“Somos quase todos ucranianos…”

 

 

Ricardo Luiz Sapia de Campos

 

(…) sobre nós gelavam estrelas de morte,
e a Rússia inocente se contorcia,
sob as cardas de ensanguentadas botas,
sob as rodas negras dos carros sombrios,
(…) Como mulheres de streltsi, eu uivarei
debaixo dos torreões do Kremlin.

                       Anna Akhmatova (Requiem, 1940)

Passadas três semanas após a invasão da Ucrânia a jornalista francesa pergunta para crianças refugiadas: “O que é a guerra?” As respostas são: “É quando todos correm e atiram, falam e ninguém se entende.”, “é quando fugimos das nossas casas e deixamos tudo para traz.”, ou ainda: “É correr assustado ao som das sirenes” “é me esconder com medo”, é não ter para onde ir”. Com o passar dos dias as crianças veriam horrores ainda piores.

A Guerra é cenário das piores barbáries cotidianas. Desde crimes hediondos até meros “acertos de conta” são levados a cabo não devendo ser admitida do ponto de vista político (como a geopolítica estratégia do século XX), nem do ponto de vista humanitário, como a trajetória liberal-social-democrática da Europa, radicalizada desde o Pós Guerra.  Mesmo com imperfeições e passível de críticas, nada pode servir de justificativa para a invasão da Ucrânia. Mistificar o horror vivido pelos ucranianos brota do fulcro moralista na tentativa de justificar o injustificável. Como o cão que corre atras da cauda, ouve-se que: “são brancos de olhos azuis”; “e os africanos?”; “os ucranianos são nazistas”; “o batalhão Azov atua na guerra”; “milicias estão atuando com os ucranianos”; “ucranianos geram comoção quando milhões são abandonados”; “arrecadaram para Ucrânia em duas semanas mais do que fizeram para África em 50 anos”; “nem todo o sofrimento humano recebeu a mesma atenção das agências internacionais do que a Ucrânia”; Ucranianos atiram em seu próprio povo que quer deixar o país”; “ucranianos e russos são o mesmo povo, a culpa é dos americanos que foram lá meter o bedelho”. Pasme se não houvesse nazistas na Ucrânia! Eles estão por todo lado: Brasil, Itália, França, Portugal, Espanha e por todos os cantos do globo. Os fascistas de todos estes países tem recebido muito mais votos em eleições livres do que os tímidos 3% dados aos “nazistas ucranianos” nas últimas eleições da Ucrânia, que inclusive votou massivamente num judeu reconhecido como tal pela comunidade judaica, cujo pai lutou na guerra como soldado do exército vermelho; em segundo lugar no pleito, o candidato mais votado para presidente foi o filho de um judeu!

Ou então o incomodo desmedido e cínico da “pseudo – intelectualidade” que se sente mais afrontada e incomodada com o que chamam de “russo fobia”, do que com os horrores da guerra. Os arautos do moralismo justificam o injustificável pela agressividade da NATO ou o famigerado “imperialismo americano” que se arvora em guardiões do mundo na busca de interesse de novos mercados. O elegante sectarismo, dito como brado convicto desde a “torre de marfim” repete incessantemente que é preciso ser contra qualquer tipo de guerra, da Rússia ou da NATO. Mas a “revolução passa à porta, ou um pouco mais abaixo, como no belíssimo romance O Deserto dos Tártaros do italiano Dino Buzzati em que o lunático personagem Giovanni Drogo do alto da sua superioridade moral passa a vida enclausurado como vigia numa torre, esperando o “dia da grande batalha” ocasião que defenderia a aldeia da invasão tártara. Alienado da realidade, os “novos tártaros” entraram, invadiram, saquearam e se foram embora sem serem notados.

Se no contexto Latino-americano, e brasileiro em particular, sobram exemplos de “ex-querdas” e séquitos ingênuos ou mal intencionados que buscam justificar a invasão da Ucrânia, na Europa também há dos seus. Caso emblemático o PCP – Partido Comunista Português, último bastião da extinta União Soviética. O partido com seis deputados na Assembleia da República se ausentou da casa em 21 de abril, em protesto à pronuncia do presidente ucraniano, Wolodymyr Zelensky. O convite feito ao líder ucraniano contou com voto favorável de toda a Assembleia (a exceção dos ditos seis) justificou” a ausência como protesto contra a “instrumentalização” em prol de “interesses nazistas”. O PCP em março já havia votado na Assembleia Municipal de Lisboa, contra a integração de refugiados ucranianos.  Todos os inimigos da Rússia: Nato, Otan, Estados Unidos, são também inimigos do PCP. Em artigo no jornal Expresso de 12 de abril a jornalista Fernanda Câncio recuperando as postagens em redes sociais de militantes, deputados e líderes com cotação a “Secretário Geral” mostra como o PCP faz uma “infamante salada de mentiras e omissões descaradas, ao nível de um Breitbart ou qualquer página de fake news.”. A “propaganda” sugere que a Rússia – enquanto Donbass – é que teria sido invadida pela Ucrânia, fazendo vítimas de guerra (14.000 sugerem!), desde 2014 até o início da ofensiva. Também que o orçamento de Guerra russo é minúsculo diante daquele norte americano, NATO e OTAN. Seguindo os “argumentos”, a insurreição democrática da Praça Maidan, grande fantasma de Putin, teria começado com o “golpe de 2014”.

Se ser de esquerda é menos do que defender o êxodo de refugiados que foram arrancados das suas vidas, ou, defender o espírito livre (e nem por isso menos nacionalista,) de Maidan, caberia até mesmo do ponto de vista da “filosofia marxista” perguntar: onde está a materialidade do mundo? Ou se esta inversão da realidade pode ser a tal ponto chamuscada, a ponto de justificar os horrores da guerra com totalidades abstratas como a liberdade de uma pretensa “equidade internacional” Como se a bandeira da não beligerância não se constituísse num eloquente e confortável brado moral quando reivindicado por quem está em casa sentado na sua poltrona enquanto vidas são massacradas.  Ou quando se vota contra o acolhimento de imigrantes ucranianos com a justificativa que se votaria a favor caso fosse para “todos”. A infâmia da “ideologia da igualdade” abstrata e descomprometida, como se o mundo já não fosse suficientemente desigual.

Negar o direito de defesa e revide dos ucranianos contra a invasão do seu país em nome duma “desnazificação” praticada por uma guerra sangrenta que tem como lema o “estado puro”, significa o não reconhecimento do país e da autodeterminação dos ucranianos. A anexação do Donbass e da Crimeia foi uma prática (método) imperialista de purificação do leste, levada a cabo pela “imperialista” Rússia, com requinte de cinismo e de “produção da verdade” típico da extinta União Soviética. O argumento é de que a culpa é do outro, dos “insubmissos” que se recusam aceitar o “poder civilizatório” do Leste. O reconhecimento da autodeterminação dos ucranianos implica que qualquer crítica ao país e aos ucranianos (Zelenky, Batalhão Azov e tutti quanti) deva ser aceito depois da defesa incondicional da Ucrânia, consoante a condenação da infame invasão.

Reiterar o óbvio, de que existe desigualdade de tratamento na geopolítica internacional, significa no contesto da invasão da Ucrânia justificar a invasão imotivada promovida por Moscou. E, se somos todos ucranianos é justamente por que pensamos que a “solidariedade ucraniana” construída a partir dos esforços humanitários deve ser estendida para todos os povos, cantos e rincões do planeta. Somos Maidam, não por que apoiamos os abusos da guerra quer sejam dos ucranianos, russos ou quaisquer outros povos, mas por que estamos concretamente com os refugiados, ou, do lado de quem foi invadido. Por que somos contra a política nefasta do Kremlin e de Putin. É por que reivindicamos “a economia moral” duma Europa reconstruída a partir dos escombros de um velho mundo que (“ingenuamente”) acreditávamos sepultado quando do desaparecimento de um outro tirano num bunker de guerra da Alemanha em 1945.  Somos ucranianos não por que apoiamos o nacionalismo ucraniano, ou os abusos cometidos por ucranianos, mas por que concretamente somos contra a invasão, já que foi está invasão que trouxe a guerra e pode nos meter em sarilhos de proporções muito maiores, caso se construa uma nova geopolítica de guerra. Não somos contra a guerra defendendo a guerra, este anacronismo não existe: Ou então o que se faz diante da invasão? Fugir e liberar a Ucrânia para o invasor? Ou é negado o direito de defesa e resistência, da mesma maneira que o dedo em riste funciona para os ucranianos que cometem abusos como se a condição de terem perdido suas vidas não justificasse o “direito de guerra” de cometerem abusos!  Concretamente dizer não a guerra significa se posicionar, incondicionalmente, e sem ressalvas, do lado de quem foi invadido, ainda que experimentando o gosto amargo da guerra e torcendo para que a Ucrânia acabe com lei marcial. É preciso enfrentar concretamente o problema de desertar da Guerra. A política de morte de Moscou é a única responsável pela guerra. Mistificar ou relativizar esta realidade não aplaca os abusos de guerra, mas antes disso buscam justificar o injustificável.

Imbuído do fantasma da Guerra Fria Putin reviveu a Otan. Suécia e Finlândia fazem parceria em treinamentos de guerra, a Lituânia está com as barbas de molho e tropas americanas se espalham pelas fronteiras da Europa. Todos os Estados membro da Otan, passam a investir em poder militar como política de segurança.    O argumento, propagado pelos quatro cantos, desde a queda da União Soviética, de que Moscou tem o maior armamento bélico do planeta não foram suficientes para demover os ucranianos de resistirem. Aliás a postura do Kremlin desde o início da invasão deixava claro o tempo todo que se tratava de uma simples “ação militar” e não duma guerra, termo que o Secretário Geral do PCP tem usado para se referir a guerra.

Esta não é uma Guerra entre dois países. Segundo a lógica da guerra, da agressão e do belicismo praticado pela Rússia a Ucrânia já perdeu a guerra, conforme o presidente Zelenky tem afirmado desde o início da ofensiva. A vitória que reivindicamos deve passar pela deserção da “guerra russa”, tendo como contraponto (e contrapoder) a construção de uma nova constituição europeia, que seja capaz de ultrapassar os pactos de Varsóvia e Vestefália, sendo, portanto, mais inclusiva, menos cínica e menos seletiva.

 

Referências bibliográficas

AKHMATOVA, A. Antologia Poética, Porto Alegre: L&PM POCKET, 2009.

BUZZATI, D. O Deserto dos Tártaros, Lisboa: Ed. Cavalo de Ferro, 2005.

CANCIO, F. Os “15 mil mortos no Donbass” e outros factoides do PCP, Diário de Notícias, Disponível em:  https://www.dn.pt/opiniao/os-15-mil-mortos-no-donbass-e-outros-factoides-do-pcp-14763677.html , Acesso em 12 de abril 2022.

DIARIO DE NOTÍCIAS: Marcelo diz que “somos quase todos ucranianos” ao ser questionado sobre PCP. Disponível em: https://www.dn.pt/politica/marcelo-diz-que-somos-quase-todos-ucranianos-ao-ser-questionado-sobre-pcp–14794659.html , Acesso em 01 de maio de 2022.

MALLAND, J. Artista francês desenha crianças ucranianas pisando em tanques: “para meus amigos ucranianos”. Disponível em:  . https://www.metropoles.com/mundo/artista-frances-desenha-crianca-ucraniana-pisando-em-tanques , Acesso em 01 maio 2022.

* O título do artigo reproduz a frase proferida pelo Presidente da República Portuguesa Marcelo Rebelo de Souza em alusão a postura do PCP – Partido Comunista Português com relação a invasão da Ucrânia.


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