Juventude moderna na Nigéria

Laura Burocco[1]
Tradução de Fabíola Ballarati Chechetto[2]

 

#EndsSARS Generation. O movimento de protesto nigeriano liderado pelo movimento feminista que explodiu no mês passado contra as violências do odiado Esquadrão Especial da polícia nigeriana exprime uma questão que parece incorporar a voz de todos os jovens africanos: o direito à própria modernidade.

Lagos, 17 de outubro de 2020, 10º dia de mobilização contra a brutalidade da polícia

O mantra segundo o qual até 2050 a população africana dobrará de tamanho e dois terços desse aumento serão absorvidos pelas áreas urbanas, levando as cidades africanas a receberem mais de 950 milhões de pessoas, acaba por obscurecer os efeitos desse crescimento. Se a globalização e a financeirização do mercado transformaram radicalmente o mercado de trabalho no Hemisfério Norte, o mesmo também está acontecendo nas megalópoles africanas produzindo respostas por parte da sociedade. Especialmente os jovens, que representam não só a maior parte dessa população, mas também a força de trabalho que lhe dá impulso sendo absorvida por essa mudança.

É assim que podem ser interpretadas as manifestações que no início do mês de outubro, durante duas semanas, ocuparam as principais cidades nigerianas, ganhando destaque também em âmbito internacional depois dos violentos confrontos de Lekki Tollgate, em Lagos. Se o estopim das manifestações foi a denúncia contra a violência perpetuada pelo Esquadrão Especial Antirroubo, SARS (Special Anti-Robbery Squad) que desde 2017 já foi abolido e reativado pelo governo quatro vezes, os cartazes expostos nas ruas, como sugere Sakiru Adebayo, nos convidam a prestar atenção a outras mensagens implícitas.

Lagos, 22 de outubro de 2020, 15º dia de protestos (Ap)

A violência da SARS tem como vítimas preferenciais homens jovens acusados de serem “golpistas online”, simplesmente por possuírem um laptop ou um smartphone. Frequentemente, eles são detidos pela polícia sem nenhuma razão, a não ser a de ter que pagar as fianças arbitrárias e exorbitantes para reconquistar a própria liberdade. Ao contrário, enfrenta-se um futuro incerto, decidido por um sistema judicial penal que entre 2011 e 2015 manteve nas prisões 72% dos detidos, sem o devido processo.

É um sistema comprovado, que funciona interligado. Por vezes, os agentes sequestram pessoas com base em padrões de aparência (roupas de marca, acessórios ou carros) e um suposto pertencimento a uma classe social rica. Os sequestrados são forçados a sacar o dinheiro em troca de liberdade, não raramente sob a ameaça de armas. É uma tática de extorsão que há tempos alimenta uma grande milícia.

No ano passado, um engenheiro de computação teve que pagar 1.300 dólares e a sua história foi retuitada mais de 11.000 vezes, o que enfureceu os líderes da indústria tecnológica nigeriana, os quais criaram uma campanha, arrecadando em um único dia o valor de 30 mil dólares destinados à ações organizadas junto a grupos da sociedade civil e ativistas engajados há anos na luta contra a violência e a extorsão da polícia, além de financiar processos legais.

Aquilo que preocupa os CEOs das principais startups nigerianas, assim como os dirigentes dos diversos setores das novas economias, é a fuga dos cérebros (depois daquela fuga induzida pelas políticas dos ajustes estruturais do Fundo Monetário e do Banco Mundial nos anos 1960/1980) entre os jovens Nigerian techies, com o governo que “continua a fechar os olhos ante o roubo e a intimidação psicológica dos jovens talentos tecnológicos”.

POR ISSO, O MOVIMENTO #EndSARS, além de unir-se ao movimento global antirracista contra a violência da polícia, que tem uma profunda perversão intrínseca, sendo, com frequência violência de negros (polícia mal paga e mal treinada) contra negros (vítimas culpadas por serem pobres e negros) expressa uma questão que parece incorporar a voz de toda uma fatia de jovens do continente: o direito à própria modernidade.

Lagos, 16 de outubro de 2020 (Ap)

Essa questão é muito discutida no meio acadêmico, principalmente neste momento em que o debate decolonial está presente em quase todos os lugares, do reconhecimento de múltiplas modernidades, em contraste com aquela universal, como todo o sistema de conhecimento, imposto pelo Iluminismo europeu. Eventos como os das últimas semanas na Nigéria permitem levar a questão da teoria à prática.

OS JOVENS NIGERIANOS, que o Presidente Buhari em 2018 definia como “preguiçosos que não querem fazer nada”, estão na linha de frente da revolução #EndSARS, a ponto de serem definidos como a EndSARS generation não apenas enquanto alvos preferidos do SARS, mas porque representam a resistência a um sistema político autocrático disfarçado de democracia liberal.

O protesto por parte de uma geração acusada de viver grudada aos smartphone e de ser viciada em internet e na cultura pop, foi um choque inesperado para o governo.

SEGUNDO AS TESTEMUNHAS em Lekki Tollgate: “o massacre dos manifestantes foi bem orquestrado, as câmeras de vigilância foram retiradas e as lâmpadas das ruas desligadas. Os manifestantes, com as bandeiras nigerianas, cantavam o hino nacional. Mesmo assim os soldados atiraram neles”. Cenas de um Estado que utiliza a polícia contra os cidadãos, como instrumento de violência e não de defesa.

Um entrevistado contou que “os jovens na Nigéria conseguem criar vagas de trabalho onde não existem, através do empreendedorismo, da criatividade e das próprias iniciativas. Eles fazem tudo sozinhos, não existem infraestruturas, nenhum seguro de saúde, zero de investimento em educação. O protesto pacífico durou cerca de 12 dias e o governo não esperava por isso, pois, geralmente, quando terminam as reservas de comida ou de dinheiro, as pessoas voltam para casa e aceitam as coisas como estão. Dessa vez, muitas pessoas forneceram comida, bebidas, serviços sanitários e segurança, enquanto o governo infiltrava vândalos para descreditar os protestos. Mas não funcionou, assim enviaram os militares para matar os jovens inocentes e desarmados”.

Algumas igrejas próximas, também ofereceram solidariedade e refúgio a alguns manifestantes durante as noites dos confrontos, assim como várias pessoas comuns os ajudaram com mantimentos, ambulâncias e aparelhagem de som. Foram recebidas muitas mensagens do mundo inteiro prestando solidariedade ao movimento, por parte de celebridades nigerianas como Folarin Falana e Douglas Jack Agu, da diáspora como John Boyega, de estrelas internacionais como Mesut Özil, Kanye West, Cardi B, Beyoncé, Rihanna, Odion Ighalo e muitos outros.

O PROTESTO FOI COORDENADO por um coletivo feminista: Feminist Coalition. “A organização (toda composta por mulheres) fez um trabalho extraordinário. Em duas semanas arrecadou mais de 380.000 dólares em doações, em dinheiro, para coordenar a própria logística. Distribuíram fundos para os vários locais do protesto pagando fiança pelos manifestantes presos, as despesas médicas para os feridos, dando comida e segurança particular para proteger os manifestantes.  Disponibilizaram também um número telefônico para atender às emergências. Além disso, a organização driblou os ataques do governo à principal plataforma de pagamento que estava sendo usada pelo movimento, passando a receber as doações em bitcoins”.

Após semanas de intensa mobilização, agora é necessário repensar as estratégias, considerando também que o toque de recolher em Lagos seguiu adiante das 18 às 8, ou seja, um horário invertido em relação aos dias dos protestos, quando funcionava das 6 da manhã até às 20 horas. “Querem paralisar a capacidade de protestar: o toque de recolher significa tristemente que ‘qualquer coisa que acontecer contigo, a culpa é sua’. Portanto, para contornar o sistema é preciso se reestruturar. É aqui que entram em jogo os nigerianos que vivem no exterior. Eles podem exercer pressões sobre a comunidade internacional e sobre os diplomatas nigerianos no exterior”. Assim, os protestos continuam, mas online e no exterior, com manifestações acontecendo em Londres, Berlim, Nova York, Toronto e outras cidades.

O trabalho da comissão de inquérito sobre os fatos trágicos de Lekki também continua. “Tudo aquilo que vem do governo é uma farsa em potencial. A única maneira de saber o que será realmente é esperar o resultado e as medidas que serão adotadas. Então, tecnicamente, por enquanto, é um passo certo porque era uma das nossas solicitações, mas veremos se não se trata de mais uma das costumeiras movimentações enganosas do governo”. A documentação registrada em vídeo pelo Digital Forensic Research Lab, que testemunha os assassinatos dos manifestantes, poderá ser útil para a investigação, apesar do fato de o exército ter classificado os relatórios e os vídeos como falsos. De acordo com a Anistia Internacional, uma pesquisa de campo revela que pelo menos 10 pessoas foram mortas quando os oficiais militares nigerianos armados abriram fogo.

Como apontado por Adebayo, “os cartazes levantam muitas perguntas: por que ser moderno está sendo criminalizado na Nigéria do século XXI? Por que é tão importante para os jovens nigerianos reivindicarem o próprio direito de serem modernos? Ao que e a quem se refere a modernidade? Essas perguntas podem parecer marginais face à violência vivida diariamente pelos jovens nigerianos, mas são, a longo prazo, importantes”.

APESAR DAS VIOLÊNCIAS, os protestos #EndSARS poderiam marcar uma virada. De acordo com outro entrevistado, “ao menos dessa vez na história recente da Nigéria, os jovens deixaram de lado sua tribo, religião e etnia para exigirem mudanças por meio de uma só voz. Não se trata de negar nossa identidade e a história, mas devemos saber quando ignorar essas divisões e como trabalhar juntos”.

Atualmente 60% dos 200 milhões de nigerianos têm menos de 25 anos. A autogestão deste protesto e suas repercussões demonstraram que os jovens estão, agora mais do que nunca, conscientes do próprio poder de mudança.

* Texto originalmente publicado no site do jornal Il Manifesto, em 12 de novembro de 2020. Disponivel em : https://ilmanifesto.it/gioventu-moderna-in-nigeria/

[1] Laura Burocco é pesquisadora em políticas culturais urbanas e desenvolvimento.

[2] Doutoranda em Comunicação e Semiótica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.


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