A TRAGÉDIA DO BUFÃO

por Silvio Pedrosa
As duas pesquisas que saíram hoje sobre o governo acabaram interpretadas como um sinal de que a base bolsonarista é indestrutível e que um terço da sociedade brasileira estará sempre com Bolsonaro, não importa o que ele fizer. Não gosto muito da máxima segundo a qual aprendemos com o passado (prefiro o chiste de Bernard Shaw sobre a história nos ensinar que a história não nos ensina nada), pois o duplo registro da história — o fato dela ser aquilo que foi e aquilo que lembramos, sabemos e dizemos sobre aquilo que foi — faz com que esse suposto aprendizado a que se alude seja sempre dependente de uma percepção social unívoca que se contradiz com a multiplicidade do saber e da memória social e histórica tal como elas existem de fato.
Há, entretanto, alguns ensinamentos, que poderíamos chamar de “brutos”, que a história nos permite nas longuíssimas durações e eles ajudam a pensar várias temporalidades diferentes. Uma delas é que tudo aquilo que existe historicamente foi criado pelo homem e que nenhuma dessas criações foi eterna (palavra que cabe melhor na boca e nos escritos de teólogos e metafísicos).
Essa lição da história nos é dada pela história de longuíssimo prazo (que Braudel chamava o tempo das estruturas) porque é do ponto de vista panorâmico dos séculos que conseguimos enxergar a efemeridade daquilo que parecia eterno aos viventes desses séculos. Assim, se para o camponês (sem a consciência moderna da história, é bom que se lembre), a servidão era uma tradição imemorial cujo fim não estava no horizonte da sua imaginação, ao historiador medievalista é dado conhecer o fato de que as estruturas da vida medieval um dia se desfizeram e outras criações humanas foram postas em marcha. O anacronismo, longa de maldição ou bênção, é a força constitutiva da história.
Assim, se o presentismo contemporâneo nos leva a uma “paralisia frenética” (conceito que Hartmut Rosa extraiu de Paul Virilio e que me parece amplamente expresso naquela perna que se mexe freneticamente sem sair do lugar que todo aquele que sofre de ansiedade — ou conhece alguém que sofra — conhece bem), mesmo os fenômenos sociais menos aparentemente inscritos na eternidade parecem não ter fim — até que sejam inapelavelmente esquecidos, tal como é a dinâmica dos debates nas redes sociais.
Essa digressão nos leva de volta à suposta indestrutibilidade da base bolsonarista. Como sabemos, essa base simplesmente não existia há alguns anos atrás. Essa lembrança tranquiliza porque nos lembra ao mesmo tempo da sua vulnerabilidade. As pesquisas de hoje são fotografias do momento. Mas nem sempre fotografias nos dizem sobre tudo aquilo que representam. Uma foto de um homem numa estação de trem nos informa que ele está na estação de trem, mas não se ele a deixará para viajar para outro lugar daqui a cinco minutos.
São os outros dados da pesquisa que nos informam melhor se o homem trabalha na estação de trem, se foi se despedir de um parente ou se está deixando a cidade. A altíssima aprovação do ministério da saúde e a elevada oscilação positiva das aprovações dos governadores nos dizem duas coisas: a primeira é que uma parte da aprovação do governo corresponde àqueles que não decompõem o bolsonarismo (cada vez mais isolado institucional e politicamente) do seu próprio ministério da saúde; a segunda é que a gestão responsável da crise representa hoje um enorme ativo político e que a conduta do bolsonarismo é massivamente desaprovada.
Além disso, a fotografia da realidade que a pesquisa determina por vezes não nos informa sobre o contexto daquilo para o que estamos olhando. Quando sabemos, por exemplo, que a cidade onde o homem se encontra está prestes a sofrer um abalo de grandes proporções (tal como é a chegada da peste), é possível especular com mais força o cenário em que ele está de partida. Esse é o ponto mais importante do cenário atual. Apesar do abalo na rotina já existir há algumas semanas, a crise apenas começou e se os números de que dispomos se realizarem, toda a estratégia bufônica do bolsonarismo fará com que ele seja enterrado junto com cada corpo vitimado pelo coronavírus.>>

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