Por Bruno Cava
Imagem: Benjamin Hibbert-Hingston, A Flock of Birds Flying over the Ocean (2024). Unsplash.
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Particularmente, devo dizer, o que mais me espantou no segundo turno foi a geografia da virada. Lula melhorou seu desempenho de maneira generalizada e transversal, em praticamente todo o país, em cidades grandes, médias e pequenas, em territórios com perfis sociais e políticos muito díspares. Onde quer que se olhe nos resultados, lá está o mesmo fenômeno: Lula avançou bastante em relação ao resultado do primeiro turno.
A primeira explicação que vem à cabeça é que a campanha lulista conseguiu, graças a uma mobilização de apoiadores, concitar os abstencionistas a virem votar, levando quase pela mão milhões de eleitores que não tinham comparecido no primeiro turno.
Só que, quando descemos do resultado nacional às seções eleitorais, essa explicação encontra uma surpresa estatística.
O avanço relativo de Lula não acompanhou a redução da abstenção. E isso qualquer pessoa pode conferir nos dados do TSE.
Explico.
Se pegarmos os resultados dos dois turnos nas mesmas seções eleitorais (há um levantamento com aproximadamente 497 mil seções, que pode ser conferido a partir dos dados do Portal de Dados Abertos do TSE, inclusive com auxílio de IA, como o Astra) e compararmos o aumento do comparecimento com o crescimento da participação de Lula entre os dois finalistas, a correlação é de apenas 0,051, próxima de zero. Nas seções em que o comparecimento diminuiu, Lula aumentou sua participação relativa em 86,5% delas. Onde mais gente compareceu, isso aconteceu em 90,7%. Uma diferença surpreendentemente pequena.
A leitora repare, não é apenas que a redução da abstenção explique só uma parte da virada. É que, seção por seção, a mudança no comparecimento quase nada nos diz sobre onde Lula avançou proporcionalmente mais. Os votos adicionais podem ter vindo de diferentes combinações de abstencionistas, brancos e nulos, eleitores dos candidatos eliminados e até de mudanças de lado entre os dois finalistas. O xis da questão permanece: o que teria produzido uma recomposição tão disseminada, tão generalizada por todo o país?
O fenômeno ainda deverá consumir energia de pesquisadores e cientistas políticos nos próximos anos.
E há uma segunda surpresa, que torna a primeira ainda mais intrigante.
As pesquisas também não conseguiram acompanhar adequadamente essa transformação. No primeiro turno, não captaram a arrancada final bolsonarista, enquanto a situação parecia andar de salto alto, convencida de que liquidaria a eleição diante do “adversário ideal” (de tão fraco) na primeira rodada.
No segundo, os papéis se inverteram. Tinha quem já parecesse cotar o caminhão de mudança para o Alvorada. Mas, mesmo que tenha existido algum relaxamento inicial entre os bolsonaristas, na última semana a polarização voltou a ferver e havia remobilização diante do fechamento da boca do crocodilo nos gráficos de intenções de voto.
Ainda assim, as urnas contrariaram as vantagens numéricas apontadas pelas pesquisas de véspera. Eu mesmo, pelo ritmo da recuperação lulista, imaginava que ainda faltariam 15 a 20 dias para se consumar uma virada. E no fim tudo aconteceu de maneira explosiva e inesperada.
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A tentação, diante de um resultado assim, é reconstruir a virada como obra de um protagonista iluminado, de uma estratégia mestra ou de uma causa. Mas a geografia mesma dos votos bagunça esse enredo.
Isso me faz pensar, guardadas as proporções e óbvias diferenças, em junho de 2013. Também ali se procurou domesticar um acontecimento múltiplo por meio de uma narrativa de origem, na ocasião, bastante paulistanocêntrica: o gatilho, a massificação dos protestos e a perda (trágica) de direção.
Como se tivesse existido uma unidade inicial que depois se fragmentou. Mas a potência de Junho consistiu antes na conexão entre processos que não compartilhavam a mesma origem, as mesmas organizações, as mesmas reivindicações ou sequer a mesma temporalidade.
Não havia um centro irradiando protestos para o resto do país, digamos, desde São Paulo ou, mais “generosamente”, do eixo Rio-SP-BH, para a periferia nacional. Já circulavam experiências de lutas entre diferentes cidades, e a explosão de Junho intensificou essas conexões, produzindo novos circuitos. Não eram manifestações locais que acrescentavam particularidades a uma suposta essência nacional, mas processos que se comunicavam sem precisar adquirir uma identidade comum.
Daí o equívoco posterior de tentar atribuir ao acontecimento, em seu conjunto, uma natureza de esquerda ou de direita (como se fossem significados já dados, disponíveis ao intérprete), progressista ou conservadora, como se uma dessas classificações pudesse conter sua multiplicidade.
Ali, naquela conjuntura, o conceito operaísta de multidão efetivamente trabalhava no campo problemático. Não era um adjetivo vistoso para uma massa informe, mas uma maneira de compreender como singularidades distintas produziam potência comum sem constituir uma unidade.
Não era necessário que se fizesse a mesma coisa em toda parte. A ação numa cidade modificava as condições de possibilidade da ação em outras, que por sua vez abriam novos conflitos, novos encontros, novas iniciativas. O comum não era uma identidade anterior às lutas, mas algo que se produzia na própria ligação entre elas.
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Em outubro de 2026, a dinâmica foi de iniciativas heterogêneas, que também se conectaram e se intensificaram reciprocamente, mas convergiram para uma unidade eleitoral previamente determinada.
O agenciamento da virada — envolvendo o dispositivo-Janones, os pacotes sociais de última hora, a plataformização das conexões, a guerra das rejeições etc. — teve um efeito político incontornável, ao impedir que uma direita radicalizada, já bastante anabolizada no Legislativo, conquistasse também o Executivo, isso depois de anunciar aos quatro ventos a intenção de reformar a Constituição em matérias que esbarram nas cláusulas pétreas.
Mas aí eu pergunto: e agora? O que esse corpo pode produzir, além da vitória eleitoral?
Durante três semanas, uma extraordinária multiplicidade de redes, coletivos e organizações encontrou na candidatura de Lula um ponto de convergência. A ação se distribuiu por milhões de mãos, enquanto sua orientação política se concentrava num objetivo e, em grupos como o “Exército de Janones”, numa verticalização tática pronunciada.
Ora, multiplicar os executores de uma agenda não é a mesma coisa que multiplicar a capacidade coletiva de produzir estratégias, de elaboração política conjunta. E a questão não pode se reduzir ao tamanho das passeatas, à cor das bandeiras ou ao número total de seguidores ou curtidas, mas ao que aconteceu com as relações e conexões.
Mas talvez a alternativa esteja mal formulada em seus termos. A eleição não fabricou do nada uma potência coletiva, e também não se pode dizer que tenha recrutado habilidades que já estavam prontas, à espera de uma ordem. Ao se interligarem, redes e grupelhos, aparelhos e movimentos, alteram suas possibilidades de ação, gerando encontros e intensidades que não existiam antes.
Nada disso significa, porém, que tenham constituído um sujeito político unitário. A urna, afinal, claro que sim, é uma prodigiosa máquina de converter diferenças em equivalências, pois milhões de razões, desejos, temores, expectativas e conflitos distintos tornam-se números. E talvez a geografia tão surpreendente da virada esteja nos indicando isso. A unidade aritmética do resultado não é a unidade política do processo que o produziu.
É daí que possivelmente se inicie o problema do quarto mandato, o último de Lula.
Não se trata de saber se conseguirá manter essa mobilização ativada ou se ela escapará à unidade eleitoral que a reuniu.
O que acontecerá quando essas forças, que coincidiram numa decisão eleitoral, voltarem a se encontrar em torno de problemas concretos — o trabalho, a renda, a metrópole, a segurança, os territórios — nos quais suas diferenças não poderão ser resolvidas apertando a mesma tecla da urna para barrar a direita bolsonarista?
E que deslocamentos poderão surgir dessa experiência comum, inclusive entre aqueles que votaram do mesmo lado?
Em junho de 2013, processos muito diferentes se comunicaram sem produzir uma resposta única, numa história até hoje inconclusa e incômoda.
Em outubro de 2026, processos igualmente diversos convergiram para uma mesma resposta, sem necessariamente compartilhar a pergunta.
As urnas decidiram quem governará. O que essas forças ainda farão umas com as outras, e com o próprio governo, é uma história que se abriu.
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