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“E já são mais de quatro anos…”, na Ucrânia, entre os drones e os data centers, combate-se o novo fascismo mundial

Felipe Fortes[1]

Entre 8 e 11 de outubro, drones ucranianos atingiram centros de dados da Yandex — gigante tecnológica considerada o “Google russo”, que opera o principal buscador do país, além de serviços de mapas, transporte por aplicativo e computação em nuvem — em Sasovo, Kaluga e na região de Vladimir[2]. Os ataques provocaram incêndios, interrupções de serviços e uma queda acentuada do tráfego dessas redes. Essa ofensiva ocorreu depois da intensificação dos ataques russos às telecomunicações ucranianas, que interromperam conexões de milhares de domicílios e comprometeram centros de dados[3]. Essa destruição integra uma escalada mais ampla de bombardeios russos contra a infraestrutura civil ucraniana, incluindo instalações de eletricidade e aquecimento, às vésperas do inverno. Em 30 de setembro, por exemplo, ataques atingiram instalações de geração, transmissão e distribuição de energia em três regiões e em Kyiv, provocando apagões emergenciais. Em 19 de outubro, um drone russo atingiu o parque central de Nova Vodolaha, na região de Kharkiv, onde famílias passeavam com seus filhos. Seis pessoas morreram, entre elas duas meninas, uma com pouco mais de um ano, morta em seu carrinho de bebê. Outras quinze pessoas ficaram feridas, incluindo sete crianças[4]. Essa campanha acompanha, portanto, o aumento da letalidade da guerra contra a população: somente em setembro, a ONU registrou 328 civis mortos e 2.105 feridos — um total de vítimas 85% superior ao de setembro de 2025[5].

É nesse contexto que os ataques ucranianos aos data centers russos chamam a atenção para as bases materiais da guerra cognitiva que atravessamos e denuncia os czares do Kremlin, os patronos da extrema-direita mundial. Segundo o Centro de Combate à Desinformação da Ucrânia[6], o volume de mensagens de contas com sinais de comportamento inautêntico caiu 83,6% em 8 de outubro, após o ataque ao centro de dados de Sasovo. No grupo específico de contas que difundiam justificativas para a agressão russa, teorias conspiratórias e incitação à hostilidade, a redução foi de 77,8%. O levantamento abrangeu Facebook e Telegram no espaço informacional ucraniano e registrou uma recuperação da atividade nos dias seguintes.

Do outro lado do Atlântico, enquanto isso, crescia a pressão contra a resistência ucraniana, em meio à hipótese de que os ataques aos data centers russos teriam interrompido também a atividade de bots pró-MAGA (Make America Great Again), alinhados ao trumpismo[7]. A reação trumpista, com a proximidade das midterms, foi, no entanto, imediata: em 10 de outubro, Trump exigiu que Kyiv interrompesse os ataques às refinarias russas e sugeriu que os ucranianos escolhessem outro presidente. Elon Musk acompanhou a ofensiva, afirmando no X que Zelensky havia ido longe demais e apoiando sua substituição[8]. Em 19 de outubro, Trump voltou à carga: sugeriu que outra pessoa negociasse em nome da Ucrânia. O que essa sequência nos mostra é uma convergência política entre Moscou e Washington que não pode mais ser negada[9].

O ataque aos data centers revela o papel da Rússia na intervenção nas disputas eleitorais americanas e europeias e seu projeto de desestabilização das democracias mundo afora. Esse acontecimento nos permite apontar três questões decisivas. A primeira é a articulação entre a guerra de invasão russa, de alta intensidade, e suas dimensões híbrida e cognitiva. A guerra já está acontecendo: aos bombardeios, aos mortos e à destruição da infraestrutura ucraniana somam-se operações destinadas a manipular percepções, alimentar divisões e enfraquecer a capacidade de resistência democrática em toda a Europa e mundo afora. Sabotagens, incidentes com drones e ataques cibernéticos atingem países europeus, como reconhece a Otan[10]. Essa expansão pode assumir formas cada vez mais violentas se não encontrar capacidade material de contenção. A França oferece um exemplo dessa ofensiva: em julho, seu governo atribuiu ao serviço de segurança russo, o FSB, ataques cibernéticos contra interesses franceses, incluindo um instituto de pesquisa ligado à indústria de defesa. A vulnerabilidade das infraestruturas civis ganhou uma expressão particularmente concreta na noite de 11 para 12 de outubro, quando um ataque aos sistemas de refrigeração de centenas de supermercados franceses provocou a deterioração e o descarte de alimentos[11]. Nesse terreno, a oposição a Macron converge na defesa de restrições à resistência ucraniana: Le Pen promete interromper o financiamento a Kyiv, enquanto Mélenchon defende limitar os ataques ucranianos[12].

Tudo isso ocorre em meio a uma nova onda de mobilizações europeias. Na França, os bloqueios e protestos de estudantes secundaristas contra a falta de professores, a precariedade das instalações e a superlotação das escolas, iniciados em setembro, convergiram, em 17 de outubro, com manifestações contra o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos, reunindo estudantes, sindicatos e participantes dos coletes amarelos[13]. Na Alemanha, mobilizações juvenis contestam a nova legislação sobre o serviço militar e o rearmamento.

O desafio, portanto, é impedir que o Kremlin capture politicamente esse descontentamento[14]. Afinal, aos problemas internos somam-se os custos econômicos e sociais da guerra de agressão russa, que seus propagandistas procuram converter em argumentos contra o apoio à Ucrânia. Ao amplificar essas mobilizações, associam a precariedade das escolas e dos serviços públicos aos gastos militares, apresentando a defesa europeia e a solidariedade com os ucranianos como responsáveis pelo abandono das populações. Devemos evitar, a todo custo, que os falcões do Kremlin instrumentalizem esse descontentamento das multidões europeias, transformando os efeitos da própria agressão em argumentos contra o apoio à Ucrânia e, portanto, em instrumentos de desestabilização das democracias europeias em favor de Putin.

A segunda é a aliança entre Putin e Trump, cujos projetos convergem na tentativa de redesenhar as linhas do nomos global constituído a partir da queda do Muro de Berlim[15]. Nesse cenário, a resistência ucraniana sofreu um duro golpe na infraestrutura da qual depende para sobreviver. Em 14 de outubro, Kyiv denunciou restrições ao Starshield, serviço militar da SpaceX associado à rede Starlink, e os combatentes ucranianos viram seus terminais de controle perderem a conexão quando os drones ultrapassavam determinadas velocidades, comprometendo missões de combate, logística e interceptação[16]. Em 19 de outubro, Zelensky ainda denunciava as limitações que prejudicavam a interceptação dos drones russos a jato[17]. A consequência é, portanto, dramática: os mesmos drones com que os ucranianos reinventam sua defesa podem perder a conexão necessária para proteger soldados e cidades.

A proximidade das midterms, em 3 de novembro, agrava essa pressão. Trump procura reduzir o custo eleitoral dos combustíveis caros, negocia diesel com Putin e responsabiliza os ataques ucranianos às refinarias russas por dificultar a queda dos preços. O diesel, portanto, aparece como mais uma manifestação da aliança trumpista-putinista[18]: os interesses eleitorais de Trump encontram os interesses militares de Moscou na pressão para limitar a iniciativa ucraniana.

A terceira é a necessidade de um projeto europeu, republicano e democrático, capaz de assumir as consequências materiais da defesa da democracia, fazendo do apoio militar à resistência ucraniana e da construção de uma capacidade própria de defesa tarefas inseparáveis e urgentes. Isso exige acelerar entregas de munições, sistemas antiaéreos, drones e interceptadores, ampliar a produção conjunta e garantir comunicações que não fiquem à mercê da conveniência política trumpista. O apoio europeu precisa ganhar continuidade, escala e autonomia, como reconhece o próprio Conselho Europeu[19].

Esse projeto precisa encontrar as multidões que hoje se levantam por escolas, serviços públicos, empregos e condições dignas de vida. Elas não desejam a guerra — ninguém a deseja, é verdade, salvo os próprios fascistas. Mas já estão nela: seus efeitos econômicos atingem a vida cotidiana, enquanto operações de desestabilização atravessam suas sociedades e ameaçam as condições democráticas de suas próprias lutas. A verdade é que a resistência ucraniana contém militarmente o agressor e dificulta, portanto, a expansão de sua capacidade de coerção sobre o restante da Europa. Ao fazê-lo, ajuda a preservar o espaço democrático em que essas multidões podem, assim, lutar por reformas. Apresentar o apoio à Ucrânia como fator de agravamento da crise europeia inverte o problema e distorce a percepção de suas causas: é a resistência ucraniana, o fiador da democracia europeia e que ajuda a impedir que a agressão russa e a guerra que ela desencadeou aprofundem e alastrem ainda mais essa crise. É verdade que a Europa enfrenta problemas sociais e políticos próprios, mas o Kremlin procura transformar seu agravamento em arma contra ela. O que os novos levantes precisam aprender é reconhecer na causa ucraniana uma condição para a própria recomposição democrática mundial e, portanto, para conquistar reformas, ampliar direitos e transformar democraticamente a Europa.

O fato é que, na Ucrânia, se combate o novo fascismo mundial. E, mais uma vez, a resistência e o desejo democrático da multidão ucraniana demonstraram seu valor. E, mais uma vez, a infâmia daqueles que ridicularizam sua luta sofreu um duro golpe. Mesmo os mal-informados, os revisionistas, os esquerdistas saudosistas do stalinismo, os decoloniais e os antiocidentais já não podem sustentar, sem enrubescer, a relativização do conflito que desemboca na defesa dos agressores. Quanto aos cínicos, que já fincaram seu baluarte contra os ucranianos desde o início da guerra, resta expor sua cumplicidade com o fascismo — putinista e trumpista. E já são mais de quatro anos…

[1] Filósofo, professor e pesquisador pós-doc no PPG de Comunicação e Cultura da UFRJ, com bolsa de pesquisa da FAPERJ. E-mail: ffortes1992@gmail.com

[2] LITNAROVYCH, Vlad. Three Yandex data centers hit in four days—now all of its supercomputers may be down. UNITED24 Media, 12 out. 2026. Disponível em: https://united24media.com/defense-tech/three-yandex-data-centers-hit-in-four-days-now-all-of-its-supercomputers-may-be-down-23332. Acesso em: 20 out. 2026.

[3] GAVIUK, Tetiana. Ukraine’s internet: Russia’s new frontline? ACLED, [s. d.]. Disponível em: https://acleddata.com/expert-comment/ukraines-internet-russias-new-frontline. Acesso em: 20 out. 2026.

[4] MYRONYSHENA, Tania. ‘Absolute atrocity’ — Russian drone strike on park in Kharkiv Oblast kills children. The Kyiv Independent, 19 out. 2026. Disponível em: https://kyivindependent.com/russian-drone-strike-on-park-in-kharkiv-oblast-kills-children-and-infant/. Acesso em: 20 out. 2026.

[5] UNITED NATIONS HUMAN RIGHTS MONITORING MISSION IN UKRAINE. Protection of civilians in armed conflict — September 2026. 15 out. 2026. Disponível em: https://ukraine.ohchr.org/en/Protection-of-Civilians-in-Armed-Conflict-September-2026. Acesso em: 20 out. 2026.

[6] CENTER FOR COUNTERING DISINFORMATION. Analytical report ‘When bots go silent: what the strikes on “Yandex” data centers affected’. 15 out. 2026. Disponível em: https://cpd.gov.ua/en/report/analytical-report-when-bots-go-silent-what-the-strikes-on-yandex-data-centers-affected/. Acesso em: 20 out. 2026.

 

[7] IRVINE-BROWN, Richard; SARDARIZADEH, Shayan; DURBIN, Adam. Is Zelensky right to say data centre strikes have taken down Russian bots? BBC News, 13 out. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/c9y7l0pm8jkko. Acesso em: 20 out. 2026.

[8] MEDUZA. Trump calls for Ukraine to choose a new president as relations with Zelensky hit their lowest point since Oval Office clash. Meduza, 12 out. 2026. Disponível em: https://meduza.io/en/feature/2026/10/12/trump-calls-for-ukraine-to-choose-a-new-president-as-relations-with-zelensky-hit-their-lowest-point-since-oval-office-clash. Acesso em: 20 out. 2026.

[9] Esse quadro deveria servir de alerta ao pensamento crítico que ainda se recusa a reconhecer no Kremlin um dos principais polos de articulação e apoio à extrema-direita internacional. Seus vínculos com partidos como o de Marine Le Pen, a AfD alemã e o FPÖ austríaco estão amplamente documentados. No Brasil, essa cegueira é particularmente deplorável: a esquerda cultiva uma paixão pelo putinismo que a torna incapaz de reconhecer o conteúdo democrático da resistência ucraniana. A contradição alcança até mesmo Lula, que defende a democracia brasileira contra o bolsonarismo, mas chegou a atribuir a Zelensky responsabilidade pela guerra equivalente à de Putin. Por que a democracia que aqui defendemos não tem o mesmo valor quando se trata dos ucranianos?

[10] NORTH ATLANTIC TREATY ORGANIZATION. NATO allies and partners meet in Bucharest to strengthen response to Russia’s hybrid activities. 19 out. 2026. Disponível em: https://www.nato.int/en/news-and-events/articles/news/2026/10/19/nato-allies-and-partners-meet-in-bucharest-to-strengthen-response-to-russias-hybrid-activities. Acesso em: 20 out. 2026.

[11] FRANCE. Ministère de l’Europe et des Affaires étrangères. Attribution à la Russie d’activités cyber malveillantes à des fins d’espionnage en France. France Diplomatie, 13 jul. 2026. Disponível em: https://www.diplomatie.gouv.fr/fr/presse-et-ressources/decouvrir-et-informer/actualites/attribution-a-la-russie-d-activites-cyber-malveillantes-a-des-fins-d-espionnage-en-france. Acesso em: 20 out. 2026.  MARCHANDON, Leo; STARGARDTER, Gabriel. Hackers heat French supermarket fridges, sparking fires and spoiling food. Reuters, 12 out. 2026. Republicado em: Investing.com. Disponível em: https://www.investing.com/news/stock-market-news/hackers-heat-french-supermarket-fridges-sparking-fires-and-food-losses-4944916. Acesso em: 20 out. 2026.

[12] CASSINI, Sandrine; CHASTAND, Jean-Baptiste. On Ukraine, Mélenchon walks a fine line. Le Monde, 26 set. 2026. Disponível em: https://www.lemonde.fr/en/politics/article/2026/09/26/on-ukraine-melenchon-walks-a-fine-line_6757980_5.html. Acesso em: 20 out. 2026.

[13] CORBET, Sylvie; LE DELEY, Jade. Clashes, fires and looting break out as protesters rally across France, joining students. Associated Press, 17 out. 2026. Disponível em: https://apnews.com/article/france-school-protests-yellow-vest-44b9d3ba91ffad4029f975dced7e31cb. Acesso em: 20 out. 2026.

[14] STAROST, Sasha; LIAMIN, Evgenii; KUROPTEV, Egor. From amplification to interference in German and French protests. Kremlin FIMI Weekly Analytics, 8 out. 2026. Disponível em: https://ekstrategies.org/articles/from-amplification-to-interference-in-german-and-french-protests. Acesso em: 20 out. 2026.

[15] FORTES, Felipe; COCCO, Giuseppe. Democracy First: lutas e soberania no mundo pós-Império. Universidade Nômade Brasil, 23 fev. 2026. Disponível em: https://uninomade.net/democracy-first-a-questao-venezuelana-lutas-e-soberania-no-mundo-pos-imperio/. Acesso em: 20 out. 2026.

[16] SHUMILIN, Oleksandr; ZAZULIAK, Anastasiia. Ukrainian Defence Ministry in contact with US and NATO over Starlink restriction — source. Ukrainska Pravda, 14 out. 2026. Disponível em: https://www.pravda.com.ua/eng/news/2026/10/14/8057996/. Acesso em: 20 out. 2026.

[17] PROTS, Anastasia. Zelenskyy: Starlink and Starshield stop working at speeds of 130–161 km/h. Ukrainska Pravda, 19 out. 2026. Disponível em: https://www.pravda.com.ua/eng/news/2026/10/19/8058762/. Acesso em: 20 out. 2026.

[18] HOLLAND, Steve. Trump defends Russia diesel deal as lawmakers from both parties complain. Reuters, 12 out. 2026. Republicado em: Investing.com. Disponível em: https://www.investing.com/news/commodities-news/trump-defends-russia-diesel-deal-as-lawmakers-from-both-parties-complain-4944892. Acesso em: 20 out. 2026.

[19] EUROPEAN COUNCIL. European Council conclusions on Ukraine and on European defence and security. 18 jun. 2026. Disponível em: https://www.consilium.europa.eu/en/press/press-releases/2026/06/18/european-council-conclusions-on-ukraine-and-on-european-defence-and-security/. Acesso em: 20 out. 2026.

 

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