Rodrigo Bertamé | 12 de outubro de 2026
Nossa Senhora Aparecida, invocação de Maria, mãe de Cristo, mulher de pele negra. Roga pelos pescadores, multiplica o alimento e distribui com generosidade. Elo de devoção do brasileiro comum, unindo um povo em fé. O manto azul, que te envolve e protege, sacramenta tua identidade primeira, Nossa Senhora da Conceição. Cor venerada nos campos de futebol e no compasso do samba.
Há um Brasil que se abraça em ti, Nossa Senhora, nos dias de hoje. Um Brasil criança que pede teu colo, que chora e, em meio às lágrimas, ainda comunga esperança. Esse Brasil te ama nos dias de batalha, e esses dias, infelizmente são muitos. Há também um Brasil que em ti sofre, esperando o milagre que restaure a pujança dos nossos rios, rios que agonizam pelo estrago que causamos ao planeta. Eles sangram com a química dos garimpos, secam diante do desmatamento impiedoso de suas nascentes, e se sufocam sob o peso da poluição.
Faz do cântico um apelo! Cristo Salvador andou sobre as águas e pelo deserto, trazendo-nos a palavra das boas novas. Nossa Senhora Aparecida, rogai por aqueles que te suplicam por um caminho. Pobre Brasil de coração transpassado, descrente daqueles, que ano após ano prometem, te usam, te usurpam, te exploram e fazem de nossa miséria a fortuna de poucos. Santa, mulher da pele negra, faz valer teu padroado, teu direito ancestral de divina protetora. Torna-te a matriarca de um mundo novo, um mundo onde Deus se revela mulher, fonte da gestação da vida, do universo, dos planetas.
No colo de um Deus que se mostra mãe, a voz diz: Em tudo há vida: nos rios, nas pedras, nos mares, no vento, na força do trabalho. Onde pusermos nossas mãos, haverá vida. Enfrentemos o futuro como as crianças que um dia fomos, que sonharam com um mundo mais belo, e retomemos as rédeas do equilíbrio das energias na Terra. Sejamos, como crianças, sonhadoras e guerreiras, neste Brasil profundo, pobre, resistente, solidário, diverso e incrivelmente forte.
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