A tarefa da vida é fazer coexistir todas essas repetições em um espaço no qual a diferença é distribuída.
Deleuze. Diferença e Repetição.
Introdução: Rotinas, Ritos e Cerimônias
A relação da vida com as repetições cíclicas e evidente: a diferença da matéria inorgânica ou “inerte” a matéria viva não só transita no tempo linear da entropia mas está atravessada, “ritmada” por uma série de repetições e ciclos tão diversos como a respiração, a batida cardíaca, a menstruação, e a morte e regeneração das células, tecidos e órgãos. Essas repetições não tem relação simplesmente com o metabolismo, mas com a rotação planetária que, variando a luz, informa nossos ciclos circadianos (National Institute of General Medical Sciences, 2019).
As operações repetitivas do corpo como passos, latidos e respirações, e a divisão da vida em jornadas são, então, a base de todas as rotinas aloplásticas – isto é, voluntárias, adquiridas- não determinadas automaticamente pelo funcionamento do corpo ou pelos instintos. De fato confrontados com as mais mecânicas, as mais estereotipadas das repetições, dentro e fora de nós mesmos, extraímos infinitamente delas pequenas diferenças, variações e modificações (Deleuze, 1995). Foi Nietzsche, obviamente, quem colocou a questão de repetições na filosofia moderna, inclusive antes de que o paradigma do tempo abstrato newtoniano entrasse em crise. Desde então, a questão da repetição e, por tanto do ritmo, começou a aparecer repetidamente em diferentes ciências, não só nas biológicas mas na ecologia e, obviamente, na cibernética, que sob a forma do feedback fez dos ciclos e repetições um dos problemas mais importantes da ciência e da técnica. O feedback, ou retroalimentação, na cibernética já é diferente da conceição dos ciclos e revoluções no pensamento pré-moderno e das ciências no período newtoniano: mais do que círculos fechados trata-se de espirais que incorporam a contingência, as mudanças, como no conceito contemporâneo da recursividade (Hui, 2019).
Foi exatamente nesse clima intelectual emergente no qual obras essenciais do século XX como Ficciones de Jorge Luis Borges e Diferença e Repetição do Deleuze colocaram a questão de como as diferenças se distribuem nas repetições como variações contínuas do repetido. Questão cada vez mais importante não só pela automatização geral mas especialmente na medida em que o funcionamento dos algoritmos informáticos aprofundaram essa automação fantasticamente e fizeram desse problema um dos mais importantes para a espécie humana. Porém a automação e os algoritmos são parte da problemática mais abrangente das rotinas e da estereotipação das operações que podemos chamar de Procedimento e que abrange desde rotinas de exercício, coreografias, algoritmos matemáticos, receitas de cozinha, técnicas de aprendizado nas artes marciais (como os kata do Karate), protocolos diplomáticos, informáticos e de seguridade mesmo como rituais e cerimônias de distinto tipo.
De fato, os rituais foram as primeiras rotinas que foram amplamente estudadas, embora frequentemente desde uma perspectiva reducionista como nos casos do Durkheim e Lévi Strauss vinculando o ritual a campos específicos -como a religião ou os mitos- como se não existissem fora desses âmbitos. Frente a esse reducionismo, desde os trabalhos de Sir Julian Huxley, continuados por Richard Schechner, uma perspectiva etológica e evolutiva tentou explicar os rituais em sociedades humanas e animais como formas de comunicação, particularmente em situações onde qualquer erro poderia ser catastrófico (Bell, 2009, 73) porém, neste caso a definição passou a ser excessivamente ampla.
Então temos diante de nós duas questões distintas: 1. a tendência à estereotipação das operações ou performances -a tendência a criar procedimentos ou roteiros para ação- e 2. aquela da ritualização no sentido cerimonial. No primeiro caso, pesquisas mais recentes baseadas nas ciências da conduta e a neurologia (Liénard & Boyer, 2006) mostram que condutas estereotipadas “podem muito bem ser o subproduto previsível das capacidade adaptativas. Em nosso modelo um ritual coletivo tipicamente ativa o sistema de prevenção de riscos (…) Isto tornaria o ritual um subproduto da evolução da arquitetura cognitiva” (ibid, 825). Então se seguirmos a definição do ritual como uso, costume, maneira, jeito, (Charlton T. Lewis, Charles Short, A Latin Dictionary, rītus, s. f.) a questão estaria resolvida, mas se o consideramos seguindo a definição primária, relacionada com a cerimônia (Charlton T. Lewis, Charles Short, A Latin Dictionary, caerĭmōnĭa, s. f.) a explicação é insuficiente: uma tendência inata a estereotipar os performances, fica muito longe de explicar e definir os eventos religiosos, coreografias, cerimônias e festas sacras e profanas.
Nesse sentido, o trabalho de Catherine Bell (Bell, 2009) é essencial para definir o ritual no seu sentido cerimonial. Bell usa o termo “ritualização” para chamar a atenção para a forma como certas ações sociais se distinguem estrategicamente em relação a outras ações (…) a ritualização é uma forma de agir que é projetada e orquestrada para distinguir e privilegiar o que está sendo feito em comparação com outras atividades, geralmente mais cotidianas (ibid, 74). A posse do presidente da Colômbia Gustavo Petro (Rastreador, 2022) é um bom exemplo: se a cerimônia da posse distingue-se das ações cotidianas do presidente, Petro distinguiu sua posse das anteriores ao incluir a espada de Bolívar -na Colômbia símbolo da Paz- na cerimônia e recebendo a faixa presidencial da filha do Carlos Pizarro Leongómez -antigo comandante do Petro no M19 e candidato presidencial assassinado- indicando que novo presidente se diferencia ao ser produto de um ciclo histórico de luta armada e pacificação. Coreografar o rito, então, é tão importante como mudar a coreografia.
De fato, desde o pensamento transdutivo (G. Simondon, 2009, 158) a criação de procedimentos e a prática de hierarquizar atividades não são excludentes: a posse do presidente, a massa, os algoritmos, o protocolo da internet, os katas do Karate e os protocolos médicos repetem a “Estereotipização Operativa” em casos diferentes, numa distribuição contínua em uma escala indefinida (G. Simondon, 2009, 159) isto é: a massa não é a mesma coisa que a posse do presidente e a posse é diferente da execução do Kata Sochin que é diferente da operação da ressuscitação cardiopulmonar, e da preparação do Filé Mignon embora todos esses performances impliquem a estereotipia ou roteirização das operações num procedimento. Nessa cadeia os ritos cerimoniais, se diferenciam porque dizem também respeito à hierarquização das atividades nas sociedades humanas, no entanto katas, receitas ou algoritmos não tem nada a ver com isso.
O protocolo ocupa nessa cadeia uma posição intermediária: ninguém chama de protocolo a uma simples estandardização de procedimentos: receitas de cozinha e instrutivos para montar móveis ou instalar televisores não são chamados assim, falar do protocolo do filé mignon seria uma piada mas chamar protocolo ás instruções para desmontar uma bomba não. O que recebe esse nome é considerado uma atividade mais importante, delicada e, muitas vezes, arriscada como no caso dos protocolos médicos e diplomáticos. Inclusive o Protocolo de Kyoto, um dos mais importantes protocolos político-jurídicos, implica a noção do risco.
Então o protocolo, pelo menos em alguns de seus significados, é simultaneamente técnico e normativo, aliais misturando norma jurídica e norma técnica (pois em muitos casos não cumprir com a norma técnica do protocolo é ilegal, criminal inclusive) diferençando operaçoes que, por sua importancia, não podem ser executadas livremente e cuja execução implica responsabilidades. Além do mais: no entanto, em alguns casos a norma só pode cumprir-se com um procedimento executado de uma maneira, protocolos como os médicos e de seguridade, em teoria não são simples marcos normativos para a ação, mas a expressão direta da operação como norma.
Nessa dinâmica alguns protocolos tendem a virar não só normas institucionais mas instituições de formas inusitadas: os protocolos de comunicação como o Protocolo TCP- equivalentes aos algoritmos- ao automatizar um procedimento para estabelecer comunicações na internet parecem ter virado uma tecnologia institucional, isto é, um objeto técnico que ao ser necessário para o funcionamento de uma instituição se hibridiza com ela. Neste artigo pretendemos fazer um brevíssimo recorrido genealógico pelos distintos significados do protocolo em distintos campos para pesquisar quando o termo é usado metaforicamente e quando as mudanças semânticas indicam o surgimento de uma nova literalidade, isto é, de um novo tipo de operação ou de entendimento das operações.
Para uma genealogia do protocolar
O termo “protocolo” consiste em dois palavras vindas do grego antigo: protos que significa “primeiro” e kollao que significa “anexar”, ou seja, ” primeiro anexo”. O termo inicialmente se referia à primeira folha de papel colada em um rolo de papiro contendo informações escritas sobre suas origens. (Iucu, 2008, 16).
O passo do rolo de papiro ao protocolo TCP da internet -ou o protocolo de ressuscitação- consiste numa cadeia de abstrações e desterritorializações. Na antiguidade uma série de deslocamentos semânticos que mudaram o significado e o sentido da palavra protocolo, mas elas estão associados com mudanças técnicas e administrativas, primeiro no campo das “tecnologias do intelecto” (Goody, 1996) e logo em todo tipo de técnicas mas sempre em relação a comunicação. Os primeiros desses deslocamentos semânticos, simplesmente mudaram o termo protocolo entre distintos tipos de documentos, os seguintes já foram abstrações pelas quais o sentido da palavra se deslocou para contextos distintos daqueles da documentação. Esses sentidos concretos e abstratos da palavra determinam nosso entendimento atual do protocolo: os primeiros definem o que documento é considerado um “primeiro anexo” e os segundos já definem modelos e fórmulas operativas, procedimentos e não documentos.
Respeito aos primeiros, na antiguidade protocolo passou de ser a primeira página de um rolo de Papiro -a que continha a informação dos origens do documento- a designar o texto original de um papel notarial e logo depois o registro completo desses papéis ( Iucu, 2008, 17). A virada para a abstração começou quando o protocolo começou a designar o catálogo de modelos usados para os textos administrativos, nesse momento o sentido do prefixo proto mudou: já não é o primeiro papel ou documento numa sequência espacial ou temporal de documentos já feitos, mas o protótipo ou modelo para fazer novos documentos.
Nesse ponto se produz uma bifurcação do sentido do termo protocolo em duas linhas, uma concreta que permanece localizada nos documentos e outra abstrata, que se desterritorializa deles para designar a estandardização procedimental. Na primeira passa a designar documentos jurídicos legalmente vinculantes que ou expressam acordos ou servem como atas de ou encontros entre partes, mas também para falar de adendos de Convenções que corrigem ou estendem aquilo disposto originalmente: os três protocolos da Convenção de Genebra são considerados emendas da Convenção (Yingling & Ginnane, 1952) e o famoso Protocolo de Kyoto é uma extensão da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima. Nesse contexto, o protocolo de Kyoto, extremamente pragmático, está baseado num mecanismo de controle que permite ajuste iterativo e movimento em direção a objetivos em evolução (Bohringer, 2003). Kyoto é importante em comparação com outros protocolos anteriores pois distingue-se pelo ênfase no desenho de mecanismos institucionais concretos, ênfase sem dúvida motivado pela preocupação de estabelecer uma estrutura de governança global operativa. Porém, Kyoto está muito longe de desenhar ou planejar operações do mesmo jeito que os protocolos procedimentais.
A desterritorialização do termo protocolo só acontece com o nascimento da diplomacia. O que a diplomacia é, desde um ponto de vista político, é um arte das relações pacíficas entre os Estados, mas desde um ponto de vista institucional é o passo dos mensageiros e emissários provisionais a missões permanentes. Desde o primeiro ponto de vista a diplomacia moderna implica uma nova arte do governo que exige inclusive que os estados cedam soberania de pequenos troços de seu território, mas desde o ponto de vista das comunicações precisa toda uma rede de gestão, processamento e circulação de informação das embaixadas com sua respectiva chancelaria e com o estado anfitrião. A missão diplomática, então, implica que a gestão dos documentos tem que espalhar se no espaço numa rede internacional mas também uma série de interfaces com os outros estados que passam pelos encontros pessoais e até sociais entre os emissários. Essa é a razão pela qual o protocolo diplomático é considerado principalmente um instrumento de comunicação.
A primeira das definições do protocolo diplomático é “um formulário utilizado no correio de acordo com a hierarquia” ( Iucn, 2008, ibid) isto é um formato para escrever cartas seguindo a dignidade do destinatário. Até aqui é simplesmente uma pequena variação da definição antiga do protocolo como modelo para documentos administrativos, só que agora esses documentos são cartas cujo modelo tem que mudar de acordo com a categoria do interlocutor e as fórmulas correspondentes tem que ser usadas também na comunicação direta, verbal, e completadas com outras para a comunicação não verbal. Então o protocolo renasce adquirindo um novo sentido -e uma nova literalidad- como a performance comunicativa da diplomacia, performance altamente estereotipada composta pelas “prescrições imperativas que decidem o lugar correspondente a cada funcionário e seu respectivo comportamento” (apud Iucu, 2008, 18) e, em geral, como o conjunto das normas e interfaces das relações interestatais. Por essa razão, poderia dizer-se vira uma forma de automação, de infraestrutura que “automatiza a decisão” (Bratton, 2019, 23) e fornece valor para a diplomacia, no entanto cria e mantém uma atmosfera (Iucu, ibid, 16) e umas interfaces que são condição precisa para as relações pacíficas entre estados.
Esse novo protocolo abrange mesmo as cerimônias oficiais, ritos onde a estereotipia dos performances é maior, e a etiqueta dos encontros não cerimoniais que é a formalização das relações interindividuais e consiste mais em normas do que em séries de instruções ou procedimentos estereotipados. Em termos do Bratton o Protocolo que só é obedecido e não discutido seria um “axioma infraestrutural” (Bratton, ibid ) mesmo para a etiqueta e para diplomacia que demandam em distintos graus a deliberação, o “tacto” e a capacidade de “ler a atmosfera”.
Operando entre o extraordinário (a pomposa cerimônia) e o cotidiano (a rotina burocrática), o Protocolo Diplomático é um produto inicial da racionalização da burocracia ocidental, distinto das disciplinas e da posterior estandardização taylor-fordista dos produtos e procedimentos. Porém, dessa nova definição do protocolo e do protocolar, híbrida entre o rito, a receita e a coreografia, vai nascer um novo phylum de procedimentos que são menos do que rituais e cerimônias e mais do que simples manuais de instruções: na segunda metade do século XX, em distintos campos, o conceito do protocolo se vai desterritorializar a operações delicadas, que, embora sejam parte do rutinario, do cotidiano, se distinguem das demais atividades pelos riscos e perigos que implicam, e vão começar a delimitar o campo do desenho e planejamento de operações de alto risco que não requerem simplesmente de normas técnicas, mas de um instrutivo detalhado, receita operativa que simultaneamente estereotipa o performance, gera documentos de caráter legal e normativo e expressa a norma operativamente.
“Ferramenta de coordenação”.
Embora a mania das sociedades disciplinares (Foucault, 2002b) e do taylor-fordismo com a estereotipação das condutas e a estandardização, a generalização do termo -e do conceito- do protocolo não acontece durante o auge período das disciplinas ou do capitalismo fordista mas durante seu final e especialmente durante sua crise. No novo período pós-fordista ou das sociedades de controle (Deleuze, 2006) a estandardização e estereotipação vão ter um sentido distinto, não como modelo geral das operações mas como técnica para, ao mesmo tempo, garantir a verificação de fatos, reduzir os riscos e criar redes de cooperação num período em que o comum é um performance livre e flexível e onde muitas vezes não é possível distinguir produto de produção (Virno, 2003). Nesse contexto, como veremos, na prática os protocolos operam não como eliminadores implacáveis das variações, como nos padrões fordistas, mas como regulador das mesmas.
Sem dúvidas a maior parte do aprendizado humano é feito através da observação das operações dos outros combinadas com correções ensaios e erros, porém, quando numa sociedade surge a demanda de estereotipar uma operação determinada é preciso criar um procedimento, o que implica separar esse roteiro e fazer dele uma entidade separada existe em si mesma como ente mnemotécnico.
Essa ideia de roteirizar operações seguindo um plano fixo, um roteiro provavelmente foi primitivamente desenvolvida junto às cerimônias e rituais de forma coreográfica como a Dança Pírrica ou Pyrrhichios (Bundrick, 2005) que, sob um ritmo musical, ensinava movimentos de ataque e defesa na grécia antiga e parece ser a origem de várias danças masculinas do folclore grego. As ensinanças marciais ao ritmo da música não são raras e atualmente danças tradicionais como a Batalya (Baet, 2020) no Moro-Moro das Filipinas ou la batalla do Tamunangue da Venezuela (Graterol, 2014), incluem movimentos de esgrima, porém, a forma mais conhecida de mnemotécnica através da coreografia são os katas das artes marciais japonesas, formalizações coreográficas que, de fato, remetem às artes marciais da china (Enkamp, 2020).
Essas coreografias do combate já colocam uma série de questões sobre as virtudes e vícios da estandardização operativa que vamos encontrar nos protocolos contemporâneos pois tendem a fazer rígidos os performances ao mesmo tempo que são ferramentas para adquirir e comunicar esquemas e padrões de movimento que, na prática não são fixados pelo roteiro. Conservar essas virtudes eliminando os vícios é a razão pela qual nas artes marciais modernas as longas coreografias foram reemplazadas por exercícios bem mais curtos e interativos (Fighting Evolved, 2019) dos quais os mais conhecidos são os combos do boxe (Jeffries, 2020).
A criação de documentos com a mesma função de estantarização/roteirização/estereotipação das operações segue uma evolução independente das coreografias talvez porque os movimentos corporais são aprendidos mais facilmente pela imitação que pela descrição. Então, o nascimento das receitas no Antigo Egito e Mesopotâmia tem a ver não com procedimentos para operar o próprio corpo mas para manejar ingredientes e materiais que tem que ser mesclados e modificados: O recibo ou receita, então, é uma fórmula escrita para misturar ingredientes para fins culinários, médicos ou mágicos; ela lista os elementos necessários para fazer preparações destinadas ao consumo humano, com fins médicos ou mágicos (Goody, 1996, 155).
A transmissão escrita sem dúvida contribui a fixar a memória contra alterações e por tanto a fazer os procedimentos mais complexos, porém, os grêmios arcaicos tinham outros procedimentos mnemotécnicos como provérbios, recitações e cantos (esses métodos, como as tablas de multiplicar, usualmente associados com castigos e recompensas ainda eram essenciais na educação disciplinaria moderna) a introdução da escrita na rotina do aprendizado, não só tem a finalidade de reemplazar uma memória falível com outra mais confiável mas formular “um programa conducente a uma extensão dos repertórios tanto do especialista como do leigo, bem como para a “experimentação de receitas (isto é, “examinar”, “testar”), e uma verificação comparativa dos resultados. (Ibid, 157) Isto é, para aumentar as possibilidades de comunicação e cooperação mas também de controle.
Essas receitas foram recriadas nos laboratórios do século XX onde começaram a ser chamados de protocolos os registros dos experimentos e logo aos roteiros desses experimentos para que fossem replicáveis “os protocolos tinham desempenhado um papel importante no sucesso dos esforços coordenados de pesquisa durante e após a Segunda Guerra Mundial: no campo florescente da pesquisa clínica, o protocolo era essencial para assegurar que as ações e interpretações dos resultados seriam semelhantes em todas as instituições participantes” (M. Berg, 1997, 1081) a necessidade de repetir o mesmo experimento para verificá-lo faz do registro desse experimento um procedimento padrão, um roteiro a seguir. Porém, dado que nos laboratórios, especialmente os médicos, são manipulados materiais perigosos, os padrões de seguridade são, desde o começo, inseparáveis da veridicção.
Uma das características mais importantes da indústria médica é o paralelismo entre pesquisa e clínica, nos anos setentas distintos atores na indústria médica demandaram usar na clínica e na prática médica a protocolização que já era usada na pesquisa “Os Protocolos, estes autores argumentaram, pode “descrever um bom raciocínio clínico” de tal forma que se torna transferível entre locais, avaliável, e de acordo com princípios científicos sólidos” (ibid, 1082) a estandardização, neste caso, tem funções distintas que na sociedade disciplinar ou no taylor-fordismo, a questão não é estereotipar fastidiosamente os movimentos corporais mas desenhar um “diagrama de fluxo” das operações”. Nesse contexto existiu sim, a demanda de racionalizar o performance médico mediante o procedimento mas o objetivo não é tanto “produtivista” (diminuir o tempo, etc) como securitário e “racionalista”: diminuir os riscos -e a liability dos hospitais e às seguradoras- ao submeter o performance médico num procedimento estándar desenhado seguindo a racionalidade médica.
Numa série de pesquisas, nos finais dos anos 90s, pesquisadores como Marc Berg, afiliado à escola do Ator-Rede do Bruno Latour, exploraram a ambivalência dessa protocolização da prática médica que de fato é uma forma de ritualização que hierarquiza certas formas de exercer essa prática frente às outras e extrai uma série de efeitos de poder dessa ritualização instrumental da prática médica: operadores como as seguradoras, as burocracias, e o management usam o protocolo como instrumento de controle para impor determinada conceição dos erros e problemas da prática médica: como produto de erros individuais e falta de profissionalização e não de problemas institucionais ou “sistémicos”, uma terceirização das responsabilidades das instituições e o management aos indivíduos e sua capacidade de se submeter ao protocolo é parte do efeito político da protocolização. Porém, Berg aponta como alguns dos setores subalternos da indústria médica, como médicos e enfermeiras usaram a protocolização como meio para se valorizar como profissionais (ibid).
Nesse contexto, as fortalezas e fraquezas da protocolização residem, precisamente, em sua abstração na eliminação das variantes: o protocolo desenha um diagrama ou cartografia da ação mas, ao fazê-lo, pode ter efeitos reducionistas desde dois pontos de vista: 1. da racionalidade –Na área médica práticas, no entanto, muitas diferentes racionalidades, muitas maneiras diferentes em que as considerações são pesadas, coexistem” (ibid, 1085) – e 2. da informação que é suprimida ou desvalorizada –As circunstâncias sociais de um paciente, uma impressão clínica, o tom de uma conversa, a reinterpretação de pedaços de informação à luz de novas informações – todos esses assuntos são difíceis de representar na configuração explícita, passo a passo, de um protocolo (ibid).
Porém o Procedimento ou Protocolo e bem mais que uma palavra de ordem ou mecanismo de controle, de fato é um lugar comum pois “um padrão médico é visto como um roteiro tecnocientífico que cristaliza múltiplas trajetórias” (Timmermans & Berg, 1997) e vira um campo de lutas e diferenças na medida em que contribui a consolidação duma rede na qual circula uma “atividade distribuída” entre trajetórias díspares que se encontram e transformam (como aquele do paciente que arrisca sua vida num procedimento que para o cirurgião e rotineiro, dos estudantes que estão aprendendo o procedimento e das enfermeiras e auxiliares subordinadas, do provedor dos equipos médicos etc).
“Universal na rede” da prática médica pelo mesmo fato de ser um ponto de encontro e de mobilizar distintas multiplicidades numa experimentação contínua só se “materializa contingentemente” e portanto “ é aberto; o fechamento nunca é realmente alcançado” (ibid, 287) o protocolo de ressuscitação ou CPR/ASCL é o melhor exemplo desse ritmo entre rigidez e fluidez: até 1944 o modelo ou paradigma foi a “técnica de pressão” do Schaffer que foi desacreditada e reemplazada pela respiração boca-a-boca e, finalmente, desde os 60s, pela massagem cardíaca (ibid, 284) “Em cada ponto de transição, a técnica anterior foi desqualificada após extensos testes médicos, e a técnica seguinte foi aclamada como sendo mais eficaz e tendo o potencial de salvar mais vidas. Em cada situação, os pesquisadores médicos apresentaram suas descobertas como definitivo, sólido, simples e à prova de tolos (ibid) num processo que se mostra de fato como uma atualização contínua, mas problemática, não só pelas mudanças nos paradigmas mas pelo fato que “ninguém segue o protocolo estritamente” porque, no concreto, as condições para executá-lo podem nem existir: talvez uma droga não esteja disponível ou não seja recomendável para o paciente ou o profissional tem que misturar protocolos seguindo como mudam as circunstâncias, por exemplo, no passo súbito da assistolia a falta de pulso (ibid, 290).
Então, o protocolo se define pelas fortalezas e debilidades de sua abstração: é mesmo reducionista por sua natureza abstrata mas essa abstração faz dele um virtual que se atualiza nas operações concretas e no campo definido como a indústria da saúde “engloba todo o plano de consistência em uma máquina abstrata” (Deleuze, 1998, 17) isto é, toda numa rede de atividade e cooperação hospitalar, paramédica, clínica “através do trabalho contínuo de infra-estrutura de todos os envolvidos, o protocolo permite que planos de tratamento mais complexos e detalhados se tornem possíveis” (Timmermans & Berg, 1997, 296) virando, na realidade, menos uma regra rígida ou uma coreografia do que uma “ferramenta de coordenação” numa dinâmica que Berg considera similar a aquela da introdução da automação e tecnologias da informação.
A intensiva protocolização da medicina, então, operou como uma reciclagem das antigas receitas num novo marco, onde o campo da “verificação comparativa dos resultados” é fantasticamente amplificada, não só tornando a roteirização das ações bem mais complexa ou introduzindo nela uma certa ritualização, mas fazendo dela um campo de lutas atravessado por dinâmicas quase-isonômicas nas quais embora a desigualdade dos operadores resulta impossível estabelecer um estado de dominação: A ilusão de total supervisão e controle burocrático, predominante em muitos contos (tanto distópicos como utópicos), é uma quimera: as multiplicidades e contingências embutidas no funcionamento de um protocolo não podem ser controladas (…) os protocolos médicos podem coordenar as atividades no espaço e no tempo devido à não docilidade dos atores que povoam estas práticas (ibid, 298). Assim, o protocolo se apresenta como como uma espécie de “software social”: o diagrama de um conjunto de operações que coordena a cooperação de um grupo humano que, porém, está atravessado por diferenças e tensões.
Como já vimos o protocolo no sentido documental e no sentido regulamentar, surgidos na modernidade, que em instituições como a diplomacia se apresentava como coreografia ou roteiro da ação, desde meados do século XX se foi complexando e tornando cada vez mais na definição e design não só de ações individuais mas de ações cooperativas e de trajetórias de ação heterogêneas para as quais estabelece um “método de resolução de uma incompatibilidade inicial” (G. Simondon, 2009) Numa rede ou campo de atividade. Nesse sentido parece existir uma confluência dos complexos desenhos institucionais do protocolo de Kyoto com os múltiplos protocolos securitários e informáticos.
Nesse contexto, o protocolo de segurança virará um conceito padrão de nossa época quando se espalhe da indústria médica para todo tipo de atividade nas quais se procure reduzir os riscos ao reduzir ou regular as variantes das operações. Se nas instituições contemporâneas o protocolo parece cumprir uma função análoga à automação realizando uma rotinização flexível e inteligente daqueles performances que dependem das “competências cognitivas não objetáveis no sistema de máquinas” (Virno, s. f.) um terceiro sentido do protocolo e do protocolar, emergido também no final do século XX, diz-se em relação a esses sistemas de máquinas e suas relações, aparecendo como sinônimo da algorítmica.
Conclusão: Protocolos e Máquinas
O terceiro deslocamento semântico do termo protocolo, o surgimento do termo “Protocolo de Comunicações” aconteceu em 1967 quando em uma conversa entre Steve Crocker e Jon Postel, membros do International Networking Working Group (INWG) um grupo pesquisadores em informática cuja tarefa nesse momento “era martelar um conjunto de convenções acordadas que governaria as trocas entre computadores na rede” (Naughton, 2000, 136). Postel usou o termo “protocolo” na conversa e falou que tinha pensado nisso em termos de diplomatas trocando apertos de mão e informações (Ibid, 137). A partir desse momento essas convenções técnicas para a comunicação inter-maquínica seriam chamadas de protocolos. Mas, é o termo protocolo uma metáfora neste contexto??.
Desde a invenção da diplomacia moderna, o termo protocolo passou de ser formato ou protótipo de documentos a formato ou protótipo de condutas ou performances. Nesse sentido o protocolo, en tanto que cerimonial, virou um dos muitos termos que designavam a estereotipia ou estandardização procedimental (receita, roteiro, instrutivo, algoritmo, kata) porém, entanto que esse ceremonial estava claramente relacionado com técnicas e procedimentos de comunicação verbal e escrita, linguística e gestual, com o registro e a circulação do registrado, o protocolo ficou relacionado com a comunicação entanto o algoritmo, seu “gêmeo” designava procedimentos lógico matemáticos e logo informáticos. Inclusive a ressemantização do protocolo na prática científica, onde sua função é garantir a repetição, mantive a relação do protocolo com práticas e operações comunicativas mais do que computacionais e matemáticas. Embora essa diferença, junto ao algoritmo, o protocolo é o pilar da informática, de fato, seguindo alguns especialistas: “Os protocolos são para comunicação o que são algoritmos para computar” (Comer, 2005).
Nesse sentido, embora pareça ingênua ou apresurada, a metáfora do Postel aparece como um objeto poético, que “os mais distantes e heterogêneos elementos possíveis podem ser colocados em relação uns com os outros” (É. Glissant, 2020) Embora muito simples, o analogon entre embaixadas e cartas com computadores e pacotes de dados é rigoroso, só que o mecanismo institucional da diplomacia fica carregado de tensões, no entanto os computadores e servidores, embora heterogêneos, não tem objetivos contrapostos, não precisam de negociar ou aliar-se. O passo de um objeto poético como “teus gestos são aves”, “virá a morte e terá teus olhos”, “viagem pra lua”, “espada de luz” ou “máquina do tempo” ou “ciberespaço” além da frase que os expressa, depende de que a mesma relação que estabelecem na linguagem pode ser deslocada a outro regime de compatibilidade.
No caso do protocolo de comunicação, como sistema técnico, essa compatibilidade tem que ser dada entre “duas ou mais entidades de um sistema de comunicação para transmitir informações através de qualquer tipo de variação de uma quantidade física” (Codecs.org, s. f.). Para isso o protocolo define as regras, a sintaxe, semântica e sincronização da comunicação e possíveis métodos de recuperação de erros (ibid). Atualmente existem inumeráveis protocolos de comunicação -e seguridade- nas ciências informáticas que podem ser implementados por hardware, software, ou uma combinação de ambos, mas o mais importante é o Protocolo TCP cujo papel no funcionamento da internet é tão fundamental que talvez poderia ser chamado de instituição técnica.
Vinton G. Cerf e Robert E. Kahn, membros do INWG, publicaram em maio de 1974 um artigo titulado ‘A Protocol for Packet Network Interconnection‘ que apresentou duas idéias revolucionárias: Uma era a noção de um gateway entre redes que entenderia o protocolo usado pelos hosts que se comunicavam através das múltiplas redes. A outra era que os pacotes seriam encapsulados pelo host transmissor em envelopes eletrônicos (chamados de datagramas) e enviados para o gateway como pacotes de ponta a ponta chamados ‘transmissão-controle-protocolo’ ou mensagens TCP”. (Naughton, 2000, 163).
Se na noção abstrata do protocolo de comunicações operou um analogon com a diplomacia, alguns autores encontram no funcionamento concreto do protocolo TCP com a revolução logística que acontecia no mesmo momento A ideia do TCP foi o equivalente eletrônico da revolução da contentorização que transformou o transporte de carga internacional (…) Nesta analogia, os modos de transporte (marítimo, rodoviário, ferroviário) correspondem a diferentes redes de computadores; os contêineres correspondem aos envelopes do TCP; e os guindastes das docas e das pistas correspondem aos portões Cert-Kahn”. Nesse sentido, se o protocolo médico cristaliza múltiplas trajetórias na indústria da saúde e serve como método de resolução de uma incompatibilidade inicial, o Protocolo de Comunicações repete essas operações nas redes de computadores assim como a contentorização faz isso na logística numa “identidade das relações e não uma relação de identidade” (G. Simondon, 2009, 154).
O atual campo dos protocolos e do protocolario, então, parece não ter sido definido pela difusão de uma série de metáforas inspiradas pelas semelhanças, mas por uma série de transduções de caráter prático que deslocaram a noção de um “primer adjunto” à designação de distintos tipos de formatos, estándares e estereótipos documentais e não documentais. Como com a receita, no caso dos protocolos de veridicção e seguridade, o protocolo designa ao mesmo tempo um procedimento e o documento que o descreve, um documento mesmo com valor normativo e ritual no sentido que o hierarquiza diante outras atividades e existe para ser repetido no entanto o protocolo de comunicações, como o algoritmo, é um componente de um software, de máquinas eletrônicas nas quais está embutido. Em ambos os casos, a estandardização está vinculada à comunicação embora o vínculo seja diferente nos protocolos de comunicação e os diplomáticos onde opera diretamente como infraestrutura da comunicação que nos securitários e científicos onde essa função é, embora necessária, derivada.
No caso do protocolo jurídico, o outro desdobramento do protocolario, compartilha às características do comunicativo é o dispositivo, parece uma singularidade distinta na medida em que não supõe a estandardização e a estereotipação, só a normatização. Porém, na medida em que protocolos como Genebra ou Kyoto tentaram também funcionar como vias “de resolução de uma incompatibilidade inicial” ao “cristalizar múltiplas trajetórias” internacionais é preciso fazer também uma análise separada desse phylum técnico e sua relação com as técnicas contemporâneas da rotinização e da repetição…
