O destino de pessoas como Marina Silva ou a traição das imagens

Por Sindia Santos, em Fiandeira (blogue autoral), 7/7/18

O que todo mundo vê: Marina Silva é mulher, pobre, negra, com características muito fortes de sua origem: voz/sotaque, modo de vestir, de pensar. O que muitos tentam esconder: ela esta condenada a não sair do lugar, porque não somente as elites no país acham que pessoas como ela têm um futuro determinado e são repreendidas violentamente quando não aceitam esse destino. Na real, ninguém ouve pessoas como ela.

O que ninguém tem coragem de assumir: é bonito dizer, ah…os pobres, as minorias, mas o que ninguém suporta em Marina não é ela ser evangélica nem o seu suposto posicionamento sobre a legalização do aborto ou seu apoio de segundo turno em 2014 à candidatura de Aécio. Afinal, (1) durante o governo Lula, a bancada evangélica era uma das maiores no Congresso , ao lado da ruralista; (2) Dilma nunca se moveu para legalizar o aborto ou garantir qualquer direito básico à mulher; e (3) o PT escolheu Aécio como rival em 2014 para não deixar dúvidas sobre a vitória de Dilma nas eleições. Mas, mesmo assim, nada disso impede que esses líderes ou que o partido recebam o apoio muitas vezes incondicional na eleição de 2018. Então, fica a pergunta: o que faz Marina ser assim, tão detestável?

Parece-me que a simples presença de Marina é uma ousadia que joga em nossa cara a estética de um pobre não romantizado. Suas roupas não são alternativas. Seus cabelos não têm aquele exato desalinho do salão de beleza que cobra 250 reais por um corte que promete tornar in ao dissimular ser out. Não, Marina não é bela, a sua maquiagem não tem a pretensão de torná-la bela, uma aparência que não mascara os vestígios do percurso. Ao contrário, por teimosia, Marina parece fazer questão de manter-se exposta, revelando-se insuportável ao nosso olhar. E se, por um lado, isso não é sinal de autenticidade, honestidade, verdade, por outro não justifica a reação imediata de intolerância que surge toda vez que o seu nome é citado, ou quando a sua figura é apresentada.

Apenas um palpite: o que apavora tanto as pessoas, o que as impede de olhar para Marina Silva, é o mesmo que faz muita gente comprar a campanha de Boulos, que posa ao lado da índia Guajajara numa tentativa de gourmetizar a força das nossas lutas. E gourmetizar significa enfraquecer, é tornar palatável o sabor rústico de nossa indignação para que uma tal elite, arquiinimiga-que-tudo-pode, a saboreie. Acontece que essa elite não esta só lá fora. Desde a abolição da escravidão, a elite não é só o outro. Elite é uma palavra mágica que abre as portas aos desafortunados. A aliança que produz o agregado, figura fartamente citada na obra de Machado de Assis, em referência ao homem agora livre, mas pobre, que necessita viver à sombra de um Senhor para a manutenção da própria existência. Nesses 13 anos de governo, o Partido dos Trabalhadores se empenhou com ardor em introjetar e acionar esse dispositivo senhorial de modo tortuoso em nossa percepção, para que não acreditemos mais num modo de existir autônomo, insubmisso a esquerdas e direitas. Reprimindo, através da chantagem do menos pior, a possibilidade de ver. Justo nas ambiguidades de uma vida agregada, é que podemos explorar uma multiplicidade de ações e acomodações.

Talvez essa seja mais uma das tipologias subjetivas produzidas no contexto da crise social e política exposta pelas manifestações de junho de 2013. Ao lado dos quatro tipos citados por Negri e Hardt, em Declaração: isto não é um manifesto (n-1, 2014):

(1) o endividado, submetido à hegemonia da financeirização da vida, ou seja, da relação débito/crédito como principal eixo de organização econômica;

(2) o midiatizado, entretecido pela malha de controles das redes de informação e comunicação;

(3) o securitizado, filho do regime securitário e de um estado generalizado de exceção, onde o risco é difuso e onipresente; e

(4) o representado, para quem toda ação política é reduzida ao escopo eleitoral do mercado da representação.

A esses quatro, acrescentamos (5) o agregado, forjado na recusa de elaborar uma autocrítica, no caráter insuportável de encarar a si mesmo. Mas esta, com certeza, é uma figura que os intelectuais e boa parte da esquerda não vão querer analisar.

É mais fácil seguir com o roteiro: sou de esquerda e posto fotos de Boulos sem teto com a índia Guajajara. Essas imagens, produzidas pela insistência de que é preciso ter uma identidade para seguir nas lutas, se assemelham àquelas fotos dos casamentos, onde pessoas usam vestidos horríveis e maquiagens que as deformam, em festas onde a noiva sempre dança animadamente com o noivo e todo mundo repete os mesmos passos nas mesmas musicas, e enche a boca com o bufê pífio e recebe chinelos havaianas estilizados como recordação. Tudo isso, em absoluto, esconjura os possíveis traços de singularidade que poderiam fazer do casamento uma celebração, ou de uma disputa eleitoral uma luta, tornando-se signo de um matrimônio feliz. É a própria derrota, a submissão aos regimes repressivos.

Assim, basta de posar de hippie, de sem terra, usar o cocar, basta de cortar o cabelo do jeito certo, fazer a maquiagem tal, vestir a roupa alternativa, basta de usar vermelho…. mas, ei, espera aí, a luta não é para questionar a representação política? Formas representativas de governo que reprimem as pessoas que não se encaixam, que não se deixam representar?

Não digo que Marina Silva não se deixe representar, mas sim que a rejeição automática à imagem dela diga de um ressentimento contra nós mesmos. E essa é a chave que nos mantém presos ao labirinto: querer sair dele sem passar por dentro dele. Há em nós um tanto de Marina do qual nos envergonhamos. Que não conseguimos acolher, porque pessoas como ela não vão longe, todos sabemos. Pessoas como ela têm um destino determinado. Que nos choca ainda mais quando alguém como ela não assume, em meio às lutas, uma estética alternativa, cabelos afro, roupas descoladas, como fazia Marielle – quem eu particularmente adoro, antes que me acusem de tecer julgamentos sobre a vereadora. Mas boa parte de nós é conivente com a sentença que diz que o destino de pessoas como Marina não é a Presidência da República.

Uma observação final: importa dizer que não vou necessariamente apoiar Marina, mas me dou a liberdade de pesquisar quais aberturas os candidatos oferecem. E fico perplexa ao ver que basta citar o nome Marina Silva para que pessoas que muitas vezes não sabem nada sobre a sua trajetória, nem sequer a acompanham minimamente, venham reafirmar a sentença de que não vai chegar a canto algum.

 


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