O utilitarismo de Bolsonaro resiste ao novo tempo assim como Rumkowski resistiu à temporalidade nazista


por Salomão Nicilovitz

Bolsonaro e Roberto Luiz Justus parecem herdeiros diretos de Mordechai Chaim Rumkowski, a polêmica figura que liderou os judeus de Lodz durante os anos em que a cidade foi ocupada pelos nazistas e a população judaica viveu guetificada. Bolsonaro desfila hoje pelas decrépitas avenidas de Brasília da mesma maneira como Rumkowski percorria, em 1942, as ruas do gueto apinhadas de pedintes e mortos de fome: combatendo a anomalia disfarçando-a de normalidade.

Rumkowski veio a coordenar a vida dos judeus da cidade em consequência de uma estratégia muito específica da dominação nazista: invertendo a rotina tradicional dos genocídios, o nazismo cooptava os dirigentes comunitários dos povos oprimidos em vez de destruí-los, tornando-os peças fundamentais de sua política. É nesse contexto que Rumkowski foi intitulado Ancião dos Judeus de Lodz, recebendo autonomia para lidar com as questões internas do gueto mediante o cumprimento das exigências alemãs.

Embora reféns da força ocupante, os líderes dos diferentes guetos enfrentaram de modos distintos os desafios impostos. Variáveis como a localização da cidade, o perfil dos habitantes do gueto e os meios de produção disponíveis na região possivelmente influenciaram o modo de atuação de cada Ancião, mas é certo que a atividade individual de cada líder interferiu diretamente na forma como o gueto reagiu ao fenômeno. Como em uma espécie de jaula flexível, os líderes estavam presos dentro das grades das demandas nazistas, mas lhes era possível dilatá-las dependendo da forma como atuassem.

Para Rumkowski, o plano de atuação estava determinado desde o momento em que se tornou Ancião: a única maneira pela qual os judeus poderiam manter-se vivos era tornando-se úteis aos nazistas. Nesse sentido, já nos primeiros meses como Ancião enviou uma carta ao prefeito de Lodz sugerindo que fosse usada mão de obra judaica nas oficinas e fábricas do gueto, medida que foi acatada pelas autoridades. Vendo que seu plano era realizável, Rumkowski ateve-se a ele até o final de sua vida — em 1944, no campo de Auschwitz. Ao longo dos quatro anos à frente do gueto, o Ancião buscou transformar todos os seus habitantes em trabalhadores, persuadindo a população à estratégia produtivista, acreditando que somente através do trabalho alcançariam a salvação. Os problemas, porém, em seguida começaram a aparecer. Afinal, o que fazer com as pessoas que não podem trabalhar, como crianças pequenas e idosos?

O acontecimento mais famoso da história do Gueto de Lodz é certamente o discurso emitido por Rumkowski no dia 4 de setembro de 1942 — e são os ecos deste evento que escutamos no discurso de Bolsonaro no último dia 25.

Não obstante os esforços do Ancião em mobilizar a maior parte dos habitantes para o trabalho, as autoridades nazistas emitiram uma ordem no dia 4 de setembro de 1942 na qual exigiam a deportação imediata de 20 mil crianças e idosos para os campos de extermínio. O líder do Gueto de Varsóvia havia recebido uma ordem parecida alguns meses antes, porém não foi capaz de realizá-la e suicidou-se. Rumkowski, porém, agiu de forma distinta: se transportou à Praça do Bombeiro e discursou em prantos para um grupo de 1.500 residentes. No discurso, clamava:

“Meus irmãos e irmãs, enviem seus filhos para mim! Pais e mães, enviem para mim seus filhos! Devo executar a cirurgia sinistra e sangrenta, devo amputar membros para salvar o corpo!”

Não seria essa mesma lógica, da razão fins-meios, que Bolsonaro e seus seguidores estariam agora defendendo? Tomemos o seguinte exemplo, retirado do seu discurso do presidente em rede nacional no dia 25 de março:

“O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs com menos de 40 anos de idade. Noventa por cento de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine.”

Qual é a mensagem implícita nesta fala? Que estes 10%, os que sentirão os efeitos do vírus, não podem prejudicar os outros 90%. A lógica acionada por Bolsonaro é tipicamente utilitarista, filosofia que defende a ação útil como a melhor forma de tomar decisões no enfrentamento dilemas. A ação útil, no entanto, envolve neste caso o sacrifício de pessoas mais vulneráveis, algo que contraria toda a norma social discursiva construída nos últimos setenta anos sob a lógica dos direitos humanos, ou seja, a de que cada pessoa é portadora de um irrevogável valor em si.

O áudio tornado público no dia 23 de março de Roberto Luiz Justus, empresário que vem dando suporte ao discurso de Bolsonaro, demonstra também tal perspectiva quando defende o sacrifício de parte da população para evitar um possível colapso maior:
“Você vai ver a vida devastada da humanidade na hora do colapso econômico […] não dá pra comparar com um virusinho, que é uma gripezinha leve para 90% das pessoas. Vai matar velhinho e gente já doente, não tem uma morte no mundo, das 12mil, que a pessoa já não tenha um problema recorrente do passado, todos foram velhinhos, ou mais jovens com problemas pulmonares ou são diabéticos ou têm outras doenças […] Isso não é grave, grave vai ser a recessão global como nunca vista na história, nem no crash de 29.”

Justus parece ecoar em sua voz o discurso emitido por Rumkowski no dia 4 de setembro de 1942. Do mesmo modo que os brasileiros, o Ancião apelou à racionalidade da população, solicitando que mães e pais sejam condescendentes com o extermínio dos seus próprios filhos:

“Eu e meus associados mais próximos não pensamos primeiro em “quantos perecerão?”, mas em “quantos é possível salvar?” Chegamos a conclusão de que, por mais difícil que seja para nós, devemos tomar em nossas próprias mãos a execução dessa ordem […] A parte que se salva é muito maior do que a parte que deve ser doada.”

Ao que tudo indica, Rumkowski imaginava que durante a catástrofe ou mesmo após ela a vida poderia seguir com a mesma normalidade que existia antes do colapso. Rumkowski não vislumbrava o rompimento temporal que se estabelecia frente ao seus próprios olhos, ou seja, o desfalecimento da lógica moderna que garantia salvação a quem fosse produtivo; apegado a sua agenda de interesses característicos do mundo anterior à ocupação nazista, o Ancião imaginava seguir a mesma ignorando a anomalia social, fechando os olhos ao novo tempo que agora se edificava, no qual judeus, mesmo produtivos, seriam mortos.
Bolsonaro e Justus, da mesma maneira, parecem afeiçoados ao agora passado que estavam construindo para o Brasil. Assim como Rumkowski buscou fortalecer-se enquanto liderança em meio à desgraça dos judeus de Lodz, Bolsonaro vinha fazendo da terra arrasada que o Brasil vivia o palco fértil para o seu crescimento. Bolsonaro espera, em meio à tragédia, continuar com o processo de afogamento do país na lógica de produção do capitalismo tardio, enxurrada de austeridade, transferência do patrimônio público para o privado e ausência de direitos e serviços básicos. O que ambos não enxergaram, Bolsonaro e Rumkowski, é que a insistência na normalização das atividades se configura não como uma alternativa real, mas somente como uma resistência reativa a um novo mundo que se instaura.

No dia 28 de agosto de 1944 Rumkowski acabou sendo transportados para Auschwitz-Birkenau no último vagão que deixou o Gueto de Łódź. A própria materialidade do novo mundo que se erguia colocou fim ao seu apego passadista. Aguardemos para ver o que esta mesma materialidade fará com o apego de Bolsonaro. Esperamos que a realidade, para ele e para nós, seja menos cruel do que foi para Rumkowski e para os judeus.

 

 


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