Racismo e imigração na Copa do Brasil

Por David Goldblatt, no Guardian, 22/6/14 | Trad.: Renata Gomes

Colombia v Cote D'Ivoire: Group C - 2014 FIFA World Cup Brazil

Foto: Gabriel Rossi/Getty Images

A constituição étnica dos 32 times da Copa do Mundo reflete as camadas sedimentares da migração global nos últimos 500 anos. A destruição das comunidades indígenas americanas levada a cabo pela colonização europeia nos dá três seleções de constituição quase completamente europeia: Chile, Argentina e México. A Austrália é a versão disso na Oceania.

Na maior parte das vezes, a conquista continental foi seguida pela importação massiva de trabalho escravo africano, o que explica a mistura afro-europeia de Brasil, Equador, Honduras, Costa Rica, Colômbia, Uruguai e EUA, muito embora na América os latinos constituam uma categoria à parte. Por todo o continente, o futebol é uma zona de mobilidade social para a juventude pobre e migrante. No caso do Equador, afroequatorianos constituem apenas 6% da população, mas são quase a totalidade do time.

A mesma lógica opera na Europa ocidental, onde os times vêm sendo formados por duas ondas mais recentes de movimentos migratórios. Durante as migrações que acompanham a descolonização e o longo boom do pós-guerra, a Inglaterra ganhou uma comunidade afrocaribenha, a Alemanha, os “trabalhadores convidados” (gastarbeiters) turcos, a França começou a absorver africanos francófonos, a Bélgica, os congoleses e a Holanda, os surinameses.

Em todos esses países, a mudança no visual das seleções nacionais tem servido tanto como emblema otimista para o sucesso da integração e como bode expiatório das acusações de falta de autenticidade: quem canta ou deixa de cantar o hino antes dos jogos tem se tornado critério de cidadania para muitos comentaristas da extrema direita.

Nas duas últimas décadas, novos fluxos de refugiados e imigrantes para a Europa têm deixado sua marca no futebol: a primeira estrela internacional incontestável do futebol italiano, Mario Balotelli; um lado suíço que tem quase dois terços de ascendência imigrante; jogadores com raízes afrogermânicas e afroespanholas. Em contraste, seleções de países mais a leste – Bósnia, Croácia, Rússia e Grécia – embora tenham suas próprias complexidades étnicas internas – são brancas.

Os times mais etnicamente homogêneos são Japão e Coreia do Sul, ambos com populações imigrantes pequenas. Nas arquibancadas, contudo, há bastante evidência de suas próprias comunidades emigradas – os nipo-brasileiros que partiram rumo às plantações de café de São Paulo no final do século 19 e os americanos de origem coreana. Essas comunidades da diáspora, que mantêm ligação afetiva e prática com seus países de origem, são melhor representadas pelo Irã e pela Argélia. O técnico Carlos Queiroz fez um chamado aos iranianos nascidos na Suécia, Holanda e Alemanha. Dezesseis membros da seleção argelina nasceram na França, mas optaram por jogar pelo país norte-africano.

Independentemente do que possam representar, jogadores profissionais são, eles mesmos, imigrantes batalhadores. São parte de um mercado de trabalho altamente qualificado e de altos salários, que também pode ser visto nos serviços financeiros e profissionais. Os quatro times da África ocidental – Camarões, Nigéria, Gana e Costa do Marfim – têm apenas seis jogadores em times locais, dentre os quais, quatro goleiros.

Cidadania é negociável. Croácia e Espanha adquiriram os brasileiros Eduardo e Diego Costa, respectivamente. Apenas os ingleses e os russos, sem histórico de sucesso na migração futebolística, jogam principalmente em casa, nas ricas ligas domésticas.

Se os campos da Copa do Mundo 2014 são um quadro vivo da diversidade e da complexidade étnica do mundo, o mesmo não pode ser dito tão claramente sobre as torcidas ou as comissões técnicas. O holandês Patrick Kluivert é um dos poucos rostos negros entre as comissões europeias. Nenhum time latino-americano tem um técnico de origem africana ou indígena. Gana e Nigéria optaram por técnicos locais, mas Camarões e Costa do Marfim têm europeus no comando.

A FIFA tem investigado pequenos incidentes envolvendo cantos racistas pelas torcidas argentina e mexicana e a presença de cartazes de extrema-direita, até mesmo fascistas, entre as torcidas croatas e russas. Mais significativamente, contudo, nenhum grupo nas arquibancadas compartilha a diversidade étnica de seus respectivos times. É difícil conduzir uma pesquisa demográfica a partir da cobertura televisiva altamente seletiva dos jogos no Brasil, mas a torcida anfitriã parecia incrivelmente branca e a gigantesca presença colombiana também. Suspeito que o mesmo possa ser dito dos europeus.

Obviamente, a mesma lógica que intersecta etnia e divisão de classe e que explica a super-representação de grupos minoritários no futebol profissional explica também sua relativa ausência no caríssimo turismo futebolístico e no olimpo gerencial do esporte.

Quando a poeira baixar sobre a Copa do Mundo, a FIFA – muito preocupada com o comportamento das torcidas em relação ao racismo – poderia voltar sua atenção aos mundos privados do racismo e viés institucionais e ao dilema mais amplo de tentar encenar um festival de universalismo a que apenas os ricos podem ir.

 

David Goldblatt é autor de The ball is round: a global history of football (“A bola é redonda: uma história global do futebol”).

Renata Gomes é professora universitária e participa da UniNômade Garoa


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