Violação dos territórios e dos corpos: mirem-se no exemplo das ucranianas

Barbara Szaniecki,
Mariana Mayerhoffer,
Mylene Mizrahi,
Sindia Bugiarda.

Em 24 de fevereiro deste ano de 2022, fortemente armados com tanques e soldados, a Rússia invadiu a Ucrânia. É fato que o conflito não nasceu nesse dia, ele vem de longe, mas esse dia marcou o limite entre o discutível e o intolerável. Entre 2 e 3 de março, a cidade de Kherson caiu nas mãos dos russos, mas cidades como a capital Kiev e Kharkhiv seguem resistindo apesar de bombardeadas criminosamente. As imagens são terríveis e os sons aterrorizantes. Se na última guerra mundial, muitos se refugiaram em um “não sei, não vi nem ouvi”, hoje o mundo inteiro sabe simplesmente porque não há como não ver e não ouvir. Em tempos de guerras culturais e guerras narrativas, a profusão de informações pode eventualmente retardar tomadas de posição, mas inadmissível é a relativização.

Apesar da covardia da invasão, o povo ucraniano optou por resistir. Sabemos que mulheres com crianças assim como idosos começaram seu longo e penoso êxodo para os países vizinhos, enquanto homens de 18 a 60 anos ficaram para defender o território. No entanto, pouco se fala sobre as mulheres que escolheram ficar e lutar. Foi preciso uma fala extremamente machista e socialmente preconceituosa de um deputado paulistano sobre as mulheres ucranianas para que muitos olhassem e se perguntassem: quem são essas mulheres?

Ora, as imagens de mulheres de todas as idades preparando coquetéis molotov já vinham circulando pela internet desde os primeiros dias da invasão. Nelas, via-se professoras, advogadas e donas de casa, agachadas na grama, enchendo garrafas com combustível e pedaços de tecido que serviriam de pavio. Criado em 1939 na Finlândia para resistir ao ataque organizado no âmbito do acordo de Stalin com Hitler, o artefato foi ironicamente apelidado de molotov em referência ao Ministro do Exterior da URSS. Pela sua potência atordoante, o nome foi apropriado por fabricantes de bebidas, mas também seguiu sendo usado como artefato barato em situações de resistência à opressão e, no caso da Ucrânia, à invasão de suas cidades, de suas casas e de seus corpos. Os molotov, caseiros, artesanais, improvisados, são índice da resistência feminina e da “guerra de povo” que travam na Ucrânia. E as mulheres ucranianas entenderam muito bem a relação implícita entre invasão de território e violação de corpos, até porque já vinham lutando contra a violência sexual desde a anexação da Crimeia em 2014.

Muito se fala sobre guerra e sexo, pela forte relação entre ambos. Sabe-se por exemplo que o estupro, tanto o ocasional quanto aquele organizado sistematicamente, é uma das armas de guerra mais antigas, e das mais terríveis. Encontram-se inúmeros casos nos manuais de história. Com mais sutileza, o cinema explora situações que vão da rendição à colaboração, mas também apesar da violência absolutamente assimétrica, aquelas que abrem alguma possibilidade de reverter a relação de forças. Em tempos de redes sociais, mulheres ucranianas fazendo “match” no Tinder com soldados russos no intento de ridicularizá-los e, sobretudo, de localizá-los no território, é uma dessas tentativas de fazer do sexo uma arma.

As mil e uma formas da resistência ucraniana não eram, de fato, esperadas por parte do governo putinesco. Elas seguem, com homens e mulheres rechaçando bravamente a destruição imposta pelo invasor de territórios e infrator de tudo. Há, contudo, tipos de violação que não vêm apenas de machistas em crise, mas eventualmente até de feministas, e que são difundidas de modos sutis e nem tanto. Por exemplo, imagens da ex-miss Ucrânia e também de soldadas, maquiadas e produzidas, segurando armas e declarando-se prontas para destruir os invasores russos, tem circulado pela internet. Ora ao invés de terem sua coragem acolhida, essas mulheres foram criticadas por supostamente glamourizarem a guerra ou mimetizarem a gestualidade bélica. As críticas não consideram que, se na guerra o corpo das mulheres se torna alvo sexual, só elas devem decidir que armas usar para se defender.

Mas talvez a violação mais perniciosa de todas, porque menos específica e, portanto, mais difusa, é aquele que enxerga a Ucrânia, essa nação resistente, como uma mulher que fez algo para provocar e, portanto, mereceu a violação. Tal como a mulher que é violada por estar de saia curta ou por transitar em lugares onde não deveria estar, circulam também diversas versões para a justificativa de invasão da Ucrânia: ela se aproximou demais da OTAN; ela é comandada por grupos neonazistas e a mais recente: ela é sede de laboratórios de armas bioquímicas. São conversas e desconversas, rodeios e rodopios para dizer que, de alguma maneira, por algum motivo, a Ucrânia merecia: por ter desejado um outro, por ter pulado a cerca, por ter preferido outro bloco.

E nesse diapasão, o grande redentor seria o machão Putin! O autoproclamado caçador de nazistas que não se exime de recorrer a técnicas nazis contra seu próprio povo. Seu comboio – que vem assombrando o povo ucraniano e a audiência mundial com os passos lentíssimos com que se desloca desde a noite de 28/02 – carrega também fornos crematórios para desaparecer com os corpos de russos caídos em combate.

A pirueta narrativa que transforma o governante sustentado por bilhões do capital russo em pobre coitado cercado por uma ordem mundial que não suportaria a sua resistência a esta mesma ordem não faz mais que revelar a manobra: o que é insuportável é que se resista de fato a essa ou qualquer outra ordem.

Mulherio do Brasil, não permitamos que o progressismo se alie à novilíngua de Putin. Miremo-nos no exemplo das mulheres de Kiev, Khalkiv e Kherson, entre muitas outras cidades ucranianas sob covarde bombardeio. Algumas vozes de mulheres se fazem ouvir na mídia e na academia, ainda timidamente. É preciso urgentemente multiplicar o apoio internacional em outras formas, conteúdos e vozes. Afiemos nossas armas que, em versos tortos, rimam com nossos amores.

 

 

 


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