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Como não votar em Flávio Bolsonaro?

Foto: Barbara Szaniecki

Murilo Duarte Costa Corrêa

Não tomemos 2026 por 2022. Em 2022, havia um histórico recente de mais de 700 mil mortes causadas por uma gestão assassina das políticas de saúde durante a pandemia de Covid-19. O governo Lula 3, embora tenha trabalhado para punir o golpismo do 8 de janeiro de 2023, não mexeu nem uma palha sequer para responsabilizar o bolsonarismo por seus crimes de Estado na gestão da pandemia. A omissão de um partido que se acreditava consolidado no poder – afinal, retornado das cinzas, Lula parecia invencível – deu às extremas direitas a chance de recontar mil vezes a história da pandemia fazendo dela uma tragédia espontânea, tão incontrolável quanto remota, e sem responsáveis diretos.

No campo das promessas, em 2022 o retorno de Lula sobrevinha no centro de um movimento de restauração democrática. Uma fantasia que talvez fosse muito mais lulista, e instrumental à hegemonização de um centrismo enfraquecido em torno de sua figura, do que uma fantasia propriamente popular. Ainda assim, uma fantasia algo popular, que se contentava com a reconstrução de políticas públicas que se acreditavam conquistas republicanas.

O que explica que ontem Lula tenha perdido a dianteira para Flávio Bolsonaro no primeiro turno é que já não estamos em 2022, e em 2026, para grande parte do eleitorado, Lula não parece ter nada a oferecer. Sua campanha teve o tom da defesa de um legado político histórico – incomparável, de fato, com o de qualquer outra liderança política pós-ditadura. Essa defesa, no entanto, levou-o a fazer uma campanha sobre si próprio, narcisista, esperando das urnas uma redenção popular final.

Isso o impediu de captar um tipo de subjetividade emergente desde 2018 e que hoje se cristaliza em novas formas. Se as eleições de 2018 consolidaram nas instituições um sentimento socialmente difuso de antipetismo, na forma de uma paradoxal torção da desobediência antissistema, e se as de 2022 foram marcadas por um contido, mas resoluto, desejo de restauração democrática, 2026 consolida um outro tipo de subjetividade, muito menos reativa do que se imagina – mas nem por isso menos perigosa.

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Em 2014, às portas da reeleição de Dilma, os intelectuais liam o sociólogo Jessé de Souza para tentar compreender a recalcitrância que uma nova classe média, constituída pelas políticas sociais dos governos FHC e Lula, tinham em reelegê-la. Tudo se passava como se, em meio a um turbilhão de escândalos, o lulismo tivesse se tornado uma vítima de seu próprio sucesso – a começar pela “anomalia” de Junho.

Em 2026, talvez precisemos nos perguntar pelas causas do estrondoso sucesso do best-seller Coisa de Rico, do antropólogo do luxo Michel Alcoforado. Um livro que, de 2025 pra cá, tem sido lido no Brasil por um espectro muito mais amplo do que antropólogos, sociólogos ou “intelectuais”. Quem sabe isso se explique menos por uma súbita curiosidade antropológica plebeia do que pela ambição revelada por um desejo social de mimetismo. Uma vontade generalizada de “pagar de bacana” que dirige seus interesses aos códigos sociais da riqueza. Alcoforado os tornou pop, mas trata-se de uma nova volta num velho parafuso que o carnavalesco Joãozinho Trinta já havia captado bem no fim dos anos 1970-1980: “Pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”.

A soberba lulista (“Gente, eu estou achando que vamos ganhar no primeiro turno”, disse ele no Flow podcast, às portas do primeiro turno) impediu-o de captar a emergência de uma transversal de subjetividade comum às classes no Brasil: o narcisismo se tornou coletivo. O lulismo é um narcisismo, mas um de tipo individual e edificante: a inequivocamente bela história de Lula que procura fazer povo, coletivizar-se. O filo-bolsonarismo, por outro lado, hoje corresponde a um narcisismo coletivo singular e poliforme, alimentado pelas muitas e violentas fantasias de luxúria, dominação e liberdade, as quais procuram um indivíduo no qual se recompor e totalizar.

Enquanto os “batalhadores” sonham com um Estado que não os atrapalhe no caminho ideologicamente pavimentado até a riqueza, as classes médias altas (que, na extrema desigualdade, sentem-se “ricas”) votam para conservar sua sensação de privilégio de classe, e os ricos de verdade agem estrategicamente para continuar exercendo o pathos da distância que os separa dessas massas plebeias. Esse composto divergente de desejos grandes e pequenos, nobres e plebeus, formam uma só transversal de subjetividade que se torna política. Constituindo um Eros de massas, ele liquida a poética lulista dos pobres. Por isso, e apesar de tudo, não é em Lula que devemos procurar as causas da vitória de Flávio no primeiro turno, mas, sim, nesse novo tipo de narcisismo coletivo que encontrou em Flávio um representante sob cuja autoridade desafogar o seu desejo.

A essa grande parcela do eleitorado (filo-bolsonarista), Lula e o PT não passam de um entrave para uma nova composição libidinal e aspiracional que já se formou. A própria democracia, seus procedimentos, ritos, sua infinita judicialização, o Estado de Direito, não soam senão como molestos obstáculos a serem removidos ou contornados. Com uma virtual vitória de Flávio no segundo turno – que os mercados já começam a precificar – e a eleição de um Congresso esmagadoramente filo-bolsonarista, alguns irão deplorar a implosão dos freios e contrapesos democráticos enquanto outros estarão ocupados instalando aceleradores e embreagens para o motor protofascista do seu desejo. Ao patriarca da família Bolsonaro, anistia e direitos políticos; aos ministros do STF, impeachment e degredo. Às mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e negros, com sorte, talvez alguma representatividade circunstancial “sem vitimismo”, para provar que o filo-bolsonarismo também combate os feminicídios, as violências sexuais e as execuções sumárias de jovens negros pobres que, no entanto, não cessarão de aumentar. Eis o cenário institucional que nos espera num futuro próximo.

O trágico é que essa dinâmica é menos de ressentimento que de afirmação de fantasias alternativas que a estratégia de hegemonia lulista, orquestrada “por cima”, já não consegue capitalizar. O voto em Lula (e falo por mim, mas provavelmente não só por mim) é um voto triste e desapaixonado. Carece de desejo e de crença. Ele só nos faz acreditar num freio às direitas, num contrapeso ao fascismo, numa desaceleração da ruína. Adornos às avessas, só queremos retardar o desabamento. Em algum momento entre 2006-2014, o lulismo tornou-se uma frente democrática sem demos. Desde então, já não consegue oferecer nenhuma fantasia alternativa exceto “um pouco mais” do real conhecido, e que já não basta a quem aspira. As promessas são melancólicas. Todo mundo sabe que depois do último gole da garrafa, ou da última tragada do cigarro, é isto: fim de festa.

No Brasil de 2026, as pessoas já não querem só comer, elas querem luxar como os influencers do Instagram, os banqueiros ponzi das páginas policiais, os senadores putanheiros dos vídeos vazados, os consortes de ministros do STF com contratos milionários. Como a eleição em peso de políticos ligados à vorcaroesfera mostra, as pessoas estão dispostas a serem moralmente tolerantes com todas as corrupções que as permitam fantasiar com a abundância e com o supérfluo, por mais distante que isso esteja das suas realidades – porque é de situar-se na distância social das massas aquilo de que se trata. Sua coerência não é cognitiva, mas afetiva. Por isso, nenhuma verdade adequada jamais será suficiente. É preciso de um afeto antagônico e mais forte, que o lulismo já não consegue usinar.

Os votos filo-bolsonaristas encarnam a subjetividade nouveau riche da garota que encantou a CPI das bets, Virgínia Fonseca, o brilho das lentes de contato dentais na pegada agro da Ana Castela, a promessa infinita das bets e dos Tigrinhos, o carro importado dos influencers das máquinas de vendas, a teologia da prosperidade que diz “A nação cujo Deus é o senhor, prospera”. Não se trata apenas do capitalismo como religião, mas da religião como capitalismo – uma empresa espiritual e materialista.

Se assim se compõe essa transversal de subjetividade – nada distante daquela do homem tirânico que Platão descreveu no livro IX da República –, é de se perguntar como o Bolsa-Família, corrigido pelo IPCA às pressas, e pouco antes das eleições, poderia competir com “fontes de renda” fácil ao alcance das mãos, e que, assim como o Deus próspero, prometem o paraíso abundante dos ganhos ilimitados? Enquanto Lula proíbe as bets (e mais de 60% da população afirma estar de acordo com ele), sua bancada se reelege quase integralmente e o dinheiro promete jorrar dos celulares como fontes de leite e mel para os zangões, tenham ou não ferrão.

Essa subjetividade nova, feita de fantasias alternativas de abundância para si mesmo e para a própria família (não nos esqueçamos, uma unidade tão econômica quanto afetiva), se sustenta em um materialismo de novo tipo. Um materialismo que já não é o marxiano, das necessidades humanas elementares, mas o do abundante. “Que nunca nos falte o supérfluo”, dizia a socialite Val Marchiori ao brindar com champagne no extinto programa televisivo “Mulheres Ricas”. A frase não virou meme por acaso. O supérfluo não corresponde à figura do excesso, nem à do dispensável. Ele materializa o ilimitado – a mecânica do próprio desejo –, que Deus, a imagem plataformada e a finança também nomeiam em um novo arranjo epocal. O Brasil de 2026 não se define por um materialismo do supérfluo, mas por um materialismo do infinito e do ilimitado que o supérfluo, o luxo e a luxúria prolongam em fantasia de distância social, a qual só está à procura de um território para se inscrever (Instagram, Igreja ou urna, no fundo,  pouco importa).

O supérfluo se tornou o essencial, e nenhuma economia funciona melhor na chave do ilimitado do que a economia da finança e da imagem plataformadas e em curto-circuito. Existem quatro figuras de um materialismo do ilimitado ou do infinito que se tornam a efígie do Brasil contemporâneo: 1/ a finança, cuja circulação foi liberada entre os plebeus pelo Pix, pela bancarização das fintechs, e potencializada entre as castas dos três poderes pela participação ambidestra na corrupção sistêmica; 2/ a atividade potencialmente liberada do trabalho sujeitado pelo “empreendedorismo”, como nova forma de organização do trabalho e da renda. Diante de uma monadologia empresarial dispersa por toda a sociedade, a redução da jornada 6×1 pode muito bem soar como um engodo ou uma armadilha da servidão 5×2. Afinal, “todo mundo sabe” que “bom mesmo” é trabalhar para si próprio, sem patrão, com flexibilidade de horários e, se possível, em home-office. As condições da atividade e seu arquétipo importam psiquicamente mais do que o imobilismo das garantias da CLT ou a intensificação das horas de trabalho como MEI; 3/ a renda virtualmente ilimitada do empreendedorismo desregulado, das bets e dos jogos irregulares, que encontra seu ponto de fuga na miragem de um dia poder participar do pathos da distância e dos privilégios exclusivos dos ricaços (ou, pelo menos, conseguir tirar uma casquinha do lifestyle); 4/ por fim, as imagens dos modos de vida dos influencers de sucesso vlogando em loop infinito nas plataformas digitais como um convite à sua mímese social. A finança, a atividade, a renda, a imagem. Tudo está liberado, como numa festa do Vorcaro. Suíça ou sueca, tanto faz. Quem não quer pegar carona no jatinho?

Nessas condições, as pessoas vão defender a concentração de renda com unhas e dentes se acreditarem que terão chances de participar do seu privilégio. Não se importarão em eleger uma casta de corruptos privilegiados (como o congresso da vorcarosfera) se esse for o preço a pagar para reciclar os privilégios de outra casta tradicionalmente corrupta, mas intocável pelo voto, como a dos ministros do STF e a dos membros do Poder Judiciário. Entre políticos que parecem se fingir de juízes e corruptos que se fazem de políticos, elas ficarão com os últimos, os espécimes originais.

Acesso, e não liberdade. Exclusividade, não igualdade. Prosperidade, não solidariedade. Esse é o mote do narcisismo coletivo que, ao que tudo indica, é a formação subjetiva que deve eleger Flávio Bolsonaro. A aspiração é o melhor cabo eleitoral da cobiça, e a ambição só se vê representada quando a ganância se elege. Ontem, as urnas mostraram que a tragédia é que a Lula (o Narciso individual) falta um povo que lhe corresponda. Não foi Lula, nem o PT, que chegaram ao fim, mas a poética dos pobres. Já ao Narciso coletivo – pródigo, avaro e carecido de tudo –, não faltam Bolsonaros dispostos a lhe dar um corpo. Num país como o Brasil, erigido historicamente por projetos patrimonialistas de exclusão e concentração de renda, o voto brilha como uma pulseirinha VIP para o camarote, que expulsa e tranca do lado de fora os inimigos da nossa festa Top. Essa é a conta que as almas fazem, e se perguntam: “Como não votar em Flávio Bolsonaro?”.

 

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