Por Sindia Martins (sindiamartinsreporter@gmail.com)
Era noite de sábado e já me preparava para deixar a Praça São Salvador, em Laranjeiras, quando avistei Guilherme Pimentel com a esposa em meio a um grupo de pessoas. Eles estavam em campanha eleitoral. Havia algumas semanas tinha decidido votar nele para candidato a Deputado Federal, pelo trabalho junto às mães que perdem filhos e parentes nas favelas para a violência de Estado. Fiquei contente em reencontrá-los. Da última vez que nos vimos foi durante o júri popular do Caso Thiago Flausino, em fevereiro deste ano. O jovem de 13 anos havia sido assassinado no dia 07 de agosto de 2023, na Cidade de Deus. Um tiro de fuzil pelas costas, mais dois nas pernas e no quadril, enquanto estava na garupa de uma moto. Os policiais acusados do crime mentiram na delegacia e no seu próprio batalhão, o Choque: afirmaram que estavam em uma viatura com a sirene ligada e que haviam sido atacados. As imagens de câmeras de segurança e as testemunhas desmentiram a versão, provando o uso do carro particular em uma ação que sequer tinha registro.
Em dois dias de julgamento os assassinos saíram livres — mesmo os jurados reconhecendo que eles efetuaram os disparos. Foi um baque; dezenas de outras mães que também tiveram seus filhos assassinados ficaram na porta do Fórum consolando Priscila, a mãe, e Cláudia, a tia de Thiago. Elas estavam exaustas, haviam passado dois dias ouvindo que Thiago tinha envolvimento com o tráfico como justificativa para o crime. Guilherme esperou todas irem embora com segurança. Depois, com a Rua Dom Manuel quase vazia, ergueu o celular e fez um vídeo argumentando o absurdo do ocorrido. O mais provável era que Thiago havia sido assassinado quando os policiais foram cobrar arrego para o baile funk funcionar. Sem pagamento alguém sempre morre. E essa era a política de segurança pública mais conhecida da cidade.
Naquela noite na Praça São Salvador, no entanto, o clima era diferente. Guilherme e a esposa pareciam cansados, mas felizes, sem uma ruga de amargura no rosto: o sorriso não tinha o ranço que as disputas políticas parecem entalhar na expressão dos candidatos. Me aproximei para cumprimentá-los. Ele falava sobre o trabalho na Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência do Estado (RAAVE), que ele hoje coordena tecnicamente. É uma rede tão importante que as próprias mães de favela foram às redes sociais apoiar sua candidatura. A RAAVE nasceu como um mutirão de cuidado montado depois da Chacina do Jacarezinho, em 6 de maio de 2021, quando 28 pessoas foram assassinadas em uma das operações policiais mais letais da história do Rio.
Na época, Pimentel era ouvidor-geral da Defensoria Pública e já acompanhava de perto o despreparo do Estado para acolher as famílias das vítimas. Para suprir essa falta, a RAAVE oferece atendimento jurídico e psicossocial, além de refeições coletivas, oficinas e encontros mensais de formação política — oferecidos a mães que perderam filhos, quase sempre em ações da polícia; em 2024 chegou a viabilizar cem bolsas de pesquisa na UFRJ para essas mulheres, a maioria moradora de favela e sobrevivendo com menos de um salário mínimo.
Foi Pimentel quem me lembrou do ato: “Brasil com Lula nas Ruas”, marcado para aquele domingo, 13 de setembro, em Copacabana. Era uma mobilização nacional puxada pelo PT e partidos aliados na reta final da campanha. Torci o nariz. Embora, pela primeira vez desde que comecei a votar, estivesse genuinamente alegre em votar em pessoas como Pimentel, não tinha a menor vontade de manifestar apoio ao Lula, especialmente após este último mandato.
No dia seguinte, ao entrar nas redes sociais, me deparei com um vídeo de Mônica Cunha, candidata a deputada estadual. A primeira vez que ouvi falar dela foi entrevistando Ana Paula de Oliveira, uma das Mães de Manguinhos que teve o filho assassinado por policiais no Rio. Ela me contou que Mônica fundou o Movimento Moleque, em 2003, para amparar mães de jovens ameaçados ou mortos pela polícia. E, três anos depois, teve o próprio filho, Rafael, assassinado pela polícia aos 20 anos. Se estivesse vivo, Mônica contava emocionada no vídeo, Rafael completaria 40 anos naquele domingo.
Me vesti, pedi uma moto e fui para Copacabana. Queria estar ao lado dela. Ainda acreditava que era importante lutar. Mas, ao decidir participar do ato, me veio a imagem de Benedita da Silva e Marcelo Freixo dividindo palanque com Eduardo Paes e Pedro Paulo. Benedita, mulher pobre, cria da Maré, única mulher eleita senadora. Freixo, que teve o irmão assassinado por milicianos e criou uma CPI para investigar essas facções criminosas. Ao lado de Eduardo Paes, famoso pelas violentas remoções durante a Copa e os Jogos Olímpicos e por rifar a cidade para a especulação imobiliária, tornando o Rio, a cada mandato, uma das cidades mais caras do mundo para se morar. E de Pedro Paulo, candidato ao Senado, acusado pela própria esposa, Alexandra Marcondes, entre os anos de 2008 e 2010, de violência doméstica na frente da filha de dois anos: socos, pontapés, “agarrões no pescoço”, olho roxo e um dente quebrado. Essa aliança exigia um esforço que o domingo nublado não ajudava.
E havia mais para digerir. O ministro Alexandre de Moraes, figura importante na articulação que possibilitou a reeleição de Lula, estava envolvido até o pescoço no escândalo do Banco Master, a maior fraude do sistema financeiro do país. Contratos entre o escritório da esposa do ministro, Viviane Barci, e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco falido, tratavam de um acerto que previa R$ 131 milhões em três anos — R$ 3,6 milhões por mês —, dos quais ao menos R$ 80,2 milhões teriam sido efetivamente pagos ao longo de 22 meses. Advogados consultados pela imprensa classificaram o valor como sem paralelo no mercado jurídico. Na advocacia de elite do país, a hora de trabalho de um grande especialista custa em torno de R$ 3 mil. Mesmo em causas complexas nos tribunais superiores, a OAB costuma fixar honorários na casa das dezenas de milhares de reais, e não milhões. Para se ter uma ideia da desproporção: até mesmo o maior escritório do Brasil (o Mattos Filho), que fatura R$ 1,7 bilhão por ano, dificilmente consegue um contrato em que um único cliente pague R$ 40 milhões.
Cheguei pontualmente às 13h, hora marcada para a concentração — a caminhada só sairia às 15h. O local: em frente ao Copacabana Palace, o hotel mais caro do Brasil, onde a diária mais em conta gira em torno de R$ 2.500, e a mais cara, em torno de R$ 32 mil. Um só dia num quarto mais barato equivale a mais do que um salário mínimo, mais do que o mês inteiro trabalhado. Era realmente contrastante com a vida da maioria dos brasileiros. Atravessei a rua em direção ao lado da pista fechado aos carros. O céu seguia nublado, mas não chovia. O balão inflável em formato de globo terrestre estava metade cheio, pessoas distribuíam adesivos e algumas bandeiras de candidatos e partidos ainda estavam enroladas no mastro. O sentido parecia afundar feito Titanic no mar da realidade.
Tentei em vão resgatar o motivo que me levava ao ato ao lembrar das últimas pesquisas da semana, que registravam empate técnico entre Flávio Bolsonaro e Lula num eventual segundo turno. Lula é infinitamente melhor do que Bolsonaro, mesmo diante dos escândalos. Lula era indefensável e, mesmo assim, era a melhor alternativa. Uma verdade muito dura, que maltratava o ânimo. O ato em Copacabana era importante para medir o quanto esses escândalos estavam afetando o eleitorado do presidente. O ato era importante para traçar o destino do país.
Às 14h30 já estava difícil caminhar entre a multidão. Uma senhora com cabelos brancos em um corte assimétrico, bem magra e elegante, passou por mim; logo depois esbarrei numa mulher de cabeleira enorme, black power tingido de loiro, plena de si; quase tropeço em um pai que ajeitava o filho pequeno em cima dos ombros; um senhor de idade levava no colo um Pinscher vestido com chapéu de palha e com a roupa de cachorro coberta por adesivos em apoio a Lula. Mais à frente, vejo o humorista Gregório Duvivier ao lado da esposa e das filhas pequenas. Já havia cruzado com ele na manifestação que aconteceu na Penha, em repúdio à Operação Contenção, que deixou um saldo de mais de 122 pessoas mortas, e um policial sem uma das pernas, que até hoje não encontrou amparo do Estado para comprar uma prótese. Avistei uma amiga da roda de samba que me fez um aceno. Entre nós, um caminhão-palco que servia de palanque aos candidatos.
Cada um deles, ao pegar o microfone, deixava claro o recado do governo federal: é preciso decidir as eleições no primeiro turno. Caberia ao eleitor limpar a sujeira que vinha sendo produzida há bastante tempo também pela própria esquerda. Como o linchamento no final de agosto que aconteceu dentro do IFCS da UFRJ a um estudante de história. Diego Costa Araújo foi espancado por dezenas de alunos de esquerda que acreditavam lutar contra o nazismo. Diego vestia uma camiseta da banda britânica Death in June, estampada com uma caveira, e trazia um button antinazista na jaqueta — uma suástica dentro do símbolo proibido riscado de vermelho. No calor do acontecimento, os alunos acreditaram que se tratava de uma apologia a grupos supremacistas e decidiram fazer justiça. Os professores não fizeram nada para impedir. Ao contrário, dias depois assinaram um manifesto em apoio aos alunos. Esse fato dá a dimensão do buraco em que nos encontramos e mostra como essas eleições estão à flor da pele. O linchamento foi filmado; e o que a universidade ainda apura são as consequências e as acusações cruzadas de agressão física e injúria racial que vieram depois — não a gravidade do episódio que de fato ocorreu.
Uma hora depois do início da caminhada pela Avenida Atlântica, percebi que Paes não estava presente. Quando ele saiu para disputar o governo, deixou seu vice, Cavaliere, como prefeito. Dando continuidade às políticas de seu antecessor, uma das medidas colocadas em prática foi o projeto “Tolerância Zero”, que criminaliza o trabalho de ambulantes na orla da praia. Numa cidade onde quase 40% dos trabalhadores atuam na informalidade, o resultado foi uma enxurrada de vídeos nas redes sociais, mostrando vendedores implorando para que a Guarda Municipal não lhes retire o sustento da família. E a resposta desses funcionários públicos, recentemente autorizados a portarem armas, foi a violência: cenas de espalhamento de medo, espancamentos de homens e mulheres, descarte de material de consumo na frente de trabalhadores desesperados e apreensão de equipamentos que só voltam a ser liberados mediante pagamento. Talvez a ausência de Paes tenha possibilitado a presença de Maria dos Camelôs, fundadora do Movimento Unido dos Camelôs (MUCA), que luta ao lado do Ministério Público para que a prefeitura recue.
Maria discursou ao lado de uma das principais candidatas ao Senado da cidade, Mônica Benício. Após dois mandatos como vereadora, a viúva de Marielle Franco decidiu dar um grande salto e concorrer à Câmara Alta. Não só por conta do sucesso de sua reeleição em 2024, mas também pela necessidade de renovar uma casa cuja composição hoje mantém frentes ligadas à bancada chamada de BBB (Boi, Bíblia e Bala). Como arquiteta e urbanista com mestrado focado no direito à cidade, Mônica tem como uma das pautas de sua campanha o combate ao financiamento ao crime organizado. Ela defende que a expansão territorial do crime está ligada a quem lucra com a desigualdade. Para a candidata, os reais comandantes do crime estão com a caneta na mão e não segurando fuzis nas favelas.
Por volta das 17h, a chuva se intensificou e aos poucos dispersou o ato. Parei em um restaurante lotado de manifestantes na Avenida Prado Júnior para almoçar. Cerca de 15 minutos depois, Freixo passou na calçada e foi ovacionado. As pessoas ainda lembravam da campanha de 2022, quando o PT exigiu apoio a André Ceciliano ao Senado, a fim de diminuir a vantagem de Jair Bolsonaro no Estado. Como presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio, Ceciliano cultivava relações com Waguinho de Belford Roxo, que tinha laços estreitos com chefes da milícia na cidade. Freixo foi obrigado a voltar atrás em seu apoio a Alessandro Molon para o Senado, que liderava as pesquisas. A articulação garantiu 43,5% dos votos válidos a Lula no segundo turno. Mas também trouxe prejuízos não só à imagem do PT, mas também à de Freixo, que havia acabado de sair do PSOL e aderir ao PT para garantir sua candidatura a governador. Tanto que, naquele ano, Cláudio Castro se tornou governador com 58,67% dos votos válidos. E pior: três anos depois, veio a público defender a “Operação Contenção”, considerada a maior chacina do Rio, como modelo de solução ao crime organizado nas favelas. Ele literalmente usou 122 assassinatos como palanque e só não concorreu às eleições deste ano por abuso de poder político na campanha de 2022. Na ocasião, contratou pessoas sem concurso público, utilizando dinheiro do Estado de forma irregular para impulsionar a própria candidatura. O saldo disso é a candidatura do ex-secretário de segurança pública Felipe Curi, responsável pela operação, a uma vaga a deputado federal. Seu número de urna, 1122, foi lido por observadores, como a jornalista Cecília Oliveira, do Fogo Cruzado, como referência aos 122 mortos.
Hoje, terça-feira, 15 de setembro de 2026, faltam 19 dias para o dia 04 de outubro, quando iremos às urnas recompor o Congresso e escolher o presidente da República. As pesquisas já mostram um leve restabelecimento de Lula à frente do pleito, após os últimos escândalos envolvendo o ministro do STF. Mas a disputa com Flávio ainda se mostra acirrada. Resta à população digerir tudo isso, e votar em nome próprio, sem defender “eu” algum.
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