Felipe Fortes[1]
Conseguimos imaginar Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski jogando xadrez no Pentágono. Não é difícil compor uma cena: a luz fria de uma sala sem janelas, relatórios em envelopes sigilosos; ao fundo, telas de radar convertendo o planeta em sinais, trajetórias, ameaças e possibilidades. As peças no tabuleiro se movem devagar, mas nossos jogadores imaginam arrastar com elas continentes inteiros.
A cena é fictícia, mas não é arbitrária. Kissinger e Brzezinski, rivais cordiais, mas ainda assim rivais, ilustram duas formas distintas de pensar a trajetória estratégica da hegemonia americana na passagem do século XX ao XXI. Kissinger, patriarca do “realismo político” americano, uma forma de maquiavelismo, fez do pensamento da ordem uma arte trágica e, ao mesmo tempo, profundamente cínica. Trágica, porque a paz entre as nações é aqui uma condição material instável, arrancada à força da guerra e mantida sob a vigília das armas, da letra fria e torta dos pactos e dos poderes de dissuasão. Ela depende de equilíbrios precários entre potências que seriam capazes, a qualquer momento, de destruir umas às outras, começando pelas desarmadas. A estabilidade internacional, nesse cenário, nunca elimina a violência, mas a administra e não a contém sem a distribuir, e, muitas vezes, a prolongar por outros meios. Cínica, porque esse equilíbrio é suspenso em uma profunda tensão e suspeita e, portanto, exige abandonar qualquer ilusão de uma aliança permanente, subordinando os princípios e as afinidades à lógica variável dos interesses de Estado, que se apresenta como um mafioso, um capo, com boas intenções.
“America has no permanent friends or enemies, only interests”[2] é uma amálgama do kissingerianismo em espírito. Ela diz o essencial de seu pensamento: na razão de Estado, aliados e adversários são posições móveis em um cálculo de poder. Foi dessa matriz que nasceram algumas de suas maiores intervenções práticas no governo de Richard Nixon, como a détente com a União Soviética e a abertura à China, mas também o bombardeio do Camboja e a articulação contra Allende no Chile. O mesmo pensamento que buscava dividir adversários, modular conflitos, evitar cruzadas ideológicas e administrar o risco de guerra total autorizava também operações clandestinas, golpes, bombardeios e intervenções sempre que a preservação da posição estratégica americana o exigisse. Em Kissinger, portanto, a prudência do equilíbrio e a violência da força compõem uma mesma arte da ordem que deve conter a hybris da guerra total sem jamais renunciar à força necessária para sustentar a hegemonia[3].
Brzezinski, por sua vez, desloca a questão. A hegemonia dos Estados Unidos não era apenas militar ou territorial, mas deveria corresponder a uma hegemonia de novo tipo. Mesmo sem abandonar a razão de Estado, um limite que compartilha com seu rival, Brzezinski a reinscrevia em uma ordem mais ampla, na qual o poder americano dependia cada vez mais da capacidade de organizar redes globais de interdependência econômica, circulação de informação, coordenação tecnocrática e integração planetária dos mercados, das comunicações e das elites. Um pensador, portanto, da globalização à americana.
Mas essa integração não eliminava a disputa geopolítica; pelo contrário, apenas a reorganizava em outra escala. Aqui não se descortina nenhum horizonte de “fim da história”. Em The Grand Chessboard (1997), a orientação geoestratégica explícita é impedir que a Eurásia produza uma combinação político-econômica capaz de desafiar a primazia dos Estados Unidos. Desse modo, quanto mais o mundo se integrava sob liderança dos yankees, mais decisivo se tornava evitar a consolidação de um polo eurasiático autônomo capaz de reorganizar essa integração a partir de outro centro de gravidade. Estamos, portanto, longe de Fukuyama; e, embora Brzezinski não adote propriamente o culturalismo de Huntington, sua análise já reconhece que a globalização não dissolve os conflitos, mas os reinscreve em novas linhas de fratura geopolítica, o que nós aprendemos a ler, em uma chave perspectivista, como linhas de fuga que poderiam constituir uma alterglobalização.
Kissinger e Brzezinski, portanto, são sintomas de uma mesma época, mas também expoentes, com todas as suas ambivalências e contradições, de uma capacidade histórica decisiva da potência americana que é a de captar e absorver o cérebro social migrante no seio de seu próprio desenvolvimento. O essencial aqui é que a força dos Estados Unidos não deriva primeiro de um desenvolvimento nacional que, depois, atrairia a inteligência global; a relação é inversa. O próprio desenvolvimento americano foi historicamente alimentado pela incorporação contínua de cientistas, técnicos, intelectuais, trabalhadores, dissidências políticas e elites deslocadas pelas crises do sistema mundial, muitas delas produzidas, administradas ou agravadas pela própria ação e também pelas hesitações estratégicas e pela inação dos Estados Unidos (como no caso da resposta à invasão russa da Ucrânia, constantemente sabotada pela face laranja de Trump). Kissinger, judeu alemão refugiado do nazismo; Brzezinski, polonês marcado pela experiência da dominação soviética sobre a Europa Oriental. Dois migrantes europeus transformados em cérebros estratégicos da máquina americana e expressões de sua capacidade de absorver o cérebro social migrante.
É por isso que a cena também nos interessa agora, em meio à crise mundial das migrações, à crise da forma-império da hegemonia americana e da globalização que ela organizou, e à ascensão do trumpismo[4]. A verdade inconveniente é que o trumpismo talvez tenha feito mais contra o americanismo do que toda a crítica marxista poderia sonhar, ao atacar precisamente aquilo que historicamente constituiu a potência dos Estados Unidos: migração, cosmopolitismo, universidades, ciência, circulação global, redes transnacionais e capacidade de absorver inteligência social em escala planetária.
Nesse sentido, sempre houve duas Américas em conflito, e hoje a dinâmica do conflito se acelera. De um lado, a América maior do fechamento soberanista, da fronteira policial, da supremacia branca e da guerra, por dentro, contra as instituições democráticas. De outro, a América menor, migrante, mestiça, universitária, trabalhadora e transnacional, que atravessa o próprio americanismo e o empurra para além de si mesmo. Para cada reunião sob as luzes sóbrias do Pentágono, há uma Minneapolis pulsante. É essa América menor, das lutas, que sempre fez da potência americana algo mais do que um nacionalismo: uma composição material e aberta de línguas, corpos, saberes, exílios, laboratórios, deslocamentos e formas de cooperação social. A literatura menor americana, como sugerem Deleuze e Guattari, é uma de suas expressões, mas não esgota sua força política. Nesse sentido, aquilo que Deleuze, em diálogo com Claire Parnet chamou de “superioridade da literatura americana” pode ser lido menos como um juízo estético do que como índice dessa potência de fazer da língua maior uma língua atravessada por fugas, devires, minorias, migrações e povos[5]. O trumpismo busca bloquear justamente esses espaços de liberdade e igualdade que atravessavam o americanismo por dentro. Contra a América menor dos migrantes, das universidades, das cidades-santuário, dos êxodos e das redes transnacionais de cooperação, ele mobiliza a América maior da fronteira, do ressentimento e da ordem racial. Mas essa divisão não se limita aos Estados Unidos. Ela atravessa toda a América Latina pelos corpos dos migrantes, pelas rotas e linhas de fuga, pelo trabalho precarizado, pelas deportações, pelas fronteiras e pelas lutas que insistem em transformar esse deslocamento em direito e o êxodo em expressão de uma potência constituinte. Ao mesmo tempo, o autoritarismo contemporâneo torna-se “eurásico” em um sentido que talvez surpreendesse o próprio camarada Brzezinski: não apenas porque atravessa Rússia e China, mas porque emerge também no interior dos Estados Unidos, inclusive na convergência clara entre trumpismo e putinismo, que molda a crise da globalização em um autoritarismo e em uma guerra generalizada contra as instituições democráticas e as lutas que ainda as alimentam.
As peças se movem e o xadrez encontra o silício. Kissinger viveu o suficiente para assistir ao boom conexionista da IA e à chegada dos grandes modelos generativos, as infraestruturas de nuvem e a corrida por GPUs. Em seus textos tardios, sobretudo The Age of AI (2021), escrito com Eric Schmidt e Daniel Huttenlocher, e Genesis (2024), com Craig Mundie e Eric Schmidt, a inteligência artificial aparece como uma ruptura comparável à bomba nuclear: não apenas uma nova ferramenta, mas uma crise da decisão, da estratégia, da guerra, da verdade e da própria ideia moderna de razão. Brzezinski, morto em 2017, não chegou a ver a explosão pública da IA generativa. Mas em Between Two Ages (1970) já havia intuído a sociedade “tecnotrônica”, em que computadores, comunicação, mídia, ciência, universidades e gestão tecnocrática reorganizariam o poder em escala planetária.
Portanto, a cena que imaginamos no Pentágono poderia hoje ter outros personagens. Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski ainda poderiam estar diante do tabuleiro, mas ao redor deles apareceriam Elon Musk, Alex Karp e os novos tecnocratas do Vale do Silício, das Big Techs e da inteligência artificial. Aqui, já não se trata apenas da velha aliança entre Pentágono, universidades e indústria militar, mas da integração crescente entre plataformas, infraestrutura de nuvem, sistemas de vigilância, IA generativa e poder geopolítico. As controvérsias recentes envolvendo empresas como Anthropic, OpenAI e Palantir mostram precisamente que a disputa contemporânea já não gira apenas em torno de armas, territórios ou recursos, mas do controle e da programação das infraestruturas cognitivas capazes de organizar informação, decisão, percepção e guerra em escala planetária. Do biopoder e da biopolítica do controle dos corpos, acompanhamos o nascimento de uma biopolítica da inteligência e da tentativa de programação do cérebro social coletivo[6].
Quanto aos technobros, eles já não precisam jogar xadrez, pois possuem algoritmos capazes de jogar por eles e derrotar qualquer ser humano. Nós, que gostamos do risco do jogo, não podemos lamentar. Já estamos cansados das lamúrias. Non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere. Uma das novidades aqui é que a figura clássica do estrategista, portanto, já não move apenas peças, mas emerge em hibridização com uma inteligência maquínica que calcula posições, simula cenários, aprende padrões, antecipa movimentos, recomenda decisões e transforma o próprio campo do conflito em uma superfície programável. Entre Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski, ainda estamos no jogo da ordem, da hegemonia e da arquitetura geopolítica da globalização. Com o Vale do Silício e a inteligência artificial, porém, entramos na passagem do controle à programação e abrimos o horizonte das lutas do porvir[7].
Portanto, estamos também além deles, sempre além deles. O tabuleiro geopolítico não desapareceu, mas foi atravessado pelo silício, pelas GPUs, pelas clouds, pelos drones FPV, pelos sensores, pelos data centers, pelos passwords e pela dinâmica da inteligência artificial. Entre os novos algoritmos conexionistas do machine learning, a questão decisiva já não é apenas quem move as peças, mas quem programa o campo em que as peças, os jogadores e as próprias regras passam a existir. Mas o tabuleiro que emerge nunca é idêntico ao mundo. Ele é apenas a mutação da forma pela qual a razão estratégica acredita poder representá-lo, reduzi-lo e governá-lo. Se o conexionismo aparece hoje como infraestrutura de uma nova forma de poder, ele também pode abrir o terreno de uma outra recomposição política e democrática possível. A questão, portanto, não passa pela recusa passiva (e inerte) da inteligência artificial e dos algoritmos, mas por disputar politicamente a arquitetura técnica da inteligência coletiva da qual ela própria emerge. Como recompor um conexionismo das lutas, no qual redes, inteligências coletivas e novas formas de cooperação distribuída escapem à mera gestão tecnocrática e reinventem politicamente uma democracia aumentada e maquínica?
[1] Membro da Rede Universidade Nômade e pesquisador do LabTec.
[2]A formulação não corresponde a uma citação literal de Kissinger, mas remete a Henry John Temple, 3º Visconde Palmerston. Em discurso na Câmara dos Comuns, em 1º de março de 1848, Palmerston afirmava que a Inglaterra não tinha “aliados eternos” nem “inimigos perpétuos”, mas apenas interesses “eternos e perpétuos”. A frase tornou-se emblemática da razão de Estado moderna: alianças e inimizades não derivam de afinidades morais duradouras, mas da administração estratégica dos interesses nacionais. Ver: PALMERSTON, Henry John Temple. Treaty of Adrianople — Charges Against Viscount Palmerston. House of Commons Debate, Hansard, v. 97, cc. 66-123, 1 mar. 1848. Disponível em: https://api.parliament.uk/historic-hansard/commons/1848/mar/01/treaty-of-adrianople-charges-against. Acesso em: 16 maio 2026.
[3] HANHIMÄKI, Jussi M. The Flawed Architect: Henry Kissinger and American Foreign Policy. New York: Oxford University Press, 2004. Disponível em: https://doi.org/10.1093/acprof:oso/9780195172218.001.0001. Acesso em: 17 maio 2026.
[4] FORTES, Felipe; COCCO, Giuseppe. Democracy First: lutas e soberanias no mundo pós-império. Lugar Comum: Estudos de mídia, cultura e democracia, Rio de Janeiro, v. 1, n. 75, p. 12-35, 2026. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/lc/article/view/73596. Acesso em: 17 maio 2026.
[5] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Tradução de Cíntia Vieira da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2014; DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Dialogues. Paris: Flammarion, 1977.
[6] COCCO, Giuseppe; FORTES, Felipe. Aceleração algorítmica, crise da soberania e noopolítica: a batalha pelo controle das redes. Lugar Comum: Estudos de mídia, cultura e democracia, Rio de Janeiro, n. 72, p. 43-69, abr. 2025. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/lc/article/view/68200. Acesso em: 18 maio 2026.
[7] A intuição da passagem “do controle à programação” apareceu inicialmente nas aulas e conversas com Giuseppe Cocco, a quem devo o primeiro deslocamento dessa questão.







