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Uma literatura menor do que si; Kafka e as variações de um conceito

Por Bruno Cava

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Toda grande ideia gostaria de poder exibir uma origem à sua altura.

A literatura menor de Deleuze e Guattari, cuja posteridade crítica no último meio século se espalhou pela teoria e pela crítica literária e alcançou enorme repercussão nos estudos culturais e pós-coloniais (Weissmann, 2013, p. 73, 79-80), carrega, apesar disso tudo, uma origem nada decorosa — e aqui poderíamos falar de algo como uma nietzschiana pudenda origo (Nietzsche, 2004, § 102).

Publicado em 1975, Kafka: por uma literatura menor (Kafka. Pour une littérature mineure, 1975) foi o segundo livro conjunto de Deleuze e Guattari, após O Anti-Édipo (Deleuze; Guattari, 1972). A expressão “literatura menor”, contudo, não é original desse livro. Ela chega aos autores filtrada por releituras da obra de Kafka e intermediada pela tradução francesa da época, pela crítica literária Marthe Robert (Kafka, 1954, p. 183; Weissmann, 2013, p. 76-78). No texto de Deleuze e Guattari, a expressão literatura menor é reinscrita na problemática filosófica da dupla, operando, pela primeira vez, como conceito (Weissmann, 2013, p. 78-80).

Essa reinscrição ganha corpo por meio de três características atribuídas por D&G à literatura menor. A primeira é o alto coeficiente de desterritorialização que ela imprime à língua. A segunda é a ligação imediata do caso individual ao político. A terceira é o agenciamento coletivo de enunciação de que ela participa (Deleuze; Guattari, 1975, p. 29-33).

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A primeira característica se refere à relação entre literatura e língua. Em 1975, D&G ainda não elaboram o par conceitual maior e menor de modo sistemático, tal como reaparecerá mais tarde, em Mil platôs (Deleuze; Guattari, 1980, p. 127-135).

Cabe, de início, conferir maior precisão ao par conceitual maior e menor em D&G. Tomados como meras etiquetas sociológicas, esses termos virariam uma espécie de geleia geral classificatória, amalgamando minorias demográficas, línguas minoritárias, literatura marginal e usos menores da língua no mesmo balaio. Ocorre que maior e menor não funcionam segundo a lógica da contradição, nem por uma diferença de grau em que um polo deteria mais ou menos quantidade, como se maior e menor nomeassem simplesmente posições quantitativas em relação a um fundo neutro. O próprio padrão que mede é já uma construção majoritária (Deleuze; Guattari, 1980, p. 133-134).

Em Mil platôs, Deleuze e Guattari desenvolvem o par maior/menor ao distinguir não duas espécies de língua, mas tratamentos distintos de uma mesma língua. O maior extrai constantes e erige um padrão; o menor submete essas constantes à variação. Em vez de funcionarem como rótulos ou fronteiras rígidas, distribuindo autores e literaturas em classes à maneira taxonômica, maior e menor designam operações que podem atravessar uma mesma língua e entrar em tensão no interior de uma mesma obra (Deleuze; Guattari, 1980, p. 130-135).

A bem ver, o caráter canônico de um autor — sua posição como referência consagrada em determinado sistema literário nacional ou internacional — não decide, por si só, sobre o maior e o menor (Deleuze; Guattari, 1975, p. 33; 1980, p. 130-135). Um autor pode ocupar papel preponderante nesse sistema e, ainda assim, fazer operar usos menores da língua em partes de sua obra. Daí também decorre o inverso, isto é, a posição marginal de um autor não garante, por si só, um uso menor da língua.

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Tomemos Clarice Lispector. Em A paixão segundo G.H. (1964), antes de a barata entrar propriamente no relato, G.H. já formula o problema da forma e do disforme. A escrita se move dentro dessa aporia. Ela teme perder a organização anterior, descreve a terceira perna como o que lhe dava estabilidade, receia fabricar outra e chamá-la de “uma verdade” e, finalmente, diz que não sabe “que forma dar” ao que lhe aconteceu e que, sem dar uma forma, “nada me existe” (Lispector, 1998, p. 11-14).

Como se sabe, o conflito entre linguagem e experiência constitui uma das linhas mais estabelecidas da crítica clariciana, notadamente desde Benedito Nunes, para quem em A paixão se extrema o “drama da linguagem”, no qual o esforço de dizer conduz ao indizível (Nunes, 1995, p. 75-76, 112).

Nota de passagem: na Clarice chez Nunes poderíamos ouvir, por nossa conta, uma ressonância schlegeliana, a ideia de uma obra cuja realização permanece incompleta, próxima da progressive Universalpoesie do fragmento 116 do Athenäum (Schlegel, 1967, p. 182-183). O horizonte do crítico paraense, contudo, é outro: o itinerário místico e o drama da linguagem. A aproximação entre esse umbral da linguagem em Clarice e o das Mystische do § 6.522 do Tractatus (Wittgenstein, 2001), seria desenvolvida posteriormente por Paulo Margutti (2005, p. 61-81).

Mas o que importa é o efeito que esse fracasso da linguagem produz na escrita de Clarice. G.H. retorna a “o que me aconteceu”, “o que vi”, “isso”, “aquilo”. Essas formas permitem que ela retorne ao vivido sem atribuir-lhe uma definição estável. Algo que aconteceu insiste como um campo de pressão sobre o texto, mas sua natureza, seus contornos e seus caracteres mudam a cada tentativa de enunciá-lo. Quando G.H. está tentando dar-lhe um nome, sabe que terá de corrigir-se — “não é isso, não é isso”. A repetição se instala no intervalo entre indicar e nomear (Lispector, 1998, p. 20 e passim).

Talvez se possa reconhecer aí um uso menor da língua. Em D&G, a literatura menor confere à expressão uma força produtiva (Deleuze; Guattari, 1975, p. 51-52). G.H. formula uma tensão próxima a essa. Ela diz: “Vou criar o que me aconteceu”, mas logo acrescenta que viver não é relatável, que terá de “criar sobre a vida” e, decisivamente, distingue criação de mentira. “Criar sim, mentir não.” (Lispector, 1998, p. 21).

O acontecimento não é produzido pela linguagem. Se assim fosse, essa leitura de A paixão segundo G.H. seria banalmente construtivista. Em Clarice, ocorre algo mais interessante. A experiência narrável é produzida no ato de dizer, mas o que força a narração não é redutível à linguagem. O acontecimento chega à frase transformando-se pelo esforço de dizê-lo. Quer dizer, cada ato de nomeação no romance intervém na experiência que procura nomear.

Não por acaso, quase ao final, G.H. pode sustentar sem contradição que a realidade antecede a voz e que só a possui à medida que designa (Lispector, 1998, p. 175-176). A linguagem procura a realidade, não a encontra, mas é desse fracasso que retorna com algo que antes não conhecia. Não há incompatibilidade entre “vou criar o que me aconteceu” e “a realidade antecede a voz”. Há uma não-equivalência. O real tem precedência ontológica, mas a experiência que G.H. pode ter desse real depende da operação da linguagem.

Não trago Clarice aqui como um caso que “comprovaria” a literatura menor mesmo em uma autora tão canônica da literatura brasileira. Pois maior e menor operam juntos no interior da escrita (Deleuze; Guattari, 1980, p. 123-135). A escrita de G.H. trabalha antes por um movimento duplo, simultâneo, de variação e recomposição das formas de identidade e sentido. Conquanto o romance fale das ‘raízes de minha identidade desconhecida’ (Lispector, 1998, p. 86) e de uma ‘identidade mais última’ (Lispector, 1998, p. 133), o saldo do texto é sim a despersonalização, pois G.H. procura perder características e chegar ao que não tem seu nome (Lispector, 1998, p. 175).

A narradora chama essa realidade anterior de “matéria-prima” (Lispector, 1998, p. 175-176). A escrita não constitui o que procura agarrar, ainda que só possa se acercar disso dando-lhe nomes que falham e necessitam ser refeitos. E aí reaparecem nomes com sobrecarga metafísica — Deus, o neutro e o inexpressivo — que funcionam como nódulos recorrentes de reorganização em meio à falha geral das categorias e dos nomes. Eles não encerram o movimento, mas permitem que a escrita volte provisoriamente a se orientar.

A composição de A paixão segundo G.H. faz essa lógica reaparecer várias vezes. Perto do fim, ocorre algo semelhante com a mudez. Ela não aparece como simples ausência de linguagem, mas como aquilo a que só se chega depois de ter construído a voz e levado essa construção ao malogro. A voz precisa ser construída para poder falhar (Lispector, 1998, p. 175-176).

A escrita de Clarice faz variar as formas continuamente. Elas jamais desaparecem. São colocadas em situação de instabilidade, deslocadas e retomadas como apoios parcos que permitem à escrita continuar. Assim, em A paixão segundo G.H., o menor da literatura pode ser situado no deslocamento contínuo entre nomes e sentidos, enquanto o maior opera nas formas que retêm e recompõem esse movimento, por vezes sob nomes metafisicamente sobrecarregados (cf. Deleuze; Guattari, 1980, p. 123-135). Clarice não resolve um polo no outro. Faz a escrita avançar pelo movimento entre ambos, e é esse movimento que a conduz por paisagens tão insólitas.

Em Grande sertão: veredas, desde a crítica inicial (Proença, 1958) até levantamentos sistemáticos (Martins, 2001), a criação lexical pertence a um terreno já vastamente mapeado e escrutinado pela crítica rosiana e não pode ser tomada, sozinha, como índice de minoração. Desde cedo se reconheceu que o trabalho de Rosa envolve léxico e sintaxe, arcaísmos e estrangeirismos, de maneira que, para o problema que nos ocupa, o neologismo ganha interesse quando sua alteração repercute em relações mais extensas da língua.

Perto do desfecho, diante do combate em que Diadorim morrerá, Riobaldo se encontra “desmim de mim-mesmo” (Rosa, 2001, p. 610). O des- acoplado à forma oblíqua mim desloca a posição do sujeito e a frase seguinte prolonga a torção em “eu me, em mim, gemi”. A invenção lexical deixa então de caber no vocábulo. A forma pronominal, a sintaxe e a distribuição entre agência e padecimento entram juntas em movimento (cf. Nodari, 2018, p. 30-31).

A passagem também tem uma leitura recente bastante próxima do problema que nos ocupa. Alexandre Nodari descreve a sequência “desmim de mim mesmo […] eu me, em mim, gemi” como o que seria uma “dessubjetivação radical” (Nodari, 2018, p. 30), provocada pela torção dos pronomes pessoais.

Para “desmim”, ele retoma a “antonímia metafísica” — expressão cunhada pelo crítico Paulo Rónai ao comentar Tutaméia para designar formações negativas que dão existência positiva ao não-ser (Rónai, 1985, p. 222; Nodari, 2018, p. 30-31). Nodari observa que a obliquação de “mim” desaloja o eu da posição exclusiva de sujeito, aproximando-o das posições de objeto e de paciente. Na fórmula “eu me, em mim, gemi”, essa torção chega ao ponto em que a distribuição entre quem age e quem padece já não pode ser estabilizada (Nodari, 2018, p. 30-31).

Rónai dá a categoria da “antonímia metafísica”. Nodari mostra o que acontece quando essa operação atinge o pronome pessoal e, com ele, a posição do sujeito.

Para o problema da literatura menor, a leitura de Nodari permite tomar “desmim” menos como acréscimo vocabular ao português do que como uma torção das formas pronominais da primeira pessoa que se prolonga pela frase. Em chave próxima à variação contínua de D&G — tal como concebida em Mil platôs (Deleuze; Guattari, 1980, p. 123-125) — essa mesma linha ganha interesse visto que a alteração morfológica repercute na sintaxe e faz variar o regime da primeira pessoa (Nodari, 2018, p. 30-31; Deleuze; Guattari, 1980, p. 123-125). O “eu” deixa de ocupar um posto gramatical e enunciativo estável.

Tomada como unidade autônoma, a novidade lexical ainda poderia ser incorporada ao repertório da língua sem alterar o regime da enunciação. Aqui, entretanto, a operação não se estabiliza no vocábulo. A alteração morfológica prossegue na sintaxe, faz variar as posições ocupadas pela primeira pessoa e continua a operar pela frase. Nessa propagação da variação — digo eu — se pode localizar um uso menor da língua.

Não quero, contudo, converter Grande sertão: veredas em caso exemplar de literatura menor. O interesse está em localizar uma cadeia de operações. Nesse ponto do romance, a língua deixa de sustentar como constantes as formas pelas quais o sujeito diz “eu”.

Importa que a operação não se restringe ao fulgor dessa passagem. Nodari a lê como tensionamento-limite de uma obliquação disseminada pelo romance, visível em construções como “Vim-me”, “me fugi” ou “Eu era dois, diversos?” (Nodari, 2018, p. 32). “Desmim” condensa uma variação que já vinha perpassando a primeira pessoa de Riobaldo.

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Clarice e Rosa não convergem num mesmo procedimento. A distância entre as operações encontradas nos dois autores permite dimensionar o alcance do conceito. Literatura menor não designa um repertório de recursos identificável pela repetição de certos traços.

Não há uma morfologia da literatura menor feita, em Rosa, de neologismo e torção sintático-pronominal; nem, em Clarice, de fragmentação, despersonalização e instabilidade nominativa. Compete ao leitor observar o que esses procedimentos fazem com a língua, caso a caso.

Podemos voltar, então, a Mil platôs.

Deleuze e Guattari escrevem que maior e menor não correspondem a duas classes ou estruturas linguísticas, mas a tratamentos distintos da variação, na mesma língua e sobre ela (Deleuze; Guattari, 1980, p. 130-131). O tratamento majoritário extrai constantes das variáveis e estabelece relações entre constantes. O tratamento menor, sobre a mesma língua, coloca as variáveis em variação contínua (Deleuze; Guattari, 1980, p. 130). Não se trata, jamais, de um esquema prosaico do tipo norma x transgressão.

Pois o procedimento de variação contínua não consiste em multiplicar desvios. Consiste em fazer os elementos da língua mudarem de valor e de função conforme entram em novas relações ao longo da escrita. Isso pode ocorrer na fonologia, na sintaxe, na semântica, na prosódia, nas passagens de uma dimensão a outra e assim por diante (Deleuze; Guattari, 1980, p. 119-123). O processo de modificação não encontra termo, porém, na constituição de uma constante nova. (Deleuze; Guattari, 1980, p. 133-134).

Essa possibilidade de reativar o conceito fora de Kafka, entretanto, não autoriza apagar as condições específicas de sua elaboração. Quando D&G convertem a literatura menor em conceito em Kafka. Pour une littérature mineure, fazem-no por meio do encontro com o que eles constroem como um problema histórico e linguístico determinado (Deleuze; Guattari, 1975, p. 29-35). Na reconstrução por D&G, a situação dos judeus de Praga que escrevem em alemão não é convocada apenas como pano de fundo sociológico para uma tese que pudesse ser formulada independentemente dela. Participa dos termos e coordenadas do problema.

O conceito de literatura menor, consequentemente, não resulta da abstração posterior de um caso empírico, como se Kafka primeiro proporcionasse os dados e deles D&G extraíssem uma lei geral. Ele se produz no encontro entre língua, situação histórica, textos, cartas, diários, posições de enunciação que compõem o que o livro organiza como máquina-Kafka (Deleuze; Guattari, 1975, especialmente p. 7-16 e p. 51-52). Múltiplas engrenagens, múltiplos funcionamentos.

Isso tampouco transforma Kafka em modelo normativo ou taxonômico a ser aplicado depois a Clarice, Rosa ou qualquer outro autor. Reativar o conceito de literatura menor exige guardar essa dupla cautela. Não reduzir o menor às condições históricas de sua primeira formulação (em 1975), mas também não desossá-lo delas até torná-lo uma categoria disponível in genere.

Pode-se agora retornar a Kafka com a distinção mais trabalhada entre maior e menor. Não para reencontrar nele um modelo do qual os outros casos seriam derivações, mas para observar com maior precisão as operações que levaram D&G a construir o conceito.

Em O processo, por exemplo, a linguagem jurídico-administrativa distribui competências de fala e graus de acesso ao saber (Kafka, 1997, passim). Seu funcionamento depende de distinções que deveriam tornar reconhecíveis o processo, suas instâncias e quem nele é competente para falar ou decidir. Kafka faz proliferar esse vocabulário e essas posições de tal maneira que cada esclarecimento remete a outra instância, outra interpretação ou uma nova distribuição de competências. E é isso que vai impelindo a escrita.

Em vez de simplesmente desaparecer, o princípio de ordenação continua exercendo poder porque jamais deixa de prometer uma ordem que suas articulações tornam mais difícil alcançar. O movimento menor ocorre no interior da linguagem investida da função de ordenar e julgar.

D&G encontram esse trabalho também em unidades elementares da prosa kafkiana. Ao descrever o alemão de Praga como uma língua ressecada que Kafka faria tensionar e vibrar, recorrem a uma fórmula que dizem cara ao escritor, “il en est ainsi, il en est ainsi”, chamando-a de “protocolo de um estado de fato”. Numa língua cuja função representativa tende a ser reduzida, elementos mínimos podem conservar pouco do sentido e ganhar em intensidade (Deleuze; Guattari, 1975, p. 36-37).

No conto Auf der Galerie (Na galeria), Kafka escreve primeiro “Da es aber nicht so ist” e, depois de todo o longo período que se segue, “da dies so ist”. O tradutor Modesto Carone verte, respectivamente, “Mas uma vez que não é assim” e “uma vez que é assim”. O advérbio “so” — “assim” — não volta a descrever o estado de coisas. Em construção com “ist”, retoma-o numa forma mínima e devolve à frase, condensada nesse “assim”, a carga da asserção anterior. Ou seja, a sintaxe permanece reconhecível, mas uma parcela crescente da força assertiva passa a concentrar-se nesse elemento semanticamente rarefeito (Kafka, 1999, p. 22-23; cf. Carone, 2008, p. 198-200).

A minoração, nesse caso, não exige uma língua alternativa nem depende de alguma invenção lexical. Kafka trabalha com materiais ordinários alterando as relações de força entre eles. O emprego corrente não é substituído por um novo código. São certas relações já disponíveis na língua que adquirem intensidade a ponto de cessarem de cumprir sua função habitual, esperada, por vezes prescrita. O menor aparece menos na excepcionalidade do material do que no tratamento a que esse material é submetido (Deleuze; Guattari, 1980, p. 123, 130-131).

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Aqui vale deslocar o foco para Maura Lopes Cançado, cuja obra passou nas últimas décadas por uma consistente retomada editorial e crítica (Cançado, 2015; Scaramella, 2010; Brum, 2021; Ferraz, 2022). A posição menos estabilizada da escritora no cânone não constitui, a priori, qualquer índice de minoração. Então vejamos.

Em No quadrado de Joana, publicado originalmente em 1958 (Cançado, 1958), a forma geométrica rege a experiência da personagem porque funciona tanto como confinamento quanto apoio vacilante contra a desagregação (Cançado, 2015, p. 15-16). A retidão do muro prolonga-se até a linguagem, onde Joana procura uma régua que certifique a justeza das palavras (Cançado, 2015, p. 16). O quadrado a encerra, mas é também dentro dele que ela ainda consegue conservar uma forma.

O conto leva essa procura obsessiva por medida de uma dimensão a outra. À espera de uma “nova linguagem” (Cançado, 2015, p. 17), Joana foge das palavras para números que lhe pareceriam mais certos. A fuga fracassa no número sessenta. Procurado como saída da imprecisão das palavras, o número revela-se inseparável delas. Sua figura já contém a curva e, quando precisa ser nomeado, “sessenta” restitui à medida a ondulação sonora que Joana tentava esconjurar (cf. Nascimento; Santos, 2026, p. 71-72).

A operação chega ao limite no desfecho. Depois que Joana desmorona, chega-lhe de fora uma palavra classificatória — “catatônica” (Cançado, 2015, p. 18-19). Joana gostaria de medi-la, separa-a em sílabas e pergunta se ali não estaria o princípio da nova língua que esperava. O termo classificatório não perde com isso sua força de nomeação, mas já não funciona apenas como classificação. Ao entrar na escrita de Joana, torna-se também matéria a medir e segmentar.

Aqui o conto reencontra, por uma via específica, o problema da literatura menor. A aproximação entre Maura e Deleuze e Guattari já foi proposta por Brum (2021), mas interessa-nos outra operação. Não a marginalidade da autora nem, em primeiro lugar, a desterritorialização do espaço manicomial, e sim o que ocorre com a medida quando ela atravessa dimensões distintas do conto.

No espaço, assume a retidão do quadrado. Quando precisa operar na linguagem, contudo, já depende das palavras que deveriam ser mensuradas por ela. A tentativa de escapar para a exatidão numérica repõe o problema, pois o número se coloca também como figura e, ao ser nomeado, volta à palavra e ao som (Nascimento; Santos, 2026, p. 71-72).

Joana procura uma medida que lhe assegure alguma constância, mas a medida se transforma ao passar de uma dimensão a outra (cf. Deleuze; Guattari, 1980, p. 119; Nascimento; Santos, 2026, p. 71-72).

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Há uma recorrência curiosa na recepção deleuze-guattariana da literatura menor.

Parte de seus comentadores retorna periodicamente aos usos pós-coloniais e transnacionais  do conceito para corrigi-los em nome de Deleuze e Guattari. A acusação é conhecida. Ao aproximar o menor de literaturas de minorias, sujeitos subalternizados e lugares marginais de enunciação, essas leituras recolocariam o sujeito no centro justamente onde D&G procuram retirar-lhe a primazia no agenciamento coletivo (Lambert, 2012, p. 37-54; Thoburn, 2016; Lambert, 2021, p. 1-34).

A mudança de eixo alcança a dimensão política do conceito.

Em D&G, o agenciamento coletivo de enunciação não pressupõe uma comunidade já constituída que encontraria no escritor sua voz (Deleuze; Guattari, 1975, p. 30-33; Lambert, 2012, p. 37-40). A enunciação participa da constituição de relações coletivas que não lhe preexistem sob forma acabada. Quando o menor é deslocado para a representação e o reconhecimento, a pergunta muda. Pergunta-se menos o que a enunciação põe em funcionamento e mais como uma coletividade identificável passa a falar por meio dela.

Vou dar um exemplo, sem espantalhos, relativamente influente nos anos 2000: Minor Transnationalism (2005), organizado por Françoise Lionnet e Shu-mei Shih. Na introdução, as organizadoras do livro adotam o conceito de menor para explicar o funcionamento de redes entre culturas e grupos minoritários que se ligam horizontalmente — no vocabulário delas, “minor-to-minor networks” — dispensando mediações ligadas ao campo majoritário (Lionnet; Shih, 2005, p. 2-11).

O volume reúne, entre outros, estudos sobre cultura chicana, poesia dub jamaicana e relações raciais em Salvador. As organizadoras não se limitam a transportar o conceito de D&G, como se fosse uma categoria formal abstrata. Mudam sua escala e seu problema. Contra o esquema em que formações minoritárias só se relacionariam com uma cultura majoritária por assimilação ou resistência, investigam relações laterais entre formações minoritárias, que sejam capazes de pôr margens em contato, contornando os centros.

O menor deixa de nomear preeminentemente um tratamento da língua e passa a qualificar também uma topologia relacional entre formações culturais minoritárias — isto é, houve inflexão do conceito quando levado ao corpo a corpo com outros problemas.

No Brasil, por todos, vale citar Escritos à margem, de Paulo R. T. do Patrocínio. O capítulo em questão se chama “Literatura Marginal, uma literatura feita por minorias” (Patrocínio, 2013, p. 23-64), e o conceito de literatura menor ali é empregado para descrever autores de periferia que assumem a produção de seu discurso e ligam a escrita a uma experiência compartilhada.

Mesmo recusando a simples equiparação entre Literatura Marginal e literatura menor e reconhecendo limites no emprego do conceito, especialmente no plano linguístico, Patrocínio desloca o busílis (Patrocínio, 2013, p. 29-40). O foco é colocado na passagem do sujeito periférico da posição de objeto de discurso à de produtor discursivo, acompanhada pela reivindicação de uma experiência compartilhada e de um espaço de enunciação. A literatura menor passa, em consequência, a operar também no problema da autorização da fala e da autorrepresentação coletiva.

O povo que falta deleuziano tende aí a ganhar os contornos de um povo periférico reconhecível, cuja ficcionalização — escreve Patrocínio — favorece “a construção identitária a partir de um discurso de afirmação” (2013, p. 47). O deslocamento, todavia, não é uma simples restauração da representação.

Patrocínio recorre ao próprio Deleuze, em A imagem-tempo, para negar que inventar um povo consista em produzir a imagem de uma comunidade já dada e insiste no duplo movimento da fabulação (Patrocínio, 2013, p. 47-48; Deleuze, 2018, p. 314-321). Ainda assim, ao articular esse povo a um território periférico, sua leitura lhe devolve uma recognoscibilidade social mais forte do que um deleuziano como Lambert estaria disposto a aceitar.

O serviço correcional deleuziano responde a deslocamentos como esse invocando fidelidade ao conceito. Gregg Lambert proporciona um caso nítido em The Bachelor Machine and the Postcolonial Writer. Ao discutir escritor e povo, levanta a objeção sem meias-palavras. Essa relação, diz-nos, “should not — must not! — be understood in representational terms” (Lambert, 2012, p. 37). O escritor não representa um povo, nem recebe por delegação a função de ser porta-voz de uma experiência minoritária ou subalterna.

Portanto, tomando D&G ad litteram — segundo Lambert — o escritor não fala em nome de uma comunidade já constituída. A singularidade que escreve e a comunidade ainda virtual funcionam no mesmo agenciamento coletivo. Nenhuma assume a posição de sujeito da enunciação (Lambert, 2012, p. 37-40; Deleuze; Guattari, 1975, p. 30-33). A objeção atinge todos os usos de literatura menor que predeterminam o escritor minoritário como voz representativa de uma coletividade já dada, pré-definida.

Pois bem. O risco é o seguinte. Para salvar D&G do modelo da representação, corre-se o risco de produzir uma representação correta de D&G, a seguir defendida com unhas e dentes. Essa virada, de sabor francamente platonista, reposiciona a obra como original cuja verdade o comentário deveria restituir e as apropriações posteriores como cópias menos fiéis, esmaecidas.

Nietzsche ensina a deslocar a pergunta antes mesmo de decidir se a correção está certa. Em Além do bem e do mal, depois de interrogar a origem da vontade de verdade, ele interrompe a investigação diante de uma questão mais visceral. Qual é o valor dessa vontade? (Nietzsche, 1992, § 1).

A pergunta não é apenas se queremos a verdade, mas o que em nós a quer e por que lhe atribuímos esse privilégio. Na terceira dissertação da Genealogia da moral, o deslocamento se torna ainda mais incisivo. A vontade incondicional de verdade repousa numa fé em seu “valor metafísico”, no valor da verdade como tal (Nietzsche, 1998, III, § 24). Esse valor precisa ser problematizado.

Aplicada à disputa em torno da literatura menor, a pergunta muda novamente. Antes de decidir quem restabeleceu corretamente D&G, cabe perguntar que valor assume a vontade de correção quando ela se converte em princípio último de seleção dos usos do conceito.

Nada disso, em Nietzsche, autoriza uma leitura desatenta ou descompromissada do texto. Sua genealogia convive com uma exigência filológica severa. Em Aurora, define a filologia como arte da leitura lenta, profunda e cuidadosa (Nietzsche, 2004, Prefácio, § 5). Já no prefácio da Genealogia, a “leitura como arte” exige ainda a faculdade de ruminar (Nietzsche, 1998, Prefácio, § 8).

O problema não está na exatidão da leitura. Está em fazê-la funcionar como valor absoluto, como se a tarefa crítica se encerrasse quando a interpretação correta estivesse estabelecida segundo um metro originário.

O problema aparece quando a exegese instala uma alfândega entre o conceito e seus usos, encarregada de separar interpretações legítimas e ilegítimas segundo sua proximidade com uma propriedade original do texto. Se pudermos transpor, de modo análogo, para a própria recepção o vocabulário que vínhamos empregando, há aqui uma ironia. Defender o menor pode tornar-se uma maneira de majorizar o conceito. Extrai-se da história variável de seus usos uma constante chamada “literatura menor” e aí ela passa a ser empregada como padrão para julgar cada nova apropriação (cf. Deleuze; Guattari, 1980, p. 130-134).

A inclinação genealógica exige mais do intérprete. Não apenas localizar o ponto em que uma leitura se afastou de D&G, mas perguntar o que esse afastamento tornou possível, a que novos problemas conectou o conceito, que relações tornou visíveis e também o que fez desaparecer. O indecoro da interpretação não a absolve. Torna seus efeitos novamente avaliáveis.

D&G dão a essa interrogação uma orientação mais pragmática (em acepção filosófica). Em Mil platôs, diante de um livro, deslocam a pergunta pelo que ele quer dizer. Perguntam com o que ele funciona, em que multiplicidades introduz e metamorfoseia a sua. O livro é ele próprio um agenciamento e só existe por suas conexões com outros agenciamentos. Ler deixa então de consistir apenas em restituir uma significação e passa também por cartografar funcionamentos e transformações (Deleuze; Guattari, 1980, p. 10).

Isso não torna a exegese dispensável, nem converte qualquer apropriação em boa interpretação porque produza efeitos tais e quais. E sobretudo a pragmática deleuzo-guattariana não é uma licença para o vale-tudo.

A letra do texto constrange seus usos, mas não funciona como tribunal final deles. Uma leitura pode afastar-se do conceito que recebe e, ainda assim, fazê-lo entrar numa conexão capaz de produzir um problema novo. Outra pode restituí-lo com impecável fidelidade e esterilizá-lo na repetição. Nada disso pode ser decidido de antemão. É preciso perguntar, caso a caso, cuidadosamente, o que um uso torna possível, de que o conceito se torna capaz depois de atravessá-lo.

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Voltando ao livro de 1975, torna-se difícil sustentar uma divisão confortável entre leituras que fazem pesar a condição minoritária do escritor e uma leitura deleuzo-guattariana levíssima e corretíssima. A ambiguidade já está montada desde Kafka: Por uma literatura menor.

D&G recusam uma formulação abstrata e universal do problema da expressão (Deleuze; Guattari, 1975, p. 29). Começam pelas literaturas “ditas menores” e fazem imediatamente o problema passar pela situação dos judeus germanófonos de Praga, pela impossibilidade de escrever que a atravessa e pelo alemão praguense como “linguagem de papel ou de artifício” (Deleuze; Guattari, 1975, p. 29-30).

Não há duas etapas segmentáveis nessa passagem. Quando a pergunta passa a dirigir-se “a nós todos”, o conceito não se eleva do singular ao geral (Deleuze; Guattari, 1975, p. 35). Ele muda de alcance sem abandonar os componentes que lhe deram consistência no problema kafkiano.

Condição minoritária e operação de minoração não coincidem, mas não se deixam segregar como exterior sociológico e interior literário. A máquina-Kafka atravessa essa fronteira. A escrita parte de posições históricas e linguísticas determinadas, mas não as representa pura e simplesmente. Faz delas componentes de um agenciamento. Dessubjetivação, aqui, não é sinônimo de dessocialização.

Essa máquina, ademais, chega a D&G depois de duas mediações sucessivas. Primeiro, uma montagem editorial. Depois, uma inflexão tradutória.

Aqui vale alguma precisão filológica, porque ela muda o sentido de literatura menor (Kafka, 2008, p. 312-326; Thirouin, 2007, p. 49-52; 2014, p. 333-335). Entre 25 e 27 de dezembro de 1911, Kafka anota reflexões sobre duas literaturas que conhecia de maneiras diferentes. Da literatura judaica de Varsóvia, isto é, da produção iídiche daquele meio, sabia por intermédio de Jizchak Löwy, ator da companhia de teatro oriunda de Lemberg, que na época se apresentava em Praga. Da literatura tcheca contemporânea tinha, como ele próprio escreve, conhecimento em parte direto (Kafka, 2008, p. 312).

Dessas duas referências que Kafka chega, em 27 de dezembro, ao “Schema zur Charakteristik kleiner Litteraturen” — “esquema para a caracterização das pequenas literaturas” (Kafka, 2008, p. 326). A expressão que mais tarde se tornará “literatura menor” não se origina como autodefinição da escrita de Kafka. Ele está refletindo sobre outras literaturas (Thirouin, 2007, p. 53-59; Weinberg, 2025, p. 39-42).

A primeira inflexão lexical ocorre na tradução francesa de Marthe Robert, publicada pela ed. Grasset em 1954 a partir da edição de Max Brod (Kafka, 1954; Thirouin, 2007, p. 49-50; 2014, p. 333-335). Na edição de Brod, seguida por Robert, as anotações aparecem achatadas sob uma data única, de 25 de dezembro (Thirouin, 2007, p. 49-50; 2014, p. 333-334). Mais importante, a expressão “kleine Litteraturen”, anotada por Kafka em seus diários de trabalho, torna-se “littératures mineures” (Kafka, 1954, p. 183; Thirouin, 2014, p. 335) — mais precisamente, “Schéma pour établir les caractéristiques des littératures mineures” (Kafka, 1954, p. 183).

A escolha de traduzir “kleine” por “mineures” é incomum (Thirouin, 2007, p. 58-60; 2014, p. 335; Weinberg, 2025, p. 38-39). Poucas páginas antes, a mesma tradutora verteu “kleine Nation” por “petite nation” (Kafka, 1954, p. 181, 183). O “mineur” que D&G receberão em 1975 já tinha por rastro uma decisão peculiar da tradutora.

Em 2020, Robert Kahn restitui ‘petites littératures’ na primeira tradução francesa integral dos doze cadernos manuscritos de Kafka (Kafka, 2020).

Em 1975, D&G trabalham sobre a tradução de Robert (Thirouin, 2007, p. 49; 2014, p. 334). Na abertura do capítulo “Qu’est-ce qu’une littérature mineure?”, apropriam-se das “littératures dites mineures” (logo, já tendo absorvido a opção vocabular de Robert), como o seu problema próprio (Deleuze; Guattari, 1975, p. 29). D&G efetuam então mais uma torção. Kafka havia aproximado a literatura judaica de Varsóvia da literatura tcheca. Em 1975, a dupla escreve “la littérature juive à Varsovie ou à Prague”. Ora, Praga passa a entrar onde Kafka havia escrito literatura tcheca, e o problema é reconduzido diretamente à situação do próprio Kafka (Deleuze; Guattari, 1975, p. 29; Thirouin, 2007, p. 53-55; Weinberg, 2025, p. 39-40).

Na frase seguinte ocorre outra operação. O plural de Robert, “littératures mineures”, torna-se o singular conceitual “une littérature mineure” (Kafka, 1954, p. 183; Deleuze; Guattari, 1975, p. 29). D&G podem formular então: “Une littérature mineure n’est pas celle d’une langue mineure, plutôt celle qu’une minorité fait dans une langue majeure” (Deleuze; Guattari, 1975, p. 29).

O deslocamento já não é apenas vocabular. Em Kafka, “klein” nasce da comparação entre pequenas e grandes literaturas e dos diferentes modos de vida literária que essa diferença permite observar (Kafka, 2008, p. 312-326; Thirouin, 2007, p. 58-61; Weinberg, 2025, p. 41-42). Não designa uma minoria trabalhando no interior de uma língua maior, nem Kafka se incluiu entre aquelas kleine Litteraturen (Thirouin, 2007, p. 60-61; 2014, p. 336-337; Weinberg, 2025, p. 41-42). O horizonte de comparação é a grande literatura alemã, com Goethe projetando sua sombra sobre a problemática (Kafka, 2008, p. 318). D&G recebem de Robert o termo mineur e, a partir dele, fazem outra coisa com o estofo kafkiano.

Essa pequena arqueologia da impudência tornou menos rígida a fronteira entre condição minoritária e procedimento de minoração. De klein a mineur, e do plural de Robert ao singular de D&G, o problema muda sem perder a situação histórica e linguística em que tomou forma. convertido por sua leitura naquele suposto Papierdeutsch desterritorializado (cf. Thirouin, 2014, p. 336-337; Weinberg, 2025, p. 42-43). Tampouco abandonam essas condições ao fazer do menor uma operação da língua.

Nesse intervalo, o conceito adquire uma ambivalência que reaparecerá em suas recepções e reformulações. A condição minoritária não contém o devir minoritário, nem deixa de compor o problema quando o menor ganha estatuto de operação.

 

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