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Quem paga pela captura da confiança? O caso Vorcaro, a potência da multidão e o custo da desconfiança

Por Bruno Cava

Imagem: Sérgio Valle Duarte, Aerial night city, abstract (2009). Wikimedia Commons

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O que aconteceu, afinal, com a confiança que permitiu ao Banco Master construir seu império financeiro?

Ora, o banco de Vorcaro captava bilhões porque seus CDBs eram reconhecidos como compromissos legítimos, protegidos, dentro dos limites legais, pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Seus empréstimos constituíam direitos de recebimento, os fundos negociavam ativos e outras instituições financeiras participavam dessas transações.

Uma vasta rede de relações sociais e instituições dava consistência a esses compromissos e permitia que o dinheiro circulasse. Era dessa cooperação que os bancos retiravam sua capacidade de criar crédito. A confiança tinha aí sua existência material. E sua força.

O dinheiro percorria o circuito de empresas intermediárias e fundos de investimento, passando de uma operação suspeita a outra. Enquanto os recursos mudavam de mãos, o Master acumulava dívidas e ativos de valor pra lá de duvidoso. Os registros contábeis davam aparência de regularidade ao funcionamento.

O alcance do esquema dependia das relações que conferiam validade às obrigações financeiras. A circulação do crédito mobilizava uma potência coletiva, cujos destinos podiam ser subordinados a redes restritas de influência. As suspeitas de corrupção entre agentes da supervisão atingem o nervo político do escândalo.

É o entre-soi de certos círculos financeiros e políticos, isto é, a familiaridade cultivada entre aqueles que controlam recursos, ocupam posições de autoridade e transitam pelos mesmos espaços de influência. Nesse ambiente, a proximidade pode converter-se em privilégio, e o privilégio, em poder sobre relações econômicas que transcendem o círculo de seus beneficiários.

Há uma interpretação cômoda do escândalo, compartilhada por setores de certa esquerda e da direita populista, que identifica em Vorcaro mais uma confirmação da natureza parasitária do capitalismo rentista ou financeirizado.

A invectiva contra Wall Street, Faria Lima, Piazza Affari, La Défense, Bankenviertel repete a velha denúncia de uma economia de papéis que teria corrompido a autenticidade da produção real. Nessa nostalgia fordista — que jamais vivemos —, patrões e operários reencontram sua improvável fraternidade contra os rentistas.

A denúncia encontra seus vilões de estimação e preserva intocada a divisão entre quem governa o dinheiro e aqueles cuja cooperação lhe dá valor. Nessa caricatura, a política termina onde começam as finanças.

Em A vida da moeda (2020), que escrevi com Giuseppe Cocco, desmontamos essa tradição de condenação moral do dinheiro. A moeda ganha vida nas relações. A confiança provém dessa aptidão para produzir riqueza e engendrar mundos possíveis, em vez de uma credibilidade outorgada pelas autoridades financeiras. A questão política está em quem dispõe dessa potência social e quem suporta as consequências de seu exercício. Quem ganha e quem paga a conta.

É pelo crédito que essa potência adquire uma dimensão temporal: recursos são antecipados para atividades cujos resultados dependem da própria antecipação. Quem controla o crédito participa, assim, da determinação do futuro econômico.

Keynes escreveu, na Teoria Geral, que a importância da moeda decorre de constituir um elo entre o presente e o futuro (1936, cap. 21, I). A disputa pelo crédito envolve, nessa acepção, os próprios mundos que poderão existir amanhã.

Segundo as investigações, o esquema do Master explorou essa capacidade por meio de transações simuladas e avaliações artificiais, obtendo recursos efetivos mediante operações de valor econômico duvidoso. Sua expansão expõe uma questão que atravessa o próprio exercício do poder.

Aí reside a dimensão democrática do escândalo, talvez a face mais reveladora de nossos impasses.

No Tratado Político, Spinoza distingue a multidão livre, conduzida mais pela esperança do que pelo medo, daquela submetida (V, 6). A consistência das instituições depende da maneira como se compõem as forças da vida comum, dispensando a confiança na virtude dos governantes (I, 6). O direito político mede-se pela potentia multitudinis, a potência da multidão (III, 2).

A democracia alcança sua expressão mais plena quando essa potência encontra nas instituições meios de exercer-se e ampliar-se, em lugar de subordinar-se a uma autoridade que se julga independente daqueles que a mantêm e sustentam.

A moeda também se alimenta de relações sociais que excedem aqueles que a administram. O crédito mobiliza o trabalho e a cooperação, antecipando recursos para atividades ainda por realizar. Quem controla os instrumentos monetários adquire, assim, um poder considerável sobre a orientação da vida material.

Quando o Master entrou em liquidação, o FGC assumiu aproximadamente R$ 40,6 bilhões em garantias aos credores cobertos. Os recursos provinham das reservas constituídas pelas instituições financeiras associadas, públicas e privadas. Para recompor o caixa, elas anteciparam contribuições ordinárias e passaram a recolher encargos extraordinários. O prejuízo definitivo dependerá também dos valores recuperados na liquidação.

A engrenagem que permitia a circulação do crédito foi mobilizada para honrar obrigações deixadas pelo colapso. Os beneficiários das operações investigadas podiam desaparecer da relação financeira; os custos permaneciam nela, aguardando quem pagaria a conta.

O BRB e os regimes públicos de previdência constituem outras frentes de exposição ao rombo do Master, com possíveis consequências para recursos públicos.

Os custos ultrapassaram o círculo dos participantes das operações investigadas. Os bancos poderão absorver parte dos encargos em seus lucros ou transferi-los aos clientes, mediante tarifas, menor remuneração dos depósitos ou juros mais altos nos empréstimos.

Permanece incerta a parcela desses custos que os bancos conseguirão transferir aos clientes. A possibilidade de repasse, contudo, pertence ao funcionamento da intermediação financeira.

Chegamos ao busílis.

A desconfiança política e a monetária atravessam uma mesma experiência de impotência coletiva. A multidão participa da produção da riqueza e sustenta as relações pelas quais o dinheiro circula. Também suporta as consequências de decisões sobre as quais exerce pouco poder. A experiência reiterada dos privilégios alimenta essa impotência, até converter a confiança nas instituições em descrença quanto à própria capacidade coletiva de determinar seu destino.

A desconfiança também adquire um preço. Onde a continuidade dos compromissos financeiros se torna incerta, financiadores podem exigir remunerações maiores, enquanto bancos reforçam suas margens e elevam o custo do crédito. Em bom português: o dinheiro fica mais caro para quem precisa dele. Essa transmissão depende das condições econômicas e da concorrência bancária, mas seu significado político ultrapassa o cálculo financeiro, porque os encargos de uma organização pouco confiável podem restringir a capacidade de empresas e famílias de realizar seus projetos.

Seria precipitado atribuir os juros elevados do Brasil à corrupção ou afirmar que o episódio Master provocou uma alta generalizada das taxas. A persistência de relações institucionais marcadas por favorecimentos e baixa responsabilização, contudo, pode contribuir para encarecer o crédito e estreitar as possibilidades de futuro da população.

Daí a ligação entre o desencanto político e o custo do dinheiro. Ambos podem encontrar raízes na dificuldade de confiar na continuidade dos compromissos e na distribuição das responsabilidades. Uma sociedade atravessada pela descrença política também organiza suas relações financeiras sob condições institucionais que podem reproduzir essa experiência.

Voltemos a Spinoza.

A questão está na maneira como as instituições compõem os afetos e as forças da multidão. Uma organização que alimenta o medo estreita seus horizontes. Instituições que favorecem a esperança podem ampliar sua potência de agir. A circulação da moeda participa dessas composições, pois o crédito envolve relações capazes de sustentar compromissos através do tempo.

O império de Vorcaro cresceu mobilizando relações de confiança produzidas por toda a sociedade. Sua ruína deixou obrigações que ultrapassaram o círculo dos participantes investigados, convocando o sistema financeiro a absorver custos que ainda poderão repercutir sobre outros agentes econômicos.

A democracia alcança o coração da moeda. Sua fragilidade pode custar dinheiro e comprometer a força coletiva de produzir futuros e vivê-los.

Quanto da desconfiança que atribuímos à política perpassa também a circulação monetária?

E quanto pagamos para viver sob instituições nas quais aprendemos a desconfiar?

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CAVA, Bruno; COCCO, Giuseppe. A vida da moeda: créditos, imagens, confiança. Rio de Janeiro: Mauad X, 2020.

ESPINOSA, Baruch de. Tratado político. Tradução, introdução e notas de Diogo Pires Aurélio. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

KEYNES, John Maynard. The general theory of employment, interest and money. London: Macmillan, 1936. cap. 21, seção I.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente a posição da Universidade Nômade.

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