Nietzsche segundo Camus

Por Luca Szaniecki Cocco
Esse artigo tem como objetivo esclarecer uma dúvida recorrente do artigo sobre Deus e o Diabo na Terra do Sol, uma análise anti-dialética, no que diz respeito à Nietzsche. Tentarei aprofundar, com mais liberdade, o que Camus critica no pensamento de Nietzsche e para entender melhor as razões dessas críticas.
Primeiramente, existem dois aspectos a serem explorados: por um lado, a afirmação de Albert Camus de que Nietzsche teria inspirado o pensamento nazista, e pelo outro, o mais complicado, a percepção de Camus de determinismo histórico no pensamento de Nietzsche, assim como ele viu em Hegel e Marx. Começando pelo mais fácil, estudaremos as relações entre Nietzsche e o nazismo do ponto de vista de Camus. Depois, veremos qual o principal problema segundo Camus na filosofia do controverso pensador alemão. Para isso utilizaremos principalmente o capítulo que Camus dedica a Nietzsche em O Homem Revoltado de Camus.
No pensamento de Camus, o Homem se revolta contra sua condição enquanto mortal, o que o leva a se revoltar contra Deus (ou qualquer forma de divindade ou necessidade). O problema então se concentra nos meios da revolta e também como os homens decidem “substituir” o divino. Depois da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente durante toda a primeira metade do século XX, Camus apreende os dois principais movimentos de revolta que se tornaram totalitários. Por um lado, a dialética e o materialismo histórico de Hegel e Marx influenciaram a Revolução Russa. Do outro, Camus situa a filosofia de Nietzsche que teria influenciado o fascismo e o nazismo (embora Mussolini dissesse ser um grande admirador de Hegel). Ambos os lados, apesar de suas diferenças, tinham algo em comum que Camus resume bastante claramente: “Todas as revoluções modernas acabaram fortalecendo o Estado”. Nesse caso, ele não se refere apenas ao nazismo e ao comunismo mas também a todas as revoluções da era moderna, inclusive a Revolução francesa (basta conferir o terrível resultado do regime do terror jacobino -de Robespierre).
Seja na Revolução de Outubro de 1917, seja na Marcha sobre Roma de 1922, ou na posse de Hitler em 1933, a “cidadela de Deus” (“la cité de Dieu”) foi destruída e substituída por um “Estado terrorista” (CAMUS,1951). É preciso ter cuidado: a destruição da cidadela de Deus não é concreta, nem completa, pois é preciso considerá-la como uma metáfora de Camus para ser entendida como substituição da divindade e da necessidade por novas figuras e instâncias. A religião não era necessariamente destruída no processo: o fascismo, por exemplo, continuava a ressaltar a importância da religião, o que não era o caso na União Soviética onde padres e igrejas eram eliminadas. Em todo caso, a “servidão e o terror levaram à concentração”, seja no gulag ou nos campos nazifascistas (e um leitor do século XXI também adicionaria o laogai chinês).
Para Camus, a revolução do século XX mata “o que resta de Deus” (fazendo referência ao próprio Nietzsche e sua famosa citação de que “Deus está morto”) e consagra o que ele chama de “niilismo histórico”. Este conceito (ou até mesmo a ideologia cujos efeitos são vistos por todo o espectro político, da esquerda à direita) é dividido em dois movimentos: por um lado o “irracional”, incarnado pelo Fascismo e Nazismo, que Camus chama de “mestre da morte e criador de sub-humanos”, pelo outro, pela racionalidade absoluta do Comunismo marxista/leninista/stalinista que “mutila o homem e suas paixões”. O primeiro seria então o “advento do super-homem nietzschiano”(CAMUS,1951) e é esse que estudaremos com mais detalhes nesse artigo. Camus poẽ nazismo e comunismo no mesmo saco do “niilismo histórico” e os condena: quando ele fala dos processos de Nuremberg, marco histórico no qual diversos oficiais nazistas foram condenados pelos seus crimes contra a humanidade, Camus fala que “era preciso julgar as responsabilidades históricas do niilismo ocidental”.
Antes de entender o papel de Nietzsche nisso tudo, é preciso estudar o entendimento de Camus sobre o nazismo e fascismo. De fato, Camus descreve o nazismo como um “movimento perpétuo de negação” que nasceu em uma nação onde nenhum “valor se sustentava mais” (“aucune valeur ne tenait plus”) durante a República de Weimar, no primeiro pós-guerra. É por essa razão que, em 1933, Hitler chegou ao poder, pois o povo “aceitou escolher um valor degradado de alguns homens”, e impôs esses valores a toda uma civilização. Hitler incarnava uma negação total e defendia valores retrógrados e por isso seu projeto ficou insustentável: “A Alemanha colapsou por ter iniciado uma luta imperial com um pensamento político provincial”(CAMUS,1951). Ao perceber que não tinha mais chances de vencer a guerra que havia começado, cercado pelos americanos e britânicos (e franceses) pelo lado ocidental e pelos soviéticos na frente oriental, Hitler resistiu até o último segundo, pois, segundo seus próprios princípios: “Se o povo alemão não é capaz de vencer, ele não é digno de viver”(CAMUS,1951).  Se trancou em seu bunker e esperou. Milhões de mortos por nada. Suicídio coletivo.
Mas por que esse regime, tão sanguinário e retrógrado, seria uma derivação do pensamento de um filósofo que quebrou tantos tabus como Nietzsche? Primeiramente, porque o seu conceito de “super-homem”(Übermenschfoi interpretado de maneira perigosa pelo fascismo e nazismo. Esse conceito, inicialmente tomado como uma superioridade filosófica, acabou se tornando um termo patriótico, romano para Mussolini e racial para Hitler com seu ideal do homem ariano, germânico. É verdade que essa interpretação já foi analisada como um equívoco, e Camus estava ciente disso, porém é inegável que essa conexão aconteceu. De fato, Camus sabia que Nietzsche fora utilizado como justificativa de pensamentos com os quais ele discordava: Nietzsche era crítico do que ele mesmo chamava de “deformidade antissemita”, por exemplo. Nietzsche nunca teria sido um nazista. Nesse caso, ele foi realmente mal interpretado e apropriado, e Camus o reconhece.
Contextualizando, Camus escreveu o Homem Revoltado em 1951 e morreu em 1960, prematuramente. Consequentemente, ele não conheceu o “renascimento” de Nietzsche durante os anos 60 por meio do trabalho de jovens filósofos (franceses principalmente) como Michel Foucault e sobretudo Gilles Deleuze. Até essa época, Nietzsche ainda era considerado um “filósofo do inimigo” e, nesse caso, por ter relativizado a importância do pensamento nietzschiano no nazismo, Camus estava à frente de seu tempo. Ora, será preciso esperar os anos 60 para que Nietzsche pare de ser conhecido como um inimigo e passe a ser reconhecido pelos seus aportes ao pensamento crítico da dominação.
Camus, como dito rapidamente no último parágrafo, diminui a suposta responsabilidade de Nietzsche no pensamento nazista e lamenta o uso que fizeram de sua filosofia em um pequeno parágrafo: “Na história da inteligência, exceção feita por Marx, a aventura de Nietzsche não tem equivalente; jamais terminaremos de consertar a injustiça feita-lhe […] até Nietzsche e o nacional-socialismo, não existiam exemplos de pensamentos inteiros esclarecidos pela nobreza e pelos rasgos (déchirements em francês)de uma alma excepcional que fossem ilustrados aos olhos do mundo por um desfile de mentiras e pelo medonho monte de cadáveres concentracionistas”(CAMUS, 1951).
Porém, ao mesmo tempo que relativiza a responsabilidade de Nietzsche, Camus vê um problema grave, muito mais complexo, na filosofia de Nietzsche e, por essa razão, ele dedica um capítulo de sua obra para analisar esse problema: “Nietzsche e o Niilismo”. Antes de mais nada, é certo que Nietzsche era crítico do niilismo tal como o conhecia, porém, a crítica de Camus é bem mais profunda e digna de ser estudada. O capítulo começa com uma frase emblemática de Nietzsche “Nós negamos Deus, nós negamos a responsabilidade de Deus, é assim que entregaremos o mundo”. A frase ilustra, em poucas palavras, o que Camus vê de problemático em Nietzsche e na sua relação com o niilismo: “Com Nietzsche, o niilismo parece se tornar profético” e, algumas páginas depois, “consciente”. Camus explica que a lógica de Nietzsche, assim como a dialética, passa pela visão de um futuro: a revolução dialética “substitui Deus pelo futuro”. A diferença é que Nietzsche não exalta esse futuro, esse apocalipse, essa singularidade e vê esse conceito no ângulo do fatalismo e não como o fim (glorioso) da história hegeliano.
Todo o método crítico de Nietzsche parte do seu ataque ao cristianismo, não enquanto religião, mas enquanto moral. O mundo, segundo Nietzsche não possui sentido (ele parece ter previsto o pensamento do absurdo do século XX, que,inclusive, influenciou o jovem Albert Camus) e nem finalidade: “O mundo marcha à aventura, ele não tem finalidade”.Nessa perspectiva, o mundo não pode ser julgado como bem ou mal pois seu valor reside em si mesmo. Qualquer julgamento moral sobre o mundo é então um ataque à própria vida e escraviza o homem. Quando Nietzsche afirma que “Deus está morto”, ele não faz qualquer ataque à religião cristã enquanto tal (ele admirava, por exemplo, a figura de Jesus Cristo) e, tampouco tem qualquer responsabilidade sobre essa morte: ele encontrou Deus já morto. Deus, nesse mundo sem direção, sem rumo, segundo Nietzsche, é simplesmente inútil pois ele não deseja nada. O mesmo raciocínio é aplicado ao socialismo que é descrito como um “cristianismo degenerado”. O único elemento que parece mover o mundo é essa vontade de se perpetuar que Nietzsche define como “vontade de potência” (Wille zur), parecido com o “conatus” de Espinoza. Ora, sendo uma vontade, um desejo, Deus não a possui e é, portanto, inútil.
Qual seria o problema dessa lógica anti-moralista ? Para Camus, esse pensamento acabou abrindo portas para um niilismo tóxico onde “nada é verdade, tudo é permitido” e isso porque Nietzsche acaba se contradizendo: “ele coloniza ao benefício do niilismo valores que, tradicionalmente, foram considerados como freios ao niilismo”. O niilismo de Nietzsche, segundo Camus, não é o fato de não acreditar em nada mas sim não acreditar no que é. Se o julgamento moral julga o mundo como ele é, segundo o que ele deveria ser, o niilismo simplesmente não acredita no mundo como ele é, o que lembra a negação total de Hitler. O objetivo de Nietzsche é levar o homem à um renascimento, de o dirigir em um mundo sem direção, sem Deus, sem ídolos: esse é o nascimento do super-homem. Ora, é exatamente uma lógica profética, histórica, que Camus tanto critica.
Antes de se tornar um super-homem, qual o papel do homem nesse mundo sem Deus nem moral? Ele se torna um ser solitário e sem mestre, supostamente livre, mas essa liberdade não é fácil pois ele se torna responsável por elaborar a ordem e a lei nesse mundo sem rumo. É assim que Nietzsche defende sua ideia de liberdade de espírito como uma luta constante (um pouco como Camus define sua noção de revolta) onde a “emancipação vem com a aceitação de novos deveres”. O problema é que o indivíduo acaba desenvolvendo uma “joie du devenir” (“alegria do tornar-se”, traduzindo literalmente), o que se manifesta por uma submissão absoluta ao infinito “devenir”, a mesma lógica que na dialética de Hegel. O novo homem-deus de Nietzsche, que cria suas próprias regras enquanto tenta reviver um Deus há muito tempo morto, é conformista, contrário à revolta, pois ele “diz sim ao mundo”, diz sim à sua condição, e se “inclina diante da eternidade da espécie e do grande ciclo do tempo”(CAMUS,1951). Ele cessa de ser um indivíduo para se perder no “destino da espécie e do movimento eterno dos mundos sem rumo”. Tudo isso acaba numa contradição: o super-homem, auge do individualismo mais absoluto, cai aos pés da “história da espécie”(CAMUS,1951) em geral.
Ainda mais, na sua fascinação pela figura do artista dionisíaco, Nietzsche acabou imaginando tiranos artistas ( com Hitler sendo o melhor dos exemplos) e “fez da raça um caso particular da espécie”. E essa raçaé caracterizada por Camus como uma “raça de senhores incultos ditando a vontade de potência“ e que contribuiu à ideia de “deformidade antisemita” tão detestada por Nietzsche. Além disso, como dito antes, há um certo conformismo no pensamento de Nietzsche que Camus critica. Primeiramente, se é preciso dizer sim ao mundo, Camus diz que isso pressupoẽ dizer sim ao assassinato, princípio que ele critica tanto em Nietzsche quanto nos textos do Marquis de Sade. Em segundo lugar, se, retomando um pouco a dialética de Hegel, se o escravo diz sim, ele diz sim à existência do mestre e à sua própria dor. Porém, se o mestre diz sim, ele diz sim à escravidão e à dor dos outros. Esse “sim” acaba então favorecendo o mais forte: o mestre. A mesma lógica é aplicada, paradoxalmente na dialética, que deveria ser progressista, de Hegel. Até agora a interpretação camusiana de Nietzsche pode resumir-se em uma palavra: contradição.
Marx e Nietzsche “substituíram o além pelo mais tarde”, e traíram os “gregos e Jesus que substituíam o além pelo agora mesmo”(CAMUS,1951). O que Camus conclui é que Nietzsche também tinha um pensamento histórico semelhante ao marxismo dialético: no seu caso, Nietzsche profetizava a super-humanidade que leva consequentemente à criação de “sub-homens”. Enquanto Marx, profeta da produção, previa uma sociedade sem classes, Nietzsche profetizava novos homens-deuses, seguidores de suas próprias vontades, obedecendo à sua natureza dada. A diferença é sutil, porém importante: “Para Marx, a natureza é o que subjugamos para obedecer à história, para Nietzsche é o que obedecemos para subjugar a história”. Na concepção de revolta de Nietzsche, Camus diz que ela acaba em “cesarismo biológico ou histórico”, fazendo clara referência ao nazismo. A prisão de Deus e da moral é substituída pela prisão da história, o que leva à “consagração do niilismo que Nietzsche pretendeu vencer”.
Embora seja crítico de Nietzsche, Camus é bastante cuidadoso ao criticá-lo pois sabe que todas essas consequências não eram desejadas: “Se o resultado final do grande movimento de revolta do século XIX e XX fosse para ser essa implacável servidão, não deveríamos então virar as costas para a revolta e retomar o grito desesperado de Nietzsche na sua época: Minha consciência e a vossa não são mais que uma só!”. Se Camus critica esse pensamento, como faz com Marx, é com grande respeito e admiração e é mais que uma simples análise do uso racista do conceito de super-homem. É errado dizer que sua crítica é superficial ou antiquada.
Albert Camus, embora não tenha vivido os anos 60, foi um precursor dessa época e teve um grande papel no renascimento futuro do pensamento de Nietzsche realizado por Georges Bataille, Pierre Klossowski, Jean Wahl, Gilles Deleuze, Michel Foucault, entre outros. Camus sempre foi um grande leitor e admirador de Nietzsche, mesmo em uma época que o considerava o “filósofo do inimigo”.
Espero que esse artigo tenha esclarecido algumas dúvidas.  A relação entre esses dois filósofos é extremamente delicada e, para ser sincero, nem tudo é compreensível nas páginas de Camus dedicadas à Nietzsche, pelo menos não para mim, amador desses dois grandes pensadores.
(publicado inicialmente em 22 de julho de 2018 no https://umcoletivoamador.blogspot.com/2018/07/nietzsche-segundo-camus.html)

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