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Estranhos intimamente confiáveis

Por Guto Santos, 28 de outubro de 2026

O texto de Giuseppe Cocco e Felipe Fortes, “O Levante Democrático de Outubro”, descreve com precisão o que se passou entre os dois turnos. Quero acrescentar uma percepção que é menos análise do que experiência, escrita de dentro do acontecimento.

Os autores destacam quatro movimentos que se retroalimentaram: as ruas, as redes, a pauta positiva do governo e a multiplicação de apoios. Não sei dizer o que explica, seção por seção, a virada nas urnas; os dados ainda vão ocupar muita gente. Mas, vivido de dentro, o processo tinha um centro: a mobilização nas redes. Os outros três movimentos contribuíram, mas na medida em que o movimento orientado pelas redes os tornou relevantes para quem se mobilizava. Isso inclui a retomada das ruas.

O Exército do Lula teve a liderança do “louco”. Além dos gritos e bordões, e também por meio deles, o deputado federal André Janones distribuiu muito mais do que comandos: distribuiu confiança, e a confiança levava à esperança. Algo parecido com certos discursos religiosos. Foi uma enorme profissão de fé.

Insisto no louco. Há gente muito boa ativa nas redes, como a também deputada federal Erika Hilton, mas o que Janones mobilizou não foi uma revolta, feita de indignação: foi um levante enlouquecido e enlouquecedor. Digo isso sem desdém: havia algo de insensato naquela disposição de crer, de agir antes de saber, de sustentar coletivamente uma confiança que nem sempre encontrávamos em nós mesmos. Há mais de cinco séculos, Erasmo de Roterdã deu à própria Loucura a palavra para fazer seu elogio. Ela nos lembra que a vida também se move por aquilo que não se deixa reduzir à razão: o entusiasmo, a alegria compartilhada, a disposição de acreditar. Há uma loucura que nos lança em direção aos outros e nos faz apostar no que ainda não sabemos se é possível. Foi um pouco disso que vivemos, com o que a loucura tem de dom e de risco.

Fizemos algumas coisas, a princípio, sem acreditar muito, mas fomos nos contagiando. No primeiro debate, por exemplo, a participação de Lula me pareceu muito aquém do seu próprio desempenho histórico. Janones insistia que tinha sido o melhor desempenho da vida de Lula, lançava uma hashtag afirmando isso, e nós compartilhávamos muito essa ideia. Eu sabia que não era bem assim, e compartilhava mesmo assim. Acho que porque precisávamos acreditar.

Em minha tese de doutorado, digo que a ordem centra e o amor distribui. Penso que foi isso o que aconteceu: uma grande dose das duas coisas. Havia uma voz no centro, com seu vocabulário de exército, suas missões e sua hierarquia. E havia milhões de pessoas à flor da pele, espalhando aquela confiança pelos seus próprios circuitos: a família, o trabalho, a vizinhança. Nem toda coesão produz potência, e há formas de reunir que limitam aquilo que poderiam fazer existir. Desta vez, o centro serviu para distribuir, e o que se distribuía seguiu reverberando por conta própria, muito além das missões.

Foi exaustivo, mas recompensador no próprio ato, ao longo dos dias. A vitória nas urnas tornou-se uma consagração. Mas, pelo menos para mim, a vitória veio antes e, em certa medida, teria vindo mesmo que o resultado final fosse outro. A grande “gincana” de Janones trouxe, em ato, esse aumento de potência, essa alegria ativa que os fatos explicam de maneira insuficiente. Talvez porque ela não dependesse do resultado: nascia do que fazíamos juntos.

Fui com minha companheira e nossos filhos a quase todas as passeatas. Não parei de movimentar as redes. Até o X, que eu não tinha, instalei só para isso. No fim da tarde de domingo, quando a vitória se aproximava, fomos para a Praça São Salvador, em Laranjeiras, no Rio. Depois da confirmação do resultado, comemoramos muito, na chuva, rodeados de estranhos intimamente confiáveis, compartilhando abraços, gritos e sorrisos. Passados alguns minutos, precisei me “esconder”: tive uma crise de choro repentina, incontrolável. Garanto que isso não é nada comum para mim.

Fiquei pensando em tudo isso. Talvez fosse também o luto antecipado de que aquela gente íntima voltaria a ser estranha. Não sei explicar.

Se isso acontecerá em outros lugares, ou se aqui voltará a acontecer com a mesma intensidade, é difícil dizer. Mas aquele luto talvez guarde a pergunta que importa agora: como evitar que os íntimos voltem a ser estranhos.

Acho que, para isso, precisamos muito mais de bons maestros do que de bons generais. O que Janones fez naquelas semanas, apesar do vocabulário militar, foi reger. Em primeiro lugar, porém, precisamos acreditar em alguma ideia comum e materialmente concreta. E ela precisa vir acompanhada de um horizonte de ação também concreto, como foi o dia da eleição, seja qual for a escala.

Poderia ser, por exemplo, uma campanha pelo impedimento de Donald Trump ainda neste mandato, nascida aqui, na América Latina. Pode parecer desmedido. Virar aquela eleição também parecia.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente a posição da Universidade Nômade.

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