Amar é a Maré Amarildo: multidão e arte, RJ 2013

Por Barbara Szaniecki

maré

Coletivo Projetação

 

Até meados deste ano de 2013, a cidade do Rio de Janeiro oferecia o palco mais perfeito para um show da representação. Vínhamos há algum tempo pesquisando a relação entre museificação da cultura e gentrificação da cidade baseada na recente inauguração do Museu de Arte do Rio, cereja do bolo do projeto de revitalização da zona portuária. E eis que, na inauguração do MAR em março, enquanto o Prefeito Eduardo Paes, o Governador Sérgio Cabral, a Ministra da Cultura Marta Suplicy e a Presidente da República Dilma Roussef se reuniam com a família Marinho, do lado de fora movimentos por moradia e movimentos culturais gritavam “O sertão não vai virar mar”, uma referência à resistência histórica de Canudos de onde vieram aqueles que, finda a guerra no século 19, povoaram o Morro da Providência logo ali na zona portuária do Rio de Janeiro. Éramos muito poucos do lado de fora. “Tá tudo dominado?” perguntávamo-nos. A história parecia se repetir mas, inesperadamente, em pleno mês de junho, ela começou a se contorcer… Pensamos o movimento atual como fruto de uma constituição multitudinária ao longo dos governos Lula. Vemos, no movimento atual, a monstruosa expressão dessa constituição. E, dessa perspectiva, trazemos uma contribuição para pensar arte na sua dinâmica constituinte nas lutas das ruas e das redes.

 

Uma constituição multitudinária e sua monstruosa expressão

 

Recorremos então ao conceito de Multidão e também ao de monstro que se apresentam então como duas ferramentas importantes para tentar dar conta das transformações no Brasil nos últimos anos e das manifestações dos últimos dias. Nos últimos anos, ouvimos falar de classe C pra cá, classe C pra lá. Estouram os protestos e começamos a ouvir multidão pra cá, multidão pra lá. O mesmo acontece com o termo monstro. A difusão dos termos talvez indique sua pertinência com relação aos fatos. O termo multidão foi durante séculos associado a grupos não controláveis. Incontrolável, “multidão” se distinguia de “povo” e de “massas”. Antonio Negri nos apresenta o conceito por pelo menos três perspectivas distintas mas complementares: pelo viés sociológico, ele analisa a transformação de economias baseadas no trabalho disciplinar na fábrica em economias baseadas em redes sociais e tecnológicas difusas nas metrópoles e a própria forma do trabalho sempre mais predominantemente imaterial. Dessa percepção, decorria o segundo viés, que é político: novas formas produtivas demandam novas formas políticas. Se o trabalho na fábrica gerou o sindicato e os partidos dos trabalhadores, as novas associações produtivas nas metrópoles demandam novas organizações políticas. Talvez seja esse descompasso entre as atuais potentes formas de produção (novas formas de se relacionar, de colaborar, de cocriar, em suma de produzir) e velhas formas de política que gera o que se chama “crise da representação”. Em terceiro lugar, o viés ontológico: “o que é a multidão?” À diferença das classes sociais – velhas ou novas classes médias no caso do Brasil –  se definem por dados e estatísticas a priori, a multidão se constitui e se define nas lutas. A abordagem sociológica e economicista em termos de classe C é importante no sentido que reconhece a transformação econômica da sociedade brasileira com os governos Lula por meio do aumento do salário mínimo e da distribuição de renda e, portanto, do acesso ao crédito e ao consumo, mas se revela insuficiente ao não considerar que ela fomentou outros desejos: desejos de se formar e se informar, se expressar, comunicar, circular, exercer sua cidadania. Em suma, de afirmar a biopolítica como potência da vida. A estagnação e mesmo retrocesso nos campos da cultura e da comunicação no Brasil são alguns dos sintomas do acomodamento por parte de governantes com resultados de eleição e pesquisas de opinião e, ao mesmo tempo, o uso da arte, da cultura e da criatividade como biopoder. Apesar das imensas dificuldades encontradas em nossas metrópoles em termos de moradia, de transporte, de lazer e de tudo, a multidão é superprodutiva, hiperinformada, ultraconectada e cheia de opinião. Se “multidão” parece se adequar aos sujeitos que promoveram e foram promovidos junto com as transformações no Brasil dos últimos anos, “monstro” tal como o conceitua Negri se encaixa como uma luva para abordar as subjetividades atuantes nas manifestações dos últimos dias.

O processo constituinte do monstro em dois momentos não são necessariamente subsequentes. Num primeiro momento, é possível associar monstro a um “corpo sem órgãos” (Deleuze e Guattari) ou seja corpo q não tem estrutura definida e não tem funções orgânicas determinadas. É apenas uma intensidade, mas não necessariamente uma intenção. Isto não significa que ele seja um estágio anterior à multidão – uma pré-multidão – que, por sua vez, seria um estágio anterior à formação das classes sociais ou formatação dos corpos institucionais. O monstro não é um estágio pré ou pós qualquer coisa, o monstro está sempre aí, à espreita. Em um segundo momento, é possível associar monstro ao General Intellect (Marx). General Intellect é a inteligência produtiva e politizada que põe em evidência obras como fruto de processos mais coletivos que, contudo, não eliminam as singularidades presentes. O monstro é sublime, talvez, mas indica sobretudo um outro sublime. Nem belo nem feio, nem bom nem mau, nem verdadeiro nem falso, ele desconfigura nossas certezas estéticas e políticas e, nesse movimento, promove simultaneamente angústia e alegria. O monstro é a face mais politizada da multidão superprodutiva, hiperinformada, ultraconectada e cheia de opinião. E não tem nada de autoritário, muito pelo contrário, é um terreno de experimentação e de inovação – estético e político – fundamentalmente democrático. O “monstro” é a verdadeira democracia: aquela na qual formas e conteúdos, princípios e processos, meios e fins são indissociáveis. Não está tudo dominado, está tudo em aberto. O monstro é essa abertura radical.

Rio de Janeiro 2013: de Banco Imobiliário à metrópole multitudinária

Em suma, “multidão” e “monstro” indicam outras possíveis conexões entre corpo e mente, entre indivíduo e sociedade, entre fazer e poder. Como apreender essas possibilidades? Como se configura uma estética do monstro ou uma arte multitudinária e como ela indicaria novas formas sociais e políticas potentes para além das tradicionais que se mostram insuficientes? A carnavalização é visível nas manifestações: máscaras, fantasias, performances, cartazes, faixas, falas, brincadeiras e palavrões são dirigidos aos políticos e empresários. Tudo isso remete ao carnaval, mas não ao carnaval oficial aquele espetacularizado com grandes marcas e discursos de consumo, de propriedade, de verdade, e sim a carnavalização da multidão com processos micro mas bem articulados, processos de baixo pra cima,  subversão ou abertura dos poderes e saberes constituídos processos de relativização da verdade única e absoluta e constituição de outras verdades. Para além da carnavalização, também é visível uma estética de ocupação do espaço urbano. A prática de Ocupas, embora pontuais, têm proliferado. Desde o OccupyWallStreet, tivemos Ocupa Cinelândia, Ocupa Méier, Ocupa dos Povos, a Cúpula dos Povos e a Copula dos Povos. Agora o fenômeno retoma com OcupaCabral, OcupaPaes, OcupaCâmara. E é preciso lembrar de outras ocupações. O Rio tem várias ocupações de prédios públicos abandonados. E o Rio de Janeiro tem também um tipo de ocupações históricas que são seus assentamentos informais ou favelas muitas vezes tidas como monstruosas em sentido pejorativo. Desqualificadas, elas sofrem ameaça de remoção. Favelas e ocupações existem por falta de opção mas também por afirmação dessa opção: afirmação de outros modo de vida, de estar na cidade, de uma outra cidade. Pensamos em abertura radical com base na possível interrupção das remoção em curso, algumas delas ainda por confirmar: Vila Autódromo, Indiana, Providência… Horto. A expressão dessa possibilidade se deu recentemente quando movimentos sociais realizaram uma ocupação cultural em frente à residência do Prefeito do Rio: além das faixas e cartazes, projetaram SMH 171 no muro exatamente como a Secretaria Municipal de Habitação vem marcando as casas a serem derrubadas[1] nas comunidades cariocas. Carnavalização e ocupação da multidão.

 

Amar é a Maré Amarildo: multidão conectada e comum.

 

Essa subversão carnavalizada do Banco Imobiliário em metrópole multitudinária foi possível por meio de uma forte conexão que já vinha há tempos acontecendo na cidade mas que ganhou intensidade no movimento. Uma conexão que, inspirada na imagem do Coletivo Projetação chamada Amar é a Maré Amarildo, provocou uma infinidade de outras expressões. Uma maré de formas expressivas que atravessou a polis real e virtual manifestando sua dor pela chacina de jovens na Maré até o desaparecimento de Amarildo na Rocinha. Sabemos que a violência que reprime no asfalto não se equivale à violência que atinge o morro[2], mas da onda de violência nasceu uma maré de amor: a Maré Amarildo é uma outra maneira de dizer aos poderes que governam nossa cidade que somos todos Amarildos. Uma conexão biopolítica em diversas linguagens: projeções, cartazes, campanhas, quadrinhos humor, poesia concreta, intervenção urbana, performance, etc. Estaria a multidão fazendo arte?

 

Voltamos à cena original – aquela que deu origem ao nosso artigo: o MAR, Museu de Arte do Rio. Menos de 6 meses depois de sua inauguração, manifestantes foram até o museu na expectativa de lá encontrar Paes e Cabral mas não os encontraram. O clima entre manifestantes e a polícia era de tensão. Com um megafone na mão, o curador do museu Paulo Herkenhoff chegou a oferecer mediação e a se agarrar a um manifestante índio para que não fosse levado preso pela polícia[3]. Segundo um relato no facebook, parece que em certo momento Herkenhoff disse aos manifestantes que suas máscaras e seus atos lhe davam medo. “Mas por que? isto é uma performance!”, disseram eles. Herkenhoff não respondeu mas sorriu. Ficamos sem saber o que ele pensa da estética das manifestações: se concorda que é performance ou, mais em geral, arte; se seus autores são vândalos ou V-Artistas. Dificilemente saberemos. Num texto chamado “Metamorfoses: arte e trabalho imaterial”[4], Negri traça pontes entre as formas de trabalho e as formas de arte na história visto que atividade artística sempre existiu e variou dentro de modos específicos de produção. Ora o que caracterizaria, na contemporaneidade o trabalho e a arte biopolítica, afirmação da potência da vida? Negri considera que o trabalho biopolítico é um happening multitudinário que se abre ao comum. Mais do que “arte” no sentido que o campo legitimado atribui ao termo com suas categorias, o que Negri parece procurar apreender é o “artístico” do trabalho contemporâneo. Mas não deixa de refletir sobre um estilo artístico atravessado pela ética. Este exigiria, numa primeira etapa, um mergulho no movimento infinito dos corpos e dos eventos que nos circundam; numa segunda etapa, reflexiva, a imersão anterior da singularidade na multiplicidade do enxame encontra o amor – força que se forma no encontro do conatus e da cupiditas. E finalmente, numa terceira etapa, sempre tendo em vista a homologia entre a natureza operativa do imaterial (cognitivo, cultural, criativo, afetivo) e a formação dos enxames, o comum que se desenvolveu em formas artísticas deve agora ser encarnado numa decisão coletiva. O sublime aqui, sempre segundo Negri, é o agir ético na constituição de um telos multitudinário. A Maré Amarildo que se configurou nos últimos meses numa multiplicidade de linguagens nas redes e nas ruas é o “artístico” do trabalho biopolítico na metrópole carioca que, diante dos paradoxos e perigos do momento, deve dar sentido ético às nossas decisões coletivas e à nossa vida comum. Essa arte da multidão, para os dias por vir, consistirá em manter esta conexão ativa, ligada, intensa.

 


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