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Alegria, alegria: a volta da democracia das redes e das ruas

Por Barbara Szaniecki e Clarissa Moreira

Vitória! Comemoramos por muitas razões. A primeira, sem dúvida, é que a vitória de Lula está atrelada à vitória da democracia brasileira por meio do voto e das mobilizações. Apesar das turbulências em curso entre os três poderes, a democracia vem resistindo e, quiçá, se reinventando.

A segunda razão para se comemorar é, com certeza, a alegria do processo mesmo em plena emergência. Alegria nas ruas e alegria nas redes. As eleições de 2026 vinham sendo marcadas por uma campanha onde a frente ampla prometida nas eleições 2022 não se fazia perceber, e tampouco se conectava suficientemente com seus eleitores e apoiadores em geral. Baseada quase unicamente na biografia de Lula e com o respaldo da vantagem nas pesquisas do primeiro turno, a campanha não suscitava entusiasmo para além dos seus grupos de apoio, muito pelo contrário, provocava uma distância, uma desesperança e até mesmo um descrédito no ar.… sem falar da atração, mesmo no campo popular, pelo canto da sereia da extrema-direita com sua proposta de segurança e aumento do poder aquisitivo sem dizer realmente como.

De repente, o péssimo resultado do domingo 4 de outubro acendeu uma faísca. Na semana seguinte, caminhando contra o vento perturbador do primeiro turno, jovens universitários da Universidade Federal Fluminense saíram às ruas no Rio de Janeiro e logo em seguida, em outras capitais do país em defesa da democracia e contra retrocessos, e em apoio a quem encarnava tudo isso: Lula. Nesse momento, mais do que os movimentos sociais tradicionais, foram esses os atores que, auto-organizados, se movimentaram. Esse mutirão político pôs tudo em movimento e dele emergiu uma multidão 2026. Não necessariamente foi um replay do levante de junho de 2013 na medida que este não se articulava em torno de um nome ou de uma eleição e sim em torno de ideias e propostas que, mal compreendidas, foram reprimidas pelo governo do momento. Novamente as ruas foram tomadas em prol da democracia, fundamentais na virada de jogo.

 

Nas manifestações pró-Lula do sábado anterior ao voto, milhares de pessoas ocuparam novamente as ruas com uma alegria que, desdobrada em roupas multicoloridas, cartazes, corpos, gestos e slogans divertidos, se alastrou e contagiou pessoas até então indiferentes. A movimentação nas ruas passou a ser ampliada nas redes. Com Janones, formou-se o “exército de Lula” e certamente a mudança obtida na ampliação da circulação de mensagens e imagens que mostravam a verdadeira face do adversário — a da arrogância e imposição da força — contribuiu para alavancar votos, mas não se reduzia a isso.

Não nos cabe uma análise aprofundada da composição social do eleitorado, mas algumas rápidas observações são possíveis. Dos que saíram de casa para ir às urnas votar em Lula, muitos já não votavam fazia anos, outros sequer haviam se animado a tirar seu título de eleitor e outros ainda resistiam firmemente em sua indecisão. Mas, o levante de estudantes — estudantes que nos últimos anos conquistaram direitos e melhorias nas suas condições universitárias e, indiretamente, nas condições de vida de suas próprias famílias— levantou muitos outros atores. E levantou o próprio governo que, adormecido em conquistas de outrora, se motivou para produzir uma agenda positiva e propositiva.

 

Aos jovens, se juntaram os idosos com suas lembranças dos tempos de ditadura, desafiando muitas vezes dificuldades de saúde e de mobilidade; as pessoas com deficiência, indignadas com o tratamento desrespeitoso dado a Lula pelo adversário; as comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas que seguem enfrentando obstáculos diversos; os ambientalistas e ecologistas que protegem não apenas as florestas como seus modos de vida; os moradores de territórios urbanos controlados por podres poderes; a comunidade LGBTQIA+; figuras de centro e centro-direita, políticos e artistas que usaram seu prestígio para mostrar seu apoio às regras e instituições democráticas; mulheres, milhões de mulheres que percebem muito concretamente que ao machismo tradicional se somou um abominável masculinismo. Formando-se espontaneamente por dentro e por fora do guarda-chuva do Partido dos Trabalhadores, essa frente multitudinária não deve ser esquecida no governo Lula 4.

A análise semiótica — ou, como preferimos, estética — traz elementos que nos permitem “ver” literalmente a composição plural que se manifestou nas ruas e nas redes. Uma das evidências mais sensíveis dessa multiplicidade é a reapropriação do verde e amarelo da bandeira do Brasil. Capturadas anos atrás pelo campo bolsonarista, as cores do nosso símbolo maior retornaram às ruas misturadas a outras cores, isto é, ao vermelho naturalmente, mas também a todas as outras cores do arco íris, confirmando que somos muitos, que somos múltiplos, que não cabemos numa só cor. A alegria estava de volta às ruas contagiando a todos com seus cartazes, fantasias e mil e um bordões carnavalescos. Não subavaliemos o efeito estético na subjetividade de quem ocupou as ruas e as redes dessas eleições: havia ali um retorno dos agenciamentos que moveram junho de 2013 e, ao mesmo tempo, sem partido a priori, uma recomposição de sujeitos e subjetividades dispostos a colocar as cartas na mesa para o próximo governo.

Nas redes, paradoxalmente, não rolaram marchinhas e sim marchas! Fomos comandados por um general (Janones) que só respondia ao seu marechal (Lula) mas que sempre buscava mostrar que seu trabalho era o de descentralizar. Cumprimos missões diárias exaustivamente. O aparente paradoxo se diluiu rapidamente na percepção coletiva de que tal iniciativa também funcionava como uma paródia carnavalesca da hierarquia militar tão prezada pelo campo adversário. E, para além da forma paradoxalmente militar e carnavalesca, vertical e horizontal ao mesmo tempo, predominou a distribuição do conhecimento sobre o funcionamento das redes, uma verdadeira devoração criativa de suas ferramentas incluindo hashtags e algoritmos, ao invés de permanecer na trincheira da crítica ou mesmo da recusa tecnológica. Nosso general teve um papel fundamental na virada das eleições e na vitória de Lula com mais de 4 milhões de votos.

Ainda com o intuito de apreender visualmente o ocorrido, escolhemos duas fotos para representar a virada nas eleições. Na foto do 1º turno, Lula estava no meio de políticos – o establishment político de homens e mulheres que, ainda que muito valioso por sua combatividade, estão muito atrelados à estrutura de poder e ao exercício do governo. Na foto do 2º turno, estavam presentes os sujeitos e subjetividades “Redes e Ruas” de 2013 e de 2026 dentre outros levantes. Lula disse que “aprendeu muito” nesse processo, e esperamos que, se o cotidiano o distanciar desse aprendizado, algum moleque (um jovem de qualquer idade) cochiche ao pé do seu ouvido: “redes e ruas”.

Nesse momento em que o “modelo Janones” vem sendo cobiçado por partidos de esquerda em outros países, vale a pena lembrar que não se trata de uma metodologia replicável e sim de um processo democrático, entre governo e sociedade e, nesse nível, de um debate aberto por dentro e por fora de todo e qualquer cercado partidário. Sigamos atentos e fortes no governo Lula 4 e, sempre que possível, com alegria, alegria…

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente a posição da Universidade Nômade.

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