasil.

A pauta anticorrupção, por exemplo, atrai o sentimento de exclusão dos processos políticos, onde nossas riquezas e nossa força são expropriadas nas mãos de poucos. A condenação da classe política, por sua vez, resgata o grito argentino “que se vayan todos”, uma percepção que esquerda e direita convergem numa lógica idêntica, diferenciando-se apenas por distintos projetos de gestão do mesmo. A repulsa às ideologias não deixa de ser um estranhamento com uma esquerda que há décadas não faz mais trabalho nas bases, não suficientemente, e agora parece jurássica diante de uma nova composição do trabalho e da cidade, transformada pela “ascensão da classe C”. Tudo isso gerou uma situação insustentável para a nossa dialética vermelho-esquerdista. É evidente que a direita tenha percebido isso, e tente canalizar a justa indignação e insatisfação, a difusa revolta, em suas pautas moralizantes.

O golpe é para que tudo continue o mesmo, sequestrando a disputa para o plano abstrato da moral, onde o cidadão de bem triunfa contra o vagabundo, o vândalo e o esquerdista. Eles estão aparelhando os protestos, sim, e precisamos agir rápido. Precisamos nos renovar da noite para o dia, retomar toda a autocrítica e reflexão que têm sido feitas nos últimos anos. Agora é pôr em prática as inúmeras teses, artigos e ensaios sobre a necessidade de renovar. E adaptar. Fazer subversão por dentro da estética (imediatamente política), recordar o ensinamento oswaldiano. Se querem Brasil, Pau Brasil; se querem anticorrupção, que seja a corrupção do poder, a corrupção entranhada num sistema intolerável; se querem hino, façamos nossas próprias versões em ritmo de rap, funk, hip hop. Só a antropofagia une. Discutamos isso nas organizações de eventos, protestos e grupos. Não há o que temer. A força das ruas não vai se adaptar, somos nós que precisamos aprender a comer e digerir.


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