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A password que esquecemos e … não queremos mais

Giuseppe Cocco e Felipe Fortes[1]  | 27 de março de 2026

A cerimônia do Oscar aconteceu no dia 15 de março, em Los Angeles. A mídia brasileira a cobriu como se fosse uma final de Copa do Mundo, com a seleção em campo. O filme brasileiro que estava na corrida é a última obra do cineasta pernambucano, Kleber Mendonça Filho: O Agente Secreto. No elenco, desponta o ator Wagner Moura. Ele ganhou projeção internacional por sua participação aos dois capítulos de Tropa de Elite (2007) de José Padilha, onde ele interpretava o capitão Nascimento e, depois, como Pablo Escobar, na série americana Narcos (Netflix 2015-2016) ambientada em Medellín (Colômbia) e dirigida pelo mesmo Padilha. Não foi um “7 a 1”, mas quase. O humorístico Porta dos Fundos até sugeriu que o próximo Oscar (americano) aconteça em Gramado, para que os “gringos” não dominassem a premiação.

Quem levou os prémios e os reconhecimentos foi um filme yankee: Uma batalha após da outra, escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson[2]. Um filme que já tinha sido objeto de uma densa recepção crítica[3].

Curiosamente, ao passo que o filme brasileiro pretende ser mais um capítulo da crítica atual à nova extrema direita a partir de uma narrativa que – mesmo que anacrónica e com alguns toques de realismo mágico fora do lugar – acaba por evocar de maneira confusa o período da ditadura militar brasileira e chega a deslocar a violência do poder para a figura dos imigrantes, o filme americano coloca a luta pelos imigrantes e dos imigrantes no cerne de uma resistência vista como múltiplas sequências de batalhas, uma após a outra. De um lado, um regionalismo obtuso que atribui ao sudeste brasileiro – particularmente a São Paulo – a inercia e violência das relações escravagistas que atravessam o Brasil e particularmente o Nordeste. Do outro, o americano celebrado como um “filme antifascista em um momento fascista”[4].

Ao mesmo tempo, o cineasta americano faz muitas concessões aos clichês típicos dos filmes de ação americanos: corridas de carros, tiroteios, explosões etc.  Assim, alguns enxergaram uma insuportável parodia dos movimentos de luta dos anos 1970 nos Estados Unidos (os Weathermen Underground). Pablo Ortellado viu não apenas “o esvaziamento da política”, mas uma amplificação dessa deriva[5]. Já Hope Reeves, filha de um casal de militantes dos Weathermen Underground, escreveu no New York Times que o filme representa menos uma chamada a combater o poder que a aventura caricatural de dois ativistas malucos.[6]

O fato é que o filme de Paul Anderson antecipou (pois foi gravado antes) as resistências que atravessam as metrópoles em face da caça aos imigrantes desencadeada por Donald Trump que culminou com o assassinato de dois cidadãos americanos pela polícia de imigração (a ICE): Renee Good e Alex Pretti, em Minneapolis. A cidade, a mesma onde, seis anos antes, o assassinato de George Floyd havia desencadeado o levante do movimento Black Lives Matter, volta, assim, a se tornar um epicentro das novas tensões que se deflagram nos Estados Unidos.

Com efeito, o filme começa com uma operação de guerrilha para libertar imigrantes detidos em um campo de concentração e termina com a filha de um dos protagonistas (Bob, interpretado por Leonardo DiCaprio) indo manifestar em solidariedade com os imigrantes deportados. Mais ainda, quando o mesmo Bob precisa fugir da cidade santuário onde tinha se refugiado, é uma liderança comunitária (interpretada por Benicio del Toro) que o ajuda por meio de uma rede informal, enraizada nas comunidades imigrantes hispânicas e baseada em práticas não violentas.

A luta armada acabou, mas a resistência continua, até mais do que antes. Mais do que isso. O filme está claramente organizado em duas partes: na primeira, logo no início, uma ação armada quase descontrolada permite que os militantes ajudem os migrantes a fugir: os fogos de artificio da luta armada estão “à serviço” dos imigrantes. Na segunda parte, acontece uma inversão total: os imigrantes se protegem eles mesmos e são os militantes, derrotados e à deriva, que precisam de suas redes de solidariedade não-violentas.

Agora, no meio desses comentários todos, passa batido um dos momentos mais fortes do filme. Depois das cenas iniciais, marcadas pelas ações de guerrilha e sua derrocada, a narrativa se concentra na vida de Bob. Dezesseis anos depois de derrota do grupo – que inclui a delação de uma de suas figuras mais importantes – ele está refugiado com sua filha em cidade santuário (essas cidades americanas que se declaram zonas de abrigo dos imigrantes, protegidos diante das ameaças de deportação). Bob aparece como uma figura à deriva: largado, paranoico, constantemente chapado, mas ainda assim responsável pelo cuidado da filha adolescente. De repente, a polícia militarizada (conduzida pela personagem interpretada por Sean Penn) descobre seu paradeiro. Ele tem que voltar à “ativa”, mas já sem condições. Bob precisa fugir e tentar salvar sua filha, mas está totalmente despreparado: atrapalhado, de roupão, com óculos escuros exagerados. Ele liga de uma cabine telefônica para a “organização” e, depois de ter conseguido entregar a filha a uma militante que deve levá-la a um lugar seguro, ele continua ligando para combinar alguma ajuda.

Numa dessas ligações, aparece uma situação ao mesmo tempo cômica e dramática: de um lado, Bob liga desesperado; e do outro, um militante atende de maneira “formal” e burocrática e exige o cumprimento estrito do protocolo de segurança.

O guerrilheiro que atende lhe coloca uma serie de questões para certificar-se de sua identidade. Depois das primeiras perguntas e respostas, chega o momento da password. Totalmente estressado, Bob não consegue lembrar. Ele implora ao interlocutor para que ele entenda a situação de extrema urgência e quebre a regra, abrindo uma exceção: ele recebe uma resposta ainda mais protocolar e até sectária: “Você deveria ter estudado melhor os textos da rebelião”. A password em questão é sobredeterminada pelos “textos sagrados” de um ativismo que, entre a vivência de uma luta totalmente imanente (a fuga de Bob) e o formalismo do telefonista que aplica rigidamente uma cartilha abstrata, aparece explicitamente como pura transcendência. Temos aqui, portanto, uma imagem ao mesmo tempo fantástica e triste do que se tornou a esquerda: um moralismo codificado e essencialista, que substitui a prática e a urgência das novas lutas por critérios de pureza e fidelidade, envolto em uma burocracia que reduz a ação a uma pálida verificação de conformidade a uma identidade pré-fabricada. Entre a fidelidade rígida e autoritária aos protocolos da “tradição” e a incapacidade de responder ao real, a política de esquerda corre o risco de se reduzir a um exercício de validação, como se, diante do perigo, o essencial fosse ainda acertar a password.

Bob precisa responder à demanda: “que horas são?”. Em inglês – como sabemos – se diz “what time is it?”, o que numa tradução literal, poderia soar como “que tempo é esse?”. No meio da luta real, porém, Bob não lembra mais do formalismo da resposta que ele precisaria dar. Num excesso de raiva diante do absurdo da situação, ele bate com o telefone na cabine e xinga o formalismo dos “progressistas”, numa referência que vai muito além daquela situação e daquele momento.

Mas não tem jeito, Bob não lembra a password e não tem nem telefone nem e-mail de recuperação. Em uma outra tentativa, ele consegue argumentar com o mesmo militante e descrever, com suficiente detalhes afetivos, a figura de um outro ativista que – chamado ao telefone – certifica enfim sua identidade e resolve o impasse. Bob aproveita então para perguntar qual é a resposta que ele esqueceu: ela é totalmente ideológica, “Time doesn’t exist, but it controls us anyway” (“O tempo não existe, mas sempre encontra o jeito de nos controlar”).

Mas o paradoxo é que é justamente porque ele perdeu a password que Bob se “salva” e pode ajudar sua filha. O que o salva não é nem o anticapitalismo ideológico, nem o aparelho de guerrilha, mas as redes de solidariedade dos imigrantes e dos moradores nas cidades que não colocam nenhuma pergunta prévia, nem exigem nenhum tipo de adesão. O que Bob perdeu é o linguajar ideológico, as palavras de ordem de uma cartilha que se tornou tão formalista quanto polarizada, tão radical quanto abstrata.

Todos os dias enfrentamos essas figuras monstruosas que fazem vigorar as categorias de uma doxa identitária essencialista, mais preocupada com a filiação de grupo e a pureza moral do que com a dinâmica real da resistência.

Há algo de profundamente reconhecível aí: somos todos um pouco “Bob” juntos com as multidões que lutam hoje sem ter a password desejada pelo protocolo essencialista da esquerda identitária: os ucranianos que resistem ao fascismo putinista, os emigrados venezuelanos que comemoram a queda de Maduro, as mulheres iranianas em revolta contra a teocracia dos aiatolás.

Nenhuma dessas experiências possui a password exigida pela doxa de esquerda e, no entanto, juntos aos migrantes americanos, são justamente essas as experiências que renovam o horizonte das lutas e constituem novas e necessárias redes de solidariedade assim como a reinvenção da democracia.

Talvez nosso impasse seja o fato que estamos presos a uma armadilha onde, por um lado, a deriva transcendente de um ativismo progressista ao mesmo tempo radicalizado e identitário, que fica exigindo o tempo todo passwords (assim como os fazem as plataformas do capitalismo algorítmico); pelo outro, as lutas de resistência que precisam inventar suas próprias passwords, entre as cidades santuário americanas, as periferias latino-americanas e as trincheiras da resistência ucranianas ao imperialismo russo.

É nesse deslocamento que ganha sentido o gesto de Sean Penn[7]: como se encarnasse, fora da tela, o próprio título do filme, o ator, apesar de vencedor, opta por não comparecer à cerimônia. Em vez de subir ao palco em Los Angeles, escolhe encontrar-se com Volodymyr Zelenskyy, na Ucrânia, em meio à guerra em curso, gesto que prolonga um engajamento já visível em seu documentário Superpower, realizado em defesa dos ucranianos.  A atitude de Sean Penn está disposta a produzir todo tipo de desconforto e, talvez por isso mesmo, seja a mais necessária. Aqui se deixa entrever uma assimetria que ultrapassa o plano ideológico, entre uma política essencialista que se ancora em repertórios prontos e confortáveis e outra que se arrisca a intervir em conflitos ainda em aberto, sem passwords seguros.

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[1] Nesse artigo usamos também uma boa conversa que tivemos com Luiz Teves e Alexandre Mendes.

[2]One Battle After Another” won six Academy Awards on Sunday, March 15, including best picture, best director, best supporting actor, best adapted screenplay, best film editing and best casting. O roteiro é inpirado em Thomas Pynchon, Vineland, 1990. https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/books/97/05/18/reviews/pynchon-vineland.html?oref=login

[3] Manohla Dargis, ‘One Battle After Another’ Review: Paul Thomas Anderson’s Rallying Cry, The New York Times, 25 de setembro de 2025.

[4] Michelle Goldberg, “(A)n antifascist movie in a fascist moment”, The New York Times, 29 de setembro de 2025.

[5] O Globo, 5 de outubro de 2025.

[6] “The Popcorn Resistance of ‘One Battle After Another’”, 8 de março de 2026.

[7] G1. Sean Penn falta à cerimônia do Oscar para ir à Ucrânia, diz jornal; ator levou estatueta de coadjuvante em “Uma batalha após a outra”. G1, 16 mar. 2026. Disponível em: <acessar matéria no G1>. Acesso em: 29 mar. 2026.

 

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