Por Bruno Cava
Imagem: Georges de La Tour, Os jogadores de dados (The Dice Players), c. 1651. Preston Park Museum, Reino Unido. Wikimedia Commons.
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O que espanta não é que as bets tenham sido proibidas, mas o fato de terem sido permitidas no Brasil em primeiro lugar. Como é possível que, conhecidos seus efeitos e a força do lobby, tenha demorado tanto para chegar a essa proibição?
O dissabor de assistir ao Brasil na Copa tendo de suportar, a cada cinco minutos, mais uma propaganda de bets. O futebol inteiro convertido em balcão de apostas, a paixão popular transformada em instrumento para arrancar dinheiro dos torcedores.
Nem a convocação da seleção escapou. No auge da atenção nacional, o maior craque do time aproveitou para promover uma casa de apostas online. E ouvir gente inteligente afirmar, com ares de sensatez, que não há alternativa para o futebol brasileiro senão entregar-se a essa novidade. Nunca a doutrina TINA encontrou defensores tão dóceis. O velho realismo da capitulação.
Isso num país onde são ilegais o bingo comercial, o jogo do bicho e o caça-níquel de boteco.
Não me entendam mal. Para muita gente, proibir as bets pode soar como cassar até mesmo o direito de sonhar. É preciso levar essa objeção a sério. Quando a renda mal consegue bancar as contas, quando o trabalho deixa de descortinar a perspectiva de uma vida melhor, apostar vira uma das poucas maneiras de imaginar um futuro diferente. O problema não são essas pessoas nem esse desejo.
Seria colocar mal o problema tratar a relação compulsiva com as apostas como fraqueza individual, ou pretender reduzi-la a relés de dopamina e mecanismos de recompensa. Esses processos neurobiológicos incidem, mas não operam à margem da experiência vivida.
É preciso levar em conta o sentido que a aposta adquire para alguém. Suas expectativas e possibilidades de existência participam da dinâmica pela qual ela se torna desejável, reiterada e eventualmente compulsiva. Não há uma mecânica cerebral à qual se acrescentaria, depois, uma dimensão social e semiótica. Subsiste uma experiência corporal e situada, na qual a promessa de outro futuro pode ganhar tração.
É verdade que a liberdade individual de arriscar o dinheiro é uma dimensão legítima da questão numa democracia. Reduzir tudo a ela, todavia, seria abstrair a escolha das condições em que se constitui e dos interesses que a exploram.
Em A doença para a morte (1849), Kierkegaard, sob o pseudônimo de Anti-Climacus, compreende o desespero a partir da tensão entre necessidade e possibilidade, ambas indispensáveis à constituição do eu. Há desespero quando a existência parece encerrada no necessário, privada de abertura e possibilidades de mudar de vida; mas também quando os possíveis proliferam por todo lado, desligados da necessidade que lhes poderia conferir consistência. Neste segundo caso, exasperante, a existência se dispersa numa “poeira de instantes”. Multiplicam-se os futuros imagináveis, enquanto se perde a capacidade de tornar-se efetivamente si mesmo.
As bets exploram essa tensão num terreno social em que se aduba o campo dos possíveis (abstratos), enquanto escasseiam as condições materiais de sua efetivação. O futuro que a sociedade frustra é devolvido em migalhas, sob a forma de probabilidades. A possibilidade de mudar de vida acaba substituída pela possibilidade de apostar outra vez.
No caso do futebol, o conhecimento que o torcedor possui do jogo é mobilizado para nutrir a promessa de algum domínio sobre o seu próprio amanhã.
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Vamos à contabilidade desses possíveis abstratos. Entremos no terreno da política tributária, onde importa saber quem paga, quanto de sua renda é comprometido e para quem os recursos são transferidos.
Pois estamos falando de algo próximo a um imposto sobre os pobres. Nos anos 1980, Charles Clotfelter e Philip Cook, da Duke University, estudaram a tributação implícita nas loterias dos Estados Unidos. Os dois economistas norte-americanos demonstraram que o Estado retinha uma parcela previsível do dinheiro apostado, com incidência regressiva sobre a renda. Embora cada aposta tenha resultado incerto, a banca dispõe de uma margem estatística favorável, calibrável ex ante, que lhe permite obter receita no agregado das apostas.
Nas bets, o mecanismo é semelhante, ainda que a parcela da renda apropriada se destine principalmente a operadores privados, e não ao Estado.
Vem-me à mente uma cena de O ano passado em Marienbad (1961), de Alain Resnais, com roteiro de Alain Robbe-Grillet. No filme, um personagem vence repetidamente um jogo de retirada de fósforos. Questionado, responde: “Posso perder, mas ganho sempre”. Não é um jogo de azar, mas um jogo matemático no qual existem estratégias vencedoras.
A analogia com o apostador esperto ilumina uma assimetria presente nas bets. A aparência de alternativas abertas aos participantes, individualmente, convive com regras que favorecem quem consegue explorá-las no agregado, ao fim do dia. Nas bets, a vantagem da casa se manifesta na repetição, quando as perdas agregadas dos jogadores sustentam a receita esperada da banca.
A vantagem estatística da banca conduz, então, a outra questão qualitativa: sobre quem recaem as perdas? É aqui que entra a discussão da regressividade, isto é, saber se os prejuízos consomem uma parcela proporcionalmente maior da renda de quem tem menos. Uma questão de caráter distributivo, e não uma suposição de que apenas os pobres apostam e perdem.
Segundo o DataSenado, 52% dos apostadores entrevistados em 2024 pertenciam a famílias com renda mensal de até dois salários mínimos. Outra pesquisa, realizada em 2025 pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), em parceria com a Educa Insights, revelou que 34% dos entrevistados que queriam ingressar numa graduação privada disseram que precisariam interromper as apostas para iniciar o curso no primeiro semestre de 2026.
O TCU encontrou um quadro ainda mais delicado. Em janeiro de 2025, pessoas identificadas como beneficiárias do Programa Bolsa Família (PBF) transferiram aproximadamente R$ 3,7 bilhões para operadoras de apostas online. Isso não permite afirmar que o dinheiro transferido provenha diretamente do benefício. Os dados evidenciam a presença das apostas entre famílias mais vulneráveis, mas não autorizam a velha demofobia contra os beneficiários do programa.
A tentativa de conquistar um futuro diferente por meio das apostas vem comprometendo os meios de construí-lo. Esses levantamentos confirmam a exposição das famílias de menor renda, embora ainda faltem dados sobre as perdas líquidas por faixa de rendimento para medir o grau de regressividade das bets brasileiras.
Em 2025, as bets autorizadas receberam R$ 220,6 bilhões em depósitos, enquanto as Loterias Caixa arrecadaram R$ 26,6 bilhões em apostas. Malgrado as duas cifras não serem diretamente equivalentes, permitem vislumbrar a escala nacional alcançada pelas plataformas. Os depósitos nas bets corresponderam, em valor, a aproximadamente 1,7% do PIB brasileiro, proporção que jamais deve ser confundida com sua contribuição à produção nacional.
Descontados prêmios e bônus, R$ 36,9 bilhões permaneceram como receita bruta das operadoras autorizadas, cerca de 0,3% do PIB. Um estudo do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados (Comsefaz), em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado, estimou perdas líquidas das famílias de R$ 62,5 bilhões em 2025, mediante metodologia baseada nos fluxos de pagamentos via Pix. Ambos os resultados, resguardadas as limitações metodológicas, desvelam uma transferência de renda cujo efeito na sociedade brasileira como um todo impede reduzir a questão à liberdade individual ou ao direito ao entretenimento.
E para onde vai esse dinheiro?
A receita retida pelas operadoras financia publicidade, patrocínios, tecnologia e intermediação financeira, além de salários, tributos e lucros. Parte realmente retorna aos circuitos da economia, mas isso não torna a transferência neutra para o consumo das famílias, sobretudo as mais pobres.
Guilherme Klein, economista do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da USP, examinou o efeito de deslocamento do consumo (crowding out) provocado pelas bets.
Recursos destinados às apostas deixam de financiar compras no comércio e despesas com serviços, afetando o faturamento desses estabelecimentos e, em cadeia, seus fornecedores e trabalhadores. Em três cenários de simulação, estimou perdas de atividade nos demais setores entre R$ 117 bilhões e R$ 141 bilhões em 2025, equivalentes a 0,9% a 1,1% do PIB.
O impacto estimado supera o dinheiro retido pelas casas devido ao efeito multiplicador, pois a redução inicial do consumo se propaga por sucessivas atividades econômicas. Mesmo considerando o retorno parcial dos recursos pelas despesas das operadoras, as simulações apontam perdas relevantes.
A consequência fiscal é expressiva. A arrecadação direta das bets pode coexistir com perdas tributárias indiretas ainda maiores.
Em italiano, há o provérbio il gioco non vale la candela — o jogo não vale sequer a vela gasta para iluminá-lo. Contabilizar apenas os impostos arrecadados pelas bets, ignorando os custos impostos ao restante da sociedade, é esquecer quem paga pela iluminação.
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As bets pertencem à família das loterias e se apoiam, como elas, num fundo de sonhos constituído pelos apostadores. Muitos jogam contra sua pobreza.
A diferença específica das bets aparece na maneira como organizam o tempo da experiência.
No sorteio tradicional, a espera se estende entre a aposta e o resultado. Ou seja, a esperança acompanha o curso da vida, mistura-se a outros desejos, amadurece ou se dissipa.
Já nas bets, durante uma partida, cada lance modifica as cotações e apresenta novas ocasiões de apostar. O acontecimento passa a ser percorrido por uma sucessão de resultados possíveis, calculados e disponíveis à escolha. Essa cadência incide sobre uma experiência que conserva o passado e se altera com ele. A perda persiste no lance seguinte, carregada pela memória do dinheiro empenhado e pela expectativa de recuperá-lo.
Cada decisão emerge de uma duração em que os acontecimentos anteriores continuam agindo. Sobre essa continuidade vivida, a plataforma da bet dispõe uma série de oportunidades calculadas, renovadas em ritmo cada vez mais cerrado. O futuro ganha o semblante de resultados antecipáveis, enquanto a urgência de recuperar a perda tende a abreviar a hesitação.
É nessa ordenação temporal que a repetição pode vir a adquirir caráter compulsivo.
Vale trazer Deleuze e Guattari, quando observam que o dito “último copo” de alguém que mantém uma relação dependente com o álcool é, na realidade, o penúltimo. O chamado último copo marca, nessa análise, o limite a partir do qual ainda se acredita possível recomeçar. Está em questão a antecipação de um limite que orienta a série desde o primeiro copo. Ultrapassá-lo significa alcançar um limiar em que o próprio modo de beber, seus lugares e suas relações podem mudar de natureza (cf. Mille plateaux, platô “Appareil de capture”, proposição XII, e também o depoimento de Deleuze em O abecedário, entrevistado por Claire Parnet).
Nas bets, a aposta anunciada como derradeira carrega a promessa de reparar as anteriores e encerrar a sequência. A cada resultado, reavalia-se o que ainda se pode perder ou suportar. A plataforma então abre novas ocasiões de recomeçar, enquanto a expectativa de parar se desloca para a aposta seguinte. A compulsão se forma numa temporalidade peculiar, na medida em que a promessa de interromper a série participa de sua continuação.
É o mecanismo de uma “fuga para a frente”, na qual o futuro fica incessantemente solicitado, enquanto o horizonte da decisão se encurta. Cada nova aposta parece oferecer uma saída e pode adiar o momento em que seria necessário mudar a relação com o jogo.
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A proibição, necessária embora tardia, pode até desarticular a banca. Mas a repressão não elimina o terreno em que ela prosperou e poderá voltar a se instalar. Renda comprometida, projetos sem meios de realização e desencanto diante da ausência de mundos tornam atraentes promessas estatisticamente improváveis. É nesse hiato que se instalam novas formas de exploração, reconstituindo o tributo cobrado sobre a esperança.
A resposta exige inverter esse fluxo. Políticas que façam da proteção social um atributo da cidadania, ampliando a autonomia diante das urgências da sobrevivência e dando sustentação material ao direito de sonhar. Tanto se fala da liberdade de apostar; quase nada da liberdade de prescindir da aposta.
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NOTA DO AUTOR
- A proibição está sujeita à deliberação do Congresso, onde o lobby das apostas e seus aliados políticos já articulam sua revisão. O desfecho permanece em aberto, inclusive diante das contestações judiciais em curso.
REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MANTENEDORAS DE ENSINO SUPERIOR (ABMES); EDUCA INSIGHTS. O impacto das bets 2: como as apostas on-line estão interferindo no acesso dos brasileiros à graduação. Brasília: ABMES, jun. 2025. Disponível em: https://abmes.org.br/arquivos/pesquisas/junho-2025-pesquisa-bets-onda-2-ABMES.pdf. Acesso em: 11 out. 2026.
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