Por Murilo Corrêa
No último domingo, 64.256.232 eleitores brasileiros votaram em Lula para presidente da República, levando-o, a dois dias de completar 81 anos de idade, à sua segunda reeleição.
A façanha incontornável de Lula é, sob todos os aspectos, impressionante. Não apenas nenhum presidente da República jamais havia sido democraticamente eleito para governar o Brasil por quatro mandatos, como, na história da democracia nacional, “nunca antes na história desse país…” um candidato que chegasse em segundo lugar no primeiro turno havia conseguido virar a mesa e triunfar no segundo. No último dia 25, Lula realizou ambos os feitos. No entanto, a virada imponderável só não é maior do que os potenciais que ela carrega.
Lula é certamente o mais maquiaveliano dos príncipes que as democracias liberais representativas jamais conheceram. Não apenas por encarnar uma combinação única de fortuna e virtù, nem tampouco somente por saber – ao que parece, melhor do que ninguém – cavalgar o corcel negro da política tumultuária com um pé enquanto mantém o outro no cavalo branco das instituições. Lula é o político prático da teoria dos dois humores. O vencedor insuspeitável do perene conflito entre os grandes e os muitos.
Não é que Lula não governe com os grandes. Esta, aliás, é a crítica que recai sobre ele desde a Carta ao Povo Brasileiro, de junho de 2002. Mas, sob sua sombra protetora, os muitos se sentem salvos do ânimo dos grandes. Maquiavel o sabia bem: os grandes “só querem dominar e oprimir o povo, e o povo só quer não ser dominado”.
Outra coisa que Lula sabe tão bem quanto Maquiavel é que é mais fácil governar com o povo do que com os grandes. Primeiro, porque, entre o povo, não se está entre iguais — muito embora Lula seja o único presidente da história do Brasil originário da classe operária; segundo, porque “os fins do povo são mais justos que os dos grandes”.
Sem dúvida, do marketing eleitoral às estatísticas colhidas das urnas, a vitória de Lula admite explicações múltiplas. Mas, se eu tentasse desfiá-las aqui como a um rosário, talvez soassem como as menores gotas que, sem saber bem ao certo como, foram dar no mar.
Correndo o risco de ser acusado de manter uma ideia fixa – tão retrospectiva quanto obsessiva –, prefiro tentar explicar o triunfo de Lula por uma via intuitiva: Junho de 2013 venceu as eleições de 2026. Estranha ideia, concordo – mas ela não cessa de me acossar.
Junho foi um levante, um tumulto multitudinário de trabalhadores precários das metrópoles brasileiras. Uma emergência selvagem e indisciplinar dos corpos que tentavam, por meios próprios, conduzir-se como se fossem uma única mente. Naquela ocasião, com Dilma no poder, o PT negou-se a fazer corpo com os manifestantes de Junho. Isso fez de Junho uma multidão sem príncipe.
Treze anos depois, derrotado no primeiro turno das eleições de 2026, Lula era um príncipe sem multidão. Nessa dialética positiva, multidão-príncipe-multidão, tocamos o enigma metafísico, prático e político da constituição do Estado e das instituições. Sob formas e dinâmicas relativamente novas, a eleição de Lula em 2026 consiste em uma fatoração de Junho, a ponto de arriscarmos pensar: a eleição de Lula é um expressionismo de Junho continuado por outros meios.
O cerne de Junho, cujo catalisador inicial foi o passe livre, era o tempo livre e o acesso igualitário ao direito de circular insubmisso nas cidades. Era, ainda, a pressão indevida que a relação custo-qualidade do transporte urbano — ineficiente, caro e lento — imprimia sobre a renda. Afinal, no mundo do capital e do trabalho, falar de tempo é falar de dinheiro (e vice-versa). Mas falar de trabalho e renda é, por extrapolação, falar de lazer: o tempo liberado das atividades servis que a pólis grega enunciou como condição para aceder às benesses da cidade.
Por isso, quando o fim da escala 6×1 finalmente emplaca, ao lado de medidas de valorização dos trabalhadores MEI (precários pejotizados), e se soma a isso a proposta do passe livre nacional aos fins de semana, Lula fatora precisamente a equação que movia as revoltas de Junho: tempo livre-renda-acesso à metrópole. Diante de componentes de liberdade efetiva, a “liberdade de negociar com o patrão” e de “receber por hora trabalhada, como nos Estados Unidos” proposta pelo bolsonarismo soa como um deboche ou um disparate.
Não se tratava de votar em Lula por gratidão ou esperança, mas em função de uma estratégia de escolha com maior probabilidade de consolidar conquistas justas, alcançadas pela via democrática. Com essas medidas, a multidão começava a encontrar seu Príncipe, porque ele tateava a matéria do seu desejo: impedir que os grandes desafoguem sobre os muitos o seu apetite — este, muito mal disfarçado na promessa flaviana de um tesouraço sem liquidação em massa de direitos sociais.
No entanto, não foram apenas esses fatores ideais de Junho — pautas que, com Lula, começam a tomar a forma de políticas públicas, relativamente mutiladas pela “reserva do possível” na gestão capitalista do Estado — os que contribuíram para a vitória de Lula. Há um fator material tumultuário que talvez possa explicar não apenas a transversalidade, mas também a dispersão dos votos em Lula.
Pela primeira vez em muito tempo — desde 2013/2014 —, voltamos a ver mobilizações de massa nas ruas das principais cidades do país. Atos pró-Lula, anti-Bolsonaro que, embora pudessem ter focos mais ou menos centralizados de convocação, desenvolviam-se de fato como mobilizações horizontais, espontâneas, múltiplas e dispersas. Isso não se deu apesar dos carros de som, das palavras de ordem e das entidades organizadoras, mas ao lado deles, em concomitância.
Se Junho contava com “lideranças informais”, as manifestações pró-Lula em 2026 testemunharam a concorrência convergente entre fatores verticais e horizontais de organização. Um intercâmbio poderoso entre duas lógicas que se alternavam e retroalimentavam: um fazer multidão que recorria a estratégias verticais para se concentrar e reconhecer (a procura pelo príncipe que pudesse encarná-la) e a estratégias horizontais para dispersar e diversificar os excessos da concentração (a retomada do principado pela multidão tumultuária).
O janonismo cultural não explica essa dinâmica até o fim. O “exército do Lula” e seus “soldados”, com marechais e generais, participam dessa dinâmica de acumulação primitiva de democracia e ajudam a catalisá-la, mas não a encerram nem a causam. O mérito de André Janones está na percepção intuitiva, antecipada e talvez contra todas as evidências disponíveis, desse desejo social difuso de concertação democrática. Reside, também, na inegável capacidade de transportar a democracia das ruas às redes e aos algoritmos. Nesse campo, o fato novo é a constituição de uma democracia algorítmica: incontestável contribuição de Janones para o pleito e, esperemos, para muito além dele.
Seu desafio, muito maior do que o do bolsonarismo, foi criar um público, um tipo de subjetividade transversal replicável e mobilizadora. Não apenas encampar um conflito, reagindo às fake news da extrema-direita ou desmentindo-as, mas – prescrevendo a recusa em participar da bolha da mitagem bolsonarista – agenciar ações positivas, criar uma trincheira algorítmica e transformar os termos do conflito social em participação política ativa e cotidiana. Um trabalho estratégico de organização e concertação, mas também, e essencialmente, afetivo: conjurar o derrotismo e as inclinações ao ressentimento e à culpabilização dos muitos pelos muitos.
Isso não apenas isolou a bolha da extrema-direita, mantendo-a idêntica a si mesma. Sob o símbolo de certo dirigismo militar, mobilizador de automatismos acéfalos, a democracia algorítmica de Janones nos convenceu a pagar o preço da servidão maquínica pela chance de preservar as instituições comuns da liberdade política.
Claro que é justo e necessário perguntar: se Junho negava a forma-partido, os pactos sociais hipnóticos e a ficção da representação política, como explicar que, 13 anos depois, demandas e dinâmicas de Junho possam explicar a eleição de Lula? A novidade política, e o enigma, talvez estejam justamente aí: na intempestiva monstruosidade dessa hipótese e na irreal sensação de distanciamento em que ela nos introduz.
As causas da virada de Lula – como ele próprio reconhece no discurso da vitória – não se deveram ao culto de sua personalidade, nem à mutação de seu marketing político, nem mesmo a fatores estatísticos, mas ao povo: à indomável labilidade soberana de seu desejo. Diante de Junho, as eleições de 2026 atualizam politicamente, e sob novas formas, o diferendo de Junho entre anarquia e instituições. De um lado, as multidões e os tumultos, sua horizontalidade e espontaneidade; de outro, o Príncipe, a verticalidade e a concertação organizada do povo que deseja conduzir-se como que por uma só mente.
Tardou, mas Lula finalmente acenou a um Junho que ainda espera por nós. Junho acena de volta a Lula como uma multidão tumultuária que — por ora, e uma vez mais — aceita viver sob a sombra protetora do Príncipe, que só tem de protegê-la contra os grandes. Para repetir um bordão caro a Lula — príncipe maquiaveliano, anomalia nordestina —, “nunca antes na história desse país” um príncipe precisou tanto governar com o povo, e nunca um povo precisou tanto da proteção de um príncipe.
Com um Congresso majoritariamente de centro e extrema-direita, e uma Constituição ameaçada pela crise de legitimidade do STF, a acumulação primitiva de democracia das ruas e das redes agora precisa governar. Cabe a Lula, com o recurso às multidões que precisarão seguir mobilizadas, tornar possível não apenas um hiato democrático de mais quatro anos, mas sua radicalização nas instituições. Eis aqui Junho em sua inteireza e plenitude: democracia real, omnino absolutum imperium.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente a posição da Universidade Nômade.
