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Meu pai e Lula: as duas faces de uma mesma história

Sindia Santos

Meu pai não é mais um Silva, é mais um Santos. E embora ele diga detestar o Lula, foi a história do meu pai que me fez apoiar e me emocionar quando, em 2002, testemunhei Lula ganhar as eleições. Meu pai foi mecânico da Companhia Docas de Santos. Acordava às cinco da manhã e chegava em casa às sete da noite, cansado, com as mãos grossas ainda meio sujas de graxa. Jantava, tomava banho, deitava e dormia. Dia após dia, por décadas. Eu tinha 15 anos quando ele teve um infarto, enquanto pilotava uma moto ao voltar para o trabalho depois do almoço. Sempre foi um homem nervoso porque nunca tínhamos dinheiro para nada que não fosse comer e pagar as contas. Minha mãe também trabalhava, e minha irmã mais velha cuidava de mim e do meu irmão mais novo desde os nove anos. Ainda menina, voltei um dia da escola perguntando sobre a ditadura, curiosa para saber se eles haviam lutado contra ela. Meus pais nem sabiam do que eu falava. Viveram numa realidade em que a informação era um privilégio, tanto quanto o direito de lutar para viver melhor. Minha mãe nos ensinou a calar, repetindo à mesa: “É o que temos para hoje e agradeçam, porque o que tem para hoje já é muita coisa.”

Quando Lula foi eleito, eu trabalhava na Cosipa, uma das maiores produtoras de aço do país. Tinha me casado com o filho do meu vizinho, que se tornara dono de uma terceirizada do polo industrial de Cubatão depois da privatização da siderúrgica, em 1992. Como assessora de comunicação, frequentei reuniões em que, ao lado de representantes da FIESP, discuti assuntos muitas vezes descabidos, como mudar o nome de Cubatão para “Guará Vermelho” para apagar a fama de uma das cidades mais poluídas do mundo. No começo dos anos 1980, o ar da cidade, carregado de gases nocivos, afetou gestações e provocou o nascimento de crianças anencéfalas. Um escândalo mundial.

Nos jantares com diretores de empresas, eu ouvia com frequência que Lula não tinha formação para ser presidente, que o cargo exigia alguém que tivesse passado a vida se preparando, em boas universidades, à frente de grandes conglomerados ou vindo de famílias de políticos experientes. Até meu ex-sogro, um novo rico de ascensão rápida, pensava assim: para ele, Lula tinha carisma, mas era um “ignorante”, um operário que mal sabia falar. Como meu pai. Qual não foi a minha alegria, depois de anos ouvindo aquilo, ao ver Lula eleito presidente da República.

Meu pai, porém, não gostava dele. Dizia que Lula capturava a força de trabalho através do sindicato em benefício próprio e que a grande promessa de valorização da categoria escondia um pragmatismo político que, no fim das contas, deixava o trabalhador na mão quando o calo apertava. Essa desilusão vinha de longe. Aposentado desde 1996, ele viu seus direitos de reajuste minguarem sob manobras governamentais e sucessivos cortes que destruíram o fundo de pensão dos portuários, numa disputa judicial interminável. Quando Lula chegou ao poder, a expectativa era que a situação fosse resolvida, mas o governo continuou a enfrentar os trabalhadores na justiça. Ainda assim, ele votou no antigo líder sindicalista.

Hoje, aos 82 anos, meu pai me deixa como herança o ceticismo. Para ele, os políticos são uma casta de iguais que, ao chegar ao poder, esquecem os trabalhadores. Fiz o mestrado numa universidade particular, custeado por recursos do governo, e o doutorado numa pública, ambos com financiamento de pesquisa da CAPES e do CNPq, no governo Lula. Meu pai olha para os mesmos diplomas e vê uma filha que continua precária, e não está errado. Nós dois olhamos para algo verdadeiro, só que de lugares diferentes. Quando digo que nosso direito de estar nas ruas é a própria democracia sendo aperfeiçoada e burilada, ele se espanta. Não acredita que tenha vivido uma ditadura. Em 21 anos, o salário mínimo perdeu mais da metade do valor, a greve foi praticamente inviabilizada por lei, a estabilidade no emprego foi trocada pelo FGTS e os sindicatos, inclusive os do porto de Santos, tiveram as diretorias afastadas logo depois do golpe.

Ninguém lhe disse que aquilo tinha nome. Talvez por isso a democracia lhe pareça tão pouco. Não vai votar em Flávio, já se decepcionou com Jair, e também não tem vontade de votar. Recusa o único direito que lhe permite seguir lutando. Por ele, por mim, por seus netos. Meu pai está machucado e se sente impotente ao ver que a única filha que terminou o doutorado continua precária, e que os estudos não bastaram para lhe garantir alguma estabilidade. E, como muitos de nós, pobres, não consegue erguer a cabeça de décadas dessa lama de pobreza e direitos desrespeitados para ver a onda fascista que se levanta mais uma vez no mundo, justamente depois de ciclos de lutas de gente pobre como ele.

Por isso, quando vou às manifestações e ouço a canção “Tapete vermelho para o filho do Nordeste”, sempre choro e, ao mesmo tempo, fico com raiva. Mas não tenho medo de sentir esse caos de desejo, frustração e persistência que se funde à força da multidão nas ruas. Sei que a história de Lula e a do meu pai se cruzaram e muitas vezes se confundem, no melhor que elas tiveram e têm. Em todas as lutas que aprendi a travar para sobreviver, não quero deixar meu passado para trás, nem meu pai. Porque não quero desistir dos sonhos que não fui autorizada a sonhar e mesmo assim sonhei. Meu voto em Lula vem carregado do desejo de que pessoas como o meu pai tenham chance de voltar a sonhar.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente a posição da Universidade Nômade.