O novo quer nascer e o velho não quer morrer

Por Salvador Schavelzon, em Cidadanista,  6/12/17

Depois de 2011, uma onda de manifestações correu o mundo. Com ocupações em praças, levantes contra governos, assembleias comunitárias e protestos, muitas bandeiras foram levantadas. Temáticas como anticorrupção, ou ainda as marchas motivadas pelo aumento do transporte público em junho de 2013, no Brasil, ou a dos estudantes, no Chile, em 2011, foram algumas das motivações que incendiaram as mobilizações massivas que surpreenderam um cenário político antes apático. A sensação geral era de falta de alternativas frente a governos neoliberais, a que tantos conservadores quanto progressistas haviam se entregado.

O contexto que dava lugar a esse ciclo era – e continua sendo – o do aprofundamento do modelo neoliberal, que se mostra sem alternativas. Os efeitos da crise são vários e em série: explosão de bolhas especulativas, com mais dívidas, mais segregação dos pobres, liberalismo extremo e a certeza frágil de que a lógica empresarial deve ser o caminho para o funcionamento dos serviços sociais em qualquer dimensão de nossa vida. Ao mesmo tempo, surgem como contraponto – mas também com elementos de um mesmo cenário cada vez mais comunicado entre uma profusão de minorias – novos feminismos, movimentos étnicos ou antirracistas que ganham espaço frente ao desmantelamento de uma política de massas que já não se mantém, numa sociedade que já não existe, frente à inércia das ferramentas tradicionais, de estruturas e instituições que ainda seguem de pé.

Por mais que o neoliberalismo seja único, generalizado e global, em termos de sistema político, ele se organiza como polo midiático que opõe, de um lado, perfis que assumem abertamente uma agenda de elite atendendo a setores empresariais; frente a outro campo que, sem romper com o neoliberalismo, se apoia em narrativas como nacionalismo, soberania ou a um sistema de direitos sociais que imagina uma sociedade integrada com um Estado forte. Na realidade, naturalmente, nem a liberdade nem a prosperidade do mercado se realizam; nem muito menos hoje a justiça social com intervenção do Estado vai mais além do que um discurso. Ficamos com palavras que não mobilizam, não conseguem ser traduzidas em políticas estruturais efetivas, nem muito menos se conectam materialmente com a vida dos trabalhadores ou com construções políticas de base e poder territorial.

Diante disso, surgem novos movimentos e mobilizações que se inserem em diferentes buscas políticas. As ruas abriram caminhos frente a uma disputa espetacular que se dilui em uma multidão de identidades, discursos, campanhas eleitorais sem conexão com quem realmente nos governa. São práticas de ruptura que se isolam sem conseguir enfrentar a batalha em um mundo que mercantiliza e vende tudo, com Estado e mercado trabalhando juntos frente a um capitalismo sem rival.

As mobilizações de Hong Kong à Nova Délhi, Praça Zucotti ou no Distrito Federal são, juntas, ar fresco e materialidade frente a cenários desgastados e sem saídas. Ali se discutiram ativamente a representação e os limites da institucionalidade republicana.   

É alto o risco de que o que está nascendo seja também tragado e neutralizado depois de um impacto inicial e que as coisas voltem a se acomodar. Práticas políticas tradicionais que não perdem tempo em estar presentes em qualquer coisa que apareça exercendo pressão conspiratória sobre a difícil construção de horizontes verdadeiramente de ruptura. E ainda que haja experiências de governo de novos partidos na Índia, ou possa ocorrer no México, também ocorrem nos partidos tradicionais ocorrem coisas como Sanders e, em alguma medida, o kirchnerismo. O problema aparece na administração e gestão do impulso inicial do movimento, em que o peso do sistema mostra sua fortaleza e capacidade de tudo tragar.

Depois das praças e mobilizações, abriu-se no campo da esquerda um debate sobre organização e poder institucional, que se questionou sobre a necessidade de encontrar instrumentos políticos que levassem a voz das ruas para o governo. Existem, ao mesmo tempo, buscas comunitárias que se multiplicam nas cidades e no campo, desde as margens da civilização, ou em ruptura com essa, em agendas autônomas que se desconectam da conjuntura estatal cada vez mais tóxica e fatalista, controlada por lógicas em que parece que qualquer alternativa leva para o mesmo lugar, sem conseguir sair de uma máquina social destrutiva.

Mas foquemos nas traduções do ciclo de lutas que culminou na busca de uma nova política partidária dentro das instituições. As outras se situam em outro tempo e espaço, com um impacto difícil de medir mesmo que se apresentem com vínculo e como alternativa nova unindo todos os caminhos. Dentro da política estatal, e de forma mais visível, municipalismos ou frentes são postas em movimento, uma vez que as construções que capitanearam o rumo dos partidos e movimentos de esquerda no período anterior acusaram o seu próprio desmoronamento. É justamente essa relação de velhas referências de esquerda que definem a possibilidade de algo novo nesse campo, e já existem experiências avançadas nessa direção.

O partido Podemos e as confluências municipalistas na Espanha foram uma das expressões mais claras nesse sentido. Seu raciocínio é que se pode ser fiel ao 15M por um caminho institucional, e que por mais que as formas de soberania estatal e nacional estivessem sendo superadas, o governo de cada país é a instância que as classes populares tinham mais perto para enfrentar o neoliberalismo global. Com sua aposta ainda pendente de se concretizar, sobrevive também justamente por não ter encontrado lugar como o Syriza ou governos sul-americanos recentes.

Entretanto, para que surjam novas alternativas, parece ser necessário um posicionamento claro em relação às expressões de quem são os herdeiros diretos. Assim é também dentro dos partidos que se renovam e, evidentemente, no caso da nova política espanhola, nenhum salto poderia ser imaginado sem se distinguir da esquerda tradicional ou da social-democracia. Embora o Podemos já tenha sentido seu limite nas eleições, o partido oscilou em se reencontrar com a Esquerda Unida (com o qual permanece aliado) ou ao fazer um pacto de governo com o PSOE.  Sua razão de ser é a ruína da Espanha da transição iniciada em 1978, com 35 anos de esgotamento de um sistema anterior que ainda sobrevive e parece ter que ser contemplado também como parte da solução.

Na América Latina, novas forças surgem na medida em que o passado é deixado de lado. Duas novas frentes exploram esse território no Chile e no Peru, onde os governos que chegaram com votos de esquerda mantiveram intacta uma agenda neoliberal. No Chile, o Frente Amplio, com seu núcleo político de forças autonomistas nascidas das mobilizações dos estudantes, só foi possível com a ruptura em relação à frente Concertación-Nueva Mayoría de Bachelet. O mesmo acontece no Peru, que pela primeira vez em muitos anos tem uma bancada de vinte congressistas de esquerda contra o fujimorismo, mas também contra o resto de opções políticas do sistema. O Frente Amplio do Peru, que, como o Podemos, conseguiu um importante terceiro lugar nas eleições, é a primeira força política de peso na região. Foi a partir do legado da luta de Cajamarca contra a mineradora Conga que o partido colocou na discussão os limites do extrativismo e a necessidade de pensar em alternativas para o desenvolvimento.

Como complexa combinação de elementos velhos e novos, candidaturas ou rearranjos com novas caras (ou velhas, como Sanders e Corbyn, que ainda recuperam experiências de mobilização do ciclo atual, como Occupy) expressam e trazem avanços políticos explícitos ou subterrâneos, em reação a certa recomposição do campo conservador. Como condição, ao mesmo tempo, essas construções mostram distância com o núcleo de reflexão política originária das praças feitas por assembleias e políticas rizomáticas sem líderes; assim também como rupturas comunitárias e territoriais que entendem o poder e a transformação com muito mais intransigência. O “como” é a chave tanto nas instituições quanto nos territórios, mas uma dessas expressões é condescendente com a aceitação dos instrumentos políticos que não se rejeitam com a aposta que podem ser ressignificados. 

Não é verdade que essa saída tática do campo da esquerda, que busca o diálogo e a construção com as maiorias nos partidos e frentes, por meio de lideranças e demandas tradicionais, tenha ficado fora do ciclo anterior de lutas. Não é totalmente um novo populismo ou uma nova resposta vinda das praças. Depois de Seattle, Gênova, Praga e o Fórum Social Mundial, a energia acumulada nos protestos antiliberais foi se constituindo também em movimentos políticos e depois em governos que pouco a pouco se distanciaram do que os unia na origem. Disso tudo nasceu, na América Latina, o ciclo de governos progressistas que sobrevive ou termina frente a sobressaltos eleitorais com resultados adversos nas eleições municipais do Brasil, legislativas na Venezuela, presidenciais na Argentina e contra a possível reeleição na Bolívia. As rápidas saídas dos governos, quando o ciclo econômico é desfavorável, deve ser uma lição para quem busca atalhos dentro das novas formações ou movimentos.

Os limites das novas expressões, como foram antes o desenvolvimentismo e a social-democracia, se encontrariam na reprodução de formas de fazer as coisas com as forças que venham a substituir, estabelecendo participação apenas formal ou não para decisões cruciais e se entregando de corpo e alma em direção aos meios de comunicação. As novas frentes dificilmente vão fugir das disputas de cúpula ou tática eleitoral que contrasta com a política das praças e ruas. A experiência parlamentar mostra também uma acomodação em relação às lógicas de um sistema que desde dentro já não pode ser  impugnado ou ressignificado, mas é facilmente moldado. Esses preferem apostar nas pequenas diferenças ou priorizar a própria construção para esperar uma mudança maior que chegará em um momento futuro.

Na Argentina e no Brasil, diferentes intenções da “nova política” ficaram até agora encalhados, enquanto Lula e Cristina são os líderes que se recompõem e se posicionam na trincheira da oposição ao sistema – quase como se não tivessem vindo de uma força de governo que seria necessário superar. A rejeição a Temer e Macri possibilitaram que volte a se aproximar uma esquerda que tinha retirado seu voto a essas forças quando via um governo sem escrúpulos para reprimir protestos sociais ou executar projetos monstruosos como Belo Monte e suas cópias, indubitavelmente sem legitimidade popular. Projetos como o Ahora Buenos Aires, com métodos de confluência próprios e busca de referências midiáticas novas e de articulação com novas linguagens populares terminaram sendo tragados pela impossibilidade de se encontrar espaços para além do kirchnerismo.

No Brasil, parece estar muito longe a atitude crítica das manifestações de junho de 2013, quando a participação do PT na administração de um projeto neoliberal de governo junto aos grandes partidos do sistema era evidente. Daí resultam as dificuldades para que deslanchem articulações como as que giram em torno de Guilherme Boulos, do MTST, a esquerda dentro do PT e partidos contrários a Temer, os quais, inclusive, mesmo não apoiando Lula, falam a mesma língua e confluem na mesma direção. A tragédia venezuelana, ou inclusive a imagem que Lula e Cristina mantêm dentro de alguns setores, fazem com que essas forças sigam de pé e bloqueiem a aparição desse tipo de alternativa, mesmo quando sua volta ao governo parece impossível.

O desafio hoje é conseguir traduzir o desgosto social com o neoliberalismo em opções políticas. Mas também que estas não fiquem neutralizadas no lugar da mera crítica parlamentar ou de ações paliativas que não tocam a fundo o poder: mais lenha para um fogo de imagens e espetáculos. O desafio é que faça parte do debate a necessidade de pensar novas instituições do comum, e que qualquer projeto político se recicle também como uma disputa no plano das subjetividades, as quais nas praças e mobilizações de insurreição encontrem um território novo. Pode ser que essas demandas nos obriguem a ir além das alternativas institucionais que surgem no ciclo de lutas aberto globalmente na última década.

 


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