A crise na Argentina: PASO a PASO: os pragmáticos de ontem

Por: Ariel Pennisi*

16/09/2021

Tradução de Guilherme Bianchi

 

Na política contemporânea uma vitória que não assume a complexidade do contexto pode se transformar rapidamente em uma vitória pírrica. Ganhar para perder. A Frente de Todxs como dispositivo eleitoral serviu para consolidar a contestação à gestão grosseiramente antipopular do macrismo. Em tempos nos quais eleições não determinam necessariamente mudanças estruturais na vida econômica nem no campo das subjetividades, as eleições primárias argentinas (também chamadas PASO – Primarias, Abiertas, Simultânea e Obrigatórias) em 2019, implicaram um plus, o número, nesse caso, expressou uma vitalidade extra-eleitoral. A festa multitudinária de 10 de dezembro por contraposição à erosão anímica de quatro anos de ajuste econômico e moral (ou a moralização do ajuste). Os quatro anos do macrismo foram uma contrarrevolução por uma revolução que não vivemos. Desde os editoriais do La Nación, em tempos em que o kirchnerismo já não vinha forte, seguiam insistindo em chamar de “montonero” o último governo de Cristina Fernández, estabelecendo um teto (ou uma parede) a qualquer horizonte possível pela esquerda. De fato, a própria ex-presidenta parecia coincidir com o martelar do jornal conservador, quando disse em um discurso que “à esquerda está a parede”. Depois da primeira de uma série de mobilizações críticas massivas, incluindo mobilizações críticas a seu governo, em fins de 2012 e inícios de 2013, Horacio Gonzales publicou um breve texto no qual tentava explicar o que se passava com essas multidões difusas – é o que fazia o grande Horacio, compartilhava suas tentativas de explicar os dramas nacionais, antes que explicasse o resto a partir de um suposto saber. Em uma passagem se deixava surpreender pelas razões desmedidas dos manifestantes (supostos ou potenciais leitores de tais editoriais) ante um “estilo reformista moderado…”, como definia o governo de que, não sem autonomia, formava parte como diretor da Biblioteca Nacional.

Na segunda-feira, depois das eleições, Rubén Mira exclamou: “A derrota começou depois das PASO de 2019!”. Derrota antes da derrota, a gestualidade do candidato vitorioso prefigurou então a atitude do governo antes e durante a pandemia. Desaceleração do que se havia mobilizado, convertida hoje em desmobilização e desconcerto; dinamismo de uma frente com diversidade de atores convertido em loteamento estático entre setores; composição social efervescente obstruída pela mesma espiral de sempre. Desde o momento em que se decidiu (antes da pandemia) desconhecer o default que o governo de Macri havia deixado a economia argentina, até a insólita marcha atrás com o projeto de recuperação dos ativos que a empresa Vicentín havia burlado do Banco Nación, o discurso da derrota tomava a forma do realismo político mais fastidioso, possibilismo, entrega de terreno anímico e de vitalidade política à contrarevolução (sem revolução prévia) que nunca deixou de operar. É melhor negociar uma dívida impagável com o FMI nessas condições que haver começado o período de governo com um default adjudicado à degradante experiência política precedente (essa sim, uma herança pesada)? Alguém crê realmente que não se pode avançar com um projeto que transformaria em bem comum uma empresa dedicada à fuga de divisas, ao contrabando e a exaurir o Estado e os produtores, porque um grupo de habitantes de um pequeno povoado desconhecido de Santa Fé se fez de bobo nas vielas onde costumam murmurar todos os dias?

A experiência política kirchnerista, entre outras coisas de diversa importância, nos deixou um axioma: o custo político não é diretamente proporcional à profundidade das políticas. Pode-se observar que um governo de origem eleitoral popular, ainda que concessivo, negociador e até hesitante em muitos aspectos, se expõe a uma série de custos. O conglomerado de poderes factuais e uma parte importante da sociedade são capazes de inventar a linha esquerdista, o segredo populista, ou de carregar a corrupção estrutural em sua própria conta; estigmatização que rebaixa o solo da discussão. Desde início advertimos que o governo, com “imprudente prudência”, iria pagar os custos pelo que possuía de popular e emergente. E pagou inclusive pelo que não se animou a fazer. Dizíamos que o desafio passava por uma convocatória a apoiar medidas e articular ações políticas que estivessem a altura dos custos que, de toda forma, teriam de ser pagos.

Expressávamos isso da seguinte maneira: “Na Frente de Todos, as vozes mais prudentes insistiram desde o primeiro minuto em moderar as expectativas e não fomentar a potencialidade, desses setores reacionários, de hegemonizar o cenário político. E se invertermos a equação? Que tal se, em lugar de insistir em argumentos segundo os quais é melhor não “agitar” para não despertar o enorme poder de fato da Argentina, para não se opor a setores-chaves da economia, ou para não pagar os custos políticos do caso, avaliarmos os custos inevitáveis ​​pelo simples fato de sermos um governo de origem popular e ter um estilo de ação política a altura desses custos? Dizem que somos esquerdistas, que ousamos questionar o endividamento e o pagamento de uma dívida ilegítima, que entre nossas fileiras se fala de uma reforma agrária atualizada, que nos parece razoável a expropriação de uma empresa de cereais para investigar e incidir sobre o custo dos alimentos, que pretendemos impulsionar a estatização dos serviços públicos vilmente privatizados – e, ainda por cima, que alguns de nós desejaríamos que a direção fosse compartilhada com trabalhadores e usuários –, nos creem capazes de fazer guerra à fuga de capitais e de tantas outras coisas mais? Pois bem, melhor confirmar esses fantasmas antes de tornarmos fantasmas de nós mesmos.

Nesta eleição ficou claro que a única coisa radicalizada na Argentina é a direita, mesmo que “o povo” não rejeitasse necessariamente posições imoderadas. Por outra parte, a disputa anímica resulta capital num tempo de humor volatilizado que, após a pandemia, extremou suas condições. O governo paga todo o custo, mas dentro do governo, não paga La Cámpora pela reprodução conservadora de uma velha política reduzida a um “toma-lá, da-cá” de cargos? Entre a moralidade do “renunciomêtro” de ministros e o cinismo dos Larroque, que pretendem nos ensinar, depois da brutal derrota em seu próprio território (você se surpreende que, em um contexto de apreensões de terras, depois de reprimir quem não tem nada, esses não votem neles?), a renúncia política aparece como um “estágio superior “de uma realpolitik arrogante. Berni não iria “conter” os votos para a direita? O pragmatismo tolo é, na verdade, um dogmatismo de poder. Não funciona, não é prático para os setores que afirma representar.

Deixaram que o presidente “seja cozido em seu molho”? Nos três anos furiosos que procederam a ditadura do desaparecimento de pessoas se experimentou esse tipo de cocção: depois do golpe policial conhecido como Navarrazo, que depôs em Córdoba o governador Obregón Cano (próximo à tendência), foi o próprio General que produziu essa frase (“Que se cozinhem em seu próprio molho”). Por sua vez, tacitamente, os militares operavam com essa mesma lógica, mas incluindo todo o peronismo e o país inteiro… até que o fervor lhes deu o sinal para sua entrada em cena. As direitas atuais, em condições claramente distintas, contam com essa possibilidade de deixar que se cozinhe em seu próprio molho os que, por sua vez, aplicam essa fórmula entre si.

Como consequência da renúncia para modificar uma relação de forças que se insistia ser adversa, não se logrou estabelecer uma agenda a altura daquela praça que lentamente começa a se tornar um cartão postal distante. Outra leitura econômica e social da pandemia teria possibilitado uma política que, ao menos, ressoasse com aquela vitalidade, que não cessasse em meio a disputa por orientações do descontentamento? Assim que finalizada a contagem de votos, aparece a outra agenda, começando pelo projeto opositor apresentado no Senado, intitulado Fondo nacional de cese laboral, para terminar com as indenizações aos trabalhadores demitidos. Se animaram agora a avançar com a reforma trabalhista que não conseguiram instalar enquanto governavam? Seguirá o governo insistindo com imagens de normalidade e ordenamento ante uma oposição que roubou as bandeiras da rebeldia e da irreverência? Talvez, o enlouquecimento dos significantes não seja outra coisa que o reverso imediato de um sentido saturado. Mas a batalha não é, como muitos pensam, comunicacional, nem simbólica, senão anímica, corporal, fáctica. Do contrário, ainda que remonte os números para novembro, o governo está condenado a uma sobrevivência lânguida.

De uma PASO a outras, com a ASPO [Aislamiento Social, Preventivo y Obligatorio] no meio, o risco mudou de lugar, o medo mudou de lado e a insatisfação mudou de orientação. De onde obter a força necessária para a audácia que o momento exige após o fracasso da prudência temerária? O governo pode continuar a espiral entre remendo e remendo, ou pode contar com a diversidade de atores que o fundaram, resgatar um pouco do entusiasmo original e apostar em medidas que exigem amplas convocatórias. Uma Renda Básica Universal como nova instituição que se comprove necessária assim que aplicada, uma problematização da questão monetária que quebra o status quo financeiro e bimonetário, um projeto de redistribuição de terras e de gestão de novos habitats que envolva os protagonistas, o compromisso com a revalorização das economias sociais, solidárias e populares, enfim, a democratização do comum quando o público estatal se torna insuficiente… ou estúpido. Mas, precisamente, isso não pode ser pedido apenas a um governo, a exortação nos devolve aquela praça, nos obriga a um exercício, talvez contrafactual, de encontrar novas possibilidades nesta Argentina sombria, vinte anos depois de 2001.

 

 

*O autor é ensaísta, professor (UNDAV, UNPAZ), editor (Red Editorial). Autor de El anarca. Filosofía y política en Max Stirner, Filosofía para perros perdidos (com Adrián Cangi), Papa Negra, Linchamientos. La policía que llevamos dentro (com Adrián Cangi e varios autores) y Globalización. Sacralización del mercado. Conduz o programa “Pensando la cosa” (Canal Abierto).

 

 

 

 


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