A mudança veio, mas para (muito) pior!
Giuseppe Cocco, Felipe Fortes
12 de outubro de 2026
A Faria Lima comemorou e deu uma nota AAA ao resultado eleitoral que colocou Flavio Bolsonaro na frente de Lula. Os jovens operadores do mercado ficaram empolgados, mas eles vão se arrepender. Esse não seria um problema se não fosse o problema de todo o mundo. Flavio Bolsonaro já está anunciando sua intenção de mudar as regras, de reduzir de vez o contrapeso que o STF representou diante da necropolítica do pai durante a pandemia. Eles querem “a cabeça” de Alexandre de Moraes por ele ter defendido a democracia, não pelo envolvimento no caso Master que, na realidade, envolve diretamente o candidato à presidência.
O Bolsonarismo não é a repetição de Milei. Ele não vem para estabilizar a moeda ou a economia, não é, portanto, uma tentativa de revival do neoliberalismo nas condições de crise do neoliberalismo. O Bolsonarismo é um chavismo que não precisa de tropas especiais americanas para conectar suas milicias ao Trumpismo. O Bolsonarismo é a expressão ontológica de um tecido miliciano que quer virar poder e para isso vai tentar destruir o estado de direito e o que existe de potência na democracia. O Regime Chavista tinha uma outra semiótica, supostamente de esquerda, mas reproduzia a mesma lógica: Chavez era um ex-militar, abusava da legitimação plebiscitária e com base nisso foi destruindo a independência do sistema judiciário (inicialmente pela indicação dos ministros da Corte Suprema e depois pela ampliação de 20 a 32 membros) e ocupando o estado (polícias, prisões) por uma rede de milicianos que tomaram conta de todas as áreas estratégicas (particularmente das extrativas) e destruindo o tecido empresarial e a economia do país. Chavez usou a retórica constituinte para destruir a construção dos direitos dos venezuelanos.
O regime de Donald Trump não se incomoda com o autoritarismo venezuelano, com o qual tem afinidade. Apenas tomou o lugar dos antigos tutores de Nicolás Maduro — os cubanos e, com eles, russos e chineses — e convive sem dificuldade com a estrutura criminosa comandada pela então vice-presidente, Delcy Rodríguez. Com o bolsonarismo, a relação seguirá a mesma lógica. Como lembra Julio Benchimol Pinto, o fracasso de uma tentativa de golpe pode ser seguido pela conquista eleitoral do poder. Chávez tentou derrubar um presidente eleito em 1992, teve seu processo encerrado por Caldera em 1994 e venceu as eleições de 1998. Mas a derrota militar não encerrou seu projeto político; a vitória nas urnas lhe abriu outro caminho para realizá-lo. É essa sequência que torna o precedente venezuelano relevante para o Brasil. Jair Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe, mas seu filho chegou ao segundo turno com 47% dos votos válidos. Flávio defende a anistia ou o indulto ao pai e já sustentou que um futuro presidente deveria fazê-lo valer mesmo diante da oposição do Supremo. A disputa eleitoral passa, assim, a carregar a promessa de desfazer a responsabilização pelo ataque à democracia. O risco é que uma vitória eleitoral forneça ao bolsonarismo os instrumentos para desarmar as instituições que limitaram sua primeira passagem pelo governo, como tem acontecido, também com o governo Trump 2.0. A captura pode avançar por nomeações, reformas e maiorias parlamentares, revestida de legitimidade popular. O que fracassou como golpe. Portanto, pode voltar como programa de governo.
Tudo começa em junho de 2013
Quando explodiu o movimento das multidões metropolitanas brasileiras por serviços de qualidade e contra a corrupção, a reação do governo Dilma e do PT foi dupla: por um lado, julgaram o movimento como sendo a manifestação de alguma forma de ingratidão; pelo outro, ficaram inconformados com a ausência (e até a intolerância) de bandeiras vermelhas. O movimento não teve resposta nenhuma e não conseguiu se institucionalizar, sequer minimamente. Depois disso, as poucas mobilizações da esquerda, inclusive as que fecharam o primeiro turno dessas eleições, voltaram a ser rigorosamente vermelhas, com todas suas estrelinhas. Vermelhas, demasiado vermelhas.
A convergência de fenômenos e processos diversos
A emergência e a consolidação da extrema direita bolsonarista no Brasil vem de longe e é resultado da convergência de fenômenos diferentes, a maioria dos quais já foram destrinchados. De maneira não exaustiva, podemos citar: a adesão de setores importantes do evangelismo; o papel das redes sociais e dos algoritmos de engajamento que premiam as guerras culturais e seus influencers[1]; a demanda por segurança diante da violência urbana; por fim, como apontamos acima, a atribuição pelos operadores da Faria Lima de uma incrível nota AAA ao título-Bolsonarista etc. Todas essas tendências desempenham um papel, mas para explicar a pujança e a duração do processo, precisamos de mais três elementos: o primeiro diz respeito às dimensões globais da nova extrema direita e à popularidade tóxica da própria figura de Donald Trump; o segundo é o efeito paradoxal do combate à corrupção: a maior visibilidade das ações destinadas a enfrentá-la pode alimentar, na opinião pública, a percepção de que a corrupção está aumentando; o terceiro é o mais profundo e inquietante: é a metamorfose da economia política do crime organizado, ou seja, a passagem de uma economia voltada para o desenvolvimento industrial para uma de serviços e fluxos de circulação que faz com que as organizações que antes se concentravam no controle territorial como rede de “pontos de venda”, passem a enxergar e usar o território como rede de fluxos dos quais se extrai valor. Essa transformação já se delineava no fenômeno das milícias. No estado do Rio de Janeiro, torna-se particularmente visível a articulação gangster entre a difusão dessas formas mafiosas de organização e a gestão do Estado. Vota-se assim “contra a corrupção” em favor de forças políticas que se formaram e se reproduzem por meio da corrupção sistémica, inclusive em termos eleitorais: como aparece de modo explicito na cassação do governador do Rio de Janeiro Claudio Castro, assim como o envolvimento do presidente da Alerj (Rodrigo Bacelar) com o narcotráfico.
A demanda por mudança e a brecha de junho
Mas, todos esses fenômenos, por importantes que sejam, não explicam o que está acontecendo. A questão é apreender o combustível que alimenta o motor composto pelos diferentes mecanismos que descrevemos acima. O que cataliza esses processos é a demanda por mudança. Esse apelo é transversal: atravessa diferentes classes, grupos sociais e orientações políticas, embora assuma sentidos e direções distintos. Que parte da esquerda tenha dificuldade de captar a dimensão concreta dessa demanda é uma história tão longa quanto a da invenção do bolsonarismo. Vivemos em um dos países mais desiguais do mundo: o desejo de mudança encontra fundamento na experiência cotidiana e concreta da desigualdade, da precariedade e da falta de perspectivas. Compreender essa demanda exige, portanto, levar a sério as condições de vida que a produzem e, a partir disso, compreender os diferentes projetos políticos que disputam a inflação de sentido que a moeda dessa crise produz.
E quem vive nas metrópoles brasileiras conhece, no cotidiano, a distância entre a melhora dos indicadores econômicos e a transformação das condições de vida. A recuperação em relação ao governo catastrófico de Bolsonaro convive com aluguéis que consomem a renda, horas perdidas no transporte, serviços públicos precários e territórios submetidos à violência e à insegurança. O crescimento da renda média pode coexistir com uma desigualdade profunda no acesso à cidade, ao tempo e à proteção social. A expectativa de transformação, portanto, se mede pela possibilidade de morar melhor, circular com segurança e ter uma vida que ultrapasse a sobrevivência e o medo da violência. É nesse descompasso, sem dúvida, também afetivo, que o bolsonarismo encontra espaço para capturar a insatisfação e mobilizá-la em favor dessa reação que mira, agora, nas condições mínimas da democracia.
O movimento de Junho foi derrotado e não conseguiu nenhuma estabilização institucional, na medida em que o lulismo emplacou a reeleição de Dilma em 2014, como se as demandas por mudanças sequer tivessem acontecido. O marketing eleitoral do PT transformou Marina Silva em um monstro, numa estratégia de polarização tão violenta quanto absurda, com o objetivo de levar Aécio Neves, do hoje defunto PSDB, ao segundo turno. Aécio também foi retratado como uma figura criminosa, assim como FHC, Serra e Alckmin. Mas a desconstrução de Marina levou o cinismo lulista a um novo patamar, combinando ataques pessoais e exploração de sua imagem. Ela era tratada como um ET ou acusada de se aproveitar da morte de Eduardo Campos, inclusive com o uso de uma foto apresentada como se estivesse rindo diante do caixão. A esses ataques somava-se sua caracterização sistemática como o cavalo de Troia do famigerado neoliberalismo.
Essa narrativa, contudo, além de falsa — pois o neoliberalismo e sua moeda, o Real, haviam permitido o sucesso dos dois mandatos de Lula —, se revelou um tiro no pé. Uma vez reeleita, Dilma não conseguiu repetir com sucesso a mágica — ou o estelionato eleitoral — de prometer uma ruptura com a ortodoxia macroeconômica e, em seguida, acabou por nomear um economista ortodoxo, Joaquim Levy, para o Ministério da Fazenda. Em dezembro de 2015, substituiu-o por Nelson Barbosa, de orientação desenvolvimentista. O resultado foi o pior dos ajustes: um ajuste desajustado. A polarização tinha chegado para valer e o primeiro resultado material foi uma brutal recessão econômica que a doxa petista e universitária atribuiu a não se sabe qual choque externo.
Paralelamente, a brecha continuava aberta e foi inicialmente preenchida pela operação Lava Jato. Essa dispunha de uma nova e poderosa ferramenta: a lei da delação premiada (importada da Itália onde foi usada para a luta contra o terrorismo nos anos 1970, depois contra a máfia, nos anos 1980 e, por fim, na operação Mani Pulite nos anos 1990 que arrasou o sistema partidário do segundo pós-guerra). Como a Lava Jato atingia diversos dirigentes do PT e o próprio Lula, a esquerda se afastou das manifestações de apoio à operação. A partir de 2015, passou a rotulá-las como reacionárias e, aos poucos, a apresentá-las como fruto de uma operação da CIA. Enquanto essa esquerda se afastava da necessária luta contra a corrupção endêmica, o bolsonarismo ganhava força ao capturar uma insatisfação cada vez mais generalizada, fora do feudo da esquerda universitária. Ao reduzir essa indignação a uma manobra reacionária, o governismo abria espaço para que a extrema direita se apresentasse como porta-voz de uma revolta que ele já não conseguia ouvir nem disputar. Em 2016, a manifestações oceânicas se tornaram “canarinhas”, definitivamente verde-amarelas e passaram a serem ocupadas e progressivamente controladas pelo bolsonarismo emergente (basta ver o vídeo da expulsão do então governador de São Paulo – Geraldo Alckimin – e de seu secretário de segurança – Alexandre de Moraes – da avenida paulista pelos bolsonaristas). O Impeachment apareceu como um primeiro momento de restauração diante da total paralisia do governo Dilma, da indignação das ruas e da expansão da Lava Jato que chegava ao coração das grandes estatais e do centrão (lembremos a prisão de Eduardo Cunha, o presidente do Congresso que tinha aberto o processo de impeachment). A narrativa do PT foi mais uma vez, falsa: o impeachment virou um “golpe parlamentar-midiático”. Só que dessa vez, a direita não era mais aquela “tucana”, mas sim uma de tipo novo, disposta a jogar o mesmo jogo de baixarias e Fake News, só que ao cubo.
O bolsonarismo foi se constituindo como um doppelgänger (um sósia esquisitão) do lulismo: um duplo antagônico que, no combate ao adversário, reproduzia de maneira deformada seus mecanismos de mobilização — narrativas contra narrativas, fake news contra fake news. Nesse jogo de espelhos, o petismo se fechava ideologicamente a qualquer crítica, reiterando o dogmatismo que a esquerda sabe muito bem produzir. A esquerda tornava-se, assim, progressivamente refém do lulismo: sua força se concentrava na popularidade de um único homem, o “exército de um homem só” e sua estratégia se subordinava à lógica da sobrevida política desse líder. Do outro lado, o bolsonarismo arrastava consigo o movimento anti-corrupção (inclusive o principal juiz, Sergio Moro), setores diversos das forças armadas, evangélicos, milicianos e o voto de indignação contra “tudo que está aí”.
Chegamos, assim, a 2018, com Lula na prisão. Em vez de apoiar desde cedo uma chapa mais ampla, encabeçada por um nome mais ao centro e com Fernando Haddad de vice, Lula manteve sua candidatura até o limite e só às vésperas da eleição lançou Haddad ao sacrifício. Sua vice foi Manuela d’Ávila, na época, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Nessa leitura, Lula preferiu correr o risco de perder a renunciar ao controle sobre a esquerda e a centro-esquerda. É nessa lógica de sucessão que o bolsonarismo reaparece como doppelgänger do lulismo. Também preso, Jair Bolsonaro escolheu seu filho, Flávio Bolsonaro, para a disputa presidencial de 2026, em vez de apoiar uma alternativa como Tarcísio de Freitas, cuja vitória poderia torná-lo independente do clã.
O espelhamento com o lulismo reaparece nessa preferência pelo controle pessoal da sucessão. Assim como a esquerda se tornou refém de Lula e evitou enfrentar os limites de sua força eleitoral fora do Nordeste, parte dos primeiros aliados de Bolsonaro também acabou subordinada à lógica de um único chefe. Essa aliança inicial reunia setores da direita tradicional, como João Doria; militares, como o general Carlos Alberto dos Santos Cruz; o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta; e o ex-juiz Sergio Moro. Acreditavam participar de um projeto coletivo, mas descobriram que estavam nas mãos de um chefe disposto a levar seus conflitos às últimas consequências. Essa disposição já se manifestava nas guerras culturais do Carnaval de 2019, dois meses após a posse, aprofundou-se durante a pandemia e encontrou sua expressão extrema na escalada golpista que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023.
Para além do katechon
O Lulismo e o Bolsonarismo, portanto, são duas formas de populismo que se retroalimentam,
sendo que a primeira nunca tentou subverter o estado democrático de direito ao passo que a segunda é ontologicamente oriunda da hibridização entre deriva miliciana dos saudosos da ditadura militar e o anti-humanismo da nova direita mundial.
A volta do Lula, em 2022, como salvador da democracia foi fruto da tomada de consciência dessa dimensão irracional e antidemocrática de um bolsonarismo que é ontologicamente corrupto e não por acaso, destruiu todas as operações de luta contra a corrupção. Durante a pandemia, a ligação entre a defesa da democracia e a defesa da vida tornou-se evidente e levou muitos setores — inclusive nós, que escrevemos este texto — a apoiar a candidatura de Lula. Esse apoio tinha como horizonte reabrir espaço para uma biopolítica de defesa da vida, dando continuidade à perspectiva que emergira na luta pelas vacinas, em oposição à necropolítica bolsonarista.
Mas Lula e o PT não resistiram ao revanchismo. Lula continuou a definir o impeachment de Dilma como golpe e a privilegiar antigos aliados, como a própria Dilma, que assumiu a presidência do banco dos BRICS. Guido Mantega, por sua vez, reapareceu como consultor do Banco Master e intermediário de uma reunião de Daniel Vorcaro com Lula. A abertura a lideranças de centro e de fora do PT tampouco se traduziu em espaço para seu fortalecimento político autônomo. O partido também hostilizou a emergência de lideranças jovens e dinâmicas: Tabata Amaral, por exemplo, enfrentou ataques recorrentes de setores petistas ao longo de seu mandato: ela que conseguiu meio milhão de votos no domingo passado.
Vimos esse fechamento na semiótica delirante da campanha eleitoral: estrelas, bandeiras vermelhas, revanchismo e o L. Em 2022, o voto era pela democracia, em 2026 virou por Lula. A isso se somava a estigmatização do mundo do trabalho informal e da chamada uberização.
Essa relação, entretanto, é assimétrica. O bolsonarismo tem maior capilaridade e uma máquina mais potente de produção de subjetividade, capaz de conectar experiências cotidianas, ressentimentos e desejos de mudança, inclusive em amplas regiões do interior do país. Diante disso, a reação petista frequentemente assume um registro universitário, cuja linguagem tem dificuldade de alcançar os circuitos sociais em que essa mobilização se produz. Nas redes sociais, essa dinâmica aparece na proliferação de bots humanos: perfis identificados por bandeiras brasileiras ou estrelas vermelhas, mobilizados para repetir argumentos e combater o adversário em cada publicação. A participação tende, no entanto, a se reduzir à confirmação da identidade de cada campo, reproduzindo, ao cubo, a lógica schmittiana do amigo e inimigo. Nesse terreno, o bolsonarismo tem levado vantagem na definição dos afetos, dos temas e dos ritmos do confronto, enquanto o lulismo responde de maneira predominantemente defensiva, reativa. É difícil reconhecer nessa reação, portanto, a potência de um freio da história.
Nesse sentido, é necessário retirar o lulismo desse lugar de katechon em relação ao bolsonarismo. Em Carl Schmitt, jurista nazista alemão, o conceito designa a potência histórica que contém a chegada do Anticristo e adia o fim dos tempos. Essa figura oferece uma chave para compreender a transformação da centralidade de Lula nessa promessa teológica de contenção. A identificação de Lula com uma ideia que se prolongaria nas ideias e na ação de seus apoiadores, formulada em seu discurso de 2018, pode ser lida, nesse contexto, como parte dessa transformação simbólica e teológica da liderança.
Com o bolsonarismo, e não apenas contra ele, boa parte das forças que compunham o lulismo aderiu a uma concepção cada vez mais schmittiana da política, organizada pelo antagonismo entre campos cuja unidade dependeria da ameaça representada pelo inimigo. Perdeu-se, assim, o plano imanente da composição: a política feita de encontros, conflitos e transformações entre forças concretas. Em seu lugar, instalou-se a urgência permanente de impedir o pior. É precisamente aí que se produz a mistificação. O lulismo não ocupa, deste modo, uma posição exterior ao bolsonarismo, de onde poderia simplesmente freá-lo: mas ambos participam de uma dinâmica de alimentação recíproca. A continuidade do mesmo arranjo passa a ser apresentada como condição de sobrevivência da democracia. Marina Silva e Simone Tebet ilustram esse impasse. Sua incorporação ao governo e ao campo de apoio a Lula não se traduziu em força eleitoral suficiente para conquistar sequer uma cadeira no Senado por São Paulo em 2026.
O Bolsonarismo é um anti-humanismo
Faltam poucos dias e parece impossível inverter ao mesmo a tendência e esses erros estruturais. Ainda assim, a pujança do bolsonarismo é ainda pior: é um lulismo autoritário, irracionalista, anti-humanista, tendencialmente eugenista: uma política para os mais fortes, o desprezo para os fracos. Paradoxalmente, o que o bolsonarismo deseja mais fazer é transformar o Brasil na Venezuela chavista, exatamente como faz Trump. Pior ainda, o bolsonarismo é um populismo miliciano.
Mas o que restou do lulismo deve mostrar ações fortes e colocar ao centro um projeto de governo que tenha em seu cerne a despolarização, dando espaços de governo consistentes a figuras do centro político e social. Esse centro, no entanto, não se confunde com o Centrão. Ele designa, aqui, o espaço em que se estabelece o limite democrático do conflito: um lugar no qual as divergências podem se desenvolver sem transformar o adversário em inimigo a eliminar. Com Claude Lefort, podemos pensar esse limite a partir do reconhecimento da divisão social e do caráter simbolicamente vazio do lugar do poder, que nenhum líder ou partido pode reivindicar como propriedade sua ou como encarnação da totalidade do povo. A despolarização não significa suprimir os antagonismos ou esvaziar a disputa, mas criar condições para que eles produzam novas composições, em vez de aprisionar a sociedade em campos fechados. O centro, nesse sentido, é menos uma posição no espectro partidário do que um espaço político e social de encontro entre forças diferentes, capazes de disputar os rumos do país sem destruir a possibilidade de um mundo comum.
Ao anunciar “o fim da era do PT”, Flávio Bolsonaro toca, involuntariamente, numa verdade anterior ao resultado das eleições. A realidade é que o lulismo como um vetor possível de aceleração democrática encerrou seu ciclo quando a defesa do governismo se voltou contra Junho de 2013, seu rebento “selvagem”. O “fim do PT”, portanto, que não é uma surpresa para nós, mas é o sintoma de um esgotamento do lulismo, ao mesmo tempo que é, também, o signo de uma disputa sobre o que virá agora. Se o bolsonarismo captou esse esgotamento para acelerar a reação conservadora, reabrir as possibilidades democráticas vai exigir que disputamos, para além do lulismo, o sentido desse próprio fim. De toda maneira, o lulismo acabou, qualquer seja o desfecho do segundo turno. Mas é melhor disputar democraticamente sua superação do que lutar no contexto de uma regressão desastrosa.
A caixa preta que precisamos abrir é justamente a das experiências, relações e expectativas pelas quais a demanda por mudança se conecta ao bolsonarismo. Quando essa conexão é tratada como uma identidade definitiva, o espantalho dos “pobres de direita”, essas forças deixam de aparecer como sujeitos com os quais compor e passam a ser considerados um contingente perdido para a política democrática. O desafio de uma política democrática no Brasil será atravessar essa clivagem e remobilizar o corpo dos pobres para além da oposição entre lulistas e bolsonaristas. Isso exige partir de suas condições concretas de vida, de seus conflitos e de suas aspirações, incluindo aqueles que hoje se reconhecem no bolsonarismo. Compor com esses sujeitos significa disputar com eles as possibilidades de transformação, sem exigir sua conversão prévia a uma identidade partidária, ao passo que renunciar a eles é entregar ao bolsonarismo tanto seus corpos quanto a demanda por mudança que os mobiliza.
[1] Cabe ressaltar que as redes sociais, os algoritmos de engajamento e os sistemas de inteligência artificial participam desse fenômeno, mas não constituem, por si sós, uma explicação causal suficiente. Como infraestruturas cognitivas plásticas, adaptativas e recursivas, tendem a favorecer e a amplificar conteúdos, afetos e práticas que mobilizam seus grupos de usuários, realimentando essas disposições segundo os critérios de seleção e valorização inscritos em seu funcionamento. As máquinas são, nesse sentido, maquinizantes: participam ativamente da produção de modos de perceber, sentir e agir. Essa capacidade, contudo, só pode ser compreendida no interior da organização social, econômica e política que as faz funcionar e que elas, por sua vez, ajudam a reproduzir e transformar.
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