O making da metrópole

 

 Clarissa da Costa Moreira

 

Em O Making da Metrópole, Barbara Szaniecki e Giuseppe Cocco nos conduzem num fluxo vertiginoso de informações, leituras, insights e deconstruções de grande relevância, urgência e atualidade. Revisitam literatura referencial para o campo de estudos urbanos contemporâneo, trazendo atualizações, confrontações e aberturas de terrenos de exploração promissores para todos os que se interessam pela perigosa e apaixonante aventura das grandes aglomerações urbanas. Nesta leitura, nos sentimos em um trem de alta velocidade, olhando através das janelas as paisagens do mundo urbano, como em flashes, sem nos permitir parar neste ou naquele ponto, mas nos forçando a ir mais adiante, mais além na reflexão, na articulação de ideias, na complexidade das questões ao reinscrever as dinâmicas urbanas brasileiras na vanguarda das transformações urbanas mundiais.

Por vezes o livro age como o próprio Aleph borgiano, guardando em si vislumbres intensos do mundo urbano, e articulando pensamentos que emergem a partir de desenvolvimentos anteriores nas obras autônomas de Giuseppe e Bárbara, colidindo agora nesta que é uma contribuição ímpar ao vasto campo disciplinar que tem o fenômeno urbano como objeto de constante estupor e depassamento, visto a partir de uma compreensão aprofundada do estágio atual do capitalismo mundial e seus reflexos no mundo do trabalho, sem colocar em cena uma nostalgia pelos estados anteriores do capitaismo industrial em sua relação mais estável com as formas de trabalho.  Neste quadro, os autores propõem que é necessário considerar « a dimensão de um conhecimento que se produz por propagação, no tempo das redes, nos espaços da metrópole (…) formas de vida que produzem formas de vida.».(p.20).  O projeto e o planejamento da cidade estariam então diretamente ligados à questão da relação entre cultura e natureza que o “modelo antropogenético” carrega, mas hoje «se confromtam com a crise da racionalidade instrumental e industrial que caracterizou a modernidade ocidental» o que apontaria, segundo os autores, «para a necessidade de buscar um padrão de significação capaz de afirmar um novo modelo de desenvolvimento econômico e, junto, de planejamento urbano.»  Um novo sentido do comum será então convocado, trazendo para a constelação de conceitos mobilizados as reflexões de Elenor Ostrom, Nobel de Economia em 2009, ao tratar da  “ação coletiva” analisando os bens naturais junto com as ações socioculturais.

Da cidade-ciborgue unindo Picon e Haraway passando pelos novos domínios milicianos ( a cidade inteira, quiça a nação), até chegar à experiência catastrófica carioca recente, o livro recompõe a metrópole não como solução nem problema, mas como desafio constante. Neste quadro, o painel de controle da Prefeitura do Rio de Janeiro retorna como uma heterotopia inquietante, derivado das recentes tecnologias das «Smart Cities», onde o monitoramento do descontrole e da desmesura característicos da situação urbana carioca trazem imensas questões rumo a novas «desutopias» onde em vez de pensarmos em termos de déficit de controle resultando em abandonos de territórios somos forçados a pensar em termos de divisões de poderes deliberadas favorecendo modos de controles paralelos ( milícias).

Crise do estado e do planejamento urbano, poder das milícias, aumento do controle digital, persistência da pandemia, longe de levarem a uma leitura de impotência e fragilização da democracia, conduzem aos experimentos no campo do design e a toda uma reflexão sobre a questão do design da cidade- ciborgue em sua potência como prática democrática, mobilizando também os conceitos de co-pesquisa e co-design. Giuseppe Cocco e Bárbara Szaniecki recuperam as reflexões do arquiteto urbanista Sérgio Magalhães acerca do trabalho sobre a cidade existente e o respeito às preexistências e investimentos anteriores, inclusive no que tange a auto-construção, pensamento este que foi a espinha dorsal da política urbana e habitacional carioca no início da década de 90,  com suas experiências de reurbanizaccão de favela que se tornaram referência mundial. Ainda que sejam objeto de críticas nas últimas décadas, fato é que as experiências de reurbanização de favela apontavam para um caminho para além do estigma e da apologia, dicotomia observada pelos autores tanto nas condenações absolutas do processo de favelização quanto à sua «idealização» a partir de um viés estetizante e superficialmente « deleuziano». Acompanhar as mobilizações de resistência contra as remoções na década de 2010 nos relembra que os moradores não lutam para ser deslocados para outros lugares, mas para a melhoria e a inclusão de seus territórios no mapa dos serviços urbanos e da qualidade de vida urbana.  No entanto, a massa crítica advinda dos experimentos de reurbanização de favela, longe de contribuír para novos horizontes do projeto da cidade, acaba por ser mais adiante desmobilizada pela força destruidora da cidade especulativa, que nos deixou como legado «elefantes brancos» vazios resultantes de grandes operações financeiras às custas de dinheiro público.

O projeto estaria morto? A proposição reverbera como um enigma para o campo da arquitetura e urbanismo, onde também se reconhece a crise do planejamento urbano e mais recentemente do próprio projeto urbano. No entanto, será pelo próprio viés especulativo que os autores mobilizam a ideia de um place making e um future making popular a partir do design, trazendo experiências reais contemporâneas e históricas, como o caso do Parque do Flamengo e o Museu Carmem Miranda ou o caso da Aldeia Maracanã, chegando ao exemplo do Cais do Valongo e do tão aguardado Museu ou memorial da cultura afro-brasileira. Para muito além da tradição do controle e do ordenamento sempre frustrados do urbanismo tradicional, as propostas e ideias que surgem nas páginas do livro se inscrevem nas dinâmicas próprias de uma cidade-ciborgue convocando a inteligência disponível hoje na busca de possibilidades a explorar, novas utopias e campos de experimentação coletivos e cidadãos, sem se deixar abater pelo desânimo das perspectivas globalizantes.

O debate proposto pelos autores tem grande contribuição a dar à imaginação de formas de agir e co-criar as cidades-mundo atravessadas pelas práticas ao mesmo tempo avançadas e decadentes do estágio atual do capitalismo cognitivo e cultural da segunda década do século XXI.

Clarissa da Costa Moreira é professora associada da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade federal Fluminense, doutora em filosofia da arte e da arquitetura pela Universidade Paris 1 Sorbonne, mestre em urbanismo pelo PROURB/RJ e arquitetura urbanista pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ e membro da Rede Universidade Nômade.

 


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