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“Perplexidade paralisante” de Lula é sintoma de encruzilhada ética da esquerda

Rafael Burgos[1]

 Dois dias após o 1º debate presidencial do 2º turno, realizado pela Band no último domingo (18), o diagnóstico prevalente na imprensa – a saber, o deliberado ruído provocado por Flávio e aceito por Lula –, de um lado, joga luz sobre impasses enfrentados pelo campo da esquerda e, de outro, revela um país entregue à combinação de exaustão cognitiva e cinismo social.

Quanto ao primeiro aspecto, vale destacar que, em busca da virada, a campanha de Lula à reeleição abandonou a estratégia do 1º turno, pautada numa defesa nostálgica da era de ouro petista a partir da velha comunicação de massas, dando lugar à intensificação da guerrilha digital, ancorada numa ampla mobilização popular em busca de virar o jogo nas redes – no jargão popular, o “janonismo”. O péssimo desempenho do petista no debate sugere, entretanto, que o principal entrave a essa virada de chave é o próprio Lula.

Tomado por uma perplexidade paralisante ao ser confrontado com a postura abertamente cínica de Flávio – aquele que entra no jogo para melar o jogo –, o presidente mostrou-se incapaz de executar o giro estratégico de sua própria campanha em direção ao terreno do bolsonarismo – o da guerrilha digital. Lula, um homem forjado na política das mediações e dos pactos sociais, onde sobrevivia algum horizonte ético e cognitivo, é um extemporâneo na trincheira do anti-bolsonarismo.

Diante da extrema direita, Lula, como muitos de sua geração, parece não ter ultrapassado o estágio da perplexidade. Indigna-se, de forma genuína, com o “trapaceiro” Flávio por ainda acreditar num horizonte ético que poucos brasileiros, à direita e à esquerda, parecem dispostos a compartilhar. Nesse sentido, imaginar uma ampla rejeição à “molecagem” de Flávio supõe um eleitor guiado por princípios que a própria campanha petista, em sua desesperada guinada final, reconhece como ultrapassados.

Em outras palavras, a postura do candidato do PL, desde o princípio empenhado em convidar Lula para o seu próprio terreno – e para isso se utilizando de fugas deliberadas das perguntas –, reproduz um mapa cognitivo não muito distante do cidadão brasleiro, habituado ao consumo de horas diárias em plataformas digitais cuja principal característica é, precisamente, a fragmentação cognitiva.

O clássico gesto bolsonarista de pensar por imagens – utilizando-se de metáforas como o “padrão Einstein no SUS” ou o “Ministério da Prosperidade” – pode soar vazio e simplório para analistas da política analógica, mas parece encaixar bem com a cognição plataformizada do eleitor, tanto em sua aspiração pessoal como na facilidade (dualista) de compreensão deste raciocínio.

É reveladora, nesse sentido, a aposta lulista em metonímias, como ao recuperar o nome de Milei (presidente argentino), sem dar qualquer contexto da imagem pretendida: Lula queria pintar, na cabeça do eleitor, a ameaça de um Brasil ainda mais endividado e em plena corrosão social em caso de vitória de Flávio.

O problema é que essa operação pressupõe a capacidade de recompor uma cadeia de referências que a simples evocação do nome “Milei” não garante. O imaginário algorítmico, por sua vez, tende a favorecer associações cognitivamente simplificadoras: analogias, oposições e equivalências para as quais as metáforas bolsonaristas estavam particularmente bem ajustadas.

Não há nada de novo nisso, já que a essa altura sabemos que a força do bolsonarismo reside em ser um movimento político instintivamente digital, quer dizer, cuja subjetividade política não exatamente “se ajusta às redes”, mas toma vida a partir dela. Não é uma diferença qualquer, e o campo lulista parece ter demorado para perceber.

Flávio “escapou” das perguntas na mesma velocidade em que o brasileiro médio desliza o seu dedo enquanto assiste a um Reels ou um Shorts sobre gatos fofinhos e, de repente, se engaja com um vídeo de Nikolas xingando o PT e, de repente, clica na aba para comprar produtos de beleza – tudo isso em frações de segundo. A indisposição ética de Flávio para o debate é prima de nossa indisposição cognitiva para a atenção ao outro. São tempos de cinismo para o qual a “perplexidade” de Lula soa, simplesmente, anacrônica.

Vale dizer, o aparato ético e cognitivo dominante no Brasil de 2026 parece bem diferente daquele que levou o atual presidente à sua primeira reeleição duas décadas atrás. E, nesse pano de fundo, apontar para a ascensão da extrema direita é contar apenas uma parte dessa história.

Pois o debate de domingo expôs uma clivagem ética no interior da própria esquerda, que, de um lado, recorre ao janonismo cultural para vencer o 2º turno a todo custo e, de outro, assiste à paralisante perplexidade de seu candidato diante da postura antiética do oponente. Além de absolutamente alheio ao novo aparato cultural do brasileiro algoritmizado, Lula encarna a dissonância de seu próprio campo em meio ao fosso estratégico entre as campanhas de primeiro e segundo turno.

Mergulhamos no “pragmático” janonismo com a desculpa de vencer uma guerra, sem perceber que a vitória do fascismo está em converter nossas subjetividades cotidianas em modos singulares de se fazer guerra. Com isso, semanas viram meses, meses viram anos e anos viram décadas. É assim que se produz um país em estado de crise permanente: o inimigo está à espreita, todos já viraram soldados e ninguém mais lembra por que subiu à trincheira.

[1] Jornalista e doutorando em comunicação e cultura pela UFRJ, onde pesquisa as relações entre a extrema direita e o “estranho-familiar” na cultura contemporânea. Atualmente, possui bolsa-sanduíche na Universidad de Buenos Aires, com apoio da CAPES.

 

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