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Vale tudo — até a hora de explicar

Por Bruno Cava

Foto: Felipe Coelho / Unsplash. Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, 2025.

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Meu objetivo aqui não é explicar o que é um consenso científico, nem constatar que hoje ele existe em torno do aquecimento global provocado pelo ser humano.

Escrevi este texto para mostrar não simplesmente que esse consenso é firme, mas por que o é. Seu núcleo causal se apoia em mecanismos de física básica conhecidos desde o século XIX e confirmados por observações empíricas diretas, múltiplas e independentes, sem depender, para serem compreendidos, da aceitação prévia de modelos climáticos complexos (TYNDALL, 1861; ARRHENIUS, 1896).

Quem contesta o consenso porque é consenso não fez o principal: compreender por que ele se formou, no que se apoia e qual percurso realizou para adquirir tamanha solidez.

O que pretendo explicar é que, no caso do aquecimento global, a questão não consiste em acreditar ou deixar de acreditar nos cientistas e nas ciências, mas em reconhecer ou rejeitar leis físicas ordinárias e cruzamentos de dados empíricos verificáveis. Foi precisamente essa convergência que conduziu à formação de um consenso tão firme e vasto.

A explicação abaixo não reivindica uma verdade absoluta. Reivindica algo ao mesmo tempo mais modesto e mais forte: robustez diante da evidência. O que virá é uma explicação sustentada por um conjunto diversificado de verificações e observações, obtidas por métodos distintos e a partir de perspectivas independentes. Sua força consiste nisso: linhas de evidência diferentes convergem e se encaixam com consistência.

Nesse sentido, sua força é relativa ao método, à empiria e à lógica explicativa. Refutá-la exige, portanto, um trabalho crítico capaz de alcançar o método, a evidência ou o explanans.

A diferença entre ciência e negacionismo não está em que a ciência possuiria verdades institucionais diante das quais nos caberia curvar pela aura de sua autoridade, enquanto o negacionismo ocuparia o lugar da irresignação, da contestação e do pensamento crítico que chega de fora do establishment.

Na realidade, é a atitude científica que se apoia na dúvida sistemática, na crítica entre pares e no confronto permanente das explicações com as evidências, ainda que haja institucionalização e graus diferentes de blindagem à crítica — algo muito diferente de imunidade institucional ou absolutização do conhecimento.

Apesar das assimetrias e arquiteturas institucionais, as ciências se organizam em torno de um ceticismo institucionalizado, no qual hipóteses são sucessivamente submetidas à prova e problemas podem ser reabertos, reformulados, deslocados (MERTON, 1942).

O negacionismo faz outra coisa com os problemas. Dissolve os nexos entre evidência e explicação até que o próprio problema evanesça numa espécie de éter indiferenciado de opiniões e convicções fundantes.

No terreno assim desenhado, tudo parece permanecer em disputa. No fundo, entretanto, a conclusão entrou antes da investigação metódica e passa a valer, por princípio, tanto quanto os conhecimentos produzidos por ela. É uma petição de princípio que posa de grande verdade revelada.

Daí também que as proposições negacionistas nunca corram qualquer risco. Suas afirmações foram postas a salvo de antemão.

Nietzsche, insuspeito de reverência a consensos, deixou uma advertência especialmente incômoda para esses casos: “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras” (Humano, demasiado humano, I, § 483; NIETZSCHE, 1878).

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Primeira proposição. A concentração de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera está aumentando. Isso não é uma inferência, uma teoria ou um consenso. Nós medimos fisicamente o CO₂ presente no ar. A média mensal global disponível para junho de 2026 é de 427,62 partes por milhão (ppm) (NOAA, 2026).

Quando Charles David Keeling iniciou, em 1958, a série contínua de medições em Mauna Loa, a concentração estava em torno de 315 ppm. De lá para cá, esse dado foi medido continuamente, em diferentes lugares do planeta, por estações de superfície, torres, navios e aeronaves. O resultado aparece de maneira inequívoca nessas séries: a concentração de CO₂ na atmosfera cresce de ano para ano.

Conseguimos também medir a concentração de CO₂ existente na atmosfera muito antes do início dessas medições diretas. Para isso, utilizamos pequenas amostras do ar do passado que ficaram aprisionadas em bolhas no interior do gelo, na Antártica e na Groenlândia.

Ao extrair um testemunho cilíndrico de gelo, atravessamos sucessivamente camadas formadas em épocas diferentes. Em termos gerais, quanto maior a profundidade, mais antigo o gelo; sua idade é então estabelecida por diferentes métodos de datação. As bolhas preservadas nessas camadas contêm amostras da atmosfera daquele período.

O fato de ser ar preservado no gelo não o torna menos ar, nem torna menos direta a medição do CO₂ nele presente.

Essas medições mostram que, antes da Revolução Industrial, a concentração atmosférica de CO₂ estava em torno de 278–280 ppm. Isso também não é uma hipótese sobre quanto CO₂ deveria existir naquela época. É um valor obtido a partir de amostras físicas e confirmado repetidamente por diferentes testemunhos de gelo (IPCC, 2021).

Se recuarmos cerca de 10 mil anos, cruzando praticamente todo o Holoceno, encontramos amostras de ar presas no gelo com concentrações aproximadamente entre 260 e 280 ppm. E, se recuarmos muito mais, entrando nos ciclos glaciais do Pleistoceno, os testemunhos mostram algo ainda mais expressivo: ao longo dos últimos 800 mil anos, o CO₂ oscilou aproximadamente entre 170–180 e 300 ppm (IPCC, 2021).

Isto é, durante todo o Holoceno — período em que se desenvolveram a agricultura, as cidades e as sociedades humanas tais como as conhecemos —, a concentração permaneceu próxima ou abaixo de 280 ppm. Então, nos últimos dois séculos, coincidindo com a industrialização em larga escala, a curva muda de direção e vai de cerca de 278 ppm antes da Revolução Industrial para mais de 427 ppm hoje. Quando Keeling começou a medir, em 1958, ela havia chegado a aproximadamente 315 ppm. Desde então, continua subindo.

Um aumento de aproximadamente 54% em pouco mais de dois séculos — um intervalo que, nos tempos do planeta, é um piscar de olhos.

Esse aumento também pode ser expresso em massa. Cada 1 ppm de CO₂ na atmosfera corresponde a cerca de 2,12 gigatoneladas de carbono (GtC). A passagem de aproximadamente 278 para 427,62 ppm representa cerca de 317 GtC adicionais acumuladas na atmosfera — 317 bilhões de toneladas de carbono. Em massa de CO₂, isso equivale a aproximadamente 1,16 trilhão de toneladas adicionais presentes hoje na atmosfera.

Segunda proposição. O aumento recente da concentração atmosférica de CO₂ é antropogênico, tendo a queima de combustíveis fósseis como sua principal fonte.

A curva desse aumento coincide historicamente com a industrialização e com o crescimento da queima de carvão, petróleo e gás natural. Mas, se tivéssemos apenas essa coincidência, atribuir uma causa industrial ainda seria uma inferência. Uma inferência muito forte, mas ainda uma inferência.

Ocorre que podemos ir além. Pode-se examinar a composição do carbono que está se acumulando na atmosfera e procurar sua “impressão digital”.

O carbono é o elemento químico de número atômico 6 na Tabela Periódica.

Isso significa que todo átomo de carbono possui seis prótons em seu núcleo. O que pode variar é o número de nêutrons — e essa pequena diferença de massa nos permitirá rastrear de onde veio o carbono encontrado na atmosfera. O carbono-12 (¹²C), de longe o mais abundante, tem seis prótons e seis nêutrons; o carbono-13 (¹³C), sete nêutrons. Ambos são estáveis. O carbono-14 (¹⁴C), com oito nêutrons, é radioativo e decai ao longo do tempo.

Essa diferença de massa é pequena, mas processos físicos e bioquímicos conseguem discriminá-la. Durante a entrada do CO₂ na folha e, sobretudo, durante sua fixação bioquímica na fotossíntese, o ¹²C é ligeiramente favorecido em relação ao ¹³C. Evidentemente, a planta não “escolhe” um isótopo. O processo bioquímico termina por incorporar proporcionalmente mais carbono-12.

O fato observável é que a matéria orgânica produzida pela fotossíntese apresenta menos ¹³C em relação ao ¹²C do que o CO₂ do qual aquele carbono foi retirado. A intensidade dessa discriminação varia entre diferentes vias fotossintéticas, mas a assinatura isotópica é reconhecível.

Carvão, petróleo e gás natural foram formados a partir de matéria orgânica antiga. No caso do carvão, sobretudo de vegetação terrestre; petróleo e gás possuem também importantes contribuições de organismos marinhos, algas e outros microrganismos. São produtos de matéria orgânica antiga, de origem terrestre ou marinha.

Essa matéria orgânica preservou sua assinatura isotópica. Milhões de anos depois, quando queimamos carvão, petróleo e gás natural — não à toa chamados de combustíveis fósseis —, devolvemos esse carbono antigo à atmosfera levando junto essa assinatura.

E é isso que observamos. À medida que a concentração de CO₂ atmosférico aumenta, a razão ¹³C/¹²C diminui. Estamos acrescentando à atmosfera grande quantidade de carbono relativamente enriquecido em ¹²C. Esse empobrecimento isotópico integra o chamado Efeito Suess e constitui uma das linhas de evidência da contribuição fóssil para o aumento do CO₂ atmosférico (IPCC, 2021).

A assinatura do ¹³C afina a busca, mas podemos ir mais longe. Os oceanos são hoje sumidouros líquidos de CO₂, enquanto as emissões vulcânicas contemporâneas representam menos de 1% das emissões humanas (GERLACH, 2011). O carbono-14 permite distinguir com ainda mais precisão carbono recente de carbono fóssil.

Enquanto um organismo participa do ciclo ativo do carbono, seu carbono é continuamente renovado e isso sustenta a pequena fração de ¹⁴C presente no ambiente. Com a morte do organismo, essa reposição termina. O ¹⁴C então apenas decai, com meia-vida de cerca de 5.730 anos. Depois de milhões de anos, praticamente nenhum ¹⁴C original permanece. É por isso que carvão, petróleo e gás natural são, para fins radiocarbônicos, carbono antigo praticamente desprovido de ¹⁴C.

A leitora repare que esse é o mesmo princípio que permite a datação por carbono-14.

Quando queimamos esses combustíveis e lançamos seu CO₂ na atmosfera, aumenta a quantidade total de carbono, cresce proporcionalmente a participação do carbono leve (¹²C), cai a razão ¹³C/¹²C e o ¹⁴C atmosférico é diluído pela entrada de grandes quantidades de carbono fóssil desprovido desse isótopo. As medições confirmam esses fenômenos (IPCC, 2021).

No meio do século XX, houve uma interferência histórica fecunda nas séries de ¹⁴C. Os testes atmosféricos de armas nucleares das décadas de 1950 e 1960 produziram um pico artificial de radiocarbono. Longe de tornar o método inutilizável, esse pulso é bem conhecido e medido e tornou-se ele próprio um marcador da movimentação do carbono pelo sistema terrestre. Seu efeito foi incorporado às análises; sobre esse sinal conhecido, a entrada de carbono fóssil continua produzindo a diluição característica de ¹⁴C.

Temos, assim, duas assinaturas complementares. A queda do ¹³C mostra que o carbono adicional apresenta a assinatura da matéria orgânica; a diluição do ¹⁴C mostra que uma parcela dominante dessa matéria é extremamente antiga. Procuramos uma fonte capaz de lançar grandes quantidades de carbono na atmosfera, relativamente pobre em ¹³C e praticamente desprovida de ¹⁴C. Carvão, petróleo e gás natural possuem essas características.

O ponto não é deixar de inferir. É sair de uma inferência fundada numa coincidência temporal para uma explicação causal submetida a múltiplos testes independentes.

Uma dessas verificações envolve o oxigênio. A combustão precisa de O₂. Quando queimamos carbono, átomos de carbono se combinam com o oxigênio do ar e formam CO₂. Se a queima de combustíveis está por trás do aumento do CO₂ atmosférico, deve ocorrer concomitantemente outro fenômeno: enquanto o CO₂ aumenta, a quantidade de oxigênio na atmosfera deve diminuir.

As medições registram isso. Considerando a enorme abundância de oxigênio na atmosfera, a redução é minúscula — pequena demais para ser sentida por nossa respiração —, mas grande o bastante para ser medida com precisão (BENDER; BATTLE; KEELING, 1998).

O outro lado da reação deixa, portanto, seu próprio sinal. Enquanto o CO₂ aumenta, o O₂ atmosférico diminui na direção esperada pela combustão. A magnitude exata também registra as trocas de carbono com a biosfera e os oceanos.

Temos linhas de evidência independentes que convergem para a mesma explicação. A composição isotópica do CO₂ adicional revela a entrada de carbono fóssil; a queda do O₂ atmosférico registra a combustão que o acompanha; o balanço de massa mostra que emitimos mais carbono do que permanece no ar; e medições nos oceanos e na biosfera terrestre mostram onde está sendo absorvida grande parte da diferença (IPCC, 2021).

Corolário. No balanço contemporâneo do carbono, oceanos e biosfera terrestre absorvem parte do carbono emitido pelas atividades humanas. A atmosfera retém o restante. Na década de 2010–2019, aproximadamente 46% das emissões antropogênicas de CO₂ permaneceram na atmosfera, enquanto o restante foi absorvido por oceanos e ecossistemas terrestres (IPCC, 2021).

Não se trata, portanto, apenas de observar que a Revolução Industrial começou e o CO₂ passou a subir. Uma explicação alternativa teria de dar conta, simultaneamente, do aumento observado do CO₂, da queda da razão ¹³C/¹²C, da diluição do ¹⁴C, da diminuição do O₂ atmosférico, da quantidade conhecida de carbono fóssil queimado e, ainda, do fato de oceanos e ecossistemas estarem absorvendo parte desse excedente.

Explicar isoladamente um desses fenômenos não basta. É o encaixe entre todos eles que uma hipótese alternativa teria de substituir.

A conclusão vai além de uma correlação histórica. O aumento do CO₂ atmosférico desde a Revolução Industrial é antropogênico. Sua principal fonte é a queima de carvão, petróleo e gás natural, acompanhada por contribuição menor das mudanças no uso da terra, particularmente do desmatamento (IPCC, 2021).

Terceira proposição. O aumento da concentração atmosférica de CO₂ altera o balanço radiativo da Terra e eleva sua temperatura de equilíbrio.

Estabelecido que a concentração de CO₂ está aumentando e identificada a origem fóssil de grande parte do carbono adicional, resta entender por que esse aumento produz aquecimento.

Para quem considera o aquecimento global “apenas um consenso” ou uma narrativa possível entre outras, entramos aqui numa física ainda mais básica. A explicação não começa em modelos climáticos nem na comparação entre curvas de CO₂ e temperatura. Começa na conservação da energia e nas propriedades radiativas da matéria — princípios cuja investigação experimental remonta ao século XIX (TYNDALL, 1861; ARRHENIUS, 1896).

A Terra recebe energia do Sol através do espaço. Uma parte dessa radiação é refletida de volta; outra atravessa a atmosfera e é absorvida pela superfície, aquecendo oceanos e continentes. Todo corpo aquecido também emite energia. A Terra, muito mais fria que o Sol, devolve energia ao espaço predominantemente sob a forma de radiação infravermelha, invisível aos nossos olhos.

A conta precisa fechar. Ao longo do tempo, se o sistema terrestre devolve ao espaço aproximadamente a mesma quantidade de energia que absorve do Sol, sua temperatura média tende a um estado de equilíbrio. Se passar a reter mais energia do que consegue devolver, a diferença permanece no sistema. E o planeta aquece.

Com o aumento da temperatura, cresce também a energia térmica emitida para o espaço. Se o forçamento fosse mantido constante por tempo suficiente, esse aumento da emissão tenderia a restabelecer o balanço numa temperatura mais alta. Se a perda de energia superasse o ganho, ocorreria o processo inverso e o sistema esfriaria.

Até este ponto, não precisamos recorrer a um modelo climático complexo. O cerne do argumento consiste na conservação da energia e no fato físico de que corpos mais quentes emitem mais radiação térmica (IPCC, 2021).

Para explicar uma mudança da temperatura média do planeta, precisamos então procurar o que alterou o balanço entre a energia que entra e a energia que consegue sair. Aí entra a composição da atmosfera terrestre.

Nitrogênio e oxigênio, que juntos compõem quase toda a atmosfera, interagem pouco com grande parte da radiação infravermelha emitida pela Terra. Outras moléculas comportam-se de maneira diferente. CO₂, vapor d’água, metano e óxido nitroso absorvem radiação em determinadas faixas do infravermelho.

Isso significa que parte da energia que a Terra tenta devolver ao espaço é absorvida por essas moléculas e depois reemitida. A energia continua podendo escapar, mas mudar a quantidade desses gases altera a eficiência radiativa da atmosfera. Para voltar a emitir tanta energia quanto recebe do Sol, o sistema precisa atingir uma temperatura maior.

Daí serem chamados gases de efeito estufa. A expressão nasce da analogia com uma estufa, embora o mecanismo físico seja diferente. Numa estufa de vidro, a redução da circulação do ar possui papel central; na atmosfera, interessa sobretudo a absorção e a emissão de radiação infravermelha.

Aumentar a concentração dos gases de efeito estufa modifica, portanto, o balanço energético do planeta.

Vejam bem: isso não é uma propriedade atribuída ao CO₂ por um modelo climático.

É uma propriedade física da molécula, aferível em laboratório. Fazemos passar radiação infravermelha através de uma amostra contendo CO₂ e observamos que determinadas faixas do espectro são absorvidas. Alterando a concentração do gás, altera-se a absorção. Essa propriedade é tão diretamente verificável que instrumentos destinados a medir CO₂ numa amostra de ar podem fazê-lo pela própria absorção do infravermelho.

E o efeito aparece também fora do laboratório. Satélites registraram mudanças no espectro da radiação infravermelha que a Terra emite para o espaço precisamente nas bandas associadas aos gases de efeito estufa; medições em superfície detectaram diretamente o aumento do forçamento radiativo associado ao crescimento da concentração atmosférica de CO₂ (HARRIES et al., 2001; FELDMAN et al., 2015).

A assinatura molecular reaparece na atmosfera real.

Aqui vale ser exato. O CO₂ não “aprisiona calor”. Ele absorve radiação em faixas específicas do infravermelho. Essa energia é continuamente redistribuída por colisões entre as moléculas do ar, enquanto a atmosfera também emite radiação infravermelha. À medida que aumentamos a concentração de CO₂, cresce a opacidade atmosférica nessas faixas.

O resultado é que a altitude efetiva da qual parte dessa radiação consegue escapar para o espaço sobe. Isso faz diferença porque, na troposfera, quanto maior a altitude, menor em geral a temperatura. Uma camada mais fria emite menos energia para o espaço do que uma camada mais quente. Logo após um aumento do CO₂, mantidas as demais condições, a Terra passa a perder um pouco menos energia do que perdia antes.

A entrada solar praticamente continua a mesma; a saída diminui. Aí está o desequilíbrio.

O sistema terrestre passa a acumular energia e aquece. Se o forçamento deixasse de crescer, o aumento da temperatura elevaria a emissão térmica até aproximar novamente entrada e saída de um novo balanço. Isso é uma consequência física do orçamento energético do planeta (IPCC, 2021).

Escólio. A leitora repare na ordem do argumento. Ainda não olhamos para a curva de temperatura para concluir que o CO₂ aquece. A absorção do infravermelho vem do experimento; a consequência térmica, do balanço de energia.

A curva de temperatura entra depois, como teste. Isso não torna os modelos climáticos dispensáveis. Ao contrário, eles se tornam essenciais quando queremos quantificar magnitudes, feedbacks, distribuições regionais e trajetórias futuras. O mecanismo radiativo, contudo, não nasce deles.

Corolário. O vapor d’água amplifica o aquecimento disparado pelo deslocamento do balanço radiativo.

A água também é um importante gás de efeito estufa e existe na atmosfera em quantidade muito maior do que o CO₂. A diferença está no modo como sua quantidade é determinada. A água circula entre oceanos, continentes e atmosfera. Se há vapor demais para as condições existentes, parte dele condensa e retorna à superfície. Se a temperatura sobe, aumenta a quantidade de vapor que a atmosfera pode conter.

Em média global, a capacidade do ar de conter vapor d’água aumenta em torno de 7% por grau Celsius de aquecimento, segundo a relação de Clausius–Clapeyron; a resposta efetiva apresenta variações regionais importantes (IPCC, 2021).

O CO₂ adicional reduz a eficiência da perda radiativa e aquece o sistema. Uma atmosfera mais quente contém, em média, mais vapor d’água; como esse vapor também absorve infravermelho, reforça o aquecimento inicial. É um amplificador. O CO₂ acrescido ao sistema desloca o balanço de energia, enquanto o vapor reage ao aquecimento e o reforça.

Quarta proposição. O sistema terrestre está acumulando energia e aquecendo.

Agora podemos fazer a pergunta empírica. O que estamos observando?

A primeira resposta está nos termômetros. Há mais de um século, temperaturas são medidas em milhares de pontos sobre os continentes e nos oceanos. Estações meteorológicas usam termômetros; no mar, as medições vieram primeiro de navios e hoje vêm também de boias e outros instrumentos. Locais mudam, aparelhos mudam, cidades crescem, e cada uma dessas alterações precisa ser corrigida ou controlada. Ainda assim, quando reunimos as medições, a tendência permanece (IPCC, 2021).

O resultado é indisputável: a superfície do planeta está aquecendo.

Ainda caberia uma objeção. E se essa tendência viesse das cidades, das mudanças nas estações ou da maneira de combinar os dados?

Procuremos então o mesmo fenômeno por outros caminhos.

Balões medem diretamente perfis de temperatura da atmosfera; satélites medem radiâncias, a partir das quais são inferidas temperaturas de diferentes camadas. São métodos distintos, com erros e procedimentos de correção igualmente distintos. Ainda assim, mostram o mesmo fenômeno geral: a parte inferior da atmosfera está aquecendo (IPCC, 2021).

Aparece, entretanto, algo que à primeira vista poderia intrigar. Enquanto a superfície e a parte baixa da atmosfera aquecem, regiões mais altas apresentam resfriamento de longo prazo. A camada mais próxima do solo, a troposfera, está esquentando. A estratosfera, acima dela, apresenta tendência de resfriamento.

Isso permite testar uma família inteira de explicações que atribuem o aquecimento ao Sol. Aumento da atividade solar, variações no número de manchas, ciclos de aproximadamente onze anos, ciclos mais longos e diferentes “superciclos” propostos produzem hipóteses distintas — e hipóteses desse tipo fazem previsões testáveis.

Foram testadas e não explicam a tendência observada.

A energia que chega do Sol à Terra também é medida. Ela oscila segundo os ciclos de atividade solar, mas não apresenta, nas últimas décadas, o aumento necessário para explicar o aquecimento observado. Desde o final dos anos 1970, quando passamos a medi-la continuamente por satélites, a irradiância solar sobe e desce com a atividade do Sol, enquanto a temperatura global segue uma clara tendência ascendente (IPCC, 2021).

Há ainda uma segunda verificação. Um aumento persistente da energia recebida do Sol tenderia a produzir uma assinatura vertical diferente. O que observamos é aquecimento embaixo e resfriamento acima. O aumento dos gases de efeito estufa contribui para esse contraste ao aquecer a baixa atmosfera e aumentar a eficiência da emissão radiativa na estratosfera. Na baixa estratosfera, a redução do ozônio também desempenhou papel importante, sobretudo entre o final dos anos 1970 e meados dos anos 1990 (IPCC, 2021).

É a combinação medida: aquecimento embaixo, resfriamento em cima.

Isso tampouco significa que o Sol seja irrelevante para o clima. Seus ciclos e efeitos são reais e mensuráveis. O que as medições afastam é a hipótese de que as variações solares expliquem o aquecimento global observado desde meados do século XX.

Há também ciclos astronômicos do lado da própria Terra. Variações na excentricidade da órbita, na inclinação do eixo e na precessão — os ciclos de Milankovitch — realmente alteram a distribuição da radiação solar e ajudam a explicar a alternância entre períodos glaciais e interglaciais. Operam, contudo, em escalas de dezenas a centenas de milhares de anos. Na escala de um século e meio, seu efeito é diminuto. Na configuração orbital atual, a tendência de longo prazo isoladamente associada a esses ciclos seria de resfriamento muito lento, não do rápido aquecimento que estamos medindo (NASA, 2020).

O campo magnético terrestre também varia. Os polos se deslocam e, ao longo da história geológica, chegaram muitas vezes a se inverter. Isso afeta a magnetosfera e o fluxo de partículas carregadas na alta atmosfera. A energia envolvida nesses processos, contudo, é ínfima diante daquela que governa o clima na superfície, e as reversões registradas no passado não vêm acompanhadas de um padrão global de aquecimento. Temos aqui outro fenômeno planetário real ao qual falta o nexo físico e empírico capaz de explicar o aquecimento observado (NASA, 2021).

Mas podemos avançar mais.

A conservação da energia impõe outra consequência. Se a Terra recebe aproximadamente a mesma energia do Sol e devolve um pouco menos ao espaço, a diferença tem de aparecer em algum lugar do sistema. O principal reservatório onde devemos procurá-la são os oceanos. Eles cobrem mais de 70% da superfície terrestre, e a água consegue absorver enorme quantidade de energia com aumento relativamente pequeno de temperatura. Se o planeta estiver acumulando energia, grande parte desse excedente deverá estar armazenada ali.

Há décadas medimos a temperatura da água do mar. Primeiro por navios e instrumentos lançados ao oceano; hoje também por milhares de boias e flutuadores autônomos que mergulham, registram temperatura e salinidade em diferentes profundidades e retornam à superfície.

A partir dessas medições podemos calcular a evolução do conteúdo de calor dos oceanos. Esse calor não é inferido da temperatura do ar. Os instrumentos estão dentro da água.

Dado concreto: o oceano está acumulando energia.

Cerca de 90% do excesso de energia acumulado pelo sistema terrestre nas últimas décadas foi absorvido pelos oceanos. O fenômeno chamado aquecimento global, portanto, não consiste apenas em o ar ficar mais quente. O sistema terrestre como um todo está ganhando energia, e a maior parte desse excedente aparece no oceano (IPCC, 2021).

Isso também explica por que a temperatura do ar pode subir mais num ano, menos em outro ou até permanecer relativamente estável durante algum tempo sem que o aquecimento do sistema tenha parado. Oceano e atmosfera trocam energia continuamente. Oscilações internas como El Niño e La Niña redistribuem calor dentro do sistema e alteram temporariamente sua expressão na temperatura do ar. Redistribuir calor, entretanto, não cria o excedente energético que medimos no planeta inteiro. O termômetro do ar oscila; o inventário total de energia revela melhor a tendência de fundo.

Podemos conferir a mesma conta por outro caminho.

Satélites observam a Terra de fora e medem as variações da energia solar absorvida e da radiação que o planeta devolve ao espaço. As observações mostram um desequilíbrio energético positivo: o sistema terrestre está acumulando energia (IPCC, 2021).

Separadamente, instrumentos nos oceanos medem o aumento do conteúdo de calor. Os dois caminhos observacionais são distintos, e suas tendências concordam (LOEB et al., 2021).

Há uma nuance importante. O desequilíbrio médio é uma diferença muito pequena entre fluxos radiativos enormes, pequena demais para ser determinada em valor absoluto apenas pela calibração dos satélites. Por isso, sua magnitude média é também constrangida pelo calor que observamos acumulando-se nos oceanos, na terra, na atmosfera e na criosfera. As variações medidas do espaço e o aquecimento medido no sistema evoluem de maneira compatível (IPCC, 2021; LOEB et al., 2021).

Se as tendências radiativas observadas do espaço evoluíssem em direção incompatível com o calor acumulado nos oceanos e nos demais reservatórios, teríamos uma lacuna séria.

O que observamos é o contrário.

As contas batem.

A superfície dos continentes também aquece — e, em média, mais rapidamente que a superfície oceânica. Isso decorre, entre outros fatores, da enorme capacidade dos oceanos de armazenar e redistribuir energia. Continentes e oceanos aquecem em ritmos diferentes sem deixarem de participar da mesma alteração do sistema climático.

Parte da energia adicional sequer aparece imediatamente como aumento de temperatura: é consumida na fusão do gelo e em mudanças de fase da água. Olhar apenas para o termômetro deixa de fora parte do que acontece com a energia acumulada no sistema.

Podemos agora reunir as medições. A superfície aquece; nos oceanos, o calor penetra também em profundidade; a baixa atmosfera acompanha o movimento, enquanto a estratosfera esfria e geleiras e mantos de gelo perdem massa. Ao mesmo tempo, registramos um desequilíbrio positivo no orçamento energético da Terra (IPCC, 2021).

Não são maneiras diferentes de dizer que “está mais quente”. São consequências físicas distintas que precisam ser compatíveis entre si.

E a cadeia começou antes de qualquer curva de temperatura. A absorção do infravermelho pelo CO₂ é mensurável; sua concentração crescente está registrada, assim como a origem predominantemente fóssil do carbono adicional. A física do balanço energético diz o que deve acontecer quando a Terra passa a devolver energia ao espaço com menor eficiência. Fomos procurar essas consequências — e elas estão lá.

Quinta proposição. O aumento dos gases de efeito estufa explica o padrão de aquecimento de longo prazo observado no sistema terrestre.

Outros processos também modificam o clima. Grandes erupções vulcânicas podem resfriar temporariamente o planeta ao lançar aerossóis na estratosfera. Os ciclos solares alteram a energia recebida. A variabilidade interna redistribui energia entre diferentes componentes do sistema. Esses processos modulam a trajetória observada e explicam parte de suas oscilações (IPCC, 2021).

Mas explicar uma oscilação é diferente de explicar a tendência.

Uma causa do aquecimento de longo prazo precisa explicar por que o sistema terrestre acumula energia durante décadas, de onde vem esse excedente, onde ele é armazenado e por que encontramos simultaneamente aquecimento da superfície e da baixa atmosfera e resfriamento de grande parte da estratosfera.

O aumento dos gases de efeito estufa fornece a principal cadeia causal para essa tendência. Outros forçamentos modulam seu resultado — alguns inclusive compensando parte do aquecimento —, mas não substituem esse mecanismo. Aumentamos a concentração de CO₂; isso altera a transferência de radiação infravermelha; a Terra passa inicialmente a perder energia com menor eficiência; o excedente se acumula sobretudo nos oceanos, aquece continentes e a baixa atmosfera, contribui para o derretimento do gelo e altera o ciclo da água (IPCC, 2021).

Se as concentrações dos gases fossem estabilizadas, o sistema tenderia, em escalas de tempo distintas, a uma nova condição térmica. Enquanto o forçamento continua aumentando, esse próprio estado de equilíbrio continua sendo deslocado.

É esse encadeamento inteiro que uma explicação alternativa teria de substituir. Apontar manchas solares, um El Niño, uma erupção vulcânica ou qualquer outro fenômeno isolado não resolve o problema. Qualquer explicação alternativa teria de reproduzir conjuntamente o desequilíbrio de energia, o acúmulo de calor nos oceanos, o padrão vertical da atmosfera e a persistência da tendência ao longo das décadas — e ainda permanecer compatível com os efeitos conhecidos do Sol, dos vulcões, do ozônio e da variabilidade interna.

Não basta trocar uma peça. É o encaixe inteiro que precisa ser explicado.

Quod erat demonstrandum.

Provisoriamente, como convém às ciências.

*

É diante de um encadeamento desse tipo que a autoimagem do negacionismo climático muda de figura.

O negacionismo climático contemporâneo reivindica para si uma posição sedutora. Seria ele quem duvida quando os outros consentem. Ele quem se insurge contra uma verdade estabilizada por instituições e interesses. Ele quem preserva a liberdade de julgamento diante do consenso. Uma complacência grande na própria suspeita.

Essa autoimagem extrai sua força de um dado banal, vendido como revelação altissonante. Sim, claro que verdades circulam por instituições, adquirem autoridade em condições históricas determinadas e participam de relações de poder. Também orientam decisões e informam políticas. Tudo isso pertence ao funcionamento conhecido das sociedades modernas.

Esse é apenas o ponto de partida. Uma crítica propriamente dita começa depois.

A primeira trucagem negacionista reside em inverter essa ordem. Lembra vendedor de feira puxando a toalha da mesa e anunciando, maravilhado, que a mesa continua ali. Descobre-se, com grande alarde, que há instituições, há interesses, há poder — ora, esse é o grau zero de qualquer crítica. Uma banalidade bem encenada ganha aparência de epifania.

Dizer que uma medição foi feita em determinado laboratório, que um modelo foi engendrado em certa comunidade científica ou que um limite climático subsidiou uma política pública não desmonta coisa alguma. Ainda falta chegar ao argumento. Trocar seu exame pela ficha corrida de quem o produziu é crítica de crachá.

O trabalho da crítica começa quando se entra nas relações que sustentam a afirmação e se examinam, ponto por ponto, as condições e os procedimentos pelos quais ela pode funcionar como verdadeira naquele campo de saber.

O primeiro Foucault, o de A arqueologia do saber e A ordem do discurso, é útil para destrinchar essas confusões. Seu problema passa pelas condições históricas que permitem a certos objetos ingressar num campo de saber e a determinados enunciados adquirir estatuto de verdade segundo as regras e procedimentos desse campo (FOUCAULT, 1969; 1971).

Tomemos as ciências do clima.

Ao longo do século XX, especialmente a partir dos anos 1950, séries meteorológicas comparáveis, testemunhos de gelo, medições oceânicas, satélites e modelos concorrentes passaram a relacionar fenômenos antes dispersos numa mesma escala planetária. Mais tarde, categorias como orçamento de carbono, pegada de carbono, tipping points e limites planetários abriram novas maneiras de interrogar esse objeto. Tomada em sentido foucaultiano, a vontade de verdade permite examinar como o campo organiza seus procedimentos de prova.

Isso situa historicamente a climatologia, mostra suas consequências políticas e torna sua crítica mais exigente. Uma série de temperatura pode ser contestada, mas é preciso atingir a série e a maneira pela qual ela é produzida enquanto tal. A absorção infravermelha do CO₂ pode ser posta em questão, desde que se mostre onde falha a medição ou a física que a sustenta. Um tipping point pode ser rejeitado como ilusório, desde que se rompa a relação estabelecida por dados e inferências entre processo, limiar e mudança de estado.

A autoridade epistêmica das instituições científicas também pode ser deslocada. Modelos são substituídos, resultados estabelecidos caducam, procedimentos de validação são revistos. Isso pode ocorrer dentro do próprio campo, quando novas medições ou outras explicações reorganizam aquilo que nele funcionava como verdadeiro. As relações de poder se imbricam nessas práticas, mas os procedimentos de validação operam igualmente dentro delas.

Resultados e autoridades permanecem contestáveis e passíveis de redistribuição no interior dessas práticas.

O segundo problema do negacionismo é metodológico. Ele dissolve os nexos pelos quais seria possível exercer esse crivo. O laboratório vira interesse; o interesse, narrativa; a narrativa, opinião. E tudo, em última instância, vira opinião. Talvez uma “onto-opiniologia”.

Desaparecem as diferenças entre medir, interpretar, argumentar e apenas asseverar. A divergência se emancipa dos procedimentos pelos quais teria de demonstrar sua pertinência. Em nome da crítica ao poder constituído, elimina-se precisamente o terreno em que uma verdade instituída poderia ser destituída e outras poderiam emergir em seu lugar.

O terraplanismo oferece um caso extremo dessa mesma operação solvente. Cada evidência adversa pode ser absorvida por uma camada adicional de suspeita, até que a hipótese inicial adquira imunidade contra a experiência — exatamente aquilo que deveria constituir o critério decisivo do próprio terraplanismo.

A polarização política das guerras culturais reproduz algo semelhante quando a origem de uma afirmação passa a definir antecipadamente o crédito que receberá. Em ambos os casos, o dissenso deixa de colocar a própria posição em risco e a crítica se desarma numa atribuição cômoda a algo externo, aos outros, a um “eles” diante do qual nos constituímos reflexamente.

Um ceticismo mais rigoroso opera de maneira bastante diferente. Ele dispensa a fantasia de ocupar um ponto exterior ao próprio campo da crítica. Instrumentos, métodos, resultados e autoridades podem ser interrogados a partir das práticas que os constituem; enunciados estabelecidos permanecem sujeitos a revisão quando esses procedimentos deixam de sustentá-los.

Até Paul Feyerabend, convocado tantas vezes para a festa do “vale tudo”, serve aqui de testemunha inconveniente. No Feyerabend dos anos 1960, o pluralismo teórico servia precisamente para multiplicar alternativas e expor dificuldades que uma teoria dominante poderia ocultar. Mais tarde, o anything goes de Contra o método radicalizaria sua crítica à ideia de regras metodológicas universais. Daí jamais se segue que qualquer afirmação valha tanto quanto qualquer outra (FEYERABEND, 1962; 1975).

Uma sucessão indefinida de objeções pode conter menos crítica do que uma única objeção capaz de romper o nexo decisivo de uma explicação. Desafiar um consenso exige localizar onde ele falha e oferecer uma hipótese — ou ao menos uma proto-hipótese — capaz de explicar diferentemente os mesmos fenômenos.

Eis a diferença. O primeiro truque negacionista transforma uma banalidade sobre poder em denúncia retumbante. O segundo usa essa denúncia para dissolver as próprias condições pelas quais uma afirmação poderia ser criticamente distinguida de outra.

Isso não encerra as controvérsias climáticas. Apenas permite chegar ao ponto em que elas realmente se abrem.

O que quero dizer é que há coisas solidamente estabelecidas. E é justamente porque alguns problemas foram bem determinados que outros, melhores, mais abertos e mais fecundos, podem aparecer.

Ao fim, negacionismo e cientificismo são erros opostos que convergem num mesmo efeito. O primeiro dissolve os nexos até que tudo possa voltar a ser opinião, logo, arbítrio; o segundo transforma uma resposta estabelecida em encerramento do problema. Por caminhos opostos, ambos esterilizam o campo das perguntas e das hipóteses.

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Saber que o sistema terrestre está aquecendo por ação humana não significa saber exatamente como cada parte — cada subsistema, como oceanos, circulação oceânica, florestas ou criosfera — responderá.

O sistema climático contém limiares que, uma vez ultrapassados, podem desencadear respostas não lineares, por vezes abruptas e difíceis de reverter.

Um sistema pode absorver alterações durante muito tempo e, a partir de certo ponto, passar para outro estado. É a lógica de um tipping point, ou ponto de inflexão.

O problema se intensifica porque os subsistemas se relacionam. Uma alteração em um deles pode modificar as condições de estabilidade de outros. Em certos casos, a desestabilização de um componente pode aproximar outros de seus próprios limiares. É daí que surge a possibilidade de efeitos em cascata, nos quais uma mudança favorece outras e seus desdobramentos se propagam pelo sistema (WUNDERLING et al., 2024).

São problemas próximos, mas distintos. O quadro dos limites planetários, associado aos trabalhos de Rockström e colaboradores e atualizado por Richardson et al., procura identificar zonas de crescente risco para a estabilidade do sistema terrestre (RICHARDSON et al., 2023). Wunderling e colaboradores investigam as interações entre elementos de tipping e a possibilidade de cascatas entre eles (WUNDERLING et al., 2024).

Na Amazônia, Carlos Nobre e outros pesquisadores vêm mostrando como aquecimento, desmatamento, fogo, secas e alterações no regime hídrico podem combinar-se, reduzir a resiliência da floresta e aproximar partes do sistema de transições críticas (NOBRE et al., 2016; LOVEJOY; NOBRE, 2018; FLORES et al., 2024).

Nos elementos de tipping climáticos, o aquecimento global constitui um forçamento central. Em cada sistema concreto, contudo, ele encontra outros drivers. Na Amazônia, por exemplo, aquecimento, desmatamento, fogo e mudanças no regime de chuvas podem reforçar-se mutuamente (FLORES et al., 2024).

A questão deixa então de ser meramente “quanto a temperatura sobe” e passa a ser como essa alteração interfere em sistemas ligados entre si.

Sucede aqui uma mudança de condição histórica.

Atmosfera, florestas, oceanos e gelo puderam durante muito tempo aparecer como pano de fundo da ação humana. Agora nossas atividades intervêm diretamente em seu funcionamento. Queimar carbono altera o balanço energético. Retirar floresta altera fluxos de água e carbono.

O que parecia cenário finalmente nos interpela como agente.

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NOTA DO AUTOR

Se a leitora quiser uma única indicação de leitura, indico a seção de Frequently Asked Questions (FAQ) do Grupo de Trabalho I do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC — o AR6 WGI. Começaria pelas questões 2.1, “The Earth’s Temperature Has Varied Before. How Is the Current Warming Any Different?”; 2.2, “What Is the Evidence for Climate Change?”; 3.1, “How Do We Know Humans Are Responsible for Climate Change?”; 3.2, “What Is Natural Variability and How Has It Influenced Recent Climate Changes?”; e 7.1, “What Is the Earth’s Energy Budget, and What Does It Tell Us About Climate Change?”. Textos breves, explicativos, bem lastreados nos capítulos técnicos e às linhas de evidência das quais extraem suas conclusões. Perguntas frequentes do AR6 — Grupo de Trabalho I do IPCC

Para aprofundar, sugiro três leituras em níveis sucessivos. Primeiro, o Technical Summary do mesmo relatório, uma síntese científica mais detalhada sem exigir a leitura das milhares de páginas do AR6 (ARIAS et al., 2021). Technical Summary — IPCC AR6 WGI Em seguida, para compreender com maior rigor o balanço energético, o forçamento radiativo, os feedbacks e a sensibilidade climática, recomendo o capítulo 7 do relatório, The Earth’s Energy Budget, Climate Feedbacks, and Climate Sensitivity (FORSTER et al., 2021). Capítulo 7 — IPCC AR6 WGI Finalmente, para o ponto em que este ensaio termina e os problemas voltam a se abrir, sugiro duas portas de entrada complementares. Sobre a Amazônia, Land-use and climate change risks in the Amazon and the need of a novel sustainable development paradigm, de Carlos Nobre e colaboradores, é particularmente útil para compreender como aquecimento e transformação territorial podem atuar conjuntamente sobre a estabilidade da floresta (NOBRE et al., 2016). Texto integral em acesso aberto. Para o problema mais amplo dos tipping points, vale percorrer a sequência formada por Steffen et al. (2018), sobre trajetórias do sistema terrestre, Wunderling et al. (2021), sobre interações e efeitos dominó entre elementos de tipping, e a revisão mais recente de Wunderling et al. (2024), que explicita também as grandes incertezas ainda existentes. Steffen et al. (2018) — Wunderling et al. (2021) — Wunderling et al. (2024)

REFERÊNCIAS

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente a posição da Universidade Nômade.

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