A rebelião e o império

Por Rodrigo Karmy, em El Desconcierto, 5/1/18 | Trad. UniNômade

Novamente, fomos tomados de surpresa. As ruas de Mashad (capital “espiritual” do xiismo duodecimano) e de outras cidades se abarrotaram de protestos, multiplicando-se por quase todo o país. Foram pelo menos 23 pessoas mortas. O intelectual iraniano Hamid Dabasgi não deixou de sublinhar que, para desacreditá-los, tudo não teria passado de um esforço orquestrado de poderes mancomunados que, supostamente, travam uma luta sem trégua. Por um lado, os EUA com o tuíter de Trump e a exigência da embaixadora norte-americana na ONU, Nikki Halley, de convocar o Conselho de Segurança para declarar apoio às revoltas contra o regime. Por outro lado, Ali Khamenei, o líder supremo, braço teológico-político (comandante em chefe das forças armadas) do regime, que não titubeou em chamar os manifestantes de “inimigos” do Irã, para desacreditá-los no mesmo momento de sua aparição.

Por um lado, os Estados Unidos, com o discurso de tentar levar a democracia ao Irã e assim defender os que protestam, buscaram justificar uma intervenção no país. Uma questão já antiga,  pois o lobby sionista – que praticamente dirige a política norte-americana no Oriente Médio – e os próprios círculos trumpistas da política externa (Mattis, Tillerson, Mac Master) pressionam para que a intervenção aconteça. Por outro lado, o regime iraniano, com o discurso de ser atacado pelo imperialismo norte-americano e pelas agências israelenses e sauditas, buscaram justificar a repressão dos protestos, ao considerar quem delas participa como verdadeiros lacaios do imperialismo e, portanto, inimigos “abertos” do estado. Os imperialismo poderá estar assim na ordem do dia, mas o Império, na precisão de suas operações, funciona a partir dos dois polos que aparecem como supostamente inimigos. Ambos são o Império e passam recibo de uma estranha cumplicidade em parar os protestos. Por isso, nem o capitalismo liberal (o que sobra dele), nem o islã político em sua versão estatal-nacional (seja sunita ou xiita), podem constituir alternativas diante do niilismo imperial, pois constituem a sua própria lógica, o seu obverso especular.

As manifestações populares sobrevivem como uma sombra nos anais da história. Devemos lembrar que a revolução iraniana não foi realizada pela pessoa do Aiatolá Khomeini, mas por mobilizações populares que, ao longo dos anos, desafiaram o regime do Xá e terminaram por descolonizar um país inteiro. Em 2009, após a fraudulenta reeleição de Ahmanideyad, emergiu uma série de protestos, igualmente intensos como os que estamos presenciando agora, que reclamavam por direitos civis. Na época, se intitulou “movimento verde”. Transversal a várias organizações sociais, tal movimento congeminava desde estudantes universitários até trabalhadores de diversas categorias que, no plano de sua imaginação política, resgatavam certo espírito da Revolução de 1979. A mesma que tinha ficado truncada quando do paradoxal triunfo “clerical”, que logrou capturá-la para si, personificando-a na figura do Aiatolá Khomeini (atualmente na figura de Khamenei, seu sucessor).

Talvez, aqui se abra um tema crucial: a Revolução de 1979 foi na verdade dupla. Por um lado, triunfou ao preço de apagar a fonte popular de que se nutria, descolonizou o estado iraniano em relação ao imperialismo estadunidense, mas terminou por colonizar os iranianos por meio de um islã da resignação, que logo viria a se converter na ideologia de estado da nova oligarquia governante. Por outro lado, perdeu na medida em que a fonte democratizadora — igualmente islâmica, mas não só, pois envolvia outros discursos políticos — terminou sendo reassimilada, ainda que não totalmente destruída, dentro do novo regime. Essa segunda força emergiu em 2009, em meio a uma eleição fraudulenta que reelegeu Ahmanideyad para o segundo mandato, e que volta a surgir hoje, quando do anúncio feito por Rohani que, contra as suas promessas eleitorais, declarou o aprofundamento do ajuste econômico e a manutenção dos altos preços da economia.

À luz do que foi dito, podemos sublinhar duas diferenças entre o movimento verde de 2009 e a atual onda de protestos, em 2017-18. A primeira é que o movimento verde havia surgido num contexto de fraude eleitoral, durante a reeleição de Ahmanideyad, e sob o efeito de sanções econômicas impostas pela dita “comunidade internacional”, mas aquilo acontecera numa região que estava relativamente estável (em particular, a Síria). Em contrapartida, os protestos atuais surgiram no meio da explicitação das condições econômicas. Quando Rohani fez o anúncio das medidas, o estalo da crise se tornou um grande rumor. Além disso, os protestos se dão num momento convulsivo na região, por efeito das revoltas árabes de 2011 e, no caso da Síria, de seu desdobramento em guerra civil. O Irã converteu o regime sírio em protetorado próprio e, graças à aliança com a Rússia, se tornou ele mesmo o pivô fundamental do governo de Al Assad.

Em 2013, o novo presidente triunfou nas eleições com a promessa de trazer grandes investimentos para o Irã, mas a conjuntura geopolítica regional e global, assim como as decisões internas ao aparelho estatal iraniano, o fizeram retroceder, num giro de 180 graus, na direção da austeridade. A promessa de Rohani havia implicado negociar o acordo nuclear com os Estados Unidos do governo Obama (em síntese: autorização para a inspeção “internacional” do programa em troca da abertura de capital iraniano ao fluxo de capitais transnacionais) e cuidar do governo iraquiano, depois da devastação perpetrada pelas forças armadas americanas contra o país vizinho, desde a Guerra do Golfo de 1991 até a sua consolidação na invasão de 2003. Agora, contudo, os protestos populares surgem quando se fazem perceber os resultados dessas manobras de governo, ou seja, a piora dos problemas e não a sua solução. E assim, a sociedade iraniana parece viver num labirinto sem alternativa política possível: seja votando pela ala conservadora, seja pela reformista, o que fica parecendo é que a estagnação econômica e a paralisia política prevaleceram.

Que os protestos sejam sintoma do labirinto é uma questão chave, mas ante a qual é preciso ser prudente. Os dois polos imperiais aproveitaram politicamente os protestos, expondo a crise de legitimidade do regime. Não somente de um acessório, mais do que isso, como viu o politólogo Ahmad Sadry, se trata mesmo da própria estrutura do estado iraniano. Uma estrutura dupla: a vertical e hierárquica em que se apoia a ordem dos religiosos (clérigos), e a horizontal e parlamentar em que se apoiam algumas instituições ao menos formalmente democráticas. Estrutura que mostrou uma grande rigidez, não conseguindo acolher certas transformações democratizadoras que, no que tange à ampliação de direitos civis, se encontram defasadas não apenas em relação às demandas do movimento verde de 2009, como também da própria Revolução de 1979.

Não sabemos ainda aonde vão dar os protestos, se vão articular-se em novas organizações, se aprofundarão as suas intensidades, se as potências regionais (Israel, Arábia Saudita) e globais (Estados Unidos), ou o próprio regime iraniano, serão capazes de neutralizá-las, mediante a aplicação da clivagem amigo-inimigo que os mesmos protestos – assim como o movimento verde de 2009 ou as revoltas árabes de 2011 – conseguiram colocar em questão. De qualquer jeito, sabemos que outra Revolução, a de 1979, pulsa desde o coração do Irã, outra Revolução que não tem tempo nem sequer para uma democracia imposta à imagem e semelhança de uma potência imperial, e nem para uma retórica anti-imperialista declarada por religiosos corruptos.

Onde habita tal protesto? No século 12, o filósofo persa Sihabbodin Yahya Sohrawardi escreveu: “Todos nós viemos de um país do ‘não onde'”. Justamente, os protestos não habitam cartografia alguma, posto que esta última é traçada pelos imperialistas. O “país do não onde” é um lugar sem espaço, um local sem localização, mas ainda assim é um campo e existe. Talvez, seja essa a morada da outra Revolução de 1979, a que voltou a irromper no movimento verde de 2009 e que, ao que parece — somente parece — voltou a fazê-lo nesses dias.