Ucrânia-Europa, a segunda bifurcação

 

Editorial da Revista Multitudes (Paris) – início de março de 2022

No momento em que estamos terminando de escrever esse editorial não sabemos qual será o desfecho imediato da grande guerra na Ucrânia. Ao mesmo tempo sabemos que há 8 anos a Ucrânia vive uma pequena guerra permanente como outros países de influência russa, como Moldávia, Geórgia, Bósnia e Herzegovina.

Assediado por uma armada aterrorizante, o presidente ucraniano Zelensky, cuja família foi massacrada pelos nazistas durante a segunda guerra mundial, respondeu ao ditador e sátrapa fornecedor de gás Putin que o tinha chamado de nazista e viciado em drogas[1]: “Você pode tentar me matar, estou pronto porque sei que uma ideia vive em mim e que sobreviverá a mim”.

Ele também havia respondido ao país mais poderoso do mundo, que se ofereceu para fazê-lo fugir do país sob as barbas dos russos: “Não preciso de carona, mas de armas”.

Podemos apostar que essa dupla bravura ficará na história tão famosa quanto a “pólvora e balas” do filho grego de olhos azuis de Victor Hugo[2]. A libertação da Grécia do Império Otomano foi o sinal para um verdadeiro despertar “europeu”, prelúdio das revoluções nacionais de 1848 e do colapso da ordem do Tratado de Viena de 1815. Um apelo recente publicado no Le Monde[3]  propunha de admitir logo a Ucrânia como candidata oficial à entrada na União Europeia. Mas dados os avanços meteóricos que sua invasão pela Rússia deu à ideia de soberania democrática europeia, cabe uma entrada imediata. Cada defensor europeu de um verdadeiro governo federal da União deveria erguer à sua honra um monumento de agradecimento. “Os ucranianos são nossa família”, como destacou Ursula von der Leyen. Não esqueçamos que o movimento da Praça Maidan deslanchou já em 2014 porque o então presidente pró-Russo havia se recusado a permitir que a Ucrânia se juntasse e depois entrasse na União Europeia. O pesadelo de Putin é o progressivo enfraquecimento do sistema da democratura soviética e neo-russa pelas democracias ocidentais. O ex-comissário europeu Manuel Barroso salientou que a União Europeia assusta mais Putin do que a OTAN. Porque ela é uma alternativa muito mais contagiosa do que uma aliança militar.

O fracasso da blitz krieg de Putin e o espectro do impasse russo

 Especialistas militares seguem dizendo repetidamente que as cartas estão dadas e que é apenas uma questão de tempo, talvez dias, para que de qualquer maneira aconteça a queda de Kiev e da Ucrânia com ela.

Este “de qualquer maneira” é a mãe de todos os erros. Isso porque chegar à Ucrânia através de uma cabeça chamada Kyiv em 48 horas, sem grandes perdas e mudar o regime liquidando Zelensky com ou sem julgamento é uma coisa. Conduzir um cerco de várias semanas sem conseguir instalar nada além de um governo fantoche, a um custo exorbitante em equipamentos e homens, é outra.

Em 2014, no início da guerra na Ucrânia que resultou na anexação da Crimeia e no apoio russo aos separatistas do Donbass, Putin demitiu seu ministro da Defesa acusado-o de corrupção, assim como seu chefe de Estado-Maior. Ele havia substituído o último por Valeri Guerasimov, que presidiu a modernização do exército russo e esteve no comando na Ucrânia entre de 24 a 27 de fevereiro. Mas este último, com base na lição das intervenções americanas no Iraque, defende uma “guerra híbrida” ao estilo russo, que aterroriza o adversário dominando o céu e os bombardeios sem fazer soar as armas no solo. “Ações de longo alcance e sem atrito com o inimigo estão se tornando o principal meio de atingir os objetivos de combate”, escreveu ele em um artigo de 2013 para denunciar a interferência ocidental durante as revoluções coloridas que desestabilizavam regimes pró-russos[4] . Lições aprendidas pelo exército russo com as suas desilusões no Afeganistão, Chechénia e Síria? Sem dúvida: Putin, tal como Gerasimov, acreditava numa guerra de intoxicação ideológica, ataques aéreos e pequenos combates de rua, menos aqueles levados a cabo por fantoches separatistas. Após alguns dias inconclusivos para as forças russas, Putin chamou o sinistro Ramzam Kadyrov e os seus 12.000 homens dos esquadrões da morte que se distinguiram na Chechénia em 2008, para ocupar o campo, enquanto há relatos de uma grande presença de mercenários de Wagner com a missão específica de eliminar W. Zelensky.

Há ainda rumores não confirmados de forte tensão no Kremlin entre o exército, que vendeu a guerra como um passeio militar e os diplomatas conscientes do isolamento do país e o peso das sanções, o que provaria que Putin subestimou o sentimento nacional ucraniano, como se este país nunca tivesse conhecido a revolução democrática de Maïdan, enquanto oito anos de guerra no Donbast afastaram da Rússia a grande maioria dos ucranianos que falam russo (aqueles que estão resistindo ao massacre de Mariupol por exemplo). Parece que Putin culparia então o exército por este fracasso no terreno.

É sintomático que ele tenha mudado de ideia em três dias. A resistência ucraniana o forçou a batalhas de rua que a infiltração e a sabotagem não conseguiram evitar. Multiplicam-se os exemplos de resistência em todos os níveis da população, em todas as áreas de combate, que sejam as das redes sociais ou as da solda das armadilhas antitanque. O indiano Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia, havia constatado que “a fome só aparece onde não há democracia”[5]. Provavelmente podemos acrescentar um corolário: quanto mais a democracia se torna parte dos costumes de um país, mais complicado, caro e até impossível se torna governá-lo por meio de pronunciamentos militares. Isto é ilustrado pelo o lamentável apelo de Putin ao exército ucraniano para “depor seu presidente” e empossar um colaboracionista local, enquanto Zelensky multiplicava os apelos em russo para a população russa que não tinha sido informada da invasão fora do Donbass, nem do cerco das grandes cidades, nem do alto nível de perdas do invasor.

A desaceleração do conflito é fértil em múltiplas reversões: a Rússia passou assim de ameaças nucleares, em 27 e 28 de fevereiro, para ofertas de negociações na Bielorrússia, juntamente com tentativas de infiltração por sabotadores e, no dia seguinte, para desdobramentos maciços de colunas blindadas. Mas cada vez que o conflito aumentava, a reação ocidental (G7, Estados Unidos, NATO, FMI), bem como uma reação especificamente europeia, tornavam-se mais fortes. A última astúcia que denuncia a profunda incultura do mestre do Kremlin que dá lições de história a todos: na segunda-feira 28 de fevereiro, as forças russas bombardearam a antena de televisão de Kiev, localizada acima da ravina de Babi Yar, o local onde quase 34.000 judeus foram executados em valas comuns pelas tropas nazistas em 1941. Como Le Temps[6]  salienta: <<Volodymyr Zelensky, ele próprio judeu, também se referiu a isto: ‘De que serve dizer ‘nunca mais durante 80 anos, se o mundo permanece em silêncio quando uma bomba cai no próprio local de Babi Yar?>>

O que é a guerra global na Ucrânia anuncia?

A catástrofe para Putin é que, qualquer que seja o resultado da guerra na Ucrânia, já estão sendo alcançados resultados opostos aos seus objetivos estratégicos. É aqui que reside o verdadeiro impasse[7]. Na manhã da invasão russa, o presidente Macron, que tentou até o último momento conter Vladimir Putin, explicou que este evento fez entrar a Europa e o mundo em uma “nova era” com múltiplas consequências. “Os eventos desta noite são um ponto de virada na história da Europa e do nosso país. Terão consequências duradouras e profundas nas nossas vidas e na geopolítica do nosso continente”. Nada será como antes. Diagnóstico amplamente compartilhado, em particular por Olaf Scholz, o chanceler da Alemanha. Só que dessa ruptura podem-se enxergar perspectivas diametralmente opostas entre elas:

  • Para aqueles que permaneceram apegados à soberania dos Estados Nação resultantes dos Tratados de Vestefália no século XVII, a guerra na Ucrânia mostra que a ordem resultante da Segunda Guerra Mundial, da Guerra Fria e do colapso da URSS bem como do Pacto de Varsóvia já não vale mais. Para eles, é necessário realismo para renegociar com a Rússia de maneira que ela encontre um lugar para ela que os americanos teriam constantemente erodido sem compensação. Os realistas que querem compor com o regime autoritário de Vladimir Putin continuam a pensar no futuro em termos de partilha de zonas de influência e soberania nacional, mesmo que isto signifique coexistência armada com regimes muito autoritários. Esta visão cínica é a de Donald Trump, Xi Jinping, Vladimir Putin e os nostálgicos da Europa das Nações que Marine Le Pen e Éric Zemmour pretendem restaurar. Parte da esquerda na França e no Brasil continua prisioneira desse mesmo quadro quando faz muita questão de distinguir o culpado da agressão (Putin) do verdadeiro responsável segundo eles: a OTAN, os americanos e o capitalismo neoliberal. Como se a questão da natureza dos regimes (democráticos ou despóticos) fosse secundária. Mas o que Putin não quer a qualquer preço não é o capitalismo; Putin permitiu seu florescimento na Rússia em sua pior forma, a dos oligarcas e que Cornelius Castoriadis havia identificado como a estratocracia, esse regime dominado como Esparta pelo exército. O inimigo absoluto de Putin é a insurreição democrática, a luta contra a corrupção em todos os níveis, os únicos capazes de derrubar seu

 

  • Para outros, eurófilos convictos, federalistas, entre os quais devemos agora contar grande parte dos atuais dirigentes dos Estados-Membros da União Europeia, incluindo, claro, Emmanuel Macron, esta nova crise que já tinha posto a Europa em guerra com os assuntos iugoslavos, georgianos, arménios e moldavos, é simultaneamente o sinal e a oportunidade do advento de uma nova ordem europeia no seio da União. A situação é propícia para a Europa dar um salto institucional decisivo. Após a crise do Covid que abriu as portas para o momento hamiltoniano da União Europeia com a adoção de um orçamento federal financiado por um empréstimo comum para reanimar a economia e, portanto, constituiu um tesouro federal dos países membros, a guerra da Ucrânia abriu, inesperada e providencialmente, a porta para a constituição de uma Europa de defesa e de uma política de potência nos negócios estrangeiros. A possibilidade de financiamento da Comissão Europeia por um empréstimo co-garantido pelos Estados-Membros tinha sido teimosamente recusada antes de 2019 pelos Estados frugais do Norte, os Estados soberanos da Europa de Leste para os quais a tese da “soberania limitada” do Pacto de Varsóvia evocava memórias insuportáveis ​​e, finalmente, pela Alemanha Federal de Wolfgang Schauble (ver a crise grega de 2008). A Pandemiado Covid-19 quebrou essas resistências. Três semanas antes do início da invasão da Ucrânia, quem teria esperado uma despesa adicional da União de 450 milhões de euros para fornecer armas à Ucrânia atacada (além das várias ajudas decididas pelos Estados-Membros)? Quem teria previsto que a Alemanha concordaria em fornecer armas letais para um teatro de combate a 1500 km de Berlim e fecharia o Nord-Stream2? Comprometer-se a votar um orçamento de defesa acima de 2% do PIB? Os 100.000 manifestantes em Berlim e o gabinete de Olaf Scholz quebraram um cadeado decisivo na construção de uma força de defesa europeia crível. Além disso, a construção de uma Europa poderosa dotada de defesa e autonomia militar, sem dúvida, avançou sob o duplo impacto dos três últimos presidentes dos Estados Unidos: Obama já havia indicado que o centro de gravidade do mundo se tornou para os Estados Unidos o Zona Indo-Pacífico. O próprio Trump havia convidado os europeus a financiar eles mesmos a OTAN. Com Biden, presidente de um país onde 70% dos cidadãos não querem morrer pela Europa, ficou claro para os aliados da OTAN que nenhum GI lutaria pela Ucrânia. Esse detalhe não escapou a Putin.

Evidentemente, a potência europeia não pode ser reduzida a um programa de rearmamento europeu, baseado no desejo de paz. Implica novas responsabilidades em termos de justiça, democracia, luta para salvar o planeta. As srmas sem Maidan, um discurso de potência sem conteúdo para a humanidade, sem combate à corrupção é tão reacionário quanto a quimera de Putin.

Devemos falar de uma consciência europeia, tanto na base como no topo, de que a Europa deve cuidar da sua segurança e da paz planetária e que só pode fazê-lo em conjunto, nenhum Estado-Membro o pode fazer sozinho. Quem teria imaginado há um mês que o governo dinamarquês anunciaria sua intenção de apoiar os voluntários que partiriam para combater por Kiev? Quem teria pensado em Moscou que menos de 24 horas após a ameaça de Putin de colocar suas forças nucleares em alerta, o presidente da Comissão Europeia responderia olho por olho excluindo a Rússia do sistema Swift de liquidação de transações internacionais e uma enxurrada de sanções econômicas; complementado pela proibição total de canais de desinformação russos como o Russia Today e acima de tudo pela afirmação de que os ucranianos são “um de nós”? Finalmente, para completar: Putin queria oficialmente que a Ucrânia não entrasse na OTAN e mais não oficialmente que esta joia do Império Russo não caísse nas mãos da União Europeia. O presidente Zelensky, sitiado em Kiev, enquanto aceitava conversas com os russos, foi ainda mais longe ao pedir a adesão de emergência de seu país à União (não à OTAN) por videoconferência ao vivo com membros do Parlamento Europeu. A resposta imediata do presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, é bastante encorajadora, porque ele se contentou em apontar que todos os países membros ainda não estavam de acordo. Não importa, porque a captura de Kiev e a fabricação russa de novas Guernicas poderiam muito bem convencer os Estados membros relutantes hoje a concordarem amanhã. O eslovaco Maroš Šefčovič, Vice-Presidente da União Europeia, declarou-se a favor da adesão acelerada. Moldávia, Geórgia assinaram um pedido de adesão à UE.

Continuemos o inventário da extensão das transformações aceleradas que acabaram de ocorrer em cerca de dez dias, enquanto normalmente se conta em décadas para obter uma única delas. Quem apostaria um sloty ou um forint, em 20 de fevereiro de 2022, que a população polonesa ou húngara liderada por governos populistas, inimigos dos refugiados sírios ou afegãos na fronteira da Bielorrússia, acolheria as centenas de milhares de refugiados ucranianos? Que a União Europeia, que só tinha em mente a luta contra a imigração e o reforço das fronteiras com muros altos, viesse a libertar milhões de euros para acolher um número sem precedentes de refugiados? Resta garantir que este acolhimento não seja recusado aos estudantes e outros residentes africanos que fogem da Ucrânia.

Putin: o crepúsculo do regime; Europa chegou a hora de uma nova constituição.

Definitivamente, como apontou Francis Fukuyama: “é bem possível que Putin tenha cometido um erro monumental”. O que o autor de O fim da história estava enfatizando era, em última análise, que a história não parou, que a oposição interna na Rússia era muito real e que a Rússia também poderia sofrer uma atração irreprimível para a União Européia. Em suma, o obstáculo à entrada da Rússia na Europa do Atlântico aos Urais é o regime oligárquico, antidemocrático e anacrônico do Kremlin e não o povo russo.

Pois os dados não estão lançados na Rússia: o partido da paz e a vergonha expressa pela invasão de um povo irmão manifestou-se muito claramente. Navalny pode sair da prisão. Ele acabara de convocar seus concidadãos a se manifestarem sem trégua pela paz imediata. Um exército de alistamento que não sabia dos planos de Putin, uma hierarquia humilhada, coberta de ridículo, um povo cruelmente afetado por graves perdas, oligarcas privados de seu dinheiro, seus iates, suas residências, seus negócios, podem derrubar “seu pequeno czar”, como diz Navalny . Diz-se, aliás, que Putin está doente, o que deve induzir a muita calma diante a chantagem nuclear de um geronte paranóico. A sua ditadura levou consigo a Rússia, já que a Ucrânia está provavelmente destinada a aderir à União Europeia mais cedo ou mais tarde. A Ucrânia já é parte integrante do património da nossa Europa.

Para todos aqueles que consideram que esta guerra mudou profundamente a visão que a Europa tem de si mesma, é tempo de “bater no ferro enquanto está quente”, ou seja, de apresentar – em uma reforma dos Tratados europeus – a nova arquitetura da União que lhe dará um governo federal no sentido pleno da palavra, responsável perante o Euro-Parlamento erigido em Assembleia Constituinte e reduzindo o direito de veto nacional no Conselho Europeu que poderá tornar-se o Senado das Nações.

 

[1] Citado por Bernard-Henri Lévy , « Zélensky, Président courage » , Le journal du Dimanche du 27 février 2022

[2] Victor Hugo, Les Orientales, L’enfant, 1828

[3] https://www.lemonde.fr/idees/article/2022/02/24/pour-une-reconnaissance-officielle-de-l-ukraine-comme-etat-candidat-a-l-union-europeenne_6115099_3232.html

[4] Veja o artigo no Expresso 2016 @ https://www.lexpress.fr/actualite/monde/europe/valery-guerassimov-le-chef-d- orquestra-de-l-invasion-de-l-ukraine_2168772 .html

[5] https://survie.org/themes/economie/biens-publics-a-l-echelle-mondiale/article/la-famine-apparait-seulement-la-ou

[6] https://www.letemps.ch/monde/bombardement-memorial-babi-yar-ancetres-ont-fusilles-enterres-cette-fosse

[7] Veja o excelente artigo de Jean-Baptiste Jeangène Vilmer na revista Le Grand Continent @ https://legrandcontinent.eu/fr/2022/02/27/pourquoi-poutine-a-deja-perdu-la-guerre/


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