O disforme e o dizáin… diz aí!

Por Barbara Szaniecki

 

Pelo facebook, me chega o convite do Gabriel Tupinambá para fazer uma fala sobre o design e o disforme: “não sei se você anda trabalhando muito isso, mas sinto que pro causa do último livro do Giuseppe Cocco e do Bruno Cava o seu trabalho com esse conceito ganhou (ou mereceria ganhar) um novo debate”. Adorei o convite mas na hora o que me passou pela cabeça foi “putz, agora vou ter que ler o livro correndo”. O livro em questão “Enigma do Disforme: neoliberalismo e biopoder no Brasil Global” publicado ano passado. Nele, os dois autores trazem a partir dos cursos de Foucault sobre a biopolítica, toda uma outra perspectiva sobre a história do Brasil desde os tempos de colônia até o período mais recente de Lulismo. As análises de Foucault abrem uma outra percepção sobre o poder, sobre o seu funcionamento e, a partir dessa concretude permite não apenas vislumbrar as resistências biopolíticas como realmente criar estratégias emancipatórias. O Minha tese/livro (2010, publicada em 2014) Disforme contemporâneo e Design encarnado: Outros Monstros possíveis é citada lá no finalzinho mas o disforme está ali, como enigma, provocando ao longo de todo o livro.

Ali então, nas suas conclusões sobre o enigma do disforme, Cava e Cocco comentam que Outros Monstros possíveis revisa a íntima relação entre a produção estética das formas e as morfologias políticas. E que o ponto de partida, o primeiro dos monstros, é o LEVIATÃ de Thomas Hobbes. O soberano se horroriza com a multidão. Do seu ponto de vista, os súditos são a massa a quem lhe cabe dar uma “forma”. Contudo, são muitas as “monstruações” que lhe resistem. Na procura por híbridos de “manifestação política” e “performance artísticas”, encontrei a Ocupação Prestes Maia em São Paulo. Aqui, nesse GOLEM, não há falta: a ocupação articula uma multidão criativa e resiste aos poderes gentrificadores da cidade. Cava e Cocco comentam que “O informe ainda guarda a idéia do sem forma, como se lhe faltasse algo” enquanto “o disforme (tal como conceituei) não uma matéria passiva à espera da forma, mas a própria matriz criativa da qual as formas podem se individuar (ou não), enquanto momentos derivados e estabilizados. Consequentemente, não estamos diante de uma anarquia que nega a ordem, mas de um trabalho das formas que é anarquia encarnada na multidão, uma terrível beleza.” Com certeza.

O convite de Gabriel é uma oportunidade de atualizar essas reflexões de mestrado e doutorado. Com as multiformances (como denominei a Prestes Maia, entre outras resistências que envolviam uma multiplicidade de sujeitos e subjetividades), meus objetivos eram: apreender a fala do monstro enquanto expressão da multiplicidade e me forma úteis conceitos como o dialogismo de Bakhtin, os agenciamentos corpóreos e expressivos de Deleuze e Guattari assim como multidão de Hardt e Negri. E também apreender as possibilidades de uma Estética constituinte. A polifonia de Bakhtin, os mil platôs de Deleuze e as Partituras de Virno foram referências importantes. Também procurei entender como essas multiformances seguiam performando nas redes. Surgiram CYBORGs e uma das PLATAFORMAS analisadas foi a revista  Global/Brasil. Aqui, meus objetivos eram: apreender as possibilidades de Commons – aberturas (disclosures) X cercamentos (enclosures) – muito inspirada pelas leituras de Foucault, Deleuze e Agamben sobre o dispositivo. E procurei apreender as potências do dISFORME entendido como uma “coisa” aberta aos possíveis e aos devires. E, a partir daí, um design nômade, um design encarnado na multidão. Defendi a tese em 2010 e antes mesmo de que o livro fosse publicado em 2014, aconteceu junho de 2013. Me deparei com o monstro, meu sujeito-objeto de estudo, em toda sua esplendorosa potência.

Foram muitas as manifestações e as ocupações… Todos juntos, muitos, perguntávamos “cadê o Amarildo?” e provocávamos “Não vai ter Copa”. Mas chegamos em 2014 e tudo que não cabia em uma forma,  foi percebido, perseguido e reprimido como INFORME ao invés de ser entendido como DISFORME, isto é, uma distribuição de potência, de agencia e capacidade de distribuir. Temos ainda um sério trabalho de análise a ser feito sobre esse momento  que se estende da Copa do Mundo até as eleições de 2014. Um sério trabalho de análise ou mesmo… um luto frente a uma hipótese teórica e política assim como uma aposta de vida. Alguns mundos se acabaram ali. Foi um luto difícil até que, em 2017, me deparei com o último livro de Donna Haraway: Staying with the trouble. Making kin in the Chthulucene. De certa forma, ela retomava o CYBORG que tanto havia inspirado a minha tese mas aqui, mais do que os agenciamentos entre humanos & máquinas, ela insistia nas relações interespécies: humano e não humanos. A leitura de Donna suscita a imaginação não tanto das resistências… e sim, sobretudo, das possíveis ressurgências. A substituição da idéia de resistências para ressurgências me parece interessante porque aponta uma saída das oposições dicotômicas em direção às necessárias re-articulações das diferenças. Do luto às novas lutas disformes.

Donna critica o Antropoceno e o Capitaloceno. Contudo, mais do que uma crítica, a sua proposta é a criação de um Chthuluceno, uma nova era. Para inspirá-la, apresenta imagens de caráter biológico: uma aranha (Pimoa Cthuthu), um polvo (Octopus Cyanea) numa “pegada” ecológica mas também a divertida imagem de invertebrados num Octopi Wall Street numa “pegada” mais social, se é que faz diferença assim distinguir. Antes mesmo de apresentar as idéias centrais do seu livro – a da simpoiésis como prática/tática de viver de ficar turbulência, para dar um rosto ao seu Chthuluceno – um rosto que não seja o do homem ou humano que rege o Antropoceno nem o do capital que rege o capitoloceno, Donna apresenta uma figura feminina mas híbrida com serpentes no pescoço e pássaros à mão. O rosto é de uma Górgona num corpo bastante tentacular. Para quem não sabe, e eu também não sabia, Górgonas eram na Grécia Antiga três irmãs nada comportadas, um tanto caóticas. Medusa era a mais danada e foi perseguida por Atenas, filha favorita de Zeus, Deus do Olimpo, e deusa da sabedoria. O cabelo de Medusa foi transformado em cobras que lhe picavam a face e desfiguravam sua beleza e, por fim, sororidade mandou lembranças, Atenas mandou Perseus cortar-lhe a cabeça. Para Donna foi a cabeça cortada de Medusa, em seu sangramento, quem engendrou os corais dos oceanos. Ela passa a descrever o projeto Crochet Coral Reef e aqui percebe-se que entramos totalmente no registro SF de Donna: Science Fiction, Speculative Fabulations, Speculative Fabulations, String Figures

No final dessa SF, ela faz dois comentários importantes: o primeiro é sobre o embate ctônicos versus olímpicos que não cabe desenvolver aqui mas serviria para a crítica de megaprojetos tais como Copa do Mundo e Olimpíadas assim como, mais em geral, projetos urbanos sem participação efetiva da população; e o segundo é sobre a diferença entre figura e String Figure. Processos tentaculares são diferentes da representação de tentáculos e vão, portanto, demandar diferentes visualidades. Assim, ela deixa de lado a idéia de figura – e de grandes figuras da história, para focar em processos como conversar, confabular, configurar, … entre outros modos de narrar com, de imaginar com, de criar com. E também de modos de mostrar esses processos. Com as String Figures de Donna retornamos à questão do disforme. E o que o disforme tem a ver com design? O design também se constituiu como campo a partir de uma grande narrativa de que nasce na Revolução Industrial, participa dos movimentos de emancipação do homem moderno e chega aos dias de hoje sob múltiplas formas. Ora, já outras grandes narrativas estão se delineando no horizonte: a de que o design deixou de focar no produto (uma forma finalizada) e se abriu a serviços e processos… a de que o design deixou de ser criação individual e se abriu a processos mais coletivos. Embora nada prometam, String Figures parecem abrir outras narrativas, outras visualidades ou maneiras de representar e projetar, outras responsabilidades com possíveis ressurgências.

 A esse convite de Gabriel, supondo que nem todos aqui estão interessados pelas questões de design, proponho um pequeno exercício de imaginação disformativa, Além da Donna Haraway, outros autores têm sido referência para mim. Em seu ultimo livro Onde Aterrisar? Como se orientar na política?, Bruno Latour propõe um pequeno exercício. Inspirado nos « cahiers de doléances », de 1789, o exercício consiste em descrever um « terreno ou território de vida », listando item por item tudo aquilo que ele precisa para a sua subsistência e, portanto, aquilo pelo qual se está pronto para defender e lutar. Para ele, Isso é verdade para um lobo, uma bactéria, uma empresa, uma floresta, uma divindade ou uma família.  Ora, “no sistema de produção, a lista é fácil de desenhar: humanos e recursos. No sistema de geração (“engendrement”), a lista é muito mais difícil de registrar, uma vez que os agentes, que a compõem têm seus próprios desejos e interesses. Um território, de fato, não se limita a um único tipo de agente.” Falei da luta de 2013 e do luto dos anos seguintes, falei da percepção de um fim de mundo. Talvez seja necessário que alguns mundos acabem para que outros nasçam… mas quais? Por meio dessa proposta de imaginação disformativa, queria perguntar: O que vocês estão prontos para defender? qual é o rosto desse mundo que vocês desejam? Que práticas tentaculares são necessárias para gerá-lo? Sem responder concretamente a isso, não haverá mais onde aterrissar.


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