O incêndio do Brasil

 

Giuseppe Cocco

 

Esse artigo foi escrito em 2019*, antes da pandemia, da amplificação dos incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal e do incêndio da Cinemateca de São Paulo. Porém, foi escrito depois da destruição do Museu Nacional e da quebra das barragens de Mariana e Brumadinho. O incêndio do Brasil tem tudo a ver com a catástrofe política na qual estamos mergulhados desde que a esquerda não soube e não quis entender o levante de junho de 2013.

 

Introdução

Uma boa maneira de se introduzir uma avaliação da crise da esquerda brasileira depois de junho de 2013 é de lembrar a célebre pergunta spinozista: por que os homens aceitam sua servidão e não se revoltam?  Em junho e, sobretudo depois de junho, o PT – inclusive seus intelectuais “spinozistas” – inverteram a pergunta: por que as multidões se revoltam? Mas, diante das multidões, a oligarquia do PT se sentiu ameaçada em seus negócios escusos (esses que a Lava Jato tornou transparentes), a burocracia do PT olhou para as multidões como sendo “ingratas” (pois pensava que lhe deveriam eterna e voluntária servidão) e, para terminar o quadro, a intelectual “spinozista” preferiu proferir seus anátemas nada menos que ao seleto público da academia da Polícia Militar do Rio de Janeiro (FOLHA DE S. PAULO, 2013). Temos assim uma primeira grande explicação da crise da esquerda: o “lulismo” não apenas se manteve, mas se tornou hegemônico sobre a quase totalidade da esquerda e até do campo “progressista”. Essa hegemonia transformou o paradoxo do PT (um partido que se pretende democrático e é dominado por um chefe único e inquestionável) em um impasse geral, cujas consequências eleitorais são conhecidas. Na resiliência “lulista” não há nem vitalidade “popular”, nem dinamismo partidário, mas uma forma fossilizada na qual encontramos ao mesmo tempo a ideia abstrata de esquerda (o “voto crítico”) e sobretudo os interesses do sistema (no nome de arte desse bloco é “centrão”).

 

A pseudomorfose  lulista

Para melhor definirmos esse contrassenso de um partido morto e ao mesmo tempo hegemônico, recorreremos inicialmente a algumas leituras e metáforas que reverberam alguns dos temas políticos e teóricos da crise da governança da globalização neoliberal. Em uma resenha de um artigo do etnógrafo Claude Meillassoux, o antropólogo francês Emmanuel Terray (1969) discute a possibilidade de usar os conceitos marxianos para apreender os modos de produção das sociedades primitivas. A crítica de Terray é muito sutil. Por um lado, ele afirma que Meillassoux realizou uma primeira etapa no trabalho de “substituir a antropologia social por uma seção específica do materialismo histórico dedicada às formações econômicas onde o modo de produção capitalista está ausente”. Pelo outro, ele pensa que essa tentativa não passa de um empirismo, pois ele afirma a “integração do todo sem determinar o princípio dessa integração” (TERRAY, 1969, p.173). Correndo o risco de mobilizar um dispositivo conceitual demasiado sofisticado para o assunto em pauta, nos parece que o primeiro grande problema que temos na esquerda é que quando se trata de análise e produção teórica diante das transformações do capitalismo contemporâneo, reina o mais absoluto empirismo. Tudo se explica e integra pelo uso de uma noção espúria: o neoliberalismo. Ao invés de se analisar o capitalismo contemporâneo, sua potência e suas contradições, concentra-se o discurso sobre uma das formas de sua governança. Tudo se explica de maneira moral: a culpa é do neoliberalismo. Esse empirismo – como veremos – virou o instrumento da produção de uma série de narrativas redutoras que não dão conta de nada a não ser das guerras culturais. Passemos a um outro autor e um outro momento. Num livro sobre os desafios do desenvolvimento da Inteligência Artificial, o filósofo francês Jean-Gabriel Ganascia reutiliza uma metáfora inicialmente usada por um historiador alemão, Oswlad Spengler, em um famoso livro de 1918[1]. Na natureza pode acontecer que todas as moléculas de um corpo sólido se modifiquem em função de um processo físico-químico. Quando isso se produz de maneira suficientemente lenta, o aspecto exterior se conserva, ao passo que a estrutura físico-química se modifica. É o que faz, por exemplo, o fenômeno da fossilização e é chamado de “pseudomorfose”: uma forma falsa. Ganascia reusa a metáfora da “pseudomorfose” para caracterizar os casos nos quais uma cultura dominante se transforma progressivamente em prol de uma cultura dominada, sem que as manifestações exteriores da cultura inicial mudem (GANASCIA, 2017, p.74). Esse seria o caso da Inteligência Artificial e de seus desenvolvimentos teóricos e materiais. Sobretudo é o caso do PT e mais precisamente o “Lulismo”: se trata de pseudomorfoses: formas falsas, cujo conteúdo está morto. Dito de outra maneira, a forma não contém absolutamente mais nenhum elemento de transformação: nem as lutas sociais contemporâneas, nem algum tipo de projeto de emancipação política. Só que, quanto mais o conteúdo está petrificado, mais a forma se esforça para parecer viva e isso, justamente, na “forma” da produção de narrativas. Desde que o PT começou a perder o poder, em junho de 2013, assistimos a uma escalada sem fim desse dispositivo, cujo produto mais direto acabou sendo a eleição de Bolsonaro (em 2018):  em 2013 foi a vez da campanha contra os vândalos ou os “coxinhas”, em 2014 houve a campanha da “Copa das Copas”; depois a reeleição da Dilma para “barrar” a volta de um neoliberalismo que nunca tinha saído do horizonte e voltou formalmente já em novembro de 2014 na figura do Ministro da Fazenda (que tinha sido diretor do tesouro sob Lula, secretário de Cabral no governo do PMDB e do PT do Rio de Janeiro será presidente – mesmo que efêmero – do BNDES de Bolsonaro). Em 2015 foi a campanha contra o Eduardo Cunha, oportunamente esquecida logo depois da sua prisão. Ao mesmo tempo, panelaços e manifestações multitudinárias são reduzidas a um “segundo turno das elites que não aguentam mais pobres viajando nos aviões” fomentado por Aécio Neves. Quando a prisão do ex-candidato tucano se torna possível, volta o silêncio. Quanto à violentíssima recessão – da qual ainda não saímos – ela é explicada como sendo o impacto de um “ciclo externo”, sem nenhum elemento material que o confirme, a não ser uma reversão (posterior) da valorização das commodities que em nenhum país da região teve o mesmo impacto (recuo de 10% do PIB por habitante). Em 2016, o impeachment (que foi a tábua de salvação política do próprio PT além de uma tentativa da casta de negociar as reformas da “ponte para o futuro” em troca de uma moratória na Lava Jato) é transformado em um “golpe”. A forma trabalha sistematicamente para impor seu conteúdo morto, ou seja para que todo tipo de debate e dissenso seja interditado. Mais em geral, diante dos gigantescos escândalos evidenciados pela Lava Jato, nasce uma narrativa ainda mais divertida: “todo o mundo rouba”. Sabemos o resultado dessa “corrida” louca: a vitória eleitoral de um candidato de extrema direita e a emergência no Brasil de um movimento de tipo fascista. O fascismo e o racismo, claro, no Brasil sempre existiram, mas um movimento fascista com apoio popular é uma novidade e uma proeza desse tipo de estratégia. Quais as lições que a esquerda tirou de tudo isso? Nenhuma: nenhuma análise, nenhuma autocrítica, nenhuma proposta, nada!

 

O Incêndio do Brasil

Com efeito, o Brasil começou a se incendiar bem antes dos incêndios florestais promovidos pelos terraplanistas que estão hoje no poder executivo. Vamos tomar dois exemplos, o incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro e a Companhia Vale. O 2 de setembro de 2018, um violento incêndio reduziu a cinzas a quase totalidade das coleções do Museu Nacional. Todo o mundo pensou imediatamente às guerras e catástrofes culturais que elas geram. As destruições do património simbólico e dos lugares de memória fazem parte das táticas de enfraquecimento da resistência de um povo ou de uma nação. Mais recentemente, as destruições fazem parte das guerras culturais, que sejam a nova iconoclastia praticada pelo radicalismo muçulmano ou o moralismo obscurantista da nova extrema direita evangélica. Bem no meio de uma campanha eleitoral dramática – prisão de Lula, facada em Bolsonaro – não faltaram as tentativas de colocar o incêndio na conta dessas guerras culturais e da emergência do fascismo. Mas não é o fascismo emergente que explica o incêndio, é o incêndio que explica o incêndio do Brasil e o sucesso eleitoral da nova extrema direita. As imagens ao vivo da televisão mostram a situação descrita pelo próprio diretor do Museu: “Quando entrei no palácio, o primeiro e o segundo andar ainda não estavam ardendo. Pedi para os bombeiros que jogassem água, mas não havia água” (O Globo, 2018). O irremediável é o resultado totalmente banal e previsível da incúria generalizada: instalações vetustas, ausência de planos anti-incêndio, fios desencapados, bombeiros sem bombas ou bombas sem água. Na avalanche de comentários, nacionais e internacionais, tomaram corpo duas polémicas: uma sobre as responsabilidades, a outra sobre a memória. A grande mídia apontou a responsabilidade da gestão pública (pela UFRJ) do Museu; do lado da UFRJ, a crítica enfatizou o orçamento pífio. Para a mídia corporativa é a má gestão pública que determinou o desastre. Para a Universidade pública está na falta de recursos e, pois, a “culpa” é do governo tampão de Michel Temer (do “golpista” para a grande maioria da esquerda). Parece uma violenta oposição e na realidade é uma grande convergência. O conflito entre o “mercado” e o “estado” funciona como um grande simulacro que serve à escamotear a cumplicidade que liga os dois e essa dissimulação aparece claramente na segunda polémica, ligada à questão da memória. Em junho de 2013, as multidões protestavam contra os investimentos em grandes estádios, cidades olímpicas, remoções de pobres e a inauguração de novos museus. É porque essa memória foi sistematicamente falsificada depois do levante de 2013 que a catástrofe do Museu nos anunciava que a transformação mistificada pela esquerda e o establishment aconteceria como um incêndio. Com efeito, os defensores do privado bem como os do público não tem nenhum interesse a dizer a verdade sobre o que aconteceu e acontece. A “cultura” no Rio não foi abandonada nos governos PT e PMDB. Sem contar os estádios, 4 grandes museus novos que foram construídos entre 2008 e 2016. Na Barra da Tijuca, a prefeitura construiu a Cidade da Música (depois rebatizada Cidade das Artes), um projeto do prestigioso arquiteto francês Christian de Portzamparc. Essa obra custou em torno de meio bilhão de reais, foi inaugurada em 2012 e nunca foi utilizada (em 2014 ele servia para vender ingressos dos jogos da Copa). Na zona do Porto Maravilha foram investidos algo como 10 bilhões de reais (todos de origem pública) para a revitalização da zona portuária que hoje está praticamente abandonada. Todas as infraestruturas – inclusive o VLT – dependem de subsídios públicos. Dois novos Museus foram construídos pela Prefeitura do Rio na região: o Museu de Artes do Rio (MAR) – cerca de cem milhões de reais, inaugurado em maio de 2013 – e o Museu do Amanhã, do arquiteto internacional Calatrava (cerca de 350 milhões de reais, inaugurado em 2016). Enfim, o Museu da Imagem e do Som (MIS) foi construído em Copacabana, com um projeto do escritório de arquitetura norte americano Diller Scofidio + Renfro. Esse foi bancado pelo estado do Rio (por 200 milhões de reais) e nunca foi inaugurado pois o Rio faliu em 2016, no dia seguinte a Olimpíada e precisa de mais 50 milhões de reais para ser terminado. Ou seja, em 10 anos, a Prefeitura e o Estado do Rio investiram algo como 1,5 bilhões de reais em Museus novos. Cada um desses equipamentos custa também em termos de orçamento operacional, em 2012 e 2013, somente a Cidade das Artes custava 10 milhões de reais e isso para nenhum uso. Em 2017, em um momento em que o estado do Rio não pagava médicos, enfermeiros e policiais (sem contar professores, fornecedores), ela custava à Prefeitura algo como 10 milhões de reais. Sempre em 2017, o orçamento da Prefeitura previa para o MAR e o Museu do Amanhã algo como 35 milhões de reais. Hoje (final de 2019) o fim dos repasses da prefeitura implica o fechamento do MAR (FREIRE, 2019). Qual era então o orçamento do Museu Nacional ? 300mil reais por ano, nada. A grande mídia reconhece que é ridículo.  Por que ao mesmo tempo ela não compara com esses investimentos e não aponta pelo descompasso? Por que ela se limita apenas a enfatizar o fato que a UFRJ não fez uma boa gestão? A resposta não é difícil: todos esses novos museus – menos a Cidades das Artes que ficou órfã – os três Museus novos (o MAR, o do Amanhã e o MIS) foram entregues – antes mesmo de sua inauguração – entregues à gestão de Organizações Sociais (OS) controladas pela Fundação Roberto Marinho, ou seja, pela própria grande mídia. Temos então mais uma questão: por que o grupo dirigente da UFRJ, os sindicatos e associações docentes e mais em geral a “esquerda” não falaram disso? Aqui também a resposta é simples: porque – naquele momento – a doxa lulista hegemónica se articulava de duas maneiras: por um lado atribuir todos os males do Brasil ao “golpista Temer” e, pelo outro, passar sob silêncio a participação do PT ao planejamento e execução desses investimentos, algo que o braço carioca da Lava Jato tornou pornograficamente transparente. Por exemplo, o grande inimigo Eduardo Cunha (que abriu o processo de impeachment contra Dilma Roussef) foi “pego” por ter levado graúdas propinas pela liberação dos recursos da Caixa Econômica Federal para as obras do Porto Maravilha (BOLDRINI, 2017). Tudo isso porque a narrativa que o PT construiu é que “os problemas começaram” depois da queda de Lula e da Dilma. Mas a realidade está sob os olhos de todo o mundo: Copa e Olimpíadas foram feitas sob os governos de Lula e Dilma (claro, com Temer, Cabral). Naquele momento, a oposição binária “publico versus privado”, “Estado versus Mercado”, “Dilma versus Temer” era falsa e servia a esconder a cumplicidade entre esses dois termos: por um lado, as duas partes estão de acordo para evitar o debate sobre a “verdade” do que aconteceu nos últimos 10 a 15 anos; pelo outro, é mesmo o MAR que se apropriou da memória das lutas de 2013 com diferentes exposições: como por exemplo aquela sobre a luta da Aldeia Maracanã (“Arte Democracia Utopia: aquele que luta não morreu”, em 2018) (MAR, 2018). Estamos diante de uma pseudomorfose: por trás da forma de uma retórica de esquerda temos o conteúdo de uma relação íntima não tanto com os interesses da “burguesia”, mas com as relações mafiosas que ligam o Estado e o tal de mercado.

 

Fantasias

Passamos agora a mais dois outros episódios do desmoronamento brasileiro. Em 2012, em ocasião da cúpula Rio+20, camponeses, índios, jovens, favelados se mobilizaram no Rio de Janeiro na cúpula dos povos e numa manifestação que, saindo da Vila Autódromo, tentaram chegar no Rio Centro onde os governos do mundo estavam reunidos. Essa mobilização anunciava o levante que aconteceria um ano depois. Alguns meses antes, os operários (os barrageiros) que trabalhavam na construção da barragem hidroelétrica de Jirau, no Rio Madeira, também se rebelaram: fizeram greve e protestando contra o acordo assinado pelos sindicatos (a Lava Jato mostrou que tipo de “negociação” tinha rolado e que tipo de relação amorosa rolava entre Lula e as empreiteiras) e queimaram os barracos que serviam de alojamentos indignos (em 2011 os operários tinham queimado 40 ônibus e os armazéns). Em face dessas lutas operárias, Gilberto Carvalho, homem de confiança de Lula) tinha declarado que os grevistas eram “bandidos” e deviam ser tratados como tais (sobra saber se com prisão ou não depois da segunda instância) e o governo mandou a Força Nacional (MENDES, 2012). Naquele mesmo momento, Dilma Roussef, comentando as críticas às megaobras (como as barragens), dizia que seu governo estava propondo um “novo paradigma de crescimento (e que esse) não era fantasioso” (FALCÃO, 2012). Se opor às barragens, defender os rios e as florestas e as reservas indígenas era então, ou “criminoso” ou “extravagante”: “Ninguém aceita de discutir fantasias”, declarava a Presidenta”. Construir as barragens, destruir as florestas, deixar as minas se desenvolver sem fiscalização e explorar os territórios livremente é “explicar às pessoas como é que vão  comer, como vão ter acesso à água e à energia ». No Brasil Maior do neoliberalismo hibridizado com o neodesenvolvimentismo, não há espaço para “fantasias” e mitos, tudo é racional, científico, planejado. Eis que o Brasil possuía enfim um verdadeiro modelo de desenvolvimento e dos atores fundamentais para “tocá-lo”: o Estado bancando megaobras e mega evento e subsidiando as mega empresas de sempre (batizadas de Global Players). Vigorava um belo consenso, articulado pelo marketing do PT. Os índios do Xingu que lutavam contra os impactos ambientais das mega-barragens e da mineração, os operários que lutavam nas obras contra as condições de trabalho quase escravagistas, os pobres nas cidades que protestavam contra as remoções e a inutilidade dos investimentos seriam pacificados ou pela repressão ou pela cooptação (corrupção) de seus dirigentes. Mas as multidões estragaram o roteiro e em junho de 2013 a fantasia protestava nas ruas, manifestando sua ingratidão junto aos “líderes bondosos”. O consenso tinha sido quebrado. A reeleição da Dilma deu a impressão que tudo tinha volta à normal. Sabemos que não foi isso que aconteceu e a fantasia era mesmo aquela que governava.

 

De Mariana … a Brumadinho

Em 2015, as multidões voltaram às ruas e só encontraram como referente político as forças emergentes da nova extrema direita. Ao mesmo tempo, a realidade nada fantasiosa do neodesenvolvimentismo apareceu em Mariana: o desmoronamento da barragem de Bento Rodrigues libera 62 milhões de toneladas de lixo tóxico que mataram – além de 17 pessoas – o rio Doce, espalhando-se ao longo de 663 km. O governador de Minas Gerais (do PT), 3 dias depois do desastre, realiza uma coletiva de imprensa dentro mesmo da sede da empresa (Samarco, uma filial da Vale e de uma mineradora canadense) para explicar que não é possível responsabilizar a empresa (!) sem antes haja um estudo técnico. Ainda pior, ele defenderá a flexibilização do “código da mineração”, afirmando que é “no marco atual que o desastre aconteceu”. Bem depois, Dilma fará uma declaração: “Em um país continental como o nosso há muitos desastres naturais” (BRASIL, 2015). Essas trapalhadas – de antes do impeachment – mostram como a produção de narrativas tinha dificuldades a reproduzir os arroubos que o casal Santana (os marqueteiros do PT) tinha mostrado na campanha eleitoral de 2014 e emperrava em pelo menos 4 obstáculos: (1) o papel das grandes empresas como a Vale no financiamento das campanhas eleitorais, (2) o controle dos riscos das atividades de mineração pelos poderes públicos, (3) a companhia Vale não é uma empresa privada, pois que ela é controlada pelo fundo de investimento dos empregados bancos estatais (4) é o conjunto do modelo de desenvolvimento do governo “progressista” que é posto em crise por essa acidente de grandes proporções. Naquele momento, o governo federal do PT desenvolve operações de desinformação ao longo de três linhas: (a) visando diminuir ou esconder as responsabilidades políticos-industriais da companhia Vale (escondendo que a Vale e não apenas a Subsidiária Samarco); (b) maquilhando a dinâmica técnica do desastre para transformá-lo em um fenômeno “natural”, o resultado do acaso imprevisível (BERTONI, 2016), (c) o reducionismo sobre a natureza tóxica da lama que foi despejada. O que aparecia em crise em novembro de 2015 era todo o modelo de desenvolvimento adotado pelo PT com base no planejamento dos militares e dos interesses dos grandes grupos da construção civil. No Brasil, há 14.966 barragens e apenas 432 tinham sido objeto de inspeção em 2014 (um ano antes da tragédia de Mariana). Somente 165 tiveram um Plano de Ação de Urgência. Para fazer inspeção de 663 barragens de resíduos de minérios, o ministério dispõe de 12 técnicos. A barragem de Mariana era considerada de baixo risco. Ainda assim, apenas 32 barragens foram classificadas de alto risco, 96 de risco médio e as restantes 535 foram consideradas de baixo risco (SILVA, 2015). No que deu essa « gestão do risco » ? Na ruptura de Brumadinho que aconteceu 4 anos depois, em janeiro de 2019. Não se trata de « acidentes », mas de um modelo de exploração.

 

Rio Doce

A Vale foi fundada em 1942. Há pouco tempo, ela mudou de nome. Antes se chamava Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), por causa do vale do rio doce onde ela começou a exploração das minas de ferro. Ela se tornou um grupo de dimensões mundiais quando, no regime militar (nos anos 1060 e 1970), sob a direção de Eliezer Batista (pai do Eike), ela passou a explorar as grandes minas a céu aberto de Carajás (na Amazónia). Esse crescimento foi alimentado pelas exportações de minério em direção às siderúrgicas japonesas que produziam aço e ferro para o modelo toyotista, a versão nipónica do fordismo que por um momento (na década de 1980) muitos economistas pensavam (erroneamente) que teria se tornado o novo paradigma industrial. A CVRD mudou de estatuto em 1997, quando de empresa estatal passou a ser de capital aberto, porém controlada por fundos de pensão de outras estatais (controle estatal reforçado pelo primeiro presidente do BNDES da era Lula, o economista carioca Carlos Lessa)[2]. Ao longo da década de 2000, o fluxo de suas exportações passou do Japão para a China. Em 2007, ela mudou de nome e logotipo e passou a se chamar simplesmente Vale: o vale passou a ser um ativo que vale. O rio foi eliminado da marca da companhia. A ruptura de Mariana o eliminou também do mapa da vida. Em seu livro sobre as Guerras no Império, Alain Joxe escreve que “para os membros da classe rentista global, aquilo que ainda chamamos de ‘corrupção’ e ‘conflito de interesses’,  é (visto) como modalidade técnica legitima e se espantam quando um processo de instrução é aberto sobre negócios que eles vivenciam como perfeitamente normais” (JOXE, 2012). A herança colonial hibridizou-se com o regime de acumulação global. Algo como uma repetição em escala industrial do que, dois séculos atrás, constatava o barão russo Georg Langsdorff em seu diário de viagem em Minas Gerais: “A lavagem do ouro (…) é realizada sem nenhum método, de qualquer maneira. Aqui, tudo virou loucura: (…) é difícil de ter uma ideia do absurdo e da devastação que acontece nas minas de ouro. É como se os morros e os vales fossem rasgados e triturados” (FERNANDEZ, 2015). É a renovação dessa acumulação originária que assistimos nas duas primeiras décadas de 2000, agora com a participação da oligarquia e da burocracia do PT e com o marco retórico e institucional do Brasil Maior. Contrariamente às ilusões sobre eles, os governos ditos progressistas na América do Sul passaram em um piscar de olho das políticas ditas anticíclicas para os ajustes e o apoio aos projetos de desenvolvimento predatório[3]. O que unifica essas políticas hibridas é o exercício autoritário do poder e a corrupção da democracia como método de construção de uma nova oligarquia de rentistas, com seus lucros extraordinários e predatórios: “Muitos funcionários das burocracias de Estado – continua Joxe – são acostumados que as leis sejam redigidas pelos lobistas. Os ministros estão a par”. Não parece de estar lendo algumas páginas  dos processos da Lava Jato?! O “lobista” é bem uma figura central dos governos de coalizão montados pelo PT não apenas no nível federal, mas também nos níveis estadual e municipal, com destaque honroso para o Rio de Janeiro. Não foi no computador do advogado das empresas mineiras que foi redigido o novo Código da Mineração? (SENRA, 2015). Os lobistas se tornam ministros e os ministros se tornam lobistas. Na imprensa internacional podemos assim encontrar uma história bem edificante que não chegou ao grande público brasileiro. No dia 6 de setembro de 2019, o jornal econômico Valor publicou a tradução de um artigo do Financial Times sobre uma disputa judiciária que opõe a Vale ao BSGR, grupo minerador controlado pela família do magnata israelense dos diamantes Beny Steinmetz. Este foi condenado pelo Tribunal de Arbitragem Internacional de Londres (LCIA) por falsidade ideológica a pagar uma indenização de 1, 25 bilhão do US$ (cerca de 5 bi de reais) à Vale. O artigo é lacônico e diz que se trata de um affaire ligado A uma joint venture entre as duas empresas  para a exploração de uma mina de ferro na Guiné (HUME, 2019). O que aconteceu? Que o Steinmetz está sendo processado na Suíça por ter subornado a esposa do ex-Presidente do da Guiné para conseguir a licença de exploração do sito de Simandou (avaliado como a maior reserva inexplorada de ferro do mundo, algo como 100 bilhões de US$) (MOREIRA, 2014). Na época, Steinmetz realizou margens de lucro totalmente predatórias e isso com a graciosa colaboração da política de expansão africana da empresa semi-estatal: os direitos de exploração da montanha foram pagos por 150 milhões de dólares e a Vale entrou no negócio dois anos depois, pagando 1,5 bi d dólares ao Steinmetz que assim realizou uma mais valia colossal (CHÂTELOT, 2019). Só que licença foi cassada pelo novo presidente que não tinha participado da negociata. É no meio desses negócios imorais que a manutenção das barragens no Brasil se tornou ainda catastrófica. Quando falamos de corrupção, de neodesenvolvimentismo autoritário estamos falando disso. A postura da esquerda de justificar essas práticas porque é a esquerda que passou a ser protagonista é duplamente desastrosa: por que é imoral e dessa maneira transforma o horizonte ético das lutas em um tremendo relativismo (cinismo); porque ao final – o que é ainda pior – deixa como legado o protagonismo de uma direita radical de novo tipo que – ocupando instrumentalmente (eleitoralmente) esse terreno da luta contra a corrupção – transforma esse cinismo em uma política, ou seja em um verdadeiro fascismo.

 

Sweet Water : era uma vez o Brasil Maior

Por uma coincidência incrível, o Rio Doce tem exatamente o mesmo nome do projeto de Cidade (Sweet Water) que um colono queria construir no trajeto da ferrovia no filme (western spaghetti) de Sergio Leone dedicado à acumulação originária no capitalismo americano: Era uma Vez no Oeste. Frank, o chefe dos jagunços interpretado por Henry Fonda, depois de matar os colonos que podiam criar obstáculos à expansão do business ferroviário, sonhava de tomar o poder no lugar de Morton, o capitalista proprietário da companhia da estrada de ferro. O matador não consegue por causa, por um lado, da traição dos milicianos de sua gangue e, por outro, pela resistência dos índios e dos trabalhadores nômades (Harmonica e Cheyenne). Em Mariana bem como em Brumadinho ou no Museu Nacional nós encontramos a renovação da acumulação originária assim que a descrevia Langsdorff: “Ao longo do vale correm pequenos riachos de águas turvas por causa da lavagem do outro. Aos poucos esses se tornam maiores e desaguam no rio Doce. Os entornos da cidade mostram um quadro terrível de devastação do solo (…)” (FERNANDEZ, 2019): era uma vez o Brasil Maior. Mas hoje é uma nova acumulação originária que acontece. Seu mercado não é mais controlado pela Corte portuguesa, mas pela indústria chinesa, o ouro é substituído pelo vil metal de ferro e as tecnologias de exploração são muito mais potentes e predadoras, Como o Frank do filme de Sergio Leone, o PT também tentou tomar um lugar (ou mesmo “o” lugar) de destaque na elite do grande capital (nacional e multinacional) mas não conseguiu porque, por um lado, foi traído pelos mercenários das grandes empreiteiras e do PMDB (que se tornaram delatores “premiados”) e, pelo outro, porque o cartel oligopolista que ele reforçou ou até criou acabou bloqueando o crescimento e multiplicando os conflitos em todas as direções: na coalizão de governo (o impeachment), nas ruas (em junho de 2013, mas também depois de sua pacificação com os panelaços e mobilizações oceânica de 2015 e 2016, os caminhoneiros em 2018) e na floresta: contra Belo Monte bem como contra os incêndios desse inicio de governo Bolsonaro.

O porvir do rio doce e do Brasil depende assim de como as mobilizações sociais que já acontecem no Equador, no Chile e na Bolívia voltarão ao Brasil mantendo-se autônomas. Só o trabalho da multidão é capaz de se opor outros valores, quer dizer outros vales, ao desmoronamento vergonhoso da esquerda feita refém de um partido que não vale mais nada.

É esse trabalho e essa multidão que precisamos apreender, assim como ela se mostra hoje, em um capitalismo organizado em redes que acelera sua inflexão algorítmica e ao mesmo tempo perdeu o controle da governança da globalização. Por um lado isso se apresenta como fragmentação, precariedade, desigualdade e violência civil. Pelo outro, multiplicam-se as mobilizações multitudinárias e isso desde a primavera árabe de 2011. Quando esse ciclo parecia enfim extinto, ele reapareceu com força, desde Hong Kong até Santiago de Chile, passando pela França dos Gilets Jaunes, Bagdad, Beirute, Alger, Honduras, Equador, Bolívia. Cada uma dessas mobilizações tem seus determinantes e especificidades, mas elas indicam pelo menos três grandes linhas comuns: a defesa da democracia por meio de sua radicalização; a luta pela mobilidade metropolitana e até logística; a resiliência, ou seja, a capacidade de durar no tempo. Diante disso não há respostas prontas, nem modelos a serem aplicados. Só sabemos que é nessas lutas que está se gerando um novo horizonte dos possíveis.

 

REFERÊNCIAS

 

BERTONI, Estevão. Barragem de Samarco já tinha defeitos em 2009, Folha de S. Paulo, 01 de jan. de 2016. Disponível em:

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/01/1724915-barragem-da-samarco-ja-tinha-defeitos-em-2009-diz-relatorio.shtml

BOLDRINI, Angela. Delatores confirmam pagamentos a Cunha em obras do Porto Maravilha, Folha de S. Paulo, Brasília, 6 de jun. de 2017. Disponível em:   https://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/06/1895606-delatores-confirmam-pagamentos-a-cunha-em-obras-do-porto-maravilha.shtml.

BRASIL. Presidente (2010 – 2016: Dilma Rousseff) Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, após encontro de trabalho, Governador Valadares/MG,  12 de  nov. de 2015. Disponível em: http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/presidencia/ex-presidentes/dilma-rousseff/entrevistas/entrevistas/entrevista-coletiva-concedida-pela-presidenta-da-republica-dilma-rousseff-apos-encontro-de-trabalho-governador-valadares-mg

CAVA, Bruno. Podem os governos progressistas sobreviver a seu sucesso?, Universidade Nômade Brasil, 02 de jan. de 2016. Disponível em:  http://uninomade.net/tenda/podem-os-governos-progressistas-sobreviver-ao-proprio-sucesso/

CHÂTELOT, Christophe. Les juteuses affaires de Beny Steinmetz. Le Monde, Paris, 22 de ago. de 2019. Disponível em: https://www.lemonde.fr/afrique/article/2019/08/22/les-juteuses-affaires-de-beny-steinmetz_5501605_3212.html

FALCÃO, Márcio. Conferência não vai discutir fantasia, diz Dilma, Folha de S. Paulo, Brasília, 5 de abr. de 2012. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/35331-conferencia-nao-vai-discutir-fantasia-diz-dilma.shtml

FERGUSON, Nial. Civilization: The Six Killer Apps of the Western Power. Penguin, London, 2011. p. 297.

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* Artigo escrito antes do incêndio da cinemateca de São Paulo e inicialmente publicado no livro organizado por Fabio Luis Barbosa dos Santos, Marco Antônio Perruso e Marinalva Silva Oliveira, O Pânico como Política, Mauad, Rio de Janeiro, 2000.

[1] Oswald Spengler, Der Untergang des Abendländers, Vol. 2 “Welthistorische Perspektiven, (1918), tradução para o inglês de Charles Francis Atkinson, The Decline of the West, Alfred A. Knopf, New York, 1932.  Oswald Spengler antecipava boa parte dos debates contemporâneos sobre declínio do Ocidente, um tema que era caro à extrema direita emergente et continua sendo caro à nova extrema direita Não por acaso, Niall Ferguson, um historiador contemporâneo inspirado no trabalho de Samuel Huntington sobre os choques de civilizações, o cita assim “Para (Spengler) o século XIX foi ‘o inverno do Oeste, a vitória do materialismo e do ceticismo, do socialismo, parlamentarismo e dinheiro’”. Civilization. The Six Killer Apps of the Western Power (2011), Penguin, London, p. 297

[2] O principal acionista da Vale é a Litel Participações, com 20,98% das ações, uma empresa criada pelos fundos de pensão dos empregados do Banco do Brasil (Previ), da Caixa Econômica Federal (Funcef), da Petrobras (Petros) e da Cesp (Funcesp)

[3] Ver Bruno Cava, “Podem os governos progressistas sobreviver a seu sucesso?”, disponível em: http://uninomade.net/tenda/podem-os-governos-progressistas-sobreviver-ao-proprio-sucesso/


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