Maquinários Quadrado dos Loucos

Quantas línguas falam numa língua? O brindisino, o italiano e a multidão

Por Bruno Cava

Imagem: Tramonto al porto di Brindisi (2023), de Franciaio. WikiCommons.

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Eu tinha uma noção bem diferente do que era um dialeto.

Imaginava que fosse uma segunda competência linguística, algo de que a pessoa dispõe e que aciona conforme a circunstância. Mais ou menos como quando você, falante de português, aprende inglês e passa a contar com outro repertório.

Quando fui morar na Itália — numa cidade bem ao sul chamada Brindisi —, descobri que não sabia nada do que era um dialeto. Aliás, a minha confusão começava bem antes. Até essa experiência, pra mim as línguas eram conjuntos delimitados, cada qual com seu dentro e seu fora, entre os quais o falante transitava em função da ocasião.

Como se fosse sempre possível precisar o que pertencia a uma língua e o que vinha de outra. Pari passu, contudo, descobri que as fronteiras se enrodilhavam. Os falantes podiam cruzá-las sem dificuldade, passar para cá ou para lá nos repertórios, gerando formas que não se deixavam atribuir a apenas um deles. Claro que nem toda passagem modificava as línguas. O contato, de todo modo, podia integrar as suas transformações.

Na província de Brindisi (Puglia), o italiano e o brindisino eram reconhecidos como línguas distintas. Isso não queria dizer, todavia, que subsistissem separadas na vida de quem os falava. Uma palavra podia transitar entre elas e, às vezes, a conversa, no mesmo assunto, alternava do italiano ao dialeto ou vice-versa. O que podia ocorrer inclusive no meio de uma frase. Não é que as diferenças desaparecessem num indiferenciado. Minha sensação é que as fronteiras se moviam, se borravam, e os falantes acabavam, na prática, talvez inadvertidamente, explorando ao máximo a potência expressiva proporcionada pelo bilinguismo.

Aos pouquinhos, meu ouvido brasileiro encontrava ressonâncias.

Petra, pedra, me soava mais próxima do português que o italiano pietra. Mugghieri, esposa, lembrava a nossa “mulher” mais do que moglie, mas depois fui ler que as três formas tinham seguido caminhos fonéticos diferentes a partir do latim mulier. Fatiàri, trabalhar, me fazia pensar em fadiga, como se, no dialeto, o trabalho já trouxesse o cansaço no nome. E havia osci, hoje, com o sc chiado, pronunciado como o nosso ch de “chave”, enquanto o italiano oggi apresenta um som semelhante ao dj de certas pronúncias brasileiras de “dia”.

Mas essa proximidade não obedecia a uma lógica linear. O italiano il mare me soa mais perto do nosso “o mar” que o brindisino lu mari. E sciamu, que quer dizer “vamos” em brindisino (totalmente diverso do andiamo italiano), pegava nos meus ouvidos como “chamo”.

Mas vamos às frases.

E foi aí que a coisa se complicou ainda mais. Ouvia, por exemplo, sta spettu, estou esperando. Em italiano, seria sto aspettando, com o gerúndio. No brindisino, a construção emprega sta seguido de uma forma verbal finita. E uma vez ouvi, num órgão público chamado ASL, sta spettu lu responsabile, mantendo o constructo dialetal e introduzindo uma palavra do italiano administrativo. A frase nem sempre adotava uma língua do princípio ao fim.

Ou, no meio de uma conversa, algo como: Ho finito il lavoro, sciamu a mari — terminei o trabalho, vamos ao mar. A frase começava em italiano e terminava em brindisino, sem aviso, sem tradução, sem que fosse preciso interromper o raciocínio para mudar de língua.

A cadência do dialeto é atraente para um ouvido brasileiro. As vogais finais se faziam ouvir com clareza, enquanto certas consoantes dão mais trabalho. Em pigghia, pegue, o gghi não é exatamente como o nosso gui, muito menos o lh de “filho”. É um som mais comprimido e prolongado, com a língua contra o céu da boca. Dá para reproduzi-lo, mas sinto que alguma nuance me escapa. Já em faci friddu, faz frio, não é difícil de pronunciar, mas, nesse caso, a articulação das consoantes é um pouco esquisita.

Devagarzinho, percebi que o meu português também começava a interferir nessa história. Um colega me mandou buscar pão e disse pigghia lu pani. Eu repeti a frase algumas vezes, tropeçando no gghi, até desistir. Disse então que ia “piguiar” o pão. O colega perguntou, rindo, se era brasileiro. Disse que não, mas, pensando melhor, poderia sê-lo.

Nos primeiros meses, eu ainda procurava compreender essa convivência com as categorias que havia encontrado nos livros.

Compreendia essa mistura entre italiano e dialeto pela ideia de diglossia, quer dizer, uma língua tem função familiar e cotidiana, a outra funciona melhor em situações públicas e formais. Não é isso. O italiano também está dentro de casa e o brindisino reaparece no trabalho, sem falar nessas frases em que um e outro se acoplam.

Sem falar ainda nas brigas de trânsito. Uma tarde, dois motoristas discutiam depois de uma fechada. O primeiro pediu explicações em italiano. À medida que a discussão esquentava, o outro passou ao brindisino: Muèviti, ciucciu! — sai da frente, seu burro! Não porque a raiva fosse mais verdadeira em dialeto. Talvez fosse o contrário, pois permitia assumir outra posição diante do adversário, passando à fase da provocação.

Depois acabei descobrindo, nos estudos sobre bilinguismo, que a força emocional dos xingamentos depende muito da língua na qual aprendemos a insultar e das circunstâncias em que a utilizamos (DEWAELE, 2004). Mas a coisa não se reduz à descarga emocional. Numa discussão, a mudança de língua pode mudar o que se está fazendo. Digamos, amiúde uma pergunta vira uma afronta, uma queixa se converte em desafio, enquanto os presentes deixam de ser simples espectadores e são convocados a tomar partido. A alternância entre italiano e dialeto pode desempenhar precisamente essas funções na organização de uma conversa (ALFONZETTI, 1992).

Era o que me intrigava. O dialeto não revelava uma camada mais subterrânea, menos polida, da personalidade, escondida sob o italiano civilizado. Não é que o dialeto esteja mais perto do estômago e do sexo, dos instintos e dos complexos, ao passo que o italiano representaria a linguagem da sublimação adulta da nação. O dialeto podia induzir a escalada do conflito, assim como, em outra circunstância, uma expressão jocosa poderia encerrá-lo, reduzi-lo à derrisão desarmada. A língua participa do modo como a raiva passa a ser direcionada a alguém, em vez de vir depois dela.

Depois fui conhecer o termo mais preciso empregado pelos sociolinguistas italianos: dilalia. A dilalia descreve a convivência menos compartimentada entre o italiano e os dialetos, com domínios de uso compartilhados e frequentes passagens de uma língua à outra (BERRUTO, 1987).

O brindisino também aparecia na tela do celular. Um dos fenômenos locais era um tal de Mandrake (Giuseppe Ninno), que criou nas redes sociais a Famiglia Imbarazzi, uma série de personagens e situações encenadas em dialeto, levadas aos palcos e até à animação. Eu recebia brindisino em vídeos pelo WhatsApp, com legendas e cortes rápidos.

A língua que, ao chegar a Brindisi, eu havia mistificado à moda de um García Márquez de ocasião, num realismo maravilhoso vindo das profundezas do passado, povoado de romanos, cruzados e fantasmas mediterrâneos, reaparecia agora nas telas dos celulares, entre algoritmos. Outros públicos, outras maneiras de ser escrita e novos ritmos de cultura.

Tudo isso me fascinava e segue fascinando. Mas, quanto mais tentava me aproximar do dialeto, mais o meu imbróglio extrapolava as fronteiras entre as línguas. Havia ainda uma noção, mais arraigada, sobre a natureza de cada uma delas.

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Primeiro, porque não é verdade que o dialeto local seja mais orgânico, mais enraizado ao povo e à terra, enquanto o italiano seria a língua mais abstrata e autorrefletida. Eu supunha que, por falarem brindisino entre familiares e amigos, os locais se relacionavam mais intimamente com ele, como que de modo espontâneo. O italiano, por sua vez, funcionaria melhor no mundo do trabalho.

Comecei a me perguntar por que uma língua aprendida e falada em casa deveria ser mais natural e espontânea do que outra aprendida na escola e ouvida nas mídias, o quanto isso não continha de uma versão bairrista e organicista de pátria.

Porque, reparem, o que nos sai da boca sem esforço também foi aprendido. Ninguém nasce falando dialeto, assim como ninguém nasce falando italiano ou português. E o povo que supostamente se exprimiria nessa língua orgânica não existe como uma unidade anterior à história. E quais seriam os representantes por excelência desse povo integrado à terra? Os pescadores do porto, os operários da empresa, os moradores de famílias antigas, as crianças da scuola dell’infanzia? Todos falavam da mesma maneira?

A meu ver, incide nessas concepções do dialeto orgânico a velha fantasia de uma língua-mãe, enquanto manifestação primordial de uma comunidade que depois teria sido submetida ao italiano, artificialmente implantado a partir da unificação do país. Uma língua nascida da terra, outra imposta pelo Estado. É a imagem de que se alimentam certos promotores do maravilhoso Reino das Duas Sicílias — maravilhoso apenas na imaginação de seus nostálgicos.

Em suma, o italiano não se tornou língua nacional por decreto. Nem o brindisino brotou do solo vermelho como uma batata. A diferença histórica é que o italiano ganhou autoridade para servir de modelo às demais línguas italianas. O que acontecia é que eu estava tomando por imediato o que não passava de resultado de uma longuíssima e tortuosa história. Ou melhor, a impressão de espontaneidade contém suas mediações.

Depois me liguei ainda noutro erro incorrido. Eu opunha duas línguas, quando deveria prestar atenção a duas maneiras de fazê-las funcionar, dois regimes de funcionamento, que se aplicam tanto à língua nacional quanto ao dialeto local. Uma delas consiste em escolher certas formas de falar e elevá-las à condição de medida estabelecida. A partir daí, as demais passam a ser julgadas segundo a distância e o alinhamento em relação a esse metro.

No brindisino, por exemplo, osci, hoje, pode parecer a alguns como se fosse uma deformação do italiano oggi. Seria um italiano contaminado. Já lu pani não passaria de um jeito primitivo de dizer il pane, posto que falassem assim os italianos na Idade Média. E um constructo como eti megghiu cu faci cussini, que significa “é melhor que você faça assim”, pode parecer gramaticalmente defeituoso se julgado pelas regras do italiano. Mas é óbvio que nada disso constitui defeito. Ao contrário, são formas perfeitamente legítimas e regulares do brindisino.

Quando determinada variedade adquire autoridade como modelo, diferenças passam a ser classificadas segundo sua distância em relação ao modelo. Uma pronúncia se torna sotaque regional; uma construção vira desvio; uma palavra é reduzida a regionalismo. O “maior” muda o estatuto da diversidade, mesmo que a reconheça de pleno direito.

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Em Mil platôs (1980), no platô “Postulados da linguística”, Deleuze e Guattari distinguem duas maneiras de trabalhar a língua: “maior” e “menor”.

O primeiro tratamento, o “maior”, consiste em extrair determinadas regularidades da diversidade dos usos e fazer delas referência para um funcionamento padronizado da língua. Pensemos no italiano. Um florentino, um milanês e um brindisino podem falar de maneiras bastante diferentes, sem que isso impeça reconhecer entre eles uma língua comum. O problema, para D&G, se dá quando a unidade assim construída passa a valer como a realidade da língua, de modo que as diferenças são relegadas a variações secundárias do sistema.

Essa operação tem evidentes consequências políticas, que ocorrem quando a língua assim concebida se articula à educação, às instituições, à aplicação da lei e dos costumes.

O outro tratamento, o “menor”, parte da variação que percorre a língua, sem reduzi-la a um conjunto de desvios em relação ao que seriam formas supostamente invariáveis (elas próprias constructos de fundo político). D&G propõem um exemplo simples: “eu juro”. “Eu juro” em um tribunal é uma coisa. Quando pronunciado entre namorados, outra, mais relacionada à promessa de amor. E, na boca de uma criança flagrada no erro, pode ser uma tentativa de escapar do castigo. Em cada uso, mudam as relações entre quem fala e quem escuta, as obrigações que dimanam das palavras e até o que significa, em dada situação, prestar um juramento (DELEUZE; GUATTARI, 1995).

O que isso sugere? Que a língua não é um sistema ao qual as situações de fato simplesmente acrescentariam sentido. O tratamento “menor”, ou de minorização, não se limita a reconhecer essa variação imanente, mas consiste também em trabalhar as relações dos enunciados, criando novas possibilidades para além do habitual.

A leitora agora imagine uma discussão na empresa, em Brindisi. Alguém preleciona em italiano sobre meritocrazia e produttività, palavras de ordem do mundo do trabalho. Um colega responde com um provérbio brindisino: A ci fati nà sarda, a ci non ci fatia nà sarda e menza — a quem trabalha, uma sardinha; a quem não trabalha, uma sardinha e meia. E aí o discurso que pretendia medir o mérito passa, de supetão, a ser medido pelo provérbio.

Mas onde estaria o “menor”?

Não na simples passagem do italiano ao brindisino, mas isso não significa que a passagem não possa participar da minorização. Até então, o discurso sobre meritocrazia organizava uma situação concreta, qual seja: a empresa definia critérios de avaliação e os trabalhadores figuravam como avaliados. As palavras não apenas descreviam uma questão de trabalho, como também integravam o seu funcionamento, ao distribuir posições e obrigações.

Mas imaginemos que o provérbio brindisino provoque o riso. O provérbio não está só trazendo outra opinião ao que seria um debate. Ao ser proferido nessa circunstância, muda o que estava acontecendo ali. Os avaliados passam a interpelar o avaliador; e quem dava as cartas se vê compelido a responder. A fala gera uma alteração nas relações.

E o fato de ser dito no dialeto brindisino participa dessa virada. Ao ser lançado numa discussão conduzida em italiano laboral, faz girar entre os trabalhadores uma expressão familiar, com suas cumplicidades, sua memória de situações vividas e até mesmo seu senso do ridículo. Não é indiferente a língua em que se fala o que se fala. É o uso, naquele momento, entre aquelas pessoas, que interrompe o curso de uma realidade.

Aqui poderia haver um exemplo de tratamento “menor”. Não porque o brindisino seja intrinsecamente uma língua de resistência (não é, pode inclusive ser uma língua mais conservadora, mais chauvinista), nem porque toda derrisão popular porte em si mesma uma torção subversiva. O provérbio poderia provocar algumas risadinhas e nada mais. Mas, se a intervenção consegue mudar as relações de uma situação, a língua cessa de ser apenas o veículo de uma ponderação. Torna-se, destarte, parte da mudança. Não comunica apenas uma diferença. Faz diferença.

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Dois meios de expressão me interceptaram durante minha estada pela Itália: o giallo (aquele policial cujo nome veio das capas amarelas dos livros de banca, com seu apetite por crimes, segredos de família, vielas e noites urbanas que vão se revelando à medida que a investigação avança; por exemplo, Gianrico Carofiglio, autor que fez de Bari um cenário recorrente desses mistérios, com seus bares escuros e personagens que sempre sabem mais do que dizem) e o fumetto (os quadrinhos à italiana, que chamam a atenção pela desenvoltura do desenho, pelo gosto do folhetinesco e, qualidade das qualidades, pela irreverência; cito aqui um achado, assinatura de Andrea Pazienza, cujo traço de vez em quando muda radicalmente de uma página para outra, assim como o texto passa da gíria ao dialeto, da conversa chula de rua à cultíssima paródia literária).

Vejamos um clássico do gênero, Quer pasticciaccio brutto de via Merulana (1957), de Carlo Emilio Gadda. O escritor milanês toma a promessa fundamental do policial — descobrir o culpado, reconstituir os fatos e devolver alguma ordem ao mundo — e a leva a um impasse. Quanto mais a investigação avança, mais se multiplicam as causas, as vozes e as versões dos acontecimentos. A linguagem participa dessa desordem, a ponto de o romance já não conseguir oferecer a solução que o gênero parecia prometer.

Logo na abertura do romance, o comissário Ingravallo alega que os acontecimentos nunca têm uma causa única, mas um emaranhado de causas que se cruzam, um gnommero, como diz no dialeto de Roma, um novelo. A inserção de palavras popularescas não serve no texto só para dar sabor local à narrativa, como uma ilustração de tipos sociais. A mestiçagem linguística constitui a própria máquina do romance de Gadda (GADDA, 1957).

O inquérito de um roubo e um homicídio percorre diferentes meios sociais, enquanto a linguagem jurídica e a alta filosofia se imbricam com os dialetos, inclusive na voz do narrador. Cada depoimento colhido ao longo da história abre outras histórias e vai multiplicando as relações que a investigação de Ingravallo quer esclarecer. O romance publicado termina sem identificar o assassino, contrariando uma das expectativas do gênero policial.

É essa correspondência que me interessa em Gadda. A teoria das causas múltiplas elaborada e defendida pelo comissário no livro encontra uma expressão na composição mesma do romance. Isso se dá porque a heterogeneidade linguística não se limita a caracterizar personagens ou ornamentar ambientes, mas participa de uma narrativa que não consegue reduzir a diversidade dos fatos a uma explicação axial.

Entre nós, Rosa faz algo similar em Grande sertão: veredas (1956). Riobaldo não reproduz um português sertanejo original, que se encontraria intocado em algum recanto do Brasil profundo. A fala de Riobaldo é uma invenção que torce a sintaxe. Nesse procedimento, palavras são deslocadas, enquanto a experiência de um ex-jagunço se torna, ao mesmo tempo, uma investigação filosófica sobre o bem e o mal, o amor, o destino.

No polo oposto, nesse mesmo romance de Rosa, está o doutor da cidade, que praticamente não ouvimos na narrativa. Riobaldo conduz as conversas e, ao conduzi-las, vai problematizando as respostas costumeiras aos problemas. Eis aí um tratamento “menor” da língua, na acepção de D&G em Mil platôs. Rosa não está perseguindo a autenticidade do que seria uma fala popular, o que não passaria de folclorização da língua. E nem tem a pretensão de elevá-la à “dignidade” da língua culta.

Ao inventar a voz de Riobaldo, Rosa altera mais do que as potencialidades expressivas do português. Modifica também a posição de quem pode formular os problemas do romance. O doutor da cidade, que poderia ocupar o lugar do intérprete esclarecido, fica na posição de ouvinte. Riobaldo não se limita a fornecer uma experiência sertaneja para que outro a interprete, já que é ele quem perquire o sentido de sua vida e o reconsidera continuamente (ROSA, 1956).

Mesmo assim, a narração é perpassada de dúvidas. O trabalho linguístico de Rosa acompanha esse pensamento que não encontra para si uma última palavra. A experiência do sertão deixa de ser objeto de explicação e passa a produzir os termos da pergunta.

Esses exemplos ajudam a compreender por que o “menor” não é uma qualidade distintiva dos dialetos, nem o “maior” uma propriedade inerente das línguas nacionais. Escrever em dialeto não garante por si invenção linguística, e o português ou o italiano podem ser trabalhados de jeitos que recriam suas possibilidades. “Maior” e “menor”, por conseguinte, não nomeiam dois idiomas, mas operações que podem permear ambos.

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Lembro das contendas sobre comida no refeitório da empresa, que às vezes chegavam à maneira correta de nomear os ingredientes. Foi ali que aprendi que o azeite em Brindisi podia ser uègghiu, forma mais vetusta do brindisino, ou ogliu, já tocada pelo italiano olio. Essa diferença também aparece em registros locais sobre a italianização do dialeto (VECCHIO, 2021). Um colega defendia a primeira, outro jurava que em sua casa sempre se dissera a segunda. Quando perguntei qual seria mais correta, a discussão azedou.

Duas formas usadas em Brindisi, as duas reconhecidas pelos interlocutores, uma delas defendida como mais fiel à tradição. A discussão não era exatamente sobre as palavras. Também se disputava quem poderia dizer como falavam os brindisinos raiz.

O dialeto que anteriormente eu supunha ser expressão espontânea de uma comunidade revelava suas próprias controvérsias sobre correção e autenticidade. A disputa era ainda mais curiosa porque ambos haviam aprendido aquelas palavras em Brindisi, nas suas famílias. Não se discutia apenas como se dizia azeite, mas quem podia reivindicar a forma brindisina certa. Formidável pensar que uma palavra nova podia entrar numa conversa quase como brincadeira, enquanto outra, usada havia anos pelos moradores, corria o risco de ser declarada estrangeira na própria cidade.

Mas, retomando o fio da meada, a discussão sobre os usos maiores e menores da língua não resolve o seguinte problema: por que é, então, que o brindisino ainda é classificado como dialeto, enquanto o italiano é reconhecido como língua plena e nacional?

A distinção entre língua e dialeto não diz respeito ao que os falantes ou escritores fazem com uma língua, ao tipo de trabalho realizado nela e por ela, mas sim à posição que determinadas variedades adquiriram historicamente diante das demais.

A rigor, o brindisino é tão língua quanto o italiano ou o português. Seus falantes igualmente operam segundo uma gramática, mesmo que nunca a tenham estudado formalmente na escola. Mas, se pensarmos bem, nós também aprendemos a falar português muito antes de conhecer suas regras codificadas, antes mesmo de ingressar no jardim da infância.

O que torna o italiano uma língua nacionalmente privilegiada não consiste em dispor de uma organização ou sofisticação que faltaria ao brindisino. A diferença está no fato de que o italiano recebeu uma posição de autoridade para servir como referência para outras falas. E essa autoridade lhe permite decidir qual maneira de falar abre portas na escola, no trabalho ou nas instituições, e qual precisa ser corrigida ou abandonada.

A sutileza aqui é que o italiano não precisou se tornar linguisticamente mais completo para ser alçado a esse patamar. E nem um dialeto como o brindisino perdeu alguma coisa, nem estaria em “falta” em relação ao italiano. Não foi por essas razões que ele deixou de ser escolhido para operar como língua nacional. Não há desigualdade intrínseca entre um e outro.

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Como se sabe, o italiano tem por matriz o florentino medieval, consagrado literariamente nos séculos XIII e XIV por Dante, Petrarca e Boccaccio, as três coroas do Trecento. Claro que foi uma escolha, nada natural. Em 1525, nas Prose della volgar lingua, Pietro Bembo, veneziano — um dos intelectuais e humanistas mais proeminentes do Quinhentos —, propôs que a escrita literária da futura Itália se orientasse por modelos florentinos de dois séculos antes, com ênfase em Petrarca na poesia e Boccaccio na prosa (BEMBO, 1525).

Reparem no quanto essa operação é sui generis. Para dar uma língua comum aos escritores da península, foi preciso eleger como referência uma variedade literária que nem sequer batia com o florentino então falado na Toscana. Noutras palavras, a unidade não surge de alguma convergência dos habitantes da Itália. Ela é construída, no plano das letras, por uma seleção bastante interessada e peculiar do passado.

Naturalmente, essa escolha não fez os habitantes da península passarem a falar italiano. Nem os inclinou nessa direção. Isso ainda levaria séculos. A língua literária ganhou prestígio e circulação muito antes de se tornar a língua cotidiana da maioria da população. Seguiram com seus dialetos por muito tempo ainda.

Só quatro séculos depois, no período da unificação política, em 1861, o processo de generalização do italiano ganhou outra escala. Doravante, havia um Estado interessado em formar uma população capaz de se comunicar por meio de uma língua nacional. E esse projeto levaria muito tempo, o que dá testemunho do quão radicados eram os dialetos.

Somente com a escolarização de massa, o serviço militar, as migrações internas (que tornaram necessária uma língua comum entre migrantes) e, finalmente, os meios de comunicação de massa, o italiano foi ganhando espaço. A partir de 1954, a televisão da RAI levou a língua nacional a milhões de pessoas que antes tinham com ela um contato mínimo. O italiano se generalizou, passando a conviver com os dialetos e a alterar-se nessa convivência.

Em Florença, por sinal, existe a brincadeira de que ali é o único lugar da Itália onde não se fala dialeto. Mas basta ouvir alguém dizer la hasa em vez de la casa, ou noi si va no lugar de noi andiamo, para encontrar usos florentinos que não se equiparam ao italiano padrão.

Ora, nem mesmo a cidade escolhida como referência nacional fala a língua que, supostamente, dela se extraiu como modelo. Desde a Renascença, o florentino falado continuou variando na Toscana. O italiano literário, por sua vez, passou por outras metamorfoses e incorporou usos de diferentes regiões, divergindo cada vez mais da base original. Então, a língua nacional não é mesmo o florentino que finalmente teria galgado a sua forma definitiva. Em vez disso, trata-se de um resultado contingente, de uma história em que certas formas ganharam autoridade.

E isso traz uma perplexidade. Se nem o italiano é igual à variedade da qual se originou seu padrão, por que imaginaríamos encontrar em Brindisi uma língua que tivesse se mantido fiel a si mesma, como uma cápsula do passado, através dos séculos? Claro que não. O brindisino também tem sua modernidade.

O brindisino teve outra sorte. Sua genealogia é românica, mas seria enganoso pesquisar pela certidão de nascimento do idioma em algum fato histórico marcado, tal como a chegada dos romanos à localidade.

Em 244 a.C., a República Romana estabeleceu ali uma colônia latina, batizada Brundisium, sobre uma cidade preexistente, à época pertencente ao povo messápico. Com a extensão da Via Ápia da capital até o porto voltado ao Adriático, Brindisi se tornou um dos grandes portais latinos para o Oriente.

Evidentemente, os colonos romanos não chegaram trazendo uma língua pronta para uma população que ainda não falava. Na cidade circulavam e se cruzavam muitas línguas e tradições. E o próprio latim que chegava com soldados, comerciantes e colonos não era idêntico ao dos escritores de Roma. A expansão romana alterou as relações entre essas populações, ampliando paulatinamente o uso do latim, que ainda não podia ser chamado de brindisino.

O universo grego já exercia influência sobre o sul da península italiana e a região de Brindisi bem antes da expansão romana.

Mas qual grego? Costumamos falar da Antiguidade como se gregos espalhados pelo Mediterrâneo e pelo Mar Negro, em épocas tão diferentes, compartilhassem uma mesma língua. Na vizinha Taranto, por exemplo, fundada como colônia espartana, em 706 a.C., falava-se uma variedade bastante específica, oriunda da tradição dórica.

Mais tarde, a partir do grego ático de Atenas, que conquistara posição hegemônica, e de elementos de muitas outras variantes, difundiu-se a koiné, o chamado grego comum, uma variedade de comunicação suprarregional. As conquistas de Alexandre, no século IV a.C., consolidaram e disseminaram a koiné como idioma próprio do mundo helenístico. Era assim empregada no governo, entre militares, nas redes comerciais, entre peregrinos (que viajavam para consultar oráculos ou buscar a cura em santuários). A koiné também alcançou as cidades gregas do sul da Itália, onde sua difusão encontrou tradições linguísticas já estabelecidas.

O latim, a seu turno, tampouco se manteve homogêneo. A fala dos soldados e comerciantes não era idêntica à dos escritores ou juristas, nem a mesma em todas as províncias do Império. Ao longo dos séculos, suas variedades foram se diferenciando, em dinâmicas que trespassaram a Antiguidade tardia e a Alta Idade Média. E não é que tenha havido um dia em que as pessoas deixaram de falar latim e começaram a falar línguas românicas. Essa transformação não esperou a queda do Império Romano do Ocidente para começar, nem terminou quando seus imperadores desapareceram.

A língua latina também viria a alcançar as antigas colônias gregas do sul da Itália, ainda que em momentos e ritmos diferentes. A língua comum também variava, assimilando usos e se metamorfoseando nas regiões onde era falada.

Mais ao sul de Brindisi, em localidades da chamada Grecìa Salentina, ainda se fala o griko, uma variedade de grego que atravessou séculos de convivência com línguas românicas (ROMANO, 2010).

Quem chega nesses povoados salentinos e não se admira de que ali ainda se fale uma variedade de grego?

A tentação seria interpretar pelo primitivismo exótico, como se fosse uma relíquia da Magna Grécia, um pedaço da Antiguidade preservado entre oliveiras e casas caiadas, talvez até um povo que tenha preservado a sua língua desde os tempos de Platão.

Como se nosso parco conhecimento de história nos autorizasse dispensar a própria história. Ocorre que o griko continua convivendo com o salentino românico e, mais recentemente, com o italiano nacional. Adaptou-se, diferenciou-se internamente. O que se manteve não foi a voz longínqua dos colonos gregos, mas a contribuição milionária de uma história de trocas e contatos.

E entre Roma e Bizâncio?

O Império Romano passou por divisões internas e profundas mudanças políticas. No século V, o Ocidente perdeu seus últimos imperadores, mas o Oriente, com sede na pujante Constantinopla, continuou romano. Seus habitantes, a quem hoje chamamos bizantinos, se reconheciam como romanos de pleno direito e pertencentes ao Império Romano tout court. No século VI, Justiniano chegou a reconquistar boa parte da Itália em nome desse mesmo império.

Os habitantes do Oriente continuavam romanos, mas o grego assumiu progressivamente uma posição predominante nas instituições e na cultura. Mudavam as línguas e as práticas, sem que isso implicasse abandonar a identidade romana.

Brindisi, por sua vez, passou por sucessivas disputas de domínio. Houve guerras e períodos de retração urbana, até que a presença bizantina voltou a se fortalecer no final do século IX. De fato, o grego que então passou a se irradiar pela região descendia da antiga koiné, mas já havia sido transformado pelos séculos. E encontrou populações cujas variedades de origem latina também haviam seguido outros caminhos, muito divergentes em relação às variedades faladas na época em que a região pertencia ao Império Romano do Ocidente.

Por um lado, não se pode falar, na Alta Idade Média, de um reencontro entre um latim modificado e um grego mais antigo que tivessem esperado a ocasião de voltar a se misturar. Por outro lado, seria igualmente enganoso explicar o brindisino como resultado direto desse reencontro. A base principal do brindisino é românica, mas sua história se complica pelos diferentes contatos, em diferentes circunstâncias históricas, com o grego.

A documentação medieval permite acompanhar parte dessas transformações, de maneira sempre fragmentária. Por exemplo, o historiador Giacomo Carito lembra algumas palavras registradas no século X pelo médico judeu Sabbetai Donnolo, ativo em Oria, na atual província de Brindisi. Entre elas, lauru, radicula e kukummarina, nomes de plantas. Pergunta-se: nos manuscritos, estamos lendo formas latinas que já incorporavam características da fala corrente? Ou registros de variedades vernáculas que se diferenciavam do latim escrito? (CARITO, s. d.).

Nos séculos seguintes, os historiadores identificaram testemunhos semelhantes em contratos, designações de propriedades, referências a atividades econômicas etc. A dificuldade de separar as formas latinas das românicas significa que as fronteiras que hoje procuramos estabelecer deveriam ser melhor entendidas como limiares. Não há uma data ou geração na qual a língua deixou de ser uma variedade do latim para tornar-se uma língua românica. Entre o latim e o brindisino, só há umbrais, e toda demarcação entre ambos será sempre a posteriori e mais ou menos arbitrária.

A história prossegue sob os normandos, que conquistaram Brindisi no século XI, e as dinastias que depois governaram o sul da Itália ao longo da Baixa Idade Média. A cidade portuária continuou efervescente, participando das rotas mediterrâneas, por onde seguiam transitando mercadores, soldados, peregrinos (agora cristãos) e marinheiros.

Mas que línguas se falavam nesse mundo agitado?

O latim medieval se mantinha na escrita jurídica e religiosa, enquanto as populações locais agora utilizavam variedades românicas. O grego ainda se ouvia em algumas comunidades, em especial nos territórios de longa presença bizantina. Já na Sicília normanda, o árabe era empregado por comunidades locais e nas atividades administrativas. E as relações com o norte da África e o Levante colocavam em contato falantes de diferentes variedades árabes, gregas e românicas.

Fico elucubrando sobre o trabalho de um intérprete profissional da época, chamado para acompanhar um mercador que atravessasse esses diferentes ambientes. Não bastaria dominar três idiomas tal como aparecem hoje nos manuais. Seria preciso muito mais: reconhecer diferenças de procedência e improvisar diante das misturas.

Nas rotas mediterrâneas desenvolveram-se também formas próprias desses encontros. A mais célebre ficou conhecida como Lingua Franca, de base românica, cujo nome acabaria designando outras línguas utilizadas entre pessoas que não compartilham um idioma.

E esse processo não acontecia apenas entre povos distantes. A diferenciação também ocorria entre cidades vizinhas, entre grupos de uma mesma cidade e até no interior de uma única conversa. A história do brindisino não é a biografia de uma língua que nasceu em Roma e depois cresceu em Brindisi, até chegar aos nossos dias. É a história de relações nas quais o que chamamos brindisino foi definindo limiares reconhecíveis, sem jamais deixar de variar.

Aos poucos, fui percebendo que não precisava viajar ao passado para identificar algumas dessas ressonâncias. Bastava voltar ao refeitório da empresa. Certa vez, um colega disse: Sciàmundini a mari, vamos embora para o mar. Eu ainda estava tentando entender o começo da frase quando todos já discutiam aonde ir. O meu esforço de separar italiano e brindisino parecia ocupar apenas a mim. Os outros sabiam reconhecer as diferenças, sem precisar interromper a conversa.

Não que as duas línguas fossem indistintas. Cada uma possuía formas próprias, e os falantes eram capazes de reconhecer essas diferenças (e por vezes disputá-las). Mas o que eu tentava separar em dois repertórios aparecia, nas conversas, imbricado por relações de todo tipo. A fronteira existia, mas, na prática, as falas não a respeitavam.

O brindisino de hoje não constitui uma unidade imóvel. Na Puglia, basta percorrer algumas dezenas de quilômetros para encontrar diferenças que podem dificultar bastante a compreensão, sobretudo para quem não está habituado aos falares vizinhos. O brindisino pertence ao conjunto salentino, numa região próxima à faixa de transição com os falares puglieses centro-setentrionais. Certas características o aproximam dos falares de Lecce, outras se distribuem noutro gradiente, em direção a Bari, ao norte, e ainda outras a oeste, em direção a Taranto.

As variações tampouco respeitam as fronteiras municipais. Uma distinção sonora se estende por determinada área, enquanto uma construção gramatical segue outra distribuição. O mapa das línguas, quando examinado de perto, se parece menos com um mosaico de territórios fechados do que com um patchwork de diferenças em vários níveis.

É realmente alucinante, pois estamos falando de diferenças muito significativas no modo de falar a vinte, trinta quilômetros de Brindisi.

Foi nessa trama de tramas que o italiano nacional entrou, bem mais tarde, passando a conviver com o brindisino e a alterá-lo, sem deixar de adquirir ele mesmo características locais. A leitora já deve ter percebido, a esta altura, que não se pode falar num brindisino original, nascido da terra, que depois teria sido contaminado pelo italiano. Nem de um idioma italiano pronto que teria sido imposto sobre uma língua mais natural e telúrica. Ambos se fizeram em contato com muitas outras línguas, em histórias desiguais que continuam vivas e seguem em múltiplas direções.

No fim das contas, o italiano nunca foi uma língua completa que encontrou outras incompletas, espalhadas pela Itália. O italiano adquiriu uma posição nacional que o brindisino não teve, e dessa desigualdade derivaram critérios de prestígio e legitimidade, frequentemente apresentados como se exprimissem diferenças de valor entre as línguas.

Mas seria um último engano supor que, por trás dessa hierarquia, encontraremos enfim o verdadeiro brindisino, anterior às artimanhas da história. O dialeto não preserva uma língua mais originária que a unificação italiana teria simplesmente recoberto. Também ele foi se constituindo entre diferenças e disputas, e continua mudando com os que o falam.

Foi essa a descoberta mais impactante, a que mais alterou minha maneira de escutar um “dialeto”.

 

 

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REFERÊNCIAS

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