Destaques Quadrado dos Loucos

Kafka é o Eros da burocracia

Esse o gesto principal de Deleuze e Guattari em ‘Pour une littérature mineure’ (1975), quando arrancam Kafka de uma longa canonização que o fizera escritor da culpa metafísica, do absurdo existencial ou do esmagamento diante das formas modernas de poder.

De uma leitura à outra, mudava o nome do vilão ontológico — Deus Oculto, exílio, absurdo, Lei, Pai, burocracia, totalidade social — e permanecia a suma gravidade de fundo, como se a obra orbitasse sempre uma transcendência retirada, ou sua secularização em poderes tão pervasivos e onipresentes quanto inalcançáveis. Kafka tornara-se um monumento cinzento.

Nada disso no livro a quatro mãos de D&G. O primeiro gesto é trocar o monumento pela máquina, onde a obra kafkiana volta a funcionar. A linha de fuga corre entre as peças, prolongando ligações, desviando percursos, fazendo variar o campo em que se abre. Kafka ri, escrevem, profondément joyeux, tomado por uma joie de vivre que persiste até na doença e diante da morte (p. 74). A alegria está no movimento que a escrita põe em curso.

As duas provocações aparecem lado a lado — em Kafka tudo é riso (“tout est rire”, p. 76), a começar por ‘O processo’; tudo é política, a começar pelas cartas a Felice.

Não se trata de colorir o Kafka cinzento. Isso seria banal. Psicologizá-lo de novo, ainda que em registro luminoso, seria apenas mudar a iluminação do mesmo mausoléu hermenêutico.

A psicanálise adora reconduzir Kafka ao segredo íntimo. Na recepção francesa, Camus ainda o conduziu ao grande guichê de informações filosóficas sobre a Condição Humana, ao passo que Sartre veio por outra porta, fazendo do fantástico kafkiano uma de suas linguagens (ao menos, ele dispensou os chavões da Praga mágica, a da bruma turística, com seus golems e cabalas).

Deleuze e Guattari querem desmontar o balcão. A alegria designa agora o movimento do desejo quando ele liga e inventa relações. A sombra permanece, mas perdeu o privilégio de dizer a última palavra.

No Kafka político, tribunais e repartições deixam de servir de cenário para um poder colocado acima dos personagens. A burocracia funciona por dentro das relações de desejo que a compõem. D&G retiram do poder sua majestade teológica e o devolvem às relações concretas em que ele se exerce.

A máquina kafkiana se compõe nas próprias relações por onde a vida transita.

Em ‘A metamorfose’, o movimento passa pelo corpo. Gregor Samsa acorda animal e, a partir daí, a casa inteira precisa se reorganizar em torno de uma presença que já não cabe em suas antigas relações. O quarto deixa de ser apenas quarto. A vida doméstica adquire outras medidas. Antes de qualquer interpretação, a metamorfose produziu seus efeitos.

Para D&G, esse devir abre uma passagem que a família pouco a pouco torna a fechar, até a morte de Gregor. Sim, é verdade que a morte marca aqui o fechamento da passagem. O ponto é que ela chega tarde demais para governar retrospectivamente tudo o que a precedeu, — tudo o que já se passou.

Já em O processo, Josef K. começa olhando para cima e logo aprende a andar de lado. Procura a Lei e encontra a sala contígua. A passagem de um funcionário a outro conduz sempre a outra repartição. A Justiça perde altura e ganha vizinhança, enquanto K. só a encontra em movimento, de sala em sala, e a suposta instância última recua para o escritório ao lado.

As mulheres pertencem a esse circuito do romance. Leni encontra a porta de serviço e retira K. de uma sala, mas ele sai levando junto ainda mais processo. O encontro sexual desloca K. dentro da engrenagem, de modo que Leni, longe de interromper o processo, abre uma continuação lateral.

Em ‘O Castelo’, a topologia é ainda mais estranha. K. quer contato, alguma ligação com o castelo e cada tentativa de obtê-los o entrega a uma nova mediação. A proximidade nunca se acumula como progresso rumo a um centro. Barnabé atravessa barreiras que nunca chegam a fixar uma segmentação nítida. Atrás de um escritório aparece outro, e Klamm tampouco se estabiliza como a instância que encerraria a sua jornada. Cada contato abre outra relação, que por sua vez remete adiante e assim sucessivamente. Aos poucos, a fortaleza distante ganha a densidade dessas cadeias de adjacências. A distância entre K. e o castelo é continuamente produzida pelas relações que o aproximam dele.

No ‘Castelo’, Frieda e Olga fazem o desejo circular por essa rede de acessos.

Frieda — a criada da estalagem dos burocratas e antiga amante de Klamm, — aparece para K. desde o início como uma proximidade possível com o funcionário que ele tenta alcançar. Quando se liga a ela o desejo amoroso já toca o Castelo.

Olga abre outro caminho. Irmã de Barnabé, pertence à família que vive sob a desgraça provocada pela recusa de Amália ao funcionário Sortini e mantém, por meio dos criados do Castelo, os contatos dos quais espera alguma reparação. Ao aproximar-se de Olga e de sua família, K. não troca de companheira. Muda a via pela qual procura chegar ao Castelo.

D&G observam que Frieda rompe com K. porque entende sua aproximação de Olga como uma infidelidade amorosa. Só que, no romance, a infidelidade coincide com uma mudança de via, pois, ao confiar nos “contatos” de Olga, K. passa a procurar o Castelo por outra rede de relações. (p. 123.)

As cartas empurram a mesma lógica até a intimidade.

Na interpretação da ‘Carta ao pai’, Deleuze e Guattari investem contra a leitura edipiana que encontravam, entre outros, na crítica literária de Marthe Robert. O movimento da carta lhes interessa porque Hermann Kafka cresce até deixar de caber no triângulo familiar. À medida que o pai aumenta, entra em cena também a história que possibilitou a sua autoridade. O pai que sai do meio judaico rural e encontra lugar na pequena burguesia germanófona de Praga traz consigo as acomodações e submissões exigidas por essa trajetória de ascensão, que reaparecem na forma de sua autoridade paterna.

Ou seja, na ‘Carta ao pai’, Édipo engorda até virar um gigante que esmaga o divã. O humor nasce aqui de levar o pai a sério demais, até que a própria “revolta contra o pai” acabe assumindo o gênero da comédia.

Nas cartas a Felice, a correspondência ainda trabalha a favor do vínculo. Kafka permanece no quarto, enquanto a carta realiza o trajeto que ele adia com o corpo. Felice se torna presente sem deixar de estar longe, e essa distância preservada nutre a relação. A carta permite aproximar-se sem chegar, amar sem converter o amor em vida conjugal. Em D&G, ela deixa assim de ser simples veículo de um sentimento anterior e passa a participar da produção desse sentimento. Kafka escreve para se ligar, e a ligação só existe na singularidade que a escrita lhe dá.

Com Milena, a mesma máquina mostra o avesso. Ela já pode ser tratada como cúmplice de uma experiência que Kafka aprendeu a reconhecer. É a ela que escreve sobre a maldição das cartas e sobre os fantasmas que interceptam os beijos confiados ao correio. O contraste com o avião é brutal. O avião vence a distância levando o corpo; já a carta a atravessa sem suprimi-la e pode até devolvê-la sob forma fantasmal. O meio encarregado de aproximar passa a participar do que separa. Para D&G, importa esse caráter produtivo da carta. O desejo se cria no ciclo que a correspondência põe em movimento e pode acabar enredado nele.

Em julho de 1914, no Askanischer Hof, a maquinaria epistolar volta sobre Kafka. Diante de Felice, Erna e Grete Bloch — amiga de Felice com quem vinha se correspondendo —, ele vê as próprias cartas a Grete retornarem como matéria de acusação sobre suas hesitações diante do casamento com Felice. D&G dão à cena o nome de “Procès à l’hôtel” (p. 59).

A força do episódio no hotel berlinense está em mostrar que o tribunal se forma a partir da correspondência. Quando as cartas retornam ao remetente, o que antes suportava o vínculo muda de função e passa a organizar a cena de seu julgamento.

D&G fazem dessa mobilidade uma das forças da máquina kafkiana. As relações não chegam ao texto trazendo consigo uma função definitiva, pois é no percurso que elas adquirem eficácia e podem mudar de uso. No Askanischer Hof, a correspondência amorosa não desaparece quando se torna matéria de acusação. Continua funcionando, agora de outro modo.

*

É aqui — digo eu — que Kafka volta a ser inatual para nós.

Seria raso promovê-lo a profeta da inteligência artificial, das big techs ou das plataformas, como se bastasse trocar o uniforme do funcionário pela interface para restaurar a velha parábola do homem esmagado por um mecanismo que cresceu demais. O futuro teria apenas atualizado o cenário, Kafka continuaria diante da mesma porta da Lei e a crítica retornaria com a mesma moral na bagagem. Não nos serve.

O fato é que parte de nosso vocabulário crítico ainda depende dessa repartição entre estrutura e indivíduo, mesmo depois de abandonar qualquer nostalgia por um sujeito autônomo anterior à técnica. Persiste a precedência do mecanismo total, que entra na análise já constituído e faz cada relação local comparecer como efeito de uma lógica cujo sentido se supõe conhecido antes mesmo de examinarmos seu funcionamento, embora já estejamos implicados nele. A crítica corre então o perigo de reconhecer por toda parte o que sua perspectiva já havia disposto desde o princípio.

Kafka, lido por Deleuze e Guattari — e vice-versa — estraga essa comodidade. A bem dizer, o político já apareceu onde a crítica costumava procurar outra coisa, na família de Hermann, na correspondência com Felice, na porta que Leni abre e nos contatos que aproximam K. do Castelo.

A questão é saber o que se ganha ao procurar o poder desse modo.

Deleuze e Guattari formulam a diferença com algum topete: se Kafka houvesse querido descrever os “méfaits du machinisme et de la bureaucratie” (p. 68), teria escrito outro gênero de romance — talvez um romance realista. A burocracia apareceria como o objeto sombrio diante do qual os personagens se debateriam, e Kafka perderia aquilo que os dois identificam na violência de um “Éros bureaucratique, policier, judiciaire, économique ou politique”(p. 68).

Algumas páginas adiante, D&G chamam esse procedimento de desmontagem (não a exposição das capturas, nem a “crítica imanente”). Kafka não apresenta a máquina terminada para que possamos condená-la. Sua obra faz o agenciamento funcionar de tal modo que suas ligações se explicitem no movimento. O desmonte lhes parece “beaucoup plus efficace qu’une critique” (p. 84) porque a representação é percorrida até que a necessidade aparente do conjunto revele as conexões de que depende e, com elas, outras disposições possíveis. A experimentação kafkiana adquire aí, para os dois, a força de um protocolo social e político (p. 88).

O problema deixa então de caber na denúncia dos malefícios da máquina, porque a burocracia precisa ser acompanhada no interior das relações e dos investimentos de desejo pelos quais ela funciona e sem os quais não funcionaria em primeiro lugar.

Abrimos o feed e o gesto pelo qual uma preferência se manifesta já participa da composição do que voltará a orientá-la, por meio dos rastros que deixa. O clique presente intervém na recomendação diante da qual ocorrerá o seguinte, enquanto a plataforma organiza essa assimetria e dela extrai poder sem ocupar uma posição exterior ao desejo que modula.

Quando a Lei perde a altitude que lhe emprestava a imagem da soberania e transcendência, o poder se torna menos majestoso e bastante mais difícil de abstrair das relações pelas quais se exerce. Josef K. olha para cima e encontra a porta ao lado, e quanto mais procura uma instância capaz de responder pelo conjunto, mais o processo se distribui pelas conexões que asseguram sua continuidade.

D&G insistem nessa segmentação por contiguidades porque ela retira da totalidade o privilégio de comparecer como causa prima sem diminuir em nada a realidade da dominação. A análise do poder ganha precisão quando acompanha os agenciamentos em que ele se efetiva.

O riso kafkiano preserva essa anterioridade do movimento quando a interpretação converte o fim em telos, como se a morte de Gregor pudesse, in retrospectu, absorver a metamorfose inteira ou a execução de K. revelar o que o processo sempre fora. Uma passagem que se fecha já tem atrás de si uma história que o fechamento não consegue revogar.

A linha de fuga pertence a essa temporalidade desassossegadora e tampouco recebe garantia política antecipada. D&G recusam separar das máquinas de poder um desejo previamente revolucionário, pois somente no movimento do agenciamento se distingue aquilo que endurece daquilo que ainda varia.

‘A toca’ (Der Bau) leva essa imbricação ainda mais longe. Seu estranho animal dedica inteligência e prazer à construção que habita, modificando-a à medida que nela descobre novas exigências, até que a obra à qual entregou tamanho engenho se envolve também na inquietação que termina por invadi-lo.

Esse Kafka é inconveniente para toda crítica que antecipa a captura como princípio de inteligibilidade. A máquina já integra a forma de vida que procura nela uma saída. A realidade do poder e da repressão permanece intacta, mas nenhum dos dois basta para explicar o agenciamento que os torna operantes.

É por causa disso que desmontar importa mais a D&G do que denunciar. A desmontagem obriga a descobrir de quais ligações uma forma de poder necessita para funcionar.

Eros burocrático e Eros algorítmico podem ser lidos in controluce, sem conceder a Kafka a falsa glória de ter previsto nossas plataformas. O parentesco está na exigência de reconstruir o poder a partir das relações que o fazem funcionar, fazendo do “sistema” objeto de explicação, em vez de causa já pronta. A análise se desloca então para os pontos em que essas relações se territorializam e onde sua desmontagem ainda pode ser acompanhada.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka. Pour une littérature mineure. Paris: Les Éditions de Minuit, 1975.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente a posição da Universidade Nômade.