Destaques Quadrado dos Loucos

A Copa árabe (africana)

Por Hisham Aïdi  [1] | 13/12/2022, no Africa is a country | Trad. B. Cava[2]

A campanha do Marrocos na Copa do Catar tem sido emocionante. Liderados por Walid Regragui, técnico nascido em Paris que assumiu o cargo há apenas três meses, os Leões-do-Atlas superaram todas as expectativas ao derrotar três ex-potências coloniais europeias (Bélgica, Espanha e Portugal). Agora, eles jogam com uma quarta, a França. Das rezas massivas na Indónesia às celebrações animadas pelas ruas da Somália ou da Nigéria, a seleção do Marrocos conquistou os corações de milhões de africanos, árabes, muçulmanos e imigrantes que se identificam com ela. Estamos vendo imagens que vão perdurar: as viradas ágeis de Hakim Ziyech, as arrancadas alucinantes do meia Sofian Amrabet (apelidado de “Ministro da Defesa”), o abraço depois do jogo do capitão Achraf Hakmini à sua mãe, que trabalhou como empregada doméstica em Madri enquanto criava os próprios filhos. Para os marroquinos, também vai ficar na memória a invasão do Marrocos nos estádios catarianos, o que vem cativando o mundo: a pulsação dos tambores, a batida das castanholas, as roupas coloridas e as canções elaboradas. Um dos cantos entoados pela torcida contagia dezenas de milhares torcedores: “Bougez! Bougez! li ma bougash, mashi Maghribi!” [Pula, pula! quem não pula não é marroquino!]. No Marrocos, os memes mais populares são clipes dos jogadores ou do técnico falando com a imprensa em darija [continuum de variedades do árabe dialetal faladas em Marrocos], e toda a perplexidade e comicidade que isto provoca nos observadores ocidentais e árabes. Ao importar a cultura de estádio marroquina para Doha, esta Copa também acabou trazendo debates híper-situados aos holofotes globais, a respeito da identidade e idioma marroquinos.

Os comentaristas das mídias árabes na Copa do Catar são qualquer coisa de extraordinário; a cobertura da beIN Sports, baseada em Doha, não decepcionou. O comentador tunisino Issam Chaouali tem se mostrado imensamente eloquente, poético, exagerado, com diversas referências literárias e históricas. Chaouali atinge o auge de sua performance quando cobre jogos de seleções da África e da Ásia. Em certo momento, o comentarista esportivo faz referência a Carlos Magno e aos conquistadores muçulmanos da Espanha, em outro, Chaouali cita Shakespeare, ou quase: ““Ya kun? Na’am, ya kun!” [Ser? ser!]. A seguir, vai elogiar Lionel Messi como “maníaco e monstro”, e depois está cantando o hino antifascista italiano “Bella Ciao”. Chaouali também chama a atenção dos jogadores e do mundo para a óbvia mudança geopolítica. Quando o Camarões marcou o gol contra o Brasil, Chaouali gritou: “Ya Braziwww, ya Braziww!”, enfatizando: “Mama África está em ascensão”. Quando os times de Alemanha, Espanha e Brasil foram eliminados, comentou: “As luas até podem desaparecer, mas estrelas não faltam.” Claro que a seleção marroquina atraiu grandes elogios dele: a ascensão do Marrocos seria sinal da “ambição e orgulho árabes” e de seus triunfos, prova que “o impossível não consta nos dicionários dos árabes”. Seus comentários ao redor do desempenho dos Leões-do-Atlas são realmente entusiasmantes. No contexto de um sistema de estados-nações em desmoronamento pelo Oriente Médio, guerras civis e uma feroz campanha contrarrevolucionária em curso; por 90 minutos ou mais, a possibilidade de uma identidade e língua comuns consegue se alastrar e empolgar falantes do árabe pelo mundo todo.

Até o apito final…

Mas assim que começam as entrevistas depois do jogo, as rachaduras aparecem no espelho. Nas conferências de imprensa, muitos dos jogadores marroquinos e o técnico Regragui não compreendem as perguntas colocadas pelos jornalistas arabófonos, exigindo a intervenção de tradutores. Legendas em árabe são rapidamente adicionadas na tela, num esforço para comunicar o que os marroquinos estão falando em darija. Um clipe que viralizou mostra o atacante Hakim Ziyech pacientemente escutando uma longa pergunta feita em árabe, para retrucar: “Inglês, por favor”. Ziyech, como Amrabet, cresceu falando o tarifit [uma das 23 línguas berberes, falada pelos rifenhos, no norte do país, e que usa o alfabeto tifinague]. Já o meiocampista Abdelhamid Sabiri fala tashelhit, uma língua berbere sulista, além de alemão, inglês e darija. Os desafios de comunicação se somam a uma das dimensões mais fascinantes desta Copa: assistir à cautela ocidental em relação ao árabe e à cultura árabe se sobrepor à ambivalência do Oriente Médio sobre a identidade árabe dos marroquinos.

Nas redes sociais, têm circulado listas de jogadores que são berberes/Imazighen, com apelos reiterados para que os comentaristas árabes da beIN Sports parem de referir-se à seleção do Marrocos como sendo uma equipe árabe. Debates semelhantes estão ocorrendo nas redes sociais no Ocidente: o Marrocos é africano ou árabe? Depois de passar para a semifinal, o New York Times tuitou que o Marrocos era o primeiro “time árabe” a chegar tão longe numa Copa. No dia seguinte, emitiu uma errata, corrigindo que o Marrocos era o primeiro “time africano.” A Copa do Catar estranhamente conseguiu internacionalizar dois debates internos ao Marrocos: se a língua coloquial falada pelos marroquinos é árabe (resposta curta: sim, ainda que socialmente possa ser mais adequado dizer que é “inspirada no árabe”), e se o Marrocos em si é africano ou árabe (resposta curta: ambos).

Os acadêmicos que estudam a hierarquia sociolinguística do mundo árabe notam como o vernáculo marroquino é considerado o pato feio da família linguística dos árabes, repetidamente inferiorizada em relação às variedades dialetais sírias ou egípcias. Tal inferiorização ocorre mesmo que os marroquinos em geral sejam vistos pelos demais povos árabes como poliglotas ou “mais modernos”. Ainda assim, o darija é visto como pouco sofisticado, incompreensível, e inclusive “não-árabe”. Um linguista explica: “é o dialeto árabe no qual os demais falantes árabes tropeçam e que costumam mistificar”. Vale colocar em contexto: todas as línguas faladas comumentemente pela gente, vernaculares, são influenciadas por línguas preexistentes de base, também chamadas de “substrato”, de modo que, por exemplo, os dialetos falados ao longo do Levante foram influenciados pelo aramaico, enquanto o idioma egípcio amiya pelo copta, e o marroquino ou argelino pelos diversos idiomas berberes/Imazighen. As línguas berberes, consideradas integrantes do grupo afroasiático, são faladas por cerca de 30 milhões de pessoas espalhadas pelo norte da África: do Marrocos até o Egito Oriental, e da Tunísia até o Níger. Dentro desta enorme comunidade linguística, existe uma discussão que lembra o debate norte-americano sobre o termo “latinx” [neologismo para se referir aos latinoamericanos que vivem nos EUA]: os mais velhos no Marrocos preferem a autodesignação “berbere”, enquanto ativistas mais jovens preferem “Amazigh” [que significa, literalmente, “homem livre”, plural: Imazighen], visto que “berbere” se originou da palavra árabe para bárbaro [al-barbar]. Já se falou bastante nas mídias ocidentais sobre como os funcionários catarianos permitem bandeiras palestinas nos estádios, mas aquelas do movimento LGBT são banidas. Tem sido menos comentado, contudo, sobre a presença da bandeira tricolor pan-berbere [azul, verde e amerela] ou Amazigh, visível nas seções das arquibancadas em que ficam as torcidas marroquinas ou belgas. Diferentemente da bandeira LGBT, a Amazigh foi permitida dentro dos estádios, salvo quando os funcionários confundem a segunda com a primeira.

Darija, a língua falada comumente no Marrocos, é caracterizada por um forte substrato Amazigh, assim como pelo encurtamento sistemático das vogais, o que leva a uma fonologia peculiar, e pela presença de palavras emprestadas do francês e do espanhol. Há falsos cognatos, palavras que existem tanto em árabe quanto no tamazight [continuum de variedades dialetais do berbere/Amazigh], mas com significados distintos, tais como daba [agora] e tamara [tribulação], o que acaba tornando o darija mais difícil de compreender pelos habitantes do Oriente Médio. Enquanto no Levante, “taboon” significa o forno de barro usado para fazer pão; na Tunísia, “taboona” se refere a um tradicional e delicioso pão fofo. No Marrocos, entretanto, “taboun” tem sentido denotativo da genitália feminina. Quando, em dezembro de 2019, a Argélia, arquirrival do Marrocos, elegeu um presidente chamado Abdelmadjid Tebboune e os manifestantes argelinos foram às ruas para questionar os resultados da eleição cantando “Allahu Akbar, tebboune mzowar” [Deus é grande, o tebboune é fake!], a situação veio a inspirar memes curiosos no Marrocos.

Memes e piadas à parte, o darija norte-africano tem sido há muito um ponto sensível para os pan-arabistas. Como pode uma sociedade que elevou o árabe e o Islã aos palácios da Andaluzia massacrar o idioma árabe moderno padronizado? Como consolidar os laços entre os povos quando os africanos do norte falam um patois ininteligível? O presidente egípcio Gamal Abdel Nasser (1918-70) enviava professores de árabe à Argélia independente para ensinar os locais a falar árabe direito, em vez de francês ou dialetos. Para os árabes do Oriente Médio, o darija e os nomes de família marroquinos são os indicadores mais fortes da alteridade do Marrocos. Tensões entre essas diferenças historicamente ressurgem nas rivalidades do futebol. Em torneios internacionais, como na Copa Africana das Nações, comentadores médio-orientais têm dificuldades de pronunciar sobrenomes marroquinos, ressaltando que, embora os primeiros nomes dos jogadores sejam árabes, seus sobrenomes são “claramente diferentes”. Mesmo na Copa do Catar, tem sido engraçado ouvir os comentadores médio-orientais tentando pronunciar sobrenomes comuns marroquinos (Aguerd, Regragui, Ouhani, Tagnaouti). Mais recentemente, as tensões começaram a emergir em shows de talentos musicais, como “The Voice” ou “Arab Idol”. Os participantes marroquinos são objeto de pegadinhas (“um trote estilizado”) por causa de seu idioma – e às vezes instruídos bruscamente a ir aprender árabe. É, portanto, um pouco irreal agora ver os comentaristas árabes elogiarem quando o técnico marroquino Walid Regrargui dá uma coletiva de imprensa em darija, e eles até sorriem ao repetir palavras como “drari” (os meninos) e “bezaf” (muito). “Agora, do nada, os marroquinos viraram árabes?”, tuitou com ironia Safia, uma jovem designer.

Nos últimos vinte anos, movimentos sociais lentamente emergiram no Marrocos demandando que o tamazight seja reconhecido como uma língua oficial, e que o darija seja erigido a idioma nacional, em vez de ser visto como fonte de vergonha. Alguns querem que o darija seja declarado uma língua separada do árabe, mais ou menos como a língua crioula haitiana foi declarada independente em relação à francesa. Com a ascensão da televisão por satélite e das redes sociais, as pessoas no Marrocos começaram a se perguntar porque os programas transmitidos ao mundo árabe são realizados em dialeto árabe egípcio ou sírio, e não em darija. No Facebook, “listas proibidas” foram criadas para expor artistas marroquinos que competem em shows de talento no mundo árabe, mas preferiram falar ou cantar em sírio, egípcio ou libanês.

Na Copa do Catar, os espectadores árabes foram pegos desprevenidos pelo uso do darija e pela afirmação da identidade Amazigh, mas também ao se depararem com o nacionalismo africano de alguns jogadores. Muito tem sido falado sobre o pan-africanismo do técnico Walid Regragui: ele primeiro levantou as sombrancelhas ao falar na conferência de imprensa que, sim, o seu objetivo era jogar o jogo no nível dos europeus, mas com “nossos valores africanos”. Perguntado alguns dias depois sobre se o Marrocos representava a África ou o mundo árabe, ele prefaciou a sua resposta: “sem querer entrar em política”, para a seguir fornecer uma resposta nuançada:

“… para começar… nós defendemos o Marrocos e os marroquinos… Só depois disso é que somos, também, africanos, e esta é uma prioridade… esperamos mostrar que o futebol africano, frequentemente menosprezado, entrou numa nova fase… depois, por necessidade, por causa da nossa religião e das origens, e por ser a primeira Copa do Mundo no Oriente Médio e no mundo árabe, existem pessoas que vão se identificar conosco. Obviamente, nós somos modelos de conduta e esperamos fazê-los felizes. Se eles puderem nos ver como portadores de um padrão a seguir, estaríamos felizes em atender a essa expectativa e fazê-los felizes.”

Depois do jogo contra Portugal, Azzedine Ounahi, o meiocampista e uma das estrelas que despontou no torneio, igualmente dedicou a vitória primeiro à África: “Entramos na história pela África e, também, pelos árabes… Agradecemos à África que sempre nos acompanhou e encorajou, e também aos árabes”. Qualquer que seja a origem do papo sobre a África, seja a recente agitação Amazigh, sejam tendências mais antigas dos anos 1960 quando a revista pan-africana Souffles floresceu e pessoas como Nelson Mandela ou Amílcar Cabral encontraram asilo no Marrocos, sejam os discursos provenientes das banlieues [perifas] parisienses onde Regragui cresceu — essas tendências aceleraram com os levantes de 2011, os acontecimentos posteriores, e a volta do Marrocos à União Africana, em 2016.

Desde a sua origem, o pan-arabismo sempre foi uma curiosa mistura de emancipação, anti-imperialismo e autoritarismo transnacional; os regimes árabes mais poderosos desde a década de 1950 reservaram-se o direito de intervir em qualquer estado árabe e silenciar qualquer um que fosse definido como sendo árabe. Com o recente colapso das repúblicas radicais (Síria e Iraque) e dos partidos políticos baathistas, o pan-arabismo organizado entrou em colapso, levando consigo a sua retórica anti-imperialista.

Hoje, temos a ascensão dos Estados do Golfo [Omã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Bahrein e Kuwait] e do Egito, cuja realidade política é uma combinação de capitalismo liberal, Islã e autoritarismo transfronteiriço. Após os levantes de 2011, esses estados começaram a apoiar a contrarrevolução em toda a região, a fim de reprimir o ativismo pela democracia e minar as transições democráticas na Tunísia e no Sudão. Neste aspecto, o pan-arabismo foi visto como uma fachada retórica para o autoritarismo transnacional e a apropriação de recursos culturais e materiais (particularmente a terra). Em novembro de 2017, o sequestro do primeiro-ministro libanês Saad El Hariri pelo príncipe saudita Mohammed Bin Salman mostrou que mesmo os chefes de estado não estavam seguros no interior de uma esfera política árabe intensamente repressiva. Consequentemente, ocorreram os apelos de líderes sudaneses para que o Sudão se retirasse da Liga Árabe, bem como os apelos de alguns líderes Imazighen para se distanciarem das causas políticas árabes (isto é, a causa da Palestina) e pressionarem pela normalização das relações com Israel. A natureza autocrática e dominadora dos estados do Golfo e a natureza suprematista árabe de vários movimentos islamistas e nacionalistas árabes (com suas incursões no Magreb) viriam a afastar muitos jovens do norte da África do nacionalismo árabe.

Movimentos identitários, como aquele convocado para reconhecer o tamazight como língua oficial/estatal pelos governos do Marrocos (na Constituição de 2011) e da Argélia (em 2016), ganharam força com os levantes de 2011, um período que os acadêmicos americanos lamentavelmente denominaram de “Primavera Árabe”, um termo que apaga ainda mais as comunidades minoritárias há muito marginalizadas (isto é, as não-árabes) – núbios, curdos e berberes – e que se mobilizaram em 2011 precisamente para promover uma identidade não-árabe. O neologismo “primavera árabe” implica que os levantes foram motivados não por fatores econômicos ou sociais, mas pelo nacionalismo árabe – e é por isso que eles não teriam se estendido para além do mundo de língua árabe. Na verdade, as revoltas do norte da África se espalharam por mais de uma dúzia de países da África subsaariana (incluindo Senegal, Guiné-Bissau, Togo, Burkina Faso, Etiópia, Malawi e Zimbábue). Como Zachary Mampilly e Adam Branch argumentam em seu livro [“Africa Uprising: Popular Protest and Political Change”, Zed Press, 2015], os levantes no norte da África devem ser vistos como o pico de uma onda de protestos em todo o continente, que havia começado em meados dos anos 2000, com mobilizações fora dos canais políticos tradicionais.

Por várias razões, — o colapso da Líbia, o declínio da União Europeia, a ascensão da China, insurgências em toda a região do Sahel, — o Marrocos voltou à União Africana em 2016. E para as autoridades estatais, a língua e a identidade Amazigh se tornaram uma ponte, um cartão de visita para a África, e as línguas amazigh, darija e práticas locais sufis passaram a ser vistas como um escudo contra algumas das correntes ideológicas mais nocivas que emanam do Oriente Médio. Festivais, exposições, conferências e documentários de televisão celebrando os laços do reino com a “Ifríquia” [arabização do nome latino África, a palavra aqui significa todo o continente africano] agora são abundantes. E tornou-se a norma, desde a adoção da constituição de 2011 pelo Marrocos (que fala de “unidade africana”) e seu retorno à União Africana, descrever o Marrocos como árabe e africano, em qualquer ordem.

Na preparação para a semifinal contra a França, um loop contínuo está passando pela televisão estatal marroquina: um trailer contendo gols, comemorações, jogadores se abraçando, a seleção (al-mountakhab) enquanto personificação da nação. Após esta campanha na Copa do Mundo, uma voz solene afirma: “asbaha arabiyan ifriqiyan” [ele se tornou árabe africano]. Talvez por isso, poucos dias após o jogo entre Marrocos e Espanha, o lateral Soufiane Boufal tenha pedido desculpas ao mundo futebolístico africano, por ter dedicado a vitória sobre a Espanha ao mundo árabe. “Peço desculpas por não mencionar todo o continente africano durante a entrevista após a partida de ontem”, disse ele, “agradeço a todo o continente africano por estar conosco e dedico esta vitória a cada país africano”, acrescentando que o “Os homens da seleção do Marrocos têm muito orgulho de representar todos os nossos irmãos do continente africano.”

Dada a fragilidade dos partidos políticos marroquinos, os movimentos e as correntes de protesto norte-africanos pós-2011 encontraram expressão dentro do estádio de futebol, um espaço que as autoridades marroquinas e argelinas têm dificuldade de controlar. Nos últimos anos, o clássico do futebol marroquino entre os clubes Raja e Wydad, ambos de Casablanca, tornou-se um grande espetáculo cultural, com torcidas gigantescas e canções e hinos políticos sobre corrupção, pobreza e opressão. Além disso, a última participação de Walid Regragui enquanto treinador foi à frente do time Wydad: em maio de 2022, ele o comandou ao terceiro título da Copa dos Campeões da África (CAF). Três jogadores do Wydad, por sinal, estão na seleção marroquina. Nos últimos tempos, nos estádios do Marrocos, o hino nacional costuma ser vaiado. “Hoje, o hino nacional parece uma forma de forçar o patriotismo sobre nós, então nossa reação foi vaiar”, diz um fã.

Em vez da bandeira marroquina, que está intimamente associada ao regime monárquico, as bandeiras que tremulam nas arquibancadas são a tricolor Amazigh e a bandeira palestina. A bandeira Amazigh erguida é um lembrete para o Oriente Árabe de que o Marrocos é etnicamente e linguisticamente diferente, e orgulhoso disso. A bandeira da Palestina é um lembrete (um dedo do meio?) para os regimes árabes que normalizaram os laços com Israel e que agora estão importando tecnologias de vigilância israelenses usadas contra os palestinos, para serem usadas contra seus próprios cidadãos. É também um gesto de solidariedade  com os palestinos, um lembrete de que a libertação deles é um elemento do pan-arabismo que vale a pena manter.

O combinado cultural marroquino agora chegou ao Catar. Duas canções nos estádios de futebol marroquinos já se alastraram graças à Copa. A primeira, “Fbladi Dalmouni” [No meu país, sofro injustiça], se espalhou lentamente para o oeste, na direção do norte da África, e agora é cantada em Gaza e remixada por vários outros grupos musicais. “Neste país, vivemos sob uma nuvem carregada. Só pedimos paz social”, diz a música. “Talentos foram destruídos, destruídos pelas drogas que você fornece a eles … Você roubou a riqueza de nosso país e a compartilhou com estranhos.” Esta canção se chama “Rajawi Falastini” (Rajawi Palestino), cantada pelos ultras de Raja: “Não vamos deixar você em Gaza, mesmo que você esteja longe… o Rajawi é a voz dos oprimidos.” A música se tornou agora um marco da Copa do Catar — cantada dentro dos estádios e nas ruas de Doha.

Os laços históricos do Marrocos com o Oriente Árabe são fortes, ligados por língua, fé e sofrimento. A política do regime e o autoritarismo transnacional levaram a um backlash. E a “África”, com quem o Marrocos também mantém laços há muito negligenciados, – também por causa das políticas dos estados – ressurgiu recentemente como uma alternativa política, uma fuga da dominação e apagamento árabes. Não é surpresa que as tensões em torno das alternativas estejam ocorrendo nos estádios do Catar, em meio à beleza do futebol. Assim que o torneio começou, os ativistas marroquinos reclamaram de apropriação cultural, perguntando por que a cerimônia de abertura contou com uma réplica do palácio marroquino, Bab El Makhzen, em Fez. Outros ficaram particularmente irritados com a visão de flácidos autocratas na varanda VIP agitando bandeiras marroquinas e de chefes de estado se apropriando do sucesso dos Leões como se fosse uma vitória árabe. “Apropriação de terras, minar os movimentos democráticos, opressão étnica, arrogância linguística e agora apropriar-se do nosso sucesso futebolístico?”, assim prossegue o argumento.

A Copa do Mundo de 2022 pode muito bem vir a ser considerada no futuro como a Copa do Mundo dos Monarcas, reminiscente da Argentina de 1978, que permitiu que a junta militar em Buenos Aires reforçasse o domínio da ditadura, mas também trouxe opróbrio global e visibilidade para a face repressiva do regime. O Catar 2022 igualmente está trazendo o foco dos holofotes para os miseráveis ​​– trabalhadores, minorias e ativistas de direitos humanos em apuros.

Desde que o Marrocos jogou contra a Croácia há três semanas, jornalistas e Youtubers têm implorado à beIN Sports que reconheça a diversidade étnica dos jogadores. Em 6 de dezembro, quando Achraf Hakimi se preparou para cobrar o pênalti durante a disputa de pênaltis contra a Espanha, o comentarista da beIN, Jaouad Badda, estava ofegante, rezando e com a voz trêmula. Quando Hakimi converteu uma atrevida cavadinha e se virou para fazer a  dança do pinguim, Badda perdeu a compostura: “GOL, GOL, GOL”, bradava. “A história está sendo escrita… o impossível não é marroquino… Levante a cabeça, você é marroquino! Levante a cabeça, você é árabe! Levante a cabeça, você é Amazighi! Você é árabe, amazighi, marroquino, africano!” E então, em tamazight, acrescentou: “Tanmirt! Tanmirt! Tanmirt! Obrigada …”

Tanmirt, de fato.

 

[1] Hisham Aïdi é professor da Columbia University e pesquisador residente no Schomburg Center for Research in Black Culture, trabalhando em um projeto intitulado “W.E.B. Du Bois e o mundo afro-árabe”.

[2]

Traduzido do inglês por Bruno Cava, em 14/12/2022.

X